O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado

Capítulo 27

Esta etiqueta dita fortemente contra qualquer discussão, especialmente em forma controvertida, da situação racial, e assim ela efetivamente ajuda perpetuar o modelo de relações que tem existido desde os dias da escravidão. Tradicionalmente se espera que os negros sejam gratos aos brancos por generosidades que lhes foram concedidas, e que continuem dependendo dos brancos que agem como patronos e benfeitores deles; também se espera que os negros continuem aceitando os brancos como porta-vozes oficiais da nação, explicando aos estrangeiros a natureza “única” das relações raciais brasileiras. A etiqueta decreta também que os sofismas oficiais usados para descrever a situação brasileira como uma “democracia racial” sejam aceitos sem discussão, enquanto a análise crítica e a discussão aberta deste delicado

assunto são fortemente desencorajadas. [27]

 

Se omitíssemos certas palavras ou expressões como “relações raciais brasileiras” e “democracia racial”, seria difícil distinguir, no retrato social de Dzidzienyo, se ele se refere ao Brasil ou ao sul dos Estados Unidos, tal a semelhança de características entre ambos.

Essa análise, no que se refere ao Brasil, tem sua confirmação em Thales de Azevedo: “a democracia [racial] é subtraída à discussão científica como ideologia e racionalização que é de uma realidade possivelmente ilusória”. No mesmo livro desse antropólogo encontramos mais tarde sua conclusão:

“a pretendida democracia racial realmente é uma ficção ideológica” [28].

Afortunadamente, alguns estudiosos brasileiros e estrangeiros vêm, por amor à verdade e à justiça social, se armando da necessária audácia e temeridade e para desafiar o oculto, realizando a exegese do nosso processo étnico-racial. Podemos encontrar exemplos dessa coragem intelectual tanto no passado, com Luís Gama, José do Patrocínio, os irmãos Rebouças, e Álvaro Bomílcar, como atualmente, com Guerreiro Ramos, Florestan Fernandes, Roger Bastide, Anani Dzidzienyo e Thomas E. Skidmore. Estes e uns poucos mais trouxeram à luz da análise científica e da crítica o esotérico organismo dessa “democracia racial” tão compulsória quanto dogmática. Entretanto, a investigação dos cientistas e intelectuais citados, enquanto não possuindo a virtude de transformar as estruturas da sociedade que dão suporte às relações de raça, permanecerá como importante contribuição à equação e solução dessa grave situação patológica. Desde os primeiros tempos da vida nacional aos dias de hoje, o privilégio de decidir tem ficado unicamente nas mãos dos propagadores e beneficiários do mito da “democracia racial”. Uma “democracia” cuja artificiosidade se expõe para quem quiser ver; só um dos elementos que a constituiriam detém todo o poder em todos os níveis político-econômico-sociais: o branco. Os brancos controlam os meios de disseminar as informações; o aparelho educacional; eles formulam os conceitos, as armas e os valores do país. Não está patente que neste exclusivismo se radica o domínio quase absoluto desfrutado por algo tão falso quanto essa espécie de “democracia racial?”