O Genocídio do Negro Brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado
Prefácio à Edição Nigeriana - Por Wole Soyinka
PREFÁCIO À EDIÇÃO NIGERIANA
Wole Soyinka [3]
O refrão favorito de um meu colega é: nós, os africanos, somos uma raça descuidada. Este suspiro eloquente me ocorreu durante vários trechos de “Racial Democracy” in Brazil, de Nascimento. O qual é, talvez, o mais forte argumento a favor de uma constante e continuada reavaliação da posição do negro em qualquer situação social na qual ele se encontre – em seu próprio solo, governado por seu próprio povo, ou transplantado para outras terras, e entre outras raças. De que forma, por exemplo, a não ser como uma descuidada generosidade mental fronteiriça à autonegação de si mesmo, podemos descrever a aceitação, durante o Festac’77, de um delegado das afro-Américas que, a propósito do Primeiro Festival Mundial de Artes e Culturas Negras e Africanas, em Dacar, em 1966, declarou: “no que se refere à dimensão histórica, parece que existe um certo sentimento de inferioridade que é africano. Assim não é possível apresentar um texto histórico correndo paralelo àquele dos países ocidentais”?
Porém, isto é o que os organizadores do Festac fizeram. Não só admitiram o autor daquela afirmação, um branco, como um delegado oficial do Brasil, mas ainda excluíram a participação do professor Abdias Nascimento, um negro que vem persistente e apaixonadamente propondo e demonstrando uma contraopinião a respeito do negro, sua criatividade e sua história.
E este fato, um só entre um milhão de exemplos análogos, fornece seu próprio suporte para a tese justificativa dos argumentos de Nascimento, isto é, que existe uma censura que vai de sutil a aberta, na discussão da anomalia racial que é o Brasil; que a casuística que reforça essa censura é a causa e a escusa da inatividade numa situação que requer ação corretora; ainda mais, que esse processo encoraja e perpetua a anomalia, assim tornando possível, por exemplo, para uma nação africana, numa reunião negro-africana, aceitar como porta-voz de povos negros uma antipática, até mesmo hostil, testemunha da história do negro; e permitir a tal estrangeiro participar em deliberações que crucialmente afetam a autodefinição do negro e o planejamento do seu futuro.
Conforme Nascimento declara em sua introdução, ele não está “interessado em exercer qualquer tipo de ginástica acadêmica, imparcial e descomprometida”. O ensaio que segue está, de qualquer maneira, apoiado em selecionada referência cujo propósito central é prover um background da formulação intelectual do Brasil branco para explicar uma realidade negra atual que ele estabelece como sua preocupação principal e urgente. Naturalmente, haverá desacordo sobre a análise que Nascimento faz da realidade racial brasileira, tanto historicamente quanto em suas operações contemporâneas. A expressão “genocídio” chocará; sua aplicação, particularmente ao fenômeno do desaparecimento da “mancha negra” no Brasil, talvez parecerá demasiadamente sutil e emotiva. Entretanto, o formidável conjunto de estatísticas narra sua própria história inquietante, e as leis imigratórias citadas, e ainda não revogadas, de seleção racial são clamorosas em sua acusação. Mas, no final das contas, a consideração mais imediata e pertinente para nós, neste momento, indubitavelmente permanece: quem são as testemunhas autênticas da condição do negro nesta etapa da sua história? Será o citado observador do Festival de 1966, ainda uma vez mais um delegado da zona afro-americana? Ou são os artistas e analistas negros como Nascimento, cuja contribuição ao debate, a despeito de ser ele adicionalmente um visiting scholar numa universidade nigeriana, foi excluída desse debate por manipulação dos homens fortes da política de seu país?