O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 7 de 36

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O mistério da cruz egípcia

4. Bradwood

 

Ficou evidente que algo extraordinário estava acontecendo quilômetros antes de o velho Duesenberg chegar ao destino. A autoestrada de Long Island, pela qual Ellery avançava na velocidade imprudente a que estava acostumado, estava lotada de soldados do interior, que pela primeira vez pareciam desinteressados no espetáculo de um rapaz alto e determinado viajando a uma velocidade de noventa quilômetros por hora. Ellery, com o egocentrismo de um velocista especialmente privilegiado, estava esperando, em parte, que alguém fosse pará-lo. Pois então teria a oportunidade de jogar “agente especial da polícia!” na cara do seu antagonista motociclista. Ele convencera o inspetor a telefonar para a cena do crime e explicar ao inspetor Vaughn da polícia do condado de Nassau que “meu filho famoso”, como o inspetor disse com sutileza, estava a caminho, será que Vaughn poderia outorgar todas as cortesias ao jovem herói? Sobretudo visto que, como o velho colocara, esse filho famoso tinha uma informação que deveria se provar de notável interesse para Vaughn e para o promotor de justiça. Então outra ligação para o promotor de justiça Isham do condado de Nassau, com uma repetição do encômio e da promessa. Isham, um homem muito requisitado naquela manhã, murmurou algo como “qualquer notícia será uma boa notícia, inspetor; mande-o para cá”, e prometeu que nada seria retirado da cena do crime até que Ellery chegasse.

Era meio-dia quando o Duesenberg adentrou uma das ruas particulares imaculadas de Long Island e foi desafiado por um soldado de motocicleta.

— — Bradwood é por aqui? gritou Ellery.

— — É, mas você não vai entrar respondeu o soldado com uma expressão carrancuda. — Faça meia-volta, senhor, e dê o fora.

— O inspetor Vaughn e o promotor de justiça Isham estão me esperando — informou Ellery com um sorrisinho.

— Ah! Sr. Queen? Desculpe, senhor. Vá em frente.

Vingado e triunfante, Ellery disparou adiante e, cinco minutos depois, parou na autoestrada entre duas propriedades — uma, pelo aglomerado de viaturas na rua, era obviamente Bradwood, onde o assassinato fora cometido; a outra, por inferência, visto que ficava do outro lado da rua, devia ser a habitação do seu amigo e antigo instrutor, professor Yardley.

O próprio professor, um homem alto, esguio e feio, de semelhança impressionante com Abraham Lincoln, avançou apressadamente e agarrou a mão de Ellery enquanto ele saltava do Duesenberg.

— Queen! É bom vê-lo de novo.

— Digo o mesmo, professor. Nossa, faz anos! O que está fazendo aqui em Long Island? Da última vez que ouvi falar do senhor, ainda estava morando no campus, torturando alunos do segundo ano.

O professor deu um sorrisinho com a barba preta e curta.

— — Aluguei aquele Taj Mahal do outro lado da rua Ellery se virou e viu pináculos e um domo bizantino acima das árvores para as quais o dedão do professor Yardley apontava — de um amigo maluco meu. Ele construiu essa atrocidade por conta própria quando foi mordido pelo bichinho do Oriente. Saiu em uma perambulação pela Ásia Menor, e eu estou trabalhando aqui neste verão. Queria um pouco de tranquilidade para me dedicar a minha obra há muito adiada sobre as fontes da lenda de Atlântida. Lembra-se das referências platônicas?

— — — New Atlantis Lembro. Ellery sorriu. , de Bacon, mas na época os meus interesses eram sempre literários em vez de científicos.

Yardley grunhiu.

— … O mesmo jovem de sempre, posso ver Tranquilidade! Bem, foi com isso que me deparei.

— Como acabou pensando em mim?

Eles caminharam pela entrada de veículos desordenada de Bradwood em direção a uma grande casa colonial, os seus vastos pilares reluzindo ao sol do meio-dia.

— — — O longo braço da coincidência disse o professor, seco. Acompanhei a sua carreira com interesse, é claro. E visto que vivo fascinado pelas suas proezas, li avidamente as matérias sobre aquele extraordinário assassinato na Virgínia Ocidental há cinco ou seis meses.

Ellery analisou a cena antes de responder. Bradwood tinha jardins meticulosos, a propriedade de um homem abastado.

— Eu deveria saber que nada escaparia aos olhos que já examinaram milhares de papiros e estelas. Então o senhor leu aquela versão romantizada da minha pequena estadia em Arroyo?

— — Li. Assim como a sua romantizada falta de sucesso. O

professor deu uma risadinha. — Ao mesmo tempo, fiquei satisfeito com a maneira como aplicou o fundamento que tentei enfiar na sua cabeça teimosa; sempre vá à fonte. Cruz egípcia, meu garoto? Temo que o seu senso teatral tenha sufocado a verdade puramente científica… Bem, aqui estamos.

— — Como assim? perguntou Ellery com uma carranca ansiosa. — tau A cruz era com certeza do Egito Antigo…

— Discutiremos mais tarde. Imagino que queira conhecer Isham. Ele fez a gentileza de me deixar vagar por aí.

O promotor de justiça Isham, do condado de Nassau, um homem atarracado de meia-idade com olhos azuis lacrimosos e uma franja grisalha em formato de ferradura, encontrava-se nos degraus de entrada da longa varanda colonial, absorto em uma conversa acalorada com um homem alto e poderoso em roupas civis.

— … — — Hã sr. Isham disse o professor Yardley. Este é meu protégé , Ellery Queen.

Os dois homens se viraram depressa.

— — Ah, sim falou Isham, como se estivesse pensando em outras coisas. — Que bom que veio, sr. Queen. Não sei o que pode fazer para ajudar, mas… — Ele deu de ombros. — Este é o inspetor Vaughn da polícia do condado de Nassau.

Ellery trocou um aperto de mãos com ambos.

— O senhor permite que eu ande por aí? Prometo não me pôr no caminho.

O inspetor Vaughn exibiu os dentes amarelados.

— Precisamos que alguém se ponha em nosso caminho. Estamos só parados no mesmo lugar, sr. Queen. Gostaria de ver a evidência principal?

— Imagino que seja de praxe. Venha conosco, professor.

Os quatro homens desceram os degraus da varanda e começaram a caminhar por uma trilha de cascalho ao redor da ala leste da casa. Ellery notou a vastidão da propriedade. A casa principal, ele via agora, ficava a meio caminho entre a estrada particular onde ele deixara o Duesenberg e as águas de uma enseada, cujas marolas tingidas pelo sol eram visíveis da elevação da casa principal. Esse corpo d’água, como explicou o promotor de justiça Isham, era um afluente do estuário de Long Island; chamava-se enseada de Ketcham. Além das águas da enseada, podia-se ver a silhueta arborizada de uma ilhota. Ilha Oyster, destacou o professor; abrigando uma estranha coleção de…

Ellery olhou para ele de forma questionadora, mas Isham disse com irritação:

— Já chegaremos a isso.

Yardley deu de ombros e refreou-se de mais interrupções.

O caminho de cascalho levava gradualmente para longe da casa, e um aglomerado de árvores os cercou a menos de dez metros da construção colonial. Trinta metros à frente, eles chegaram a uma clareira, no centro da qual encontrava-se um objeto grotesco.

Eles pararam de repente e fizeram silêncio, como acontece na presença de uma morte violenta. Ao redor, havia soldados e detetives do condado, mas Ellery só tinha olhos para o objeto em si.

Era um pilar grosso e entalhado de 2,7 metros de altura que já fora, a julgar pelo que restava, de um colorido espalhafatoso, mas estava desbotado, manchado e surrado, como se tivesse sido exposto a séculos de intempéries. O entalhe, um conglomerado de representações de máscaras de gárgulas e animais híbridos, culminava na figura esculpida sem refinamento de uma águia com bico abaixado e asas estendidas. Por serem bem retas, Ellery foi imediatamente confrontado pelo fato de que o pilar, com as asas abertas no topo, lembrava muito um T maiúsculo.

O corpo decapitado de um homem estava pendurado no poste, os braços amarrados às asas com cordas pesadas, pernas similarmente presas à parte reta a mais ou menos um metro do chão. O bico afiado de madeira da águia pairava a dois centímetros do buraco sangrento onde já estivera a cabeça do homem. Havia algo ao mesmo tempo patético e horrível na visão tenebrosa; o corpo mutilado emanava um desamparo, a impotência digna de pena de uma boneca de pano decapitada.

— — — Ora disse Ellery com uma risadinha trêmula , que cena, hein?

— — — Chocante murmurou Isham. Nunca vi algo assim. Dá arrepios na espinha. — Ele estremeceu. — Vamos lá. Vamos acabar logo com isso.

Eles se aproximaram do poste. Ellery notou que a algumas jardas, na clareira, havia uma edícula de palha, em cuja entrada se postava um soldado. Então voltou a atenção ao cadáver. Era de um homem de meia-idade, com pança pesada e mãos nodosas e velhas. Usava calça cinza de flanela e uma camisa de seda aberta no pescoço, sapatos brancos, meias brancas e um paletó de veludo usado para fumar. O corpo era um desastre sangrento do pescoço aos dedos dos pés, como se tivesse sido afundado em uma tina de sangue.

— — Um totem, não é? perguntou Ellery ao professor Yardley ao passarem embaixo do corpo.

— — — Tóteme corrigiu Yardley com severidade , é o termo preferível… Sim. Não sou uma autoridade em totemismo, mas essa relíquia é uma antiguidade norte-americana ou uma falsificação bem-feita. Nunca vi uma assim. A águia é um símbolo do Clã da Águia.

— Imagino que o corpo tenha sido identificado?

— — — Claro falou o inspetor Vaughn. Estamos olhando para o que sobrou de Thomas Brad, proprietário de Bradwood, importador milionário de tapetes.

— — — Mas o corpo não foi solto apontou Ellery com paciência. Como podem ter certeza?

O promotor de justiça Isham ficou espantado.

— Ah, é Brad, sim. As roupas batem, e não daria muito para disfarçar essa barriga, daria?

— Imagino que não. Quem encontrou o corpo?

O inspetor Vaughn contou a história:

— Foi encontrado às 7h30 dessa manhã por um dos empregados de Brad, uma combinação de chofer e jardineiro, um camarada chamado Fox. Ele mora em uma choupana do outro lado da casa, na mata; quando veio até a construção principal esta manhã, como de costume, para buscar o carro (a garagem fica nos fundos da casa) para Jonah Lincoln, uma das pessoas que mora aqui, descobriu que Lincoln não estava pronto e veio para essas bandas olhar as flores. Enfim, foi com isso que se deparou. Levou um belo susto, segundo ele.

— — Imagino comentou o professor Yardley, que transparecia uma surpreendente falta de melindre; ele examinava o totem e o seu fardo macabro com uma impessoalidade pensativa, como se fosse um raro objeto histórico.

— — — Bem continuou o inspetor Vaughn , ele se recuperou e correu de volta para a casa. A história de sempre… acordou os moradores da casa. Ninguém tocou em nada. Lincoln, que é um sujeito nervoso, porém equilibrado, assumiu a liderança até chegarmos.

— — E quem é Lincoln? perguntou Ellery.

— — Gerente geral da empresa de Brad. Brad & Megara, sabe

explicou Isham —, os grandes importadores de tapete. Lincoln mora aqui. Brad gostava muito dele, pelo que sei.

— … Um magnata de tapetes incipiente, hã? E Megara também mora aqui?

Isham deu de ombros.

— Quando não está viajando. Ele está em um cruzeiro em algum canto; já está fora há meses. Brad era o sócio ativo.

— Imagino, então, que o sr. Megara, o viajante, fosse responsável pelo totem… ou tóteme, em respeito ao professor. Não que isso importe.

Um homenzinho frio caminhava tranquilamente na direção deles carregando uma sacola preta.

— — Aí está o dr. Rumsen disse Isham com um suspiro de alívio. — Médico-legista do condado de Nassau. Oi, doutor, dê uma olhada nisso!

— — Estou olhando respondeu o dr. Rumsen em um tom maldoso. — O que é isso… o matadouro de Chicago?

Ellery analisou o corpo. Parecia bem rígido. O dr. Rumsen ergueu um olhar profissional para o cadáver, fungou e disse:

— Ora, baixe-o, baixe-o. Espera que eu escale o poste e o examine lá de cima?

O inspetor Vaughn gesticulou para dois detetives, que saltaram à frente desembainhando facas. Um deles entrou na edícula e voltou um momento depois com uma cadeira rústica. Ele a posicionou ao lado do totem, subiu no assento e ergueu a faca.

— — Quer que eu corte, chefe? perguntou, antes de passar a lâmina pelas amarras do braço direito. — Talvez prefira ter a corda inteira. Acho que consigo desfazer o nó.

— — — Pode cortar disse o inspetor em tom áspero. Quero dar uma olhada no nó. Talvez forneça alguma pista.

Outros se prontificaram, e a atividade deprimente de baixar o corpo foi realizada em silêncio.

— — Por sinal observou Ellery enquanto assistiam ao procedimento —, como o assassino conseguiu carregar o corpo lá para cima e amarrar os pulsos às asas a quase três metros do chão?

— — Da mesma maneira que o detetive está fazendo agora

respondeu o promotor de justiça, seco. — Encontramos uma cadeira manchada de sangue, como a que ele está usando, na edícula. Ou o trabalho foi feito em dupla, ou o camarada era forte. Deve ter dado uma trabalheira erguer um cadáver nessa posição, mesmo com uma cadeira.

— — Onde o senhor encontrou a cadeira? perguntou Ellery, pensativo. — Na edícula?

— Sim. Ele deve tê-la devolvido ao lugar depois de usar. Há várias outras coisas na cabana, sr. Queen, que valem dar uma olhada.

— — Tem outra coisa que talvez o interesse disse o inspetor Vaughn quando o corpo foi finalmente solto das amarras e depositado na grama. — Isso.

Ele tirou um pequeno objeto vermelho circular do bolso e entregou-o a Ellery. Era uma peça de jogo de damas de madeira vermelha.

— — — Humm disse Ellery. Um tanto prosaico. Onde encontrou isso, inspetor?

— — — Aqui, no cascalho da clareira respondeu Vaughn. A alguns metros à direita do pilar.

— — O que o faz pensar que é importante? Ellery virou a peça nos dedos.

Vaughn sorriu.

— Foi a maneira como a encontramos. Não estava caída ali há muito tempo, para começo de conversa, como pode ver pelas suas condições. E naquele cascalho cinza e limpo um objeto vermelho se destacaria como um elefante. Este terreno é examinado a pente-fino por Fox todos os dias; é improvável, então, que ela já estivesse aqui durante o dia… Fox diz que não estava, pelo menos. Eu diria de cara que tem alguma coisa a ver com os acontecimentos da noite passada; ela não seria enxergada na escuridão.

— — — Excelente, inspetor! Ellery sorriu. O senhor é dos meus.

Ele devolveu a peça ao mesmo tempo em que o dr. Rumsen proferia uma torrente de palavrões terríveis e nada profissionais

— — — O que houve? perguntou Isham, chegando, apressado. Encontrou alguma coisa?

— eu A coisa mais estranha que já vi — respondeu o médico-legista rispidamente. — Olhe isso.

O cadáver de Thomas Brad estava esticado na grama a alguns metros do totem como uma estátua de mármore caída. Tinha uma rigidez tão pouco natural que Ellery, a partir da sua triste, porém ampla experiência, se deu conta de que o rigor mortis ainda não deixara o corpo. Estendido ali, com os braços ainda abertos, o cadáver exibia, com exceção da pança e das roupas, uma notável semelhança com o corpo de Andrew Van que Ellery vira em Weirton seis meses antes; e ambos, refletiu ele sem satisfação, eram figuras humanas retalhadas no formato de um T… Ele balançou a cabeça e abaixou-se com os outros para ver o que tanto perturbara o dr. Rumsen.

O médico havia erguido a mão direita do morto e apontava para a palma morta azulada. No centro, caprichosamente impressa como se por um molde, havia uma mancha vermelha circular, a borda apenas levemente irregular.

— — — Agora, o que é isso? resmungou o dr. Rumsen. Não é sangue. Parece mais tinta, ou corante. Mas não vejo qualquer razão para isso.

— — — Parece respondeu Ellery que a sua previsão está se tornando realidade, inspetor. A peça de dama, o lado direito do poste, a mão direita do morto…

— — Por Deus, sim! exclamou o inspetor Vaughn. Ele pegou a peça de novo e colocou-a sobre a mancha na palma sem vida. Encaixava, e ele se ergueu com um olhar misto de triunfo e confusão. — Mas que inferno?!

O promotor de justiça Isham balançou a cabeça.

— Não acho que seja importante. Você ainda não viu a biblioteca de Brad, Vaughn, então não sabe. Mas há resquícios de uma partida de damas lá. Descobrirá mais sobre isso quando entrarmos na casa. Por algum motivo, Brad tinha uma peça na mão quando foi morto, e o assassino não sabia. Ela caiu da mão dele mais ou menos quando estava sendo pendurado, só isso.

— — Então o crime foi cometido dentro da casa? perguntou Ellery.

— de sobra Ah, não. Na edícula. Há evidências disso. Não, eu acho que a explicação para a peça de damas é a simplicidade em si. Parece uma peça defeituosa, e provavelmente o suor e o calor da mão de Brad fez a cor manchar.

Eles deixaram o dr. Rumsen explorando a figura inumana na grama, cercado por policiais silenciosos, e seguiram para a edícula. Ficava a apenas alguns passos do totem. Ellery olhou para cima e ao redor antes de transpor a entrada baixa.

— Nenhuma fonte de luz elétrica do lado de fora, notei. Eu me pergunto…

— O assassino deve ter usado uma lanterna. Quer dizer, se é que o crime realmente aconteceu no escuro — disse o inspetor. — O dr. Rumsen esclarecerá isso quando nos disser há quanto tempo Brad está morto.

O soldado na entrada fez uma saudação e deu um passo para o lado. Eles entraram.

Era pequena e circular, construída com troncos e galhos de árvores de uma maneira artificialmente rústica. Tinha uma teto pontudo de palha e meias-paredes, as metades superiores compostas de treliça verde. Do lado de dentro havia uma mesa e duas cadeiras talhadas, uma delas manchada de sangue.

— — Não há muita dúvida sobre isso, eu diria afirmou o promotor de justiça Isham com um fraco resmungo, apontando para o chão.

No meio do piso havia uma grande mancha espessa, de cor vermelho-amarronzada.

O professor Yardley demonstrou nervosismo pela primeira vez.

— … … Ora isso não é sangue humano essa sujeira enorme e tenebrosa?

— — — Certamente é respondeu Vaughn em tom sombrio. A única explicação para essa quantidade toda é a cabeça de Brad ter sido cortada bem aqui neste chão.

Os olhos aguçados de Ellery estavam fixos naquela parte do chão de madeira diretamente abaixo da mesa rústica. Desenhado de modo grosseiro em sangue, havia um T maiúsculo.

— — Que beleza murmurou ele, engolindo em seco ao afastar o olhar do símbolo. — Sr. Isham, o senhor tem uma explicação para o T no chão?

O promotor de justiça fez um gesto de questionamento com as mãos.

— Ora, sou eu quem lhe pergunto, sr. Queen. Sou calejado nesse jogo e, pelo que sei, o senhor tem muita experiência com coisas assim. Algum homem sensato poderia duvidar de que esse é o crime de um maníaco?

— — — Nenhum homem sensato poderia disse Ellery , e nenhum homem sensato o faria. Está perfeitamente correto, sr. Isham. Um totem! Apropriado, não é, professor?

— — — Tóteme corrigiu Yardley. Refere-se ao possível significado religioso? — Ele deu de ombros. — Como alguém poderia reunir símbolos de fetichismo norte-americano, do cristianismo e do falicismo na Antiguidade está além da imaginação até mesmo de um maníaco.

Vaughn e Isham se encararam; nem Yardley nem Ellery os elucidaram. Ellery se curvou para examinar algo caído no chão, perto do sangue coagulado. Era um cachimbo de madeira briar e haste longa.

— — — Já analisamos isso disse o inspetor Vaughn. Tem digitais. De Brad. É o cachimbo dele, sem dúvidas; ele o fumava aqui. Nós o colocamos de volta bem onde o encontramos.

Ellery assentiu com a cabeça. Era um cachimbo incomum, de formato impressionante; o fornilho era habilmente entalhado em semelhança à cabeça e ao tridente de Netuno. Estava cheio pela metade de cinzas apagadas e, no chão perto do fornilho, como Vaughn apontara, havia cinzas de tabaco de cor e textura similar, como se o cachimbo tivesse sido derrubado e parte das cinzas tivessem se derramado.

Ellery estendeu a mão para pegar o cachimbo… e parou. Ele olhou para o inspetor.

— Tem certeza, inspetor, de que este cachimbo é da vítima? Quer dizer… o senhor confirmou com os moradores da casa?

— — — Na verdade, não respondeu Vaughn com rigidez. Não sei por que diabos duvidaríamos. Afinal, as digitais…

— — Ele também vestia um paletó específico para fumar destacou Isham. — E não tinha outro tipo de tabaco consigo; cigarros nem charutos. Não entendo, sr. Queen, por que pensaria…

O professor Yardley reprimiu um sorriso em meio à barba, e Ellery respondeu de maneira quase despreocupada:

— Mas eu não penso nada do tipo. É apenas um hábito meu, sr. Isham. Talvez…

Ele pegou o cachimbo e esvaziou cuidadosamente as cinzas sobre o tampo da mesa. Quando pararam de cair, Ellery olhou dentro do fornilho e viu que uma cobertura de tabaco meio queimado permanecia no fundo. Tirou um envelope translúcido do bolso e, raspando o tabaco não fumado do fundo, depositou-o no envelope. Os outros observaram em silêncio.

— — — Veja bem disse ele, se erguendo. Não acredito em aceitar as coisas sem questionar. Não estou sugerindo que este cachimbo não seja de Brad. Afirmo, no entanto, que o tabaco dentro dele pode ser uma pista definitiva. Suponha que este cachimbo seja de Brad, mas que ele tenha pegado o tabaco emprestado com o assassino. Sem dúvida uma ocorrência bem comum. Agora, podem notar que este tabaco é cortado em cubos; não é um corte comum, como talvez saibam. Se examinarmos o umidor de Brad, encontraremos tabaco cortado em cubos? Caso positivo, então é dele, e ele não o pegou emprestado com o assassino. De qualquer forma não perdemos nada; só confirmamos os fatos prévios. Mas se não o encontrarmos cortado dessa forma, faz sentido presumirmos que o tabaco veio do assassino, e isso seria uma pista importante… Perdoe-me por tagarelar.

— — — Muito interessante disse Isham. Tenho certeza.

— — As minúcias da ciência detetivesca comentou o professor Yardley com uma risadinha.

— — Bem, o que conclui do caso até agora? exigiu saber Vaughn.

Ellery poliu as lentes do pincenê, pensativo, o rosto esguio compenetrado.

— É ridículo, é claro, fazer qualquer declaração mais concreta do que esta: ou o assassino estava com Brad quando ele veio à edícula, ou não estava; nada confirmado até o momento. De qualquer forma, quando Brad saiu para os jardins em direção à edícula, tinha na mão uma peça de damas vermelha que, por algum motivo peculiar, ele deve ter pegado na casa; onde os vestígios de uma partida de damas são encontrados. Na edícula, ele foi atacado e morto. Talvez o ataque tenha ocorrido enquanto ele fumava; o cachimbo caiu da sua boca para o chão. Talvez, também, ele estivesse com os dedos no bolso, brincando distraidamente com a peça de damas. Quando morreu, a peça continuava apertada na mão, e assim permaneceu por todo o tempo em que ele era decapitado, erguido até o totem e amarrado às asas. Então a peça caiu e rolou pelo cascalho, despercebida pelo assassino… Por que ele trouxe a peça consigo para começo de conversa parece ser a questão mais relevante. Pode ter um peso definitivo no caso… Uma análise nada iluminadora, hein, professor?

— — Quem conhece a natureza da luz? murmurou Yardley.

 

O dr. Rumsen entrou na edícula tomado pela agitação e anunciou:

— Trabalho concluído.

— — Qual é o veredito, doutor? perguntou Isham, ansioso.

— — Nenhum sinal de violência no corpo respondeu o dr. Rumsen. — A partir disso, fica perfeitamente evidente que seja lá o que o matou foi direcionado à cabeça.

Ellery se sobressaltou; poderia ter sido o dr. Strang repetindo o testemunho que dera no tribunal de Weirton meses atrás.

— — Ele pode ter sido estrangulado? perguntou Ellery.

— Não há como dizer agora. Mas a autópsia revelará, pelas condições dos pulmões. A rigidez do corpo é um simples rigor, que demorará de 12 a 24 horas para passar.

— — Há quanto tempo ele está morto? perguntou o inspetor Vaughn.

— Há umas catorze horas.

— — — Então foi mesmo no escuro! exclamou Isham. O crime deve ter sido cometido por voltas das dez horas da noite de ontem!

O dr. Rumsen deu de ombros.

— Pode me deixar terminar? Quero ir para casa. Tem um hemangioma a uns vinte centímetros acima do joelho direito. Isso é tudo.

Ao saírem da edícula, o inspetor Vaughn disse, de súbito:

— Ora, isso me lembra uma coisa, sr. Queen. O seu pai mencionou pelo telefone que o senhor tinha algumas informações para nos dar.

Ellery olhou para professor Yardley, que retribuiu o olhar.

— — — Sim, tenho confirmou Ellery. Inspetor, algo neste crime lhe parece peculiar?

— — — Tudo neste crime me parece peculiar resmungou Vaughn. O que quer dizer?

Ellery chutou uma pedrinha para fora do caminho, parecendo refletir. Eles passaram pelo totem em silêncio; o corpo de Thomas Brad estava coberto agora, e vários homens o colocavam em uma maca. Eles seguiram pelo caminho em direção à casa.

— — — Ocorreu-lhe perguntar continuou Ellery por que um homem seria decapitado e crucificado em um totem?

— — — Sim, mas que bem isso me faz? grunhiu Vaughn. É insano, só isso.

— — — O senhor quer dizer protestou Ellery que não notou os vários Ts?

— Os vários Ts?

— O poste em si; um fantástico formato de T. O pilar no meio, as asas estendidas para os lados. — Vaughn e Isham piscaram. — O corpo: cabeça cortada fora, braços esticados, pernas unidas. — Eles piscaram de novo. — Um T deliberadamente desenhado em sangue na cena do crime.

— — — Ora, é claro respondeu Isham, um tanto hesitante , nós notamos isso, mas…

— — E, para chegar a uma conclusão burlesca continuou Ellery sem sorrir —, a própria palavra totem começa com T.

— — — Ah, baboseira disse o promotor de justiça de imediato. Pura coincidência. O poste também, a posição do corpo… só aconteceu assim.

— — — Coincidência? Ellery repetiu com um suspiro. O senhor chamaria de coincidência se eu lhe dissesse que há seis meses um assassinato foi cometido na Virgínia Ocidental no qual a vítima foi crucificada em uma placa em formato de T em um cruzamento em formato de T, a cabeça cortada fora, e um T desenhado em sangue na porta da vítima a noventa metros de distância?

Isham e Vaughn pararam de repente, e o promotor de justiça ficou pálido.

— O senhor só pode estar brincando, sr. Queen!

— — Estou muito aturdido com os senhores disse professor Yardley, plácido. — Afinal, esse tipo de coisa é o seu trabalho. Mesmo eu, um verdadeiro leigo, sabia tudo sobre o caso; ele foi reportado em todos os jornais do país.

— — — Pensando bem murmurou Isham , acho que me lembro.

— — — Mas, meu Deus, sr. Queen! exclamou Vaughn. É impossível! É… não é razoável!

— … — — Não é razoável de fato murmurou Ellery , mas impossível… não é, pois de fato aconteceu. Havia um sujeito peculiar que se chamava de Ra-Harakht ou Harakht…

— — Queria conversar com você sobre ele começou o professor Yardley.

— — — Harakht! gritou inspetor Vaughn. Tem um doido com esse nome administrando uma colônia nudista na ilha Oyster, do outro lado da enseada!

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