O mistério da cruz egípcia
12. O professor fala
Com o entusiasmo de um cachorro carregando um osso, o sr. Ellery Queen, o ligeiramente maravilhado investigador, voltou no mesmo instante para a casa do seu anfitrião do outro lado da estrada, levando os relatórios sobre o trabalho em desenvolvimento. O sol de meio-dia estava quente, quente demais para tantas roupas, e Ellery buscou o interior fresco com um arquejo de alívio. Encontrou o professor Yardley em um cômodo que poderia ter saído diretamente de As mil e uma noites, algo com um pátio de mosaico de mármore e arabescos turcos. Parecia o paço interno de uma zenana; a sua obra-prima era uma piscina de mosaico com água até a borda. O professor estava vestido com calções curtos e colados e balançava as longas pernas na água enquanto fumava um cachimbo com tranquilidade.
— — — Ufa! disse Ellery. Estou deveras grato pelo seu pequeno harém, professor.
— — — Como de costume falou o professor com severidade , a sua escolha de termos é desleixada. Não sabe que os aposentos dos homens são chamados de selamlik? Tire essas roupas, Queen, e junte-se a mim aqui. O que é isso na sua mão?
— Uma mensagem de Garcia. Não saia daí. Olharemos isso juntos. Volto já.
Ele reapareceu pouco tempo depois de sunga, a parte superior do corpo lisa e brilhando de perspiração. Mergulhou de barriga na piscina, jogando uma onda que encharcou o professor e apagou o cachimbo, e continuou espirrando água ao redor com entusiasmo.
— — — Mais uma das suas conquistas grunhiu Yardley. Você sempre foi um péssimo nadador. Saia daí antes que me afogue.
Ellery deu um sorrisinho, escalou a borda da piscina, se estirou sobre o mármore e estendeu a mão para o maço de relatórios do inspetor Vaughn.
— — — O que temos aqui? Ele correu os olhos pela primeira folha. Humm. Não parece muita coisa. O admirável inspetor não foi
É
preguiçoso. É uma verificação com os oficiais do condado de Hancock.
— — Ah disse o professor, tentando acender o cachimbo com dificuldade. — Então eles fizeram isso, foi? O que vem acontecendo por lá?
Ellery suspirou.
— Primeiro, as descobertas da autópsia do corpo de Andrew Van. Absolutamente desprovido da menor partícula de interesse. Se lesse tantos relatos de autópsia quanto eu, você apreciaria… E uma sinopse completa da investigação original. Nada que eu já não soubesse ou que eu não tenha lido em jornais contemporâneos… Rá! O que é isso? “Consoante…” Ouça isso, por favor; parece saído da boca daquele sujeito Crumit… “Consoante o inquérito do promotor de justiça referente à possível relação entre Andrew Van, o professor de Arroyo, e Thomas Brad, milionário de Long Island recentemente assassinado, sentimos muito em informar que tal relação não existe; ao menos na extensão do que conseguimos determinar com um estudo cuidadoso das antigas correspondências do falecido Van etc.” Um capricho, não é?
— — Um modelo de retórica concordou o professor, sorrindo.
— Alors Mas é só isso. , saímos de Arroyo e voltamos ao bosque de Ketcham. — Ellery estreitou os olhos para a quarta página. — O relatório da autópsia de Thomas Brad. Nada que não saibamos, na verdade. Nenhuma marca de violência no corpo em si, nenhum indício de envenenamento em órgãos internos e assim vai, ad nauseam . As trivialidades de sempre.
— Eu lembro que você perguntou ao dr. Rumsen no outro dia se Brad poderia ter sido estrangulado. Ele respondeu alguma coisa?
— Sim. Os pulmões não mostram qualquer sinal de sufocamento. Ergo , ele não foi estrangulado.
— Mas por que você fez essa pergunta para começo de conversa?
Ellery balançou o braço molhado.
— Nada de outro mundo. Mas já que não havia marca de violência no resto do corpo, talvez fosse importante saber exatamente como ele foi morto. Só sobraria a cabeça, entende, para receber o impacto do ataque; o que sugeria estrangulamento. Mas Rumsen informou no seu relatório que só pode ter sido um golpe com um instrumento cego no crânio, ou é possível que tenha sido um tiro de revólver na cabeça. Eu diria o primeiro, levando tudo em consideração.
O professor chutou a água, formando uma coluna de água.
— Imagino que sim. Algo mais?
— Uma investigação para descobrir a rota feita pelo assassino. Inútil, muito inútil. — Ellery balançou a cabeça. — Impossível encontrar uma lista de pessoas que entraram ou saíram de trens nos arredores da enseada durante o período do crime. Soldados nas autoestradas, residentes nas ruas ou perto delas… ninguém ofereceu informações. Uma tentativa de encontrar pessoas que estivessem nos arredores da enseada de Ketcham na terça à noite foi improdutiva… E iatistas e outros que velejavam pelo estuário na tarde e noite de terça não relataram qualquer atividade misteriosa ou suspeita, nenhum barco estranho que pode ter levado o assassino até a enseada por uma rota aquática.
— — — Como você diz, um negócio inútil. O professor suspirou. Ele pode ter vindo de trem, automóvel ou barco, e imagino que nunca saberemos com exatidão. Pode até ter vindo por hidroavião, se quiser ser absurdo.
— — — É uma ideia. Ellery sorriu. E não caia no erro de chamar improbabilidades de absurdos, professor. Já vi coisas absurdas acontecerem… Vamos seguir em frente. — Ele passou os olhos rapidamente pela folha seguinte. — Mais nada. Descobriram que a corda usada para amarrar os braços e pernas de Brad ao totem…
— — — Imagino que também seja inútil grunhiu Yardley esperar que você diga tóteme.
— — — Tóteme continuou Ellery, obediente. É do tipo barato usada em varais, que pode ser comprada em qualquer loja de construção ou mercado. Nenhum comerciante em um raio de dezesseis quilômetros de Bradwood pode oferecer uma pista promissora. No entanto, Isham relata que os homens de Vaughn continuarão a busca em um raio mais amplo.
— — Meticulosas, essas pessoas comentou o professor.
— — Por mais que eu esteja relutante em admitir disse Ellery com um sorrisinho —, é apenas essa meticulosidade rotineira que soluciona uma série de crimes… O nó, a ideia cativa de Vaughn. Resultado: zero. Um negócio desajeitado e amador, mas eficiente o bastante, de acordo com o especialista de Vaughn. Apenas o tipo de nó que eu e você poderíamos fazer.
— — — Eu não retrucou Yardley. Sou um velho marinheiro, sabe? Lais de guia, nó simples e a nozada toda.
— 2 Você está mais perto do que nunca da HO agora; quero dizer em uma capacidade náutica… Ah, Paul Romaine. Um personagem interessante. Homem assertivo com uma boa dose de praticidade.
— — — O seu hábito interveio o professor de fazer mal uso das palavras é realmente deplorável.
— O histórico, diz o relatoriozinho do inspetor, é obscuro. Além do fato de ele ter visitado nosso avatar egiptológico em Pittsburgh em fevereiro, como ele mesmo disse, nada foi descoberto sobre ele. O rastro dele antes disso é uma lacuna.
— Os Lynn?
Ellery baixou o papel por um momento.
— — — Sim, os Lynn murmurou ele. O que sabe sobre eles?
O professor acariciou a barba.
— Desconfiado, meu garoto? Eu poderia ter imaginado que não ia lhe escapar. Há algo levemente espúrio ao redor deles. Por mais que venham sendo deveras respeitáveis. Dentro dos conformes, até onde sei.
Ellery pegou o papel.
— Ora, a Scotland Yard, por mais que não diga com todas as letras, não pensa o mesmo, eu garanto. Isham mandou um telegrama para a Yard, que respondeu, de acordo com esse relatório, informando que não encontraram informações sobre um casal chamado Percy e Elizabeth Lynn, como descrito. Os passaportes também foram investigados, mas é claro que estão em ordem, como seria de esperar. Talvez tenhamos sido hostis… A Scotland Yard declara que continuará uma busca por registros civis, e criminais também, na esperança de desenterrar qualquer informação pertinente sobre as atividades dos Lynn em território inglês, visto que eles alegam ser ingleses.
— Deus, que bagunça!
Ellery franziu a testa.
— Está achando? Já trabalhei em casos complicados na minha breve e brilhante carreira, mas nunca em um tão confuso quanto este… Você não ficou sabendo, é claro, dos últimos acontecimentos em relação a Fox, o chofer, e a sra. Brad. — O professor ergueu as sobrancelhas. Ellery relatou o que ocorrera uma hora antes na sala de estar de Bradwood. — Claro, não é?
— — — Como as águas do Ganges grunhiu Yardley. Estou começando a me perguntar.
— O quê?
O professor deu de ombros.
— Não tirarei conclusões precipitadas. O que mais essa enciclopédia na sua mão revela?
— Um trabalho ágil da parte de Vaughn. O porteiro do teatro Park atestou que uma mulher da descrição da sra. Brad saiu do teatro na noite de terça no meio do primeiro ato… por volta das nove horas.
— Sozinha?
— … Sim Outra coisa. As fontes de Vaughn encontraram o canhoto da ordem de pagamento de cem dólares enviada para Ketcham como depósito do aluguel da ilha Oyster. Ela foi enviada da agência de correio de Peoria, Illinois, em nome de Velja Krosac.
— — — Não! O professor arregalou os olhos. Então eles têm uma amostra da letra dele!
Ellery suspirou.
— Tirando conclusões precipitadas? Achei que estivesse sendo cauteloso. O nome estava escrito em letras de forma. O endereço era apenas Peoria; evidentemente o distribuidor de maná ambulante de Stryker parou ali para fazer um trabalhinho entre os nativos… Uma coisa mais de interesse local. Contadores dedicados estão averiguando os livros razão de Brad & Megara. Uma linha de investigação natural, é claro. Mas até agora tudo parece correto: a empresa é bem-conhecida e de prosperidade excepcional; as finanças estão em ordem… Por sinal, nosso amigo peregrino, Stephen Megara, que está vagando em algum lugar do alto-mar, não é ativo no negócio…. não o é há cinco anos. Brad fica de olho, mas o jovem Jonah Lincoln gerencia quase sozinho. Eu me pergunto o que deve estar entalado na garganta dele.
— — Problemas com a futura sogra, eu diria comentou o professor.
Ellery jogou o calhamaço no chão de mármore do selamlik, como Yardley o chamara, então se inclinou para a frente rapidamente para recuperá-lo. Uma folha adicional havia caído do maço.
— — — O que é isso? Ele a analisou com olhos sedentos. Minha nossa, olhe isso!
O cachimbo de Yardley permaneceu suspenso no ar.
— O quê?
Ellery estava empolgado.
— Informações de verdade sobre Krosac! Um relatório posterior, pela data. É evidente que o promotor de justiça Crumit o manteve para si na sua primeira resposta, então decidiu lavar as mãos em relação ao negócio todo e jogar tudo no coitado do Isham… Seis meses de investigação. Abundância de dados… Velja Krosac é montenegrino!
— Montenegrino? De nascença? Porque Montenegro não é mais um país, sabe — disse Yardley com interesse. — Tornou-se uma das divisões políticas da Iugoslávia… Os sérvios, croatas e eslovenos se fundiram oficialmente em 1922.
— Humm. A investigação de Crumit revelou que Krosac foi um dos primeiros imigrantes de Montenegro depois que a paz foi declarada em 1918. O passaporte que ele usou para entrar nos Estados Unidos indicava que era montenegrino de nascença, mas mais nada de valor. Pelo sarcófago de Tutancâmon, o homem emergiu!
— Crumit descobriu mais alguma coisa sobre a carreira americana dele?
— O suficiente, mas de forma superficial. Ele parece ter viajado de cidade em cidade, presumo que para ganhar familiaridade com o país adotado e aprender a língua. Ele se envolveu em um pequeno negócio de mascate por vários anos, aparentemente legítimo. Vendia bordados sofisticados, pequenos tapetes trançados, esse tipo de coisa.
— — Todos eles o fazem comentou o professor.
Ellery leu o parágrafo seguinte.
— Ele conheceu o amigo Harakht, ou Stryker, há quatro anos em Chattanooga, Tennessee, e os dois homens uniram forças. Na época, Stryker vendia um “remédio solar”; óleo de fígado de bacalhau com um rótulo caseiro. Krosac tornou-se o gerente de negócios dele e, para benefício do público, “discípulo” dele, ajudando o pobre e velho lunático a criar o culto ao sol e a pregação à saúde durante a sua existência nômade na estrada.
— Alguma coisa sobre Krosac depois do assassinato em Arroyo?
Ellery se mostrou desanimado.
— Não. Ele simplesmente desapareceu. Foi bem habilidoso nisso.
— E Kling, o criado de Van?
É
— Nem sinal dele. É como se a terra tivesse engolido os dois. Essa complicação com Kling me perturba. Onde ele está? Se Krosac despachou a alma dele, o que aconteceu com o corpo? Onde Krosac o enterrou? Vou lhe dizer, professor, até descobrirmos o verdadeiro destino de Kling, não solucionaremos este caso… Crumit fez esforços exemplares para encontrar uma ligação entre Kling e Krosac, provavelmente sob a suspeita de que eles podem ter sido cúmplices. Mas não encontrou coisa alguma.
— — O que não necessariamente significa que não existe ligação
observou o professor.
— Exato. E, é claro, até onde sabemos sobre Krosac, não temos como determinar se ele esteve em contato com Stryker ou não.
— … — Stryker Eis um exemplo da ira de Deus murmurou Yardley. — Pobre coitado!
Ellery abriu um sorrisinho.
— Não seja mole, meu senhor; estamos falando de assassinato. Além do mais, pelo seu último relatório, o pessoal da Virgínia Ocidental rastreou Harakht até o covil dele. Com isso, descobriram que ele é o próprio Alva Stryker, de acordo com Crumit, um egiptólogo muito conhecido, que ficou louco em consequência de uma insolação, como você disse, há muitos anos no Vale dos Reis. Ele não tem família, até onde pôde ser determinado, e sempre pareceu um lunático perfeitamente inofensivo. Escute só a anotação de Crumit: “É da crença do promotor de justiça do condado de Hancock que o homem Alva Stryker, que se autodenomina Harakht ou Ra-Harakht, é inocente do assassinato de Andrew Van, mas tem sido há anos presa de oportunistas inescrupulosos que se aproveitaram da sua estranha aparência, leve loucura e obsessão por uma adoração a cultos distorcida em um tipo de fraude incomum, mas mesmo assim perversa. Também é de nossa opinião que um homem deste tipo, com um motivo oculto para o assassinato de Van, foi responsável pela morte da vítima. Todos os fatos apontam para Velja Krosac como sendo este homem”. Bem escrito, não é?
— — Uma hipótese bem circunstancial contra Krosac, não?
perguntou o professor.
Ellery balançou a cabeça.
— Circunstancial ou não, ao determinar Krosac como o provável assassino de Van, Crumit acertou um ponto essencial.
— O que o faz pensar isso?
— Os fatos. Mas o fato de que Krosac matou Andrew Van não é a peça-chave da hipótese que estamos tentando construir. O problema fundamental é… — Ellery se inclinou para a frente. — Quem é Krosac?
— — O que quer dizer? perguntou o professor Yardley.
— Quero dizer que Velja Krosac é conhecido na sua verdadeira forma apenas por uma pessoa envolvida no caso — respondeu Ellery com determinação. — Essa pessoa é Stryker, com quem não podemos contar para dar um testemunho confiável. Então eu repito: quem é Krosac? Quem é Krosac agora? Ele pode ser qualquer um ao nosso redor!
— — — Besteira argumentou o professor com desconforto. Um montenegrino, provavelmente com sotaque croata, além disso, o homem manca com a perna esquerda…
— Não é bem besteira, professor. Nacionalistas se misturam com facilidade nesse país, e por certo, quando Krosac conversou com Croker, o garagista de Weirton, ele falou um inglês coloquial, sem sotaque. Quanto ao fato de que Krosac pode estar em nosso meio… não acho que você tenha analisado completamente os elementos do crime contra Brad.
— — — Ah, não? retrucou Yardley com rispidez. Talvez não. Mas ouça bem, meu jovem… você está sendo precipitado.
— — Já fiz isso antes. Ellery se levantou e mergulhou mais uma vez na piscina. Quando a sua cabeça emergiu pingando água, abriu um sorriso zombeteiro para o professor. — Não mencionarei o fato de que foi Krosac que providenciou a proximidade do culto ao sol a Bradwood! Antes do assassinato de Van, veja bem. Significativo? Então ele pode estar aqui em algum lugar… Vamos lá! — disse abruptamente, saindo da piscina e se deitando com as mãos atrás da cabeça. — Vamos trabalhar juntos. Comecemos com Krosac. Um montenegrino. Que, digamos, matou um homem da Europa Central com uma nacionalidade armênia que aparenta ser falsa. Três homens da Europa Central, então, possivelmente todos do mesmo país; pois estou convencido de que, como as coisas estão, Van e Brad não vieram da Armênia e da Romênia.
O professor grunhiu e levou dois fósforos ao cachimbo. Ellery, esparramado no mármore quente, acendeu um cigarro e fechou os olhos.
— Agora pense nesta situação em termos de motivo. Europa Central? Os Bálcãs? O coração da superstição e da violência; quase um lugar-comum. Isso lhe sugere algo?
— — É uma ocorrência rara, mas sou ignorante sobre os Bálcãs
respondeu o professor, indiferente. — A única associação que me vem à mente quando menciona a palavra é o fato de que por séculos aquela parte do mundo foi a fonte de folclores estranhos e fantásticos. Imagino que seja resultado do, em geral, baixo nível de inteligência e do terreno desolado e montanhoso.
— — — Rá! Eis uma ideia. Ellery deu uma risadinha. Vampirismo! Lembra de Drácula, a imortal contribuição de Bram Stoker aos pesadelos de burgueses inocentes? A história de um vampiro humano, passada na Europa Central. E cabeças decepadas também!
— — Baboseira disse Yardley com um olhar inquieto.
— — — Certo respondeu Ellery de pronto. Baboseira apenas pelo fato de que nenhuma estaca foi cravada nos corações de Van e Brad. Nenhum vampirista de respeito omitiria essa cerimoniazinha agradável. Se tivéssemos encontrado estacas eu estaria quase convencido de que estamos lidando com um homem louco e supersticioso aniquilando o que ele considerava serem vampiros humanos.
— — Você não pode estar falando sério protestou Yardley.
Ellery fumou por um momento.
— Só Deus sabe se estou ou não. Sabe, professor, nós podemos, em nosso esclarecimento divino, fazer pouco caso dessas historinhas de terror infantis como o vampirismo, mas, no fim das contas, se o sr. Krosac acredita em vampiros e sai por aí decapitando pessoas, você não pode exatamente fechar os olhos para a realidade da crença dele. É quase uma declaração da filosofia pragmática. Se existe para ele…
— — E quanto a essa sua história da cruz egípcia? perguntou o professor com seriedade; ele esticou as costas, se remexendo em busca de uma posição mais confortável, como se antecipasse uma longa discussão.
Ellery se sentou e abraçou os joelhos bronzeados.
— Ora, o que tem ela? Você tem algo na manga; deu uma pista disso ontem. Por acaso eu, na linguagem dos clássicos, cometi uma gafe?
O professor apagou o cachimbo deliberadamente, colocou-o na beira da piscina ao seu lado, bagunçou a barba preta e assumiu um ar professoral.
— — — Meu filho disse ele com ar solene , você fez papel de imbecil.
Ellery franziu a testa.
— tau Quer dizer que a cruz não é uma cruz egípcia?
— Quero dizer precisamente isso.
Ellery se balançou de leve.
— … A voz da autoridade Humm. Você não gostaria de fazer uma pequena aposta, então, gostaria, professor?
— … Não sou um homem de apostar; não tenho os meios De onde você tirou a ideia de que a crux commissa é chamada de cruz egípcia?
— Encyclopaedia Britannica . Há mais ou menos um ano eu tive a oportunidade de pesquisar um pouco sobre cruzes de maneira geral; estava escrevendo um livro na época. Como me lembro agora, a cruz tau, ou T, era descrita como um instrumento egípcio comum, frequentemente chamado de cruz egípcia, ou algo do tipo. De qualquer forma, a minha lembrança é que o artigo ligava de maneira definitiva as palavras tau e egípcio com a cruz. Gostaria de confirmar?
O professor deu uma risadinha.
— Vou confiar na sua palavra. Não sei quem escreveu esse artigo… até onde sei pode ter sido alguém de erudição avassaladora. Mas a Encyclopaedia Britannica é tão falível quanto qualquer outra instituição criada pelo homem, e nem sempre representa a autoridade final. Eu mesmo não sou uma autoridade na arte egípcia, por favor, entenda, mas é uma fase de meu trabalho, e lhe digo sem equívoco que nunca me deparei com a expressão “cruz egípcia”; tenho certeza de que é um termo errôneo. Sim, existe algo egípcio com formato de T…
Ellery pareceu confuso.
— tau Então por que disse que o não é…
— — — Porque não é. Yardley sorriu. Um certo instrumento sagrado usado pelos egípcios antigos possuía o formato do T grego. Aparece com frequência na literatura hieroglífica. Mas isso não o torna uma cruz tau, que é um antigo símbolo da religião cristã. Há muitas coincidências assim. A cruz de Santo Antônio, por exemplo, é um nome que também se aplica à cruz tau, apenas porque se assemelha à muleta com a qual Santo Antônio costuma ser representado. A cruz não pertence mais a Santo Antônio, rigorosamente falando, do que a mim ou a você.
— — Então o T não é uma cruz egípcia coisa nenhuma murmurou Ellery. — Maldição, eu ia arruinar tudo.
— — — Se quiser chamar assim disse o professor , não posso impedi-lo. É verdade que a cruz parece ser um símbolo bem familiar há séculos; o seu uso tem sido variegado e universal desde os primórdios. Eu poderia lhe dar numerosos exemplos de variações no símbolo cruciforme; pelos povos originários do hemisfério ocidental antes da chegada dos espanhóis, por exemplo. Mas isso é irrelevante. O ponto essencial é esse. — O professor fechou os olhos com força. — Se há um símbolo cruciforme que você pode, forçando a barra, chamar de cruz egípcia, é o ankh.
— ankh O ? — Ellery pareceu pensativo. — Talvez fosse nisso que eu estivesse pensando, na verdade. Não é aquela cruz em T com um círculo no topo?
Yardley balançou a cabeça.
— Um círculo não, meu garoto, mas um simbolozinho em forma de gota ou pera. O ankh na essência lembra um pouco uma chave. É chamado de crux ansata, e aparece com extrema frequência nas inscrições egípcias. Conotava divindade, ou realeza, e peculiarmente caracterizava o portador como um gerador de vida.
— — — Gerador de vida? Algo fervilhava nos olhos de Ellery. Minha nossa! — exclamou ele. — É isso! A cruz egípcia, afinal! Algo me diz que estamos no caminho certo agora!
— Elucide, meu jovem.
— — — Não vê? Ora, está claro como Heródoto! gritou Ellery. O ankh; símbolo da vida. A barra transversal do T; os braços. A barra vertical; o corpo. O troço em forma de pera no topo; a cabeça. E a cabeça foi decepada! Isso significa algo, estou dizendo…. Krosac deliberadamente transformou o símbolo da vida no símbolo da morte!
O professor o encarou por um momento, então soltou uma risadinha longa e zombeteira.
— Engenhoso, meu garoto, engenhoso como o diabo, mas a um milhão de parasangas da verdade.
A empolgação de Ellery se mitigou.
— Qual é o problema agora?
— A sua interpretação inspirada do motivo do sr. Krosac para decapitar as vítimas dele poderia ser plausível se o ankh, ou crux ansata , fosse um símbolo da figura humana. Mas não é, Queen. Ele tem uma origem muito mais prosaica. — O professor suspirou. — Lembra das sandálias que Stryker usa? São imitações dos calçados típicos do Egito Antigo… Veja bem, eu não gostaria de ser creditado por essa declaração, afinal, não sou antropólogo nem egiptólogo, mas o ankh é geralmente considerado pelos especialistas como uma representação de uma sandália de tiras como a que Stryker usa… o laço no topo sendo a parte que passa ao redor do tornozelo. A linha perpendicular abaixo do laço era aquela parte da tira que descia pelo peito do pé e conectava com a sola da sandália entre o dedão e os outros dedos. As partes mais curtas e horizontais desciam pelas laterais do pé até a sola da sandália.
Ellery estava arrasado.
— Mas ainda não entendo como aquele símbolo, se a sua origem era uma sandália, poderia vir a representar a criação da vida, mesmo em sentido figurativo.
O professor deu de ombros.
— Origens de palavras ou ideias às vezes são incompreensíveis para a mente moderna. O processo todo é obscuro de um ponto de vista científico. Mas já que o símbolo ankh foi muitas vezes usado na escrita de várias palavras a partir da raiz que significa “viver”, ele acabou virando um símbolo do viver, da vida. Tanto que, apesar do material da origem verdadeira ser flexível… era comum que a sandália fosse feita de papiro tratado, é claro… em certo momento os egípcios empregaram o símbolo em formas rígidas; amuletos de madeira, faiança e outros. Mas, certamente, o símbolo em si nunca representou uma figura humana.
Ellery poliu as lentes úmidas do pincenê, estreitando os olhos em reflexão, enquanto observava a água ensolarada.
— — — Muito bem disse com desespero. Abandonemos a teoria do ankh… Diga-me, professor. Os egípcios antigos praticavam a crucificação?
O professor sorriu.
— Você se recusa a se entregar, hein? Não, não que eu saiba.
Ellery pôs os óculos firmemente sobre o nariz.
— Então abandonemos por completo a teoria egiptológica! Ao menos eu abandonarei. Fui precipitado; um sintoma alarmante dos últimos tempos. Devo estar ficando enferrujado.
— — Um pouco de aprendizado, meu garoto observou o professor — , como disse o Papa, é uma coisa perigosa.
— — — faciunt nae Da mesma forma retrucou Ellery , intelligendo, ut nihil intelligant… conhecimento demais faz com que eles nada saibam. Não é pessoal, é claro…
— — — É claro que não respondeu Yardley. E Terence não quis dizer isso também, quis? Enfim, achei que você estivesse se virando do avesso para interpretar os fatos do ponto de vista egiptológico. Você sempre teve uma tendência à romantização, como me lembro, mesmo na sala de aula. Uma vez, quando estávamos discutindo a origem da lenda de Atlantis como ela foi transmitida por Platão, Heródoto e…
— — Se me permite interromper o cavalheiro disse Ellery com certa irritação —, estou tentando me arrastar para fora de um monte de lama, e você está sujando o terreno com classicismo irrelevante. Com licença… Se Krosac, ao decepar as cabeças das vítimas e distribuir símbolos T pelas cenas dos crimes, pretendia deixar o símbolo de uma cruz, certamente não era uma cruz ankh e sim a cruz tau. E visto que a existência da cruz tau no Egito Faraônico parece ter pouca ou nenhuma importância, é provável que Krosac não tivesse tal objetivo em mente, apesar de ele ser associado com um louco com obsessão por coisas religiosas no senso egiptológico… Confirmação? Sim. Thomas Brad estava pendurado em um totem… perdão, tóteme. Outro símbolo religioso a um mundo de distância do hieratismo. Outra confirmação: se Krosac quisesse fazer uma cruz ankh ele teria deixado as cabeças em vez de tirá-las… Então lançamos dúvida sobre a teoria egípcia, não temos qualquer evidência para a teoria do totem americano exceto pelo único fato fortuito do local de crucificação de Brad… e pelo que me parece ele foi mais escolhido pela importância do seu formato de T do que por qualquer importância religiosa… e não podemos persistir em absoluto na teoria cruciforme, a cruz tau no credo cristão, visto que, até onde sei, a decapitação nunca esteve presente no assassinato de mártires. Portanto, abandonemos todas as teorias religiosas…
— — — Seu credo disse o professor com uma risadinha parece ser como a religião de Rabelais: um grande Talvez.
— …e voltemos ao que eu estava tendendo a pensar desde o começo — concluiu Ellery com um sorriso pesaroso.
— O quê?
— O fato de que o T provavelmente significa T, e nada além disso. T no seu sentido alfabético. T, T… — Ele se calou subitamente, e o professor o analisou com curiosidade.
Ellery encarava a piscina com olhos de quem não vê coisas tão inocentes quanto água azul e luz do sol.
— — O que houve? perguntou Yardley em tom exigente.
— — — … É possível? murmurou Ellery. Não óbvio demais. E nada para confirmar. Já me ocorreu uma vez… — Ele se interrompeu; não havia nem ouvido a pergunta de Yardley.
O professor suspirou e voltou a pegar o cachimbo. Nenhum dos dois disse nada por um longo tempo.
Eles estavam assim, duas figuras quase nuas no pátio pacífico, quando uma mulher negra idosa entrou depressa com uma expressão enojada no rosto brilhante.
— — — Senhor Yardley disse ela em uma voz baixa e queixosa , tem um homi quase derrubando a porta pra entrá aqui.
— — Hein? O professor se sobressaltou e despertou do devaneio. — Quem?
— inspetô Aquele . Ele tá agitado à beça, parece, senhor.
— Tudo bem, Nanny. Mande-o entrar.
Vaughn entrou de supetão, um momento depois, balançando um pedacinho de papel, o rosto tomado de empolgação.
— — — Queen! gritou ele. Ótimas notícias!
Ellery se remexeu com olhos distraídos.
— Hein? Ah, olá, inspetor. Que notícia é essa?
— Leia isto.
O inspetor jogou o pedaço de papel no chão de mármore e se afundou na beira da piscina, arquejando como um invasor esperançoso em um seraglio.
Ellery e o professor se entreolharam, então encararam o papel. Era um radiograma da ilha de Jamaica.
APORTEI AQUI HOJE SOUBE DA MORTE DE BRAD VELEJANDO NOVA
YORK IMEDIATAMENTE.
A mensagem era assinada: Stephen Megara.
OceanofPDF.com