O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado

Capítulo 4

recomendações, as sugestões e a denúncia que eu havia feito através de várias intervenções nos debates do colóquio.

Foi também nesse grupo que o professor Fernando A.A. Mourão,

delegado oficial do Brasil, apresentou seu trabalho “The Cultural Presence of África and the Dynamics of the Sociocultural Process in Brazil” (A Presença Cultural da África e a Dinâmica do Processo

Sociocultural no Brasil) [4], o qual comentarei mais tarde no texto deste volume. O relatório do Grupo IV, preparado pelo relator, dr. Aleme Eshete, da Etiópia, contém o seguinte comentário a propósito dessa contribuição do Brasil:

 

O orador brasileiro disse que a cultura africana tanto tem penetrado na sociedade brasileira que hoje é difícil compreender a cultura brasileira sem compreender a cultura africana. Os participantes souberam pelo mesmo autor que o Brasil era uma sociedade multirracial e multicultural. Entretanto, esta afirmação foi fortemente desafiada por outro professor brasileiro, Nascimento, o qual disse que no Brasil a cor negra era considerada inferior e que os

brasileiros com sangue africano sofriam discriminação. [5]

 

Entre as recomendações aprovadas por esse grupo de trabalho e

inscritas no mesmo relatório, havia a seguinte:

 

5. Contribuição Cultural Africana no Brasil, Suriname e Índia Dravidiana:

 

Os membros deste colóquio recomendam que em vista do forte protesto do

professor Nascimento, uma investigação seja feita sobre as condições do negro no Brasil, para se verificar se há ou não discriminação contra os negros e a cultura africana.

Que outras pesquisas sejam realizadas sobre a posição da assimilação e da

contribuição dos africanos no Brasil. [6]

 

No plenário do colóquio do dia 29 de janeiro, discutiram-se o

relatório e as recomendações do Grupo IV. Tal sessão constituiu um evento deveras histórico nos anais da imagem internacional do Brasil.

Devo primeiramente mencionar que os delegados oficiais do Brasil –

cerca de cinco ou seis – durante o decorrer de todas as sessões plenárias do colóquio, nem por uma única vez se dignaram a abrir a boca para articular qualquer comentário, sugestão, crítica ou emenda ao que se discutia. Eles optaram pela absoluta e total omissão: até mesmo quando a discussão afetava diretamente o Brasil. Em uma das

sessões plenárias, propus que o português fosse considerado uma das línguas oficiais em todos os futuros festivais, colóquios ou qualquer outro encontro do mundo negro-africano. Esta proposta se baseava no fato de existir enorme população africana, no continente e fora dele, usando a língua portuguesa: não apenas os sessenta ou mais milhões de descendentes africanos no Brasil, como também os africanos de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Parece óbvio que tão grande parcela da família africana não deveria ser obrigada a se submeter não só à imposição colonial de uma língua – a portuguesa – mas por acréscimo, ser reconhecida por seus irmãos africanos através do uso compulsório do francês e do inglês exigido, por exemplo, pelos dois festivais, como os únicos idiomas permitidos.

Esta proposta foi aprovada na sessão plenária do dia 29 de janeiro.

Aprovação esta obtida sem nenhum apoio da delegação oficial do Brasil, a despeito da consequência imediata que tal medida teria sobre a população negra do país. A proposta teve, não obstante, o suporte e a defesa do dr. Maulana Ron Karenga, ilustre combatente da luta libertária dos negros dos Estados Unidos.

A recomendação n. 5, do Grupo IV, citada anteriormente, foi o único

e singular item entre todos discutidos nas sessões plenárias, que mereceu atenção e resposta dos delegados oficiais brasileiros. A discussão deste tópico foi iniciada pelo dr. George Alakija, que leu umas poucas palavras dizendo mais ou menos o seguinte:

 

Eu sou representante permanente do governo brasileiro junto ao Festac. […] Eu sou meio brasileiro e meio nigeriano. A proposta em discussão é de natureza política. O professor Nascimento não é um delegado oficial neste colóquio, por isso não pode fazer nenhuma proposta. […] Se esta recomendação, de sentido político, for aprovada, ela criará complicações e embaraços nas relações entre o Brasil e a Nigéria.

 

A ameaça implícita nas palavras do dr. Alakija provocou intensa

expectativa no plenário. Foi quando o coronel Ali, presidente do colóquio, proferiu calmamente e com dignidade exemplar a fulminante resposta: “Para a Nigéria, não haverá nenhuma dificuldade e nenhum embaraço.”

Em verdade, estava óbvio para o plenário a falta de fundamento na

tentativa do delegado oficial brasileiro de afogar a recomendação sob a

alegação de que o membro não oficial não tinha autoridade para fazê-la. O autor da recomendação havia sido um delegado oficial africano (de Zâmbia) e fora aprovada por todo o Grupo IV.

Não obstante, o debate prosseguiu no seu curso. Vários delegados se

manifestaram antes que a palavra me fosse concedida. Quando enfim pude falar, lamentei, de início, o fato de que em lugar de argumento contrariando minhas afirmações, o delegado oficial do governo brasileiro tivesse simplesmente focalizado, aliás impertinentemente, questão de natureza burocrática no conhecido tom brasileiro de repressão policial. O comportamento do dr. Alakija – como também idêntico comportamento do professor Mourão, no Grupo IV, – exibiram para quem ainda necessitasse de “provas” objetivas do caráter de nossa “democracia racial”, o respectivo autêntico e grosseiro striptease. Pois diante da assembleia de todo o mundo negro africano, através desses delegados, o Brasil reiterava uma vez mais sua habitual insensibilidade à voz de um descendente africano, tentando silenciá-la. Ainda mais chocante: o Brasil não trepidou em publicamente confirmar sua arrogância face aos países soberanos da África, ameaçando abertamente a Nigéria em seu próprio solo! Voltando à recomendação em debate: não era eu o seu proponente e a considerava desnecessária por já existirem várias pesquisas a respeito, inclusive trabalhos patrocinados pela Unesco e feitos por Florestan Fernandes, Roger Bastide e vários outros. Na ocasião, ofereci ao presidente do colóquio uma lista, feita de memória, com cerca de trinta indicações entre autores e títulos de obras, todas revelando de uma forma ou de outra o racismo subjacente na sociedade brasileira; entre os nomes incluídos, contavam-se os do ganaiense Anani Dzidzienyo, dos norte-americanos Thomas E. Skidmore, Ângela Gilliam, Doris Turner, Carl Degler, da cubana Flora Mancuse Edwards, dos brasileiros Guerreiro Ramos, Álvaro Bomílcar, A. Silva Mello, Thales de Azevedo, Sebastião Rodrigues Alves, Arthur Ramos, Octávio Ianni, Vioti da Costa, Fernando Henrique Cardoso, Romeu Crusoé etc.

Com este fundamento, e como substitutivo à recomendação em

apreço, propus o seguinte:

 

5. O Colóquio recomenda:

que o governo brasileiro, no espírito de preservar e ampliar a consciência histórica dos descendentes africanos da população do Brasil, tome as seguintes