O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado
[33] Origens do Folclore Brasileiro,
Durante séculos, por mais incrível que pareça, esse duro e ignóbil sistema escravocrata desfrutou a fama, sobretudo no estrangeiro, de ser uma instituição benigna, de caráter humano. Isto graças ao colonialismo português que permanentemente adotou formas de comportamento muito específicas para disfarçar sua fundamental violência e crueldade. Um dos recursos utilizados nesse sentido foram a mentira e a dissimulação. A consciência do mundo guarda bem viva a lembrança do colonialista Portugal encobrindo sua natureza racista e espoliadora através de estratagemas como a designação de “Províncias de Ultramar” para Angola, Moçambique e Guiné-Bissau; como as leis do chamado indigenato, proscrevendo, entre outras indignidades, a assimilação das populações africanas à cultura e identidade portuguesas. Essa rabulice colonizadora pretendia imprimir o selo de legalidade, benevolência e generosidade civilizadora à sua atuação no território africano. Porém, todas essas e outras dissimulações oficiais não conseguiram encobrir a realidade, que consistia no saque de terras e povos, e na repressão e negação de suas culturas – ambos sustentados e realizados, não pelo artifício jurídico, mas sim pela força militar imperialista.
Semelhantes distorções da realidade são comuns no “mundo que o português criou”, sempre na tentativa de erigir uma fachada mascarando a ideologia imperialista. Não são fatos apenas do passado. Nos dias de hoje, no Brasil, herdeiro das tradições escravagistas de Portugal, pratica-se impunemente falsificações dos fatos históricos. Dante de Laytano, por exemplo, em publicação oficial do Ministério da Educação e Cultura (Campanha de Defesa do Folclore), afirma que
A entrada do negro no Brasil foi simultânea com a descoberta do país. Ele conhecia a escravidão, cultivava-a, e praticava-a como um sistema político. A escravidão era praticada na própria África. Os próprios africanos transplantaram-na para a
América. [33] (Grifos meus.)
Aqui temos, reunidos à agressão, o desrespeito humano e histórico, como um evento normal, já que se pratica tudo isto com frequência e extensamente. Dir-se-ia que a força da repetição mutilou a capacidade de percepção e compreensão de certas pessoas. Consideremos outra amostra, o crítico Clarival do Prado Valladares, ex-membro do Conselho Federal de Cultura. Foi ele membro do júri de premiação do Primeiro Festival Mundial de Artes Negras, em Dacar, 1966, e atualmente é o coordenador-geral da representação governamental brasileira ao Segundo Festival Mundial de Artes e Cultura Negras e Africanas, em Lagos, realizado entre 15 de janeiro e 12 de fevereiro de 1977. Após retomar ao Brasil do festival de Dacar, em 1966, Valladares publicou o seguinte julgamento em artigo sintomático intitulado A Defasagem Africana ou Crônica do Primeiro Festival de Artes Negras: “Os brancos não caçavam os negros na África, mas os compravam pacificamente dos tiranos negros.” Prossegue afirmando que “Assim não é surpresa que a melhor compreensão e análise da África não é encontrada entre os africanos”, porque “no que diz respeito à dimensão histórica, parece existir um certo sentimento de inferioridade que é africano. Por isso não é possível apresentar um texto histórico correndo paralelo àqueles dos