O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 8 de 36

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O mistério da cruz egípcia

5. Assuntos internos

 

 

O jogo virou neste momento, e foi o assombro de Ellery que dominou a cena. O fanático de barba castanha no bairro de Bradwood! A conexão mais próxima a Velja Krosac aparecendo na cena de um crime igual ao primeiro! Era bom demais para ser verdade.

— — Pergunto-me se algum dos outros está aqui comentou ele ao subirem os degraus da varanda. — Talvez estejamos investigando uma mera sequência do primeiro assassinato, com o mesmo elenco! Harakht…

— — Não tive a oportunidade de lhe contar disse Yardley com tristeza. — Parece-me que, com os seus conceitos estranhos sobre a questão egípcia, Queen, você já deveria ter chegado à minha conclusão.

— — — Tão cedo? perguntou Ellery com a voz arrastada. E qual é a sua conclusão?

Yardley abriu um sorriso que tomou todo o rosto agradável, porém feio.

— Aquele Harakht, por mais que eu deteste acusar pessoas indiscriminadamente, é… Bem, parece mesmo que crucificações e Ts seguem o cavalheiro por aí, não parece?

— — Você se esquece de Krosac observou Ellery.

— — Meu querido camarada retrucou o professor com amargura — … , você certamente já me conhece bem o bastante a esta altura Não esqueci coisa alguma. Por que a existência de Krosac invalida o que acabei de sugerir despretensiosamente? Afinal, em meu entendimento, existem cúmplices em crimes. E há um tipo de sujeito gigante e arcaico…

Inspetor Vaughn voltou correndo para encontrá-los na varanda, interrompendo o que prometia ser uma conversa interessante.

— — Acabamos de pôr a ilha Oyster sob vigia anunciou ofegante. — Não há motivo para correr riscos. Investigaremos aquele bando assim que terminarmos aqui.

O promotor de justiça ficou perplexo com a rapidez dos acontecimentos.

— Quer dizer que o suspeito do crime foi esse gerente de negócios de Harakht? Como era a aparência dele?

Ele escutara a narrativa de Ellery sobre o caso em Arroyo com atenção fervorosa.

— Havia uma descrição superficial. Não o suficiente, na verdade, para ser usada, exceto pelo fato de que o homem mancava. Não, sr. Isham, o problema não é simples. Veja bem, até onde sei, esse homem que se denomina Harakht é a única pessoa que conseguiria identificar o misterioso Krosac. E se nosso amigo deus do sol se mostrar teimoso…

— — — Vamos entrar interrompeu o inspetor Vaughn. Está ficando demais para mim. Quero falar com pessoas e ouvir informações.

Na sala de estar da mansão colonial eles encontraram um trágico grupo os esperando. As três pessoas que se ergueram com rangidos à entrada de Ellery e os outros exibiam expressões esgotadas e olhos vermelhos, e estavam tão nervosas que os seus movimentos eram bruscos e súbitos.

— … — Hã olá cumprimentou o homem em uma voz seca e entrecortada. — Estávamos esperando.

Era um homem alto, esguio e vigoroso de uns 35 anos; vindo da Nova Inglaterra, a julgar pelas feições angulosas e o leve sotaque.

— — — Olá respondeu Isham, em tom sóbrio. Sra. Brad, este é o sr. Ellery Queen, que veio de Nova York para nos ajudar.

Ellery murmurou as condolências convencionais; eles não trocaram um aperto de mãos. Margaret Brad se mexia e andava como se deslizasse pelos horrores de um pesadelo. Era uma mulher de 45 anos, bem cuidada e bonita de uma maneira madura e corpulenta. Ela disse por entre lábios tensos:

— … … — Que bom Obrigada, sr. Queen. Eu Ela se virou e se sentou sem concluir, como se tivesse se esquecido do que queria dizer.

— … — E esta é a afilhada do sr. Brad continuou o promotor de justiça. — Srta. Brad… sr. Queen.

Helene Brad sorriu tristemente para Ellery, acenou com a cabeça para o professor Yardley e foi para o lado da mãe sem uma palavra. Era uma moça de olhos sábios e muito adoráveis, feições honestas e cabelo de um ruivo desbotado.

— — Bem? perguntou o homem alto, exigente. A voz continuava entrecortada.

— — — … Estamos avançando murmurou Vaughn. Sr. Queen sr. Lincoln… Queremos deixar o sr. Queen a par de certas coisas, e nossa confabulação aqui há uma hora não foi tão completa. — Todos assentiram gravemente, como personagens em uma peça. — Gostaria de guiar a conversa, sr. Queen? Vá em frente.

— — — Na verdade, não respondeu Ellery. Interromperei quando pensar em alguma coisa. Não deem atenção a mim.

O inspetor Vaughn postou-se imponente ao lado da lareira, mãos reunidas às costas de modo casual, olhos fixos em Lincoln. Isham se sentou, secando a careca. O professor suspirou e caminhou até uma janela, onde ficou olhando para fora por cima dos jardins da frente e da entrada para carros. A casa estava silenciosa, como se depois de uma festa barulhenta ou de um funeral. Não havia qualquer alvoroço, choro ou histeria. Com a exceção da sra. Brad, da filha dela e de Jonah Lincoln, nenhum dos outros moradores da casa — os criados — havia aparecido.

— — Bem, o primeiro passo, eu acho começou Isham com exaustão —, é esclarecer aquela história dos ingressos para o teatro da noite anterior, sr. Lincoln. Imagino que possa nos contar a história completa.

— … — Ingressos para o teatro Ah, sim. Lincoln encarou a parede acima da cabeça de Isham com os olhos vidrados de um soldado traumatizado. — Ontem Tom Brad telefonou para a sra. Brad do escritório dizendo que conseguira ingressos para uma peça da Broadway para ela, para Helene e para mim. Helene e a sra. Brad me encontrariam na cidade. Ele, Brad, iria para casa. Disse-me isso alguns minutos depois. Parecia enfático que eu deveria levar as senhoras. Não pude recusar.

— — Por que gostaria de recusar? perguntou o inspetor, sem perder tempo.

A expressão fixa de Lincoln não mudou.

— Pareceu-me um pedido peculiar a ser feito naquele momento. Estávamos com alguns problemas na empresa; uma questão de contabilidade. Eu pretendia ficar até mais tarde ontem, trabalhar com nosso auditor. Lembrei Tom disso, mas ele disse para deixar para lá.

— — — Não entendo disse a sra. Brad em tom neutro. Quase como se quisesse se livrar de nós.

Ela estremeceu subitamente, e Helene deu tapinhas no ombro dela.

— Helene e a sra. Brad me encontraram em Longchamps para jantar — continuou Lincoln. — Depois do jantar eu as levei para o teatro…

— — Qual teatro? perguntou Isham.

— … Teatro Park. Eu as deixei lá

— — — Ah disse inspetor Vaughn. Decidiu realizar aquele trabalho de qualquer forma, foi?

— Sim. Pedi licença, prometi encontrá-las depois da apresentação, e voltei ao escritório.

— — E trabalhou com o seu auditor, sr. Lincoln? perguntou Vaughn suavemente.

Lincoln o encarou.

— … — Sim Meu Deus. Ele ergueu as mãos e arquejou, como um homem se afogando. Ninguém disse uma palavra sequer. Quando ele retomou, foi em voz baixa, como se nada houvesse acontecido. — Terminei mais tarde e voltei ao teatro…

— — O auditor permaneceu a noite toda com o senhor?

perguntou o inspetor na mesma voz suave.

Lincoln o encarou.

— — — Por quê? Ele balançou a cabeça, confuso. O que quer dizer? Não. Ele foi embora por volta das oito da noite. Eu continuei trabalhando sozinho.

O inspetor Vaughn pigarreou; os olhos brilhavam.

— Que horas encontrou as senhoras no teatro?

— — Às 23h45 respondeu Helene Brad, de súbito, em uma voz segura que mesmo assim fez a mãe lhe lançar um olhar. — Meu caro inspetor Vaughn, as suas táticas não são muito justas. O senhor suspeita que Jonah tenha feito algo, sabe-se lá o quê, e está tentando fazê-lo parecer um mentiroso… entre outras coisas, imagino.

— — A verdade nunca fez mal a ninguém disse Vaughn friamente. — Continue, sr. Lincoln.

O homem piscou duas vezes.

— … Encontrei Helene e a sra. Brad no saguão. Fomos para casa

— — De carro? perguntou Isham.

— Não, pelo trem de Long Island. Quando saltamos, Fox não estava esperando com o carro e pegamos um táxi para casa.

— — Táxi? murmurou Vaughn.

Ele pensou um pouco, então saiu da sala sem dizer uma palavra. As duas Brad e Lincoln o encararam com assombro nos olhos.

— — — Continue disse Isham com impaciência. Viu algo estranho ao chegar em casa? Que horas eram?

— — Não sei bem. Lá para uma hora da madrugada, acho. Lincoln murchou os ombros.

— — — Depois de uma hora disse Helene. Você não se lembra, Jonah.

— … — Sim. Não vimos nada de estranho. O caminho até a edícula

Lincoln estremeceu. — Nós não pensamos em olhar lá. Não teríamos conseguido enxergar nada, de todo jeito… estava escuro demais. Fomos dormir.

O inspetor Vaughn retornou sem fazer alarde.

— — — Como pode, sra. Brad perguntou Isham , que não soubesse que o seu marido havia desaparecido até esta manhã, como me contou mais cedo?

— … — Nós dormimos dormíamos em quartos anexos explicou a mulher com lábios pálidos. — Então eu não tinha como saber. Eu e Helene nos retiramos… A primeira vez que ouvimos o que… aconteceu com Thomas foi quando Fox nos tirou da cama esta manhã.

O inspetor Vaughn avançou um passo e se curvou para sussurrar algo no ouvido de Isham. O promotor de justiça fez um vago aceno positivo com a cabeça.

— — Há quanto tempo o senhor mora nesta casa, sr. Lincoln?

perguntou Vaughn.

— Muito tempo. Quantos anos, Helene?

O ianque alto se virou para olhar para Helene; os olhares se encontraram e piscaram com compaixão. O homem abraçou os próprios ombros, respirou fundo, e os olhos perderam o aspecto vidrado.

— — Oito, eu acho, Jonah. A voz dela vacilou, e pela primeira vez as lágrimas enuviaram seu olhar. — Eu… eu era só uma criança quando você e Hester chegaram.

— — — Hester? repetiu Vaughn e Isham juntos. Quem é?

— — — Minha irmã respondeu Lincoln com a voz mais calma. Nós nos tornamos órfãos cedo na vida. Eu… bem, ela me acompanha tão naturalmente quanto meu nome.

— Onde ela está? Por que não a vimos?

Lincoln respondeu em voz baixa:

— Ela está na ilha.

— — — Na ilha Oyster? perguntou Ellery. Que interessante. Ela não se tornou uma devota do sol por acaso, hein, sr. Lincoln?

— — — Ora, como o senhor sabia?! exclamou Helene. Jonah, você não…

— — — Minha irmã explicou Lincoln com dificuldade gosta de seguir as modas. Envolve-se em coisas como essa. Esse lunático que se denomina Harakht alugou a ilha dos Ketcham… dois idosos que moram lá; são proprietários, na verdade… e ele começou um culto. Um culto ao sol e… bem, nudismo… — Ele engasgou com um nó na garganta. — Hester… bem, Hester ficou interessada nas… pessoas de lá, e tivemos uma briga sobre o assunto. Ela é teimosa, e deixou Bradwood para se juntar ao culto. Aqueles malditos farsantes! — exclamou, alterado. — Eu não ficaria surpreso se eles tivessem algo a ver com essa história macabra.

— — Astuto, sr. Lincoln murmurou o professor Yardley.

Ellery tossiu de leve e dirigiu-se à figura séria da sra. Brad.

— Tenho certeza de que a senhora não se importaria de responder a algumas perguntas pessoais, certo? — Ela ergueu o olhar e depois o baixou para as mãos no colo. — Entendo que a srta. Brad é a sua filha e era enteada do seu marido. Seu segundo marido, sra. Brad?

A bela mulher respondeu:

— Sim.

— O sr. Brad também já fora casado?

Ela mordeu os lábios.

— … … Nós nós éramos casados há doze anos. Tom Eu não sei muito sobre a primeira… a primeira esposa dele. Acho que ele foi casado na Europa, e a primeira esposa faleceu muito jovem.

— — — Tsc, tsc disse Ellery com uma carranca de compaixão. Que parte da Europa, sra. Brad?

Ela olhou para ele com um leve rubor nas bochechas.

— Não sei bem. Thomas era romeno. Imagino que tenha acontecido… lá.

Helene Brad jogou a cabeça para trás e disse com indignação:

— Sinceramente, vocês estão agindo de forma absurda. Que diferença faz de onde as pessoas vêm ou com quem eram casadas há anos e anos? Por que não tentam descobrir quem o matou?

— — Algo me diz com insistência, srta. Brad respondeu Ellery com um sorriso triste —, que a questão geográfica pode se tornar extremamente importante… O sr. Megara também é romeno?

A srta. Brad ficou inexpressiva. Lincoln respondeu, seco:

— Grego.

— … — Que diabos ? começou o promotor de justiça, parecendo desolado.

O inspetor Vaughn sorriu.

— Grego, é? E vocês são todos americanos nativos, suponho?

Eles assentiram com a cabeça. Os olhos de Helene cintilavam de raiva; até mesmo o brilho feroz no seu cabelo pareceu reluzir com mais força, e ela olhou para Jonah Lincoln como se esperasse um protesto. Mas ele ficou em silêncio, apenas olhando para as pontas dos sapatos.

— — — Onde está Megara? continuou Isham. Alguém disse que ele estava em um cruzeiro. Que tipo de cruzeiro… ao redor do mundo?

— — — Não respondeu Lincoln. Nada do tipo. Sr. Megara é uma espécie de viajante e explorador amador. Tem o próprio iate e vive velejando por aí. Simplesmente vai embora e passa três ou quatro meses fora.

— — Há quanto tempo ele está nessa viagem? perguntou Vaughn.

— Quase um ano.

— Onde ele está?

Lincoln deu de ombros.

— … Não sei. Ele nunca escreve só aparece sem aviso. Não entendo por que ficou tanto tempo fora dessa vez.

— — — Eu acho disse Helene, franzindo a testa que ele foi para os mares do sul.

Os olhos dela se iluminaram e os lábios estremeceram; Ellery olhou-a com curiosidade e se perguntou por quê.

— Qual é o nome do iate dele?

Helene corou.

— Helene .

— — Um iate a vapor? perguntou Ellery.

— Sim.

— … Ele tem um rádio algum equipamento de comunicação sem fio? — perguntou Vaughn.

— Sim.

O inspetor rabiscou no caderno e pareceu satisfeito.

— — Ele veleja sozinho, é isso? perguntou ao escrever.

— … Claro que não! Ele tem um capitão e uma equipe regular

Capitão Swift, que está com ele há anos.

Ellery sentou-se subitamente e esticou as longas pernas.

— … Eu de fato acredito Qual é o primeiro nome de Megara?

— Stephen.

Isham emitiu um grunhido.

— Ah, céus. Por que não podemos nos ater ao essencial? Há quanto tempo Brad e Megara são sócios nesse negócio de importação de tapete?

— — — Dezesseis anos respondeu Jonah. Começaram o negócio juntos.

— Negócio bem-sucedido, certo? Sem problemas financeiros?

Lincoln balançou a cabeça.

— Tanto o sr. Brad quanto o sr. Megara geraram fortunas muito substanciais. Foram atingidos pela Grande Depressão, como todo mundo, mas o negócio está bem. — Ele fez uma pausa, e uma expressão estranha mudou o seu rosto esguio e saudável. — Não acho que encontrarão problemas financeiros na origem desta história.

— — — o senhor Bem grunhiu Isham , o que acha que está na origem desta história?

Lincoln fechou a boca com um leve estalo.

— — — religião Por acaso o senhor não acha disse Ellery que há por trás disso, hein, sr. Lincoln?

Lincoln piscou.

— … … … Ora eu não falei isso. Mas o crime em si a crucificação

Ellery sorriu, satisfeito.

— Por sinal, qual era a fé do sr. Brad?

A sra. Brad, ainda sentada com as largas costas curvadas, peito estufado e queixo empinado, murmurou:

— Ele me disse uma vez que fora criado na Igreja Ortodoxa Grega. Mas não era devoto; na verdade, era descrente dos rituais. Alguns pessoas o consideravam ateu.

— E Megara?

— — Ah, ele não acredita em absolutamente nada. Algo no tom fez com que todos a encarassem com um olhar penetrante, mas o rosto dela estava inexpressivo.

— — Igreja Ortodoxa Grega disse o professor Yardley pensativo. — … Isso é bem consistente com a Romênia

— — Está procurando inconsistências? murmurou Ellery.

O inspetor Vaughn tossiu, e a sra. Brad o observou com uma postura tensa. Parecia sentir o que estava por vir.

— O seu marido tinha marcas identificadoras pelo corpo, sra. Brad?

Helene pareceu levemente nauseada e virou a cabeça de lado. A sra. Brad murmurou:

— Um hemangioma na coxa direita.

O inspetor suspirou de alívio.

— Então é isso. Agora, pessoal, vamos aos princípios básicos. E quanto a inimigos? Quem poderia querer matar o sr. Brad?

— Esqueçam essa história da crucificação e todo o resto por enquanto — adicionou o promotor de justiça. — Quem tinha um motivo para assassiná-lo?

Mãe e filha se viraram uma para a outra, então desviaram o olhar quase de imediato. Lincoln permanecia encarando fixamente o tapete; uma tapeçaria oriental magnífica, notou Ellery, com uma bela imagem da Árvore da Vida; uma justaposição infeliz de símbolo e realidade, considerando o fato que refletia, que o seu dono…

— — — Não afirmou a sra. Brad. Thomas era um homem feliz. Não tinha inimigos.

— Vocês tinham o hábito de receber convidados relativamente desconhecidos?

— — Ah, não. Nós levamos uma vida reclusa aqui, sr. Isham. Mais uma vez, algo no tom os fez olhar com atenção para ela.

Ellery suspirou.

— Algum de vocês se lembra da presença, convidado ou não, de um homem manco? — Eles balançaram a cabeça de imediato. — O sr. Brad não conhecia alguém que mancava? — Outra negativa coordenada.

— — Thomas não tinha inimigos repetiu a sra. Brad com ênfase fastidiosa, como se sentisse que era importante reforçar esse fato.

— — Está se esquecendo de uma coisa, Margaret interveio Jonah Lincoln. — Romaine.

Ele a encarou com olhos ardentes. Helene lançou um olhar de condenação horrorizado; então mordeu o lábio e os olhos se encheram de lágrimas. Os quatro homens observavam com interesse crescente e com a sensação de que havia um jogo por trás dos panos; havia algo nocivo ali, uma ferida no ambiente doméstico dos Brad.

— — Sim, Romaine afirmou a sra. Brad, lambendo os lábios; a sua posição não mudava havia dez minutos. — Esqueci. Eles tiveram uma desavença.

— — Quem diabos é Romaine? perguntou Vaughn em tom exigente.

Lincoln respondeu com a voz baixa e rápida:

— Paul Romaine. Harakht, aquele lunático da ilha Oyster, o chama de “discípulo líder”.

— — Ah disse Ellery, e olhou para o professor Yardley. O homem feio ergueu os ombros de maneira expressiva e sorriu.

— — Eles criaram uma colônia nudista na ilha. Nudista! exclamou Lincoln com amargor. — Harakht é um maluco… provavelmente é honesto; mas Romaine é um farsante, o pior tipo de golpista. Negocia com o próprio corpo, que é apenas o disfarce de uma alma apodrecida!

— — — Ainda assim murmurou Ellery , não foi Holmes que recomendou: “Construa para ti mais mansões imponentes, ó, minh’alma”?

— — Claro disse o inspetor Vaughn, determinado a tranquilizar essa estranha testemunha. — Entendemos. E quanto à desavença, sr. Lincoln?

O rosto esguio tornou-se feroz.

— “ ” Romaine é responsável pelos hóspedes na ilha; trabalha na expansão do negócio. Ele enredou um monte de pobres coitados que ou pensam que ele é algum tipo de deus, ou são tão reprimidos que a ideia de correr por aí pelados… — Ele parou abruptamente. — Perdoem-me, Helene… Margaret. Eu não deveria comentar. Hester… Eles não vêm aborrecendo nenhum dos residentes daqui, admito. Mas Tom e o dr. Temple se sentem da mesma forma que eu sobre o assunto.

— — — me Humm disse o professor Yardley. Ninguém consultou.

— Dr. Temple?

— Nossos vizinhos a leste. Eles foram vistos saltitando pela ilha Oyster completamente nus, como cabras humanas, e bem… somos uma comunidade decente. — Ah, pensou Ellery, assim proseou o puritano . — Tom é dono de toda essa propriedade de frente para a enseada, e sentiu que era dever dele interferir. Teve alguma espécie de desentendimento com Romaine e Harakht. Acho que pretendia tomar medidas legais para expulsá-los da ilha, e lhes disse isso.

Vaughn e Isham se entreolharam, então encararam Ellery. As Brad, mãe e filha, estavam imóveis; e Lincoln, agora que se livrara da bile acumulada, parecia inquieto e envergonhado.

— — Bem, investigaremos isso um pouco mais tarde declarou Vaughn com leveza. — O senhor disse que o dr. Temple é dono do terreno vizinho a leste?

— … — Ele não é o dono, só o aluga o alugava de Thomas. O olhar da sra. Brad suavizou. — Ele já está aqui há muito tempo. Um médico do Exército aposentado. Ele e Thomas eram bons amigos.

— Quem mora naquele pedaço de terra a oeste?

— … — Ah! Um casal inglês de sobrenome Lynn Percy e Elizabeth respondeu a sra. Brad.

— Eu os conheci em Roma no outono passado e nos tornamos muito amigos — murmurou Helene. — Eles disseram que estavam pensando em fazer uma visita aos Estados Unidos, então eu sugeri que voltassem comigo e fossem meus hóspedes durante a estadia.

— — Quando a senhorita retornou, srta. Brad? perguntou Ellery.

— Na época do Dia de Ação de Graças. Os Lynn cruzaram comigo, mas nos separamos em Nova York e eles viajaram um pouco pelo país. Então em janeiro eles chegaram aqui. Ficaram loucos com o lugar… — Lincoln grunhiu, e Helene corou. — Ficaram sim, Jonah! Tanto que, por não querer abusar de nossa hospitalidade… o que era bobeira, é claro, mas sabe como os ingleses podem ser cheios de cerimônia… eles insistiram em alugar a casa a oeste, que é… era propriedade de meu pai. Estão aqui desde então.

— — — Bem, falaremos com eles também disse Isham. Esse dr. Temple, agora. A senhora disse, sra. Brad, que ele e o seu marido eram bons amigos. Muito próximos, não é?

— — Não há nada nessa direção respondeu a sra. Brad em tom severo —, se é o que está insinuando, sr. Isham. Eu mesma nunca foi muito chegada ao dr. Temple, mas ele é um homem direito, e Thomas, excelente julgador de caráter, gostava tremendamente dele. Com frequência jogavam damas juntos à noite.

O professor Yardley suspirou, como se estivesse um tanto entediado com esse recital de vícios e virtudes de vizinhos quando ele próprio poderia providenciar uma análise mais profunda.

— — — Jogavam damas! exclamou o inspetor Vaughn. Ora, isso é interessante. Quem mais jogava com sr. Brad, ou esse dr. Temple era o seu único adversário?

— Na verdade, não! Todos nós jogávamos com Thomas de vez em quando.

Vaughn pareceu desapontado. O professor Yardley coçou a barba preta lincolniana e disse:

— Sinto dizer que está em solo infértil, inspetor. Brad era um jogador de damas diabolicamente esperto, e acabava com todo mundo que vinha aqui para uma partida. Se a pessoa não soubesse jogar, ele insistia… com paciência, é claro… em ensiná-la. Acho — ele deu uma risada — que eu era o único visitante que resistia com sucesso às lisonjas dele. — Então ficou sério e se calou.

— — Ele era um jogador espetacular falou a sra. Brad com um orgulho triste e fraco. — Ouvi isso do campeão nacional de damas em pessoa.

— — Ah, a senhora também é uma boa jogadora, então? interveio Isham.

— Não, não, sr. Isham. Mas recebemos o campeão na última véspera de Natal, e ele e Thomas jogaram sem cessar. O campeão disse que Thomas era um adversário à altura.

Ellery se levantou de um pulo, a expressão ansiosa e determinada.

— Acredito que estejamos exaurindo essas boas pessoas. Mais algumas perguntas e não os incomodaremos mais, sra. Brad. Já ouviu o nome Velja Krosac?

Ela pareceu genuinamente confusa.

— … Vel que nome estranho! Não, sr. Queen, nunca ouvi.

— Srta. Brad?

— Não.

— Sr. Lincoln?

— Não.

— — — Já ouviram o nome Kling? Todos negaram com a cabeça. Andrew Van? — Outra reação inexpressiva. — Arroyo, Virgínia Ocidental?

Lincoln murmurou:

— O que é isso, por sinal? Um jogo?

— — — De certo modo. Ellery sorriu. Não ouviram, nenhum de vocês?

— Não.

— Bem, então tem uma pergunta que vocês com certeza saberão responder. Quando exatamente o fanático que se autodenomina Harakht chegou à ilha Oyster?

— — — Ah, isso! exclamou Lincoln. Em março.

— Esse homem, Paul Romaine, estava com ele?

A expressão de Lincoln se fechou.

— Sim.

Ellery limpou o pincenê, equilibrou-o na ponte do nariz reto e inclinou-se à frente.

— A letra T significa alguma coisa para algum de vocês?

Eles o encararam.

— — — ’ T? repetiu Helene. Do que cargas dágua o senhor está falando?

— — Evidentemente a resposta é não comentou Ellery enquanto o professor Yardley dava uma risadinha e sussurrava algo no seu ouvido. — Muito bem, então, sra. Brad, o seu marido se referia com frequência à origem romena dele?

— Não, nunca. Só o que sei é que ele veio da Romênia para os Estados Unidos há dezoito anos, com Stephen Megara. Parece que eram amigos ou parceiros de negócios no antigo país.

— Como sabe disso?

— … Ora ora, Thomas me contou.

Os olhos de Ellery brilharam.

— … Perdoe a minha curiosidade, mas talvez seja importante O

seu marido era rico quando imigrou?

A sra. Brad corou.

— Não sei. Quando nos casamos, ele era.

Ellery ficou pensativo. Disse “humm” várias vezes, balançou a cabeça de um jeito satisfeito, então finalmente se virou para o promotor de justiça.

— E agora, sr. Isham, se puder me providenciar um atlas, eu não o incomodarei por um bom tempo.

— Um atlas!

O promotor de justiça arregalou os olhos, e até o professor Yardley pareceu perturbado. O inspetor Vaughn franziu a testa.

— — Tem um na biblioteca declarou Lincoln em tom monótono, e saiu da sala de estar.

Ellery andou de um lado para o outro, um sorriso abstrato nos lábios. Os olhos dos outros o seguiam sem entender.

— — — Sra. Brad disse ele , a senhora fala grego ou romeno?

Ela negou com a cabeça, perplexa. Lincoln retornou, trazendo um grande livro de capa azul.

— — — Sr. Lincoln disse Ellery , o senhor trabalha em uma empresa com contatos que são em grande número europeus ou asiáticos. Entende ou fala grego ou romeno?

— Não. Não temos motivo para usar línguas estrangeiras. Nossos escritórios da Europa e da Ásia se correspondem em inglês, e nossos distribuidores fazem o mesmo neste país.

— — — Entendo. Ellery sopesou o atlas, parecendo pensativo. Isso é tudo que tenho a perguntar, sr. Isham.

O promotor de justiça acenou com cansaço.

— Muito bem, sra. Brad. Faremos nosso melhor, por mais que, francamente, o caso pareça uma bagunça insolúvel. Só fiquem por perto, sr. Lincoln e srta. Brad; não deixem a propriedade por um tempo, de qualquer forma.

Jonah e as Brad hesitaram, se entreolharam, então se levantaram e saíram da sala em silêncio.

No instante em que a porta se fechou, Ellery se jogou em uma poltrona e abriu o atlas azul. O professor Yardley franzia a testa. Isham e Vaughn trocavam olhares desamparados. Mas ele se ocupou com o atlas por cinco minutos inteiros, durante os quais voltou a três mapas diferentes e ao índice, consultando cada página minuciosamente. Enquanto procurava, o seu rosto se iluminou.

Ellery depositou o livro com cuidado deliberado no braço da cadeira e se levantou. Os outros o olharam com expectativa.

— — — Eu bem achei, macacos me mordam exclamou , que seria esse o caso! — Virou-se para o professor. — Uma coincidência incrível, se for uma coincidência. Deixarei que julgue por conta própria… Professor, os nomes de nosso peculiar elenco de personagens não lhe chamaram a atenção?

— — Os nomes, Queen? Yardley estava genuinamente confuso.

— … … … Sim. Brad Megara. Brad romeno. Megara grego. Isso os lembra de alguma coisa?

Yardley balançou a cabeça em negativa, e Vaughn e Isham deram de ombros.

— — Sabe disse Ellery, pegando o estojo de cigarros e acendendo um com rápidas tragadas —, são coisas pequenas como essas que tornam a vida interessante. Tenho um amigo que é fanático por um assunto… aquele jogo fútil e juvenil chamado geografia. Por que o assunto o atrai só Deus sabe, mas o joga em toda e qualquer oportunidade concebível. Com Brad era o jogo de damas, com muitos é o golfe… bem, com esse meu amigo é a geografia. Ele a desenvolveu ao ponto de saber milhares de nomezinhos geográficos. Algo que veio à tona há não muito tempo…

— — — Você está provocando interrompeu o professor Yardley. Continue.

Ellery deu um sorrisinho.

— … Thomas Brad era romeno Há uma cidade na Romênia chamada Brad. Isso significa algo para vocês?

— — Droga nenhuma rosnou Vaughn.

— Stephen Megara é grego. Há uma cidade na Grécia chamada Megara!

— — — Ora murmurou Isham , e daí?

Ellery deu um leve tapinha no braço de Isham.

— E suponha que eu lhe diga que o homem que supostamente não tem qualquer conexão nem com nosso importador de tapetes milionário nem com nosso iatista milionário, o pobre professor de Arroyo assassinado há seis meses… resumindo, aquele Andrew Van…

— … — Você não quer dizer balbuciou Vaughn.

— Os documentos de naturalização de Van revelaram que o país de origem dele é a Armênia. E de fato existe uma cidade na Armênia chamada Van… e um lago também, por sinal. — Ele relaxou e sorriu. — E se, em três casos, dois relacionados na superfície, outro relacionado a um dos dois por assassinato, o mesmo fenômeno ocorre… — Ellery deu de ombros. — Se isso for coincidência, eu sou a Rainha de Sabá.

— — — Certamente peculiar murmurou o professor Yardley. Na superfície, uma tentativa deliberada de autenticar nacionalidades.

— Como se todos os nomes fossem inventados, escolhidos de um atlas. — Ellery soprou um anel de fumaça. — Interessante, não é? Três cavalheiros, obviamente de origem estrangeira, deveras desejosos de ocultar o verdadeiro nome, e, a julgar pelo cuidado que tomaram para autenticar as nacionalidades, como falou, de ocultar os verdadeiros países natais também.

— — — Meu Deus grunhiu Isham. O que mais?

— — — Um fato ainda mais importante disse Ellery, alegre. Seria de supor que, tendo Van, Brad e Megara mudado de nome, o quarto ator estrangeiro na tragédia, o elusivo Krosac, também tenha escolhido o seu nome de um mapa. Mas ele não o fez; ao menos não existe cidade na Europa ou no Oriente Próximo com o nome de Krosac. Nenhuma cidade, lago, montanha, qualquer coisa. A conclusão?

— — — Três pseudônimos disse o professor sem pressa e um nome que parece ser genuíno. Com o dono do nome que parece ser genuíno indubitavelmente envolvido no assassinato de um dos pseudônimos. Talvez… Devo dizer, Queen, meu garoto, que estamos começando a entender a chave para os hieróglifos.

— — — Então você concorda falou Ellery com animação que há um aroma egípcio na atmosfera?

Yardley se sobressaltou.

— Ah, isso! Meu camarada, um pedagogo não pode usar uma simples figura de linguagem sem ser levado ao pé da letra?

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