O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 26 de 36

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O mistério da cruz egípcia

23. Conselho de guerra

 

 

Domingo, segunda-feira… Era impressionante como pouco fora realizado, como era pequena a reserva de fatos genuínos que eles tinham conseguido recuperar dos escombros dos assassinatos. O inspetor, Ellery tinha certeza, sucumbiria à apoplexia enquanto os onipresentes fugitivos da lei ingleses continuassem à solta. E sempre a mesma pergunta surgia para amofinar as temidas reuniões, as desesperadas conversas sobre formas e meios: onde estava Krosac? Ou, se do seu jeito espantoso ele fosse um dos principais atores no drama, quem era ele e por que demorava? A vingança dele estava incompleta; que ele tivesse sido desencorajado de tentar tirar a vida dos dois irmãos Tvar restantes por medo da captura ou pela constante presença da polícia era inacreditável, considerando a natureza dos crimes.

— — A nossa proteção de Andreja anunciou Ellery, com tristeza, na segunda-feira à noite ao professor — foi perfeita demais. A única explicação que posso oferecer pela contínua inatividade de Krosac é que ele ainda não sabe onde, e em que disfarce, Van está. Nós o enganamos…

— — — E a nós mesmos comentou Yardley. Estou ficando um tanto quanto entediado, Queen. Se esta é a empolgante vida de um caçador de assassinos, fico contente em rastrear a fonte de um fato histórico pelo resto dos meus dias sedentários. Eu o convido a se juntar a mim. Vai achar infinitamente mais turbulento do que isso. Já contei a você como Boussard, o oficial do Exército Francês, encontrou aquela estela de basalto no Baixo Egito que tinha extrema importância para os egiptólogos… a Pedra de Roseta? E como, por 32 anos, até Champollion aparecer para decifrar a mensagem tripla do reino de Ptolomeu V, ela permaneceu…?

— — — Isso permanece interrompeu Ellery, desconsolado algo minúsculo em comparação ao problema gigante de Krosac. Wells deveria estar pensando nele quando escreveu O homem invisível.

Naquela noite, Stephen Megara ganhou vida.

 

Ele se pôs no meio da sala de estar da mansão colonial do irmão assassinado, examinando a plateia com austeridade. O inspetor Vaughn estava ali, bufando em uma cadeira Sheraton e roendo as unhas com irritação. Ellery estava sentado com o professor Yardley, sentindo-se estúpido sob o olhar acusador de Megara. Helene Brad e Jonah Lincoln ocupavam um sofá, ambos inquietos; os dedos entrelaçados. O promotor de justiça Isham, convocado peremptoriamente de Mineola pelo iatista, girava os polegares e tossia sem parar na porta. O capitão Swift, ajeitando o quepe, permanecia de pé atrás do empregador, o pescoço esquelético girando de um lado para o outro sob a tortura da gola dura. O dr. Temple, tendo solicitado ficar apesar de não ter sido convidado, estava diante da lareira preta.

— — Nem todo mundo me dá ouvidos disse Megara em uma voz mordaz —, mas os senhores especialmente… inspetor Vaughn e sr. Isham. Faz três semanas desde que o meu… desde que Brad foi assassinado. Já voltei há dez dias. Por favor, me diga o que vocês descobriram.

O inspetor Vaughn se retorceu na cadeira Sheraton e rosnou:

— Não gostei do seu tom, senhor. Sabe muito bem que demos o nosso melhor.

— — — Não é bom o suficiente retrucou Megara com rispidez. Nem perto disso, inspetor. O senhor sabe quem procurar. Tem uma descrição parcial dele. Parece-me que, com todas as forças policiais sob o seu comando e ao seu dispor, seria uma simples questão de capturar o homem.

— … — É é uma só questão de tempo, sr. Megara interveio Isham em um tom pacificador. A área careca cercada de cabelo grisalho estava úmida e vermelha. — Realmente não é simples, sabe.

Vaughn respondeu com sarcasmo:

— Sabe, sr. Megara, não tem sido tudo na mais pura sinceridade aqui, também. Vocês mesmos já desperdiçaram muito do nosso tempo. Nenhum de vocês tem sido totalmente honesto.

— Bobagem!

Vaughn se ergueu.

— — — E isso adicionou ele com um sorriso lupino vale para você também, Megara!

A expressão severa do iatista não mudou. Atrás dele, o capitão Swift enxugou os lábios com a manga azul e enfiou a mão amputada em um bolso protuberante.

— O que diabos você quer dizer?

— — Olhe lá, Vaughn interveio o promotor de justiça com preocupação.

— “ ” — Olhe lá, Vaughn nada! Deixe-me cuidar disso, Isham. O inspetor avançou batendo pé, uma ameaça sólida, e parou tão perto de Megara que os troncos se tocaram. — Quer um jogo aberto? Por mim tudo bem, senhor! A sra. Brad nos enganou, e teve a história falsa confirmada pela filha e por Lincoln. Fox nos enrolou e desperdiçou o nosso tempo valioso e muita dificuldade. O dr. Temple aqui… — o médico se sobressaltou, então estudou em silêncio o perfil severo de Vaughn enquanto enchia o cachimbo — estava em posse de informações importante e tentou agir como o herói no cavalo branco e capturar dois golpistas… e talvez pior… totalmente sozinho. Resultado: os criminosos fugiram sem deixar vestígios e ele levou uma surra. Merecida, por Judas!

— mim Você disse algo sobre — disse Megara no mesmo tom, olhos fixos nos do inspetor. — De que forma eu atrapalhei a investigação?

— … — — Inspetor Vaughn interveio Ellery lentamente. Não acha que está agindo de forma deveras… hã… precipitada?

— — Não quero ouvir uma palavra sua também! gritou Vaughn sem se virar. Ele estava bastante alterado; com os olhos saltados e os músculos do pescoço contraídos. — Muito bem, Megara. Outro dia você nos contou uma certa história…

A figura alta de Megara não se mexeu.

— E?

Vaughn abriu um sorriso maldoso.

— Ora. Pense melhor.

— — — Não entendo respondeu o homem com frieza. Seja explícito.

— — Vaughn implorou Isham.

— Eu serei o que bem entender. Você sabe do que estou falando. Três homens deixaram certo lugar com pressa há alguns anos. Por quê?

Os olhos de Megara baixaram por um brevíssimo instante. Mas, quando ele falou, parecia intrigado.

— Eu lhes contei por quê.

— Claro. Claro que sim. Não estou questionando o que você nos contou . Estou questionando o que não nos contou.

Megara recuou um passo, deu de ombros, sorriu.

— Eu de fato acredito, inspetor, que essa investigação esteja mexendo com o seu cérebro. Eu lhe contei a verdade. Naturalmente, poderia lhe dar uma autobiografia de doze horas. Se deixei algo de fora…

— — É porque pensou que não fosse importante? Vaughn deu uma risada curta. — Já ouvi isso antes. — Ele se virou e deu dois passo na direção da própria cadeira; então deu um giro para encarar o iatista de novo. — Mas lembre-se, quando nos cobra as contas, que o nosso trabalho não é só procurar um assassino. É revirar um monte de motivos emaranhados, fatos ocultos e mentiras descaradas também. Só lembre-se disso. — Ele se sentou, inflando as bochechas.

Megara sacudiu os ombros largos.

— Temo que perdemos o foco. Não convoquei esse conselho de guerra para bater boca ou começar uma briga. Se passei essa impressão, inspetor, peço desculpas. — Vaughn resmungou. — Tenho algo específico em mente.

— — — Que ótimo disse Isham, caloroso, avançando um passo. Maravilha, sr. Megara. Esse é o espírito. Certamente nos beneficiaríamos de uma sugestão construtiva.

— — Não sei o quão construtiva ela é. Megara esticou as pernas. — Todos estivemos esperando Krosac atacar. Bem, ele não o fez. Mas pode acreditar em mim quando digo que vai.

— — O que pretende fazer? perguntou o inspetor com azedume. — Mandar um convite para ele?

— — — Exatamente. Megara cravou os olhos nos de Vaughn. Por que não podemos montar uma armadilha?

Vaughn ficou em silêncio. Então:

— Uma armadilha, é? O que tem em mente?

Os dentes brancos do iatista brilharam.

— Nada definido, inspetor. Afinal, a sua experiência em tais assuntos o qualifica mais do que a mim… Mas, sabendo que Krosac virá em algum momento, não temos nada a perder. Ele me quer, não é? Ora, deixe que me tenha… Acho que a sua presença contínua por aqui o fez ficar na encolha. Se ficar aqui por mais um mês, ele continuará assim por mais um mês. Mas se forem embora, por exemplo, admitirem a derrota…

— — — Uma ideia excelente! exclamou o promotor de justiça. Sr. Megara, o senhor merece os parabéns. É deplorável que não tenhamos pensado nisso antes. É claro que Krosac não atacará enquanto o lugar estiver infestado de policiais…

— E ele tomará um cuidado desgraçado para não atacar quando sumirmos daqui do nada — resmungou Vaughn. Mesmo assim, o olhar estava pensativo. — Ele é um malandro inteligente, e tenho certeza de que farejaria uma armadilha… Mas a ideia não é de todo ruim — adicionou de má vontade. — Pensarei nela.

Ellery se inclinou para a frente, olhos brilhando.

— Coragem louvável, sr. Megara. É claro, o senhor tem noção das consequências do fracasso?

Megara não sorriu.

— — Eu não dei a volta ao mundo sem correr riscos disse em tom desagradável. — Não subestimo a esperteza sorrateira dele, veja bem. Mas não é realmente um risco. Se trabalharmos direito, ele tentará acabar comigo. E eu estarei pronto para ele… eu e o capitão… Não é, capitão?

O velho marinheiro respondeu, de modo grosseiro:

— Eu nunca vi um valentão que não pudesse ser derrotada por um arpão. Isso nos velhos tempos. Hoje em dia eu tenho uma bela arma, e o senhor também, sr. Megara. Lidaremos com o patife desprezível.

— — Stephen argumentou Helene; ela afastara a mão de Lincoln e encarava o iatista —, não é possível que você pretenda ficar sem proteção alguma contra aquele maníaco horrível! Não…

— … Sei cuidar de mim mesmo, Helene O que diz, inspetor?

Vaughn se levantou.

— Não tenho certeza. É uma grande responsabilidade para assumir. A única forma que eu aceitaria seria simular uma retirada dos meus homens do terreno e do estuário, mas montar uma emboscada perto do seu barco…

Megara franziu a testa.

— Muito óbvio, inspetor. Ele certamente irá desconfiar.

— — — Bem retrucou o inspetor com teimosia , precisará me dar tempo para pensar. Vamos deixar como está por enquanto. Dou a resposta pela manhã.

— — — Muito bem. Megara bateu no bolso do paletó de iatista. No meio-tempo, estou pronto. Não vou me esconder a bordo do Helene feito um covarde fracote pelo resto da vida. Quanto antes Krosac tentar me atacar, melhor para mim.

— — O que acha? perguntou o professor Yardley mais tarde, enquanto ele e Ellery, na ala leste da casa dos Brad, observavam Megara e o capitão Swift descerem rapidamente pela trilha, sob a fraca iluminação da casa, em direção à enseada.

— — — Eu acho disse Ellery com uma carranca que Stephen Megara é um tolo.

 

Stephen Megara teve pouco tempo para exibir a sua coragem; ou tolice.

Na manhã seguinte, terça-feira, enquanto Ellery e o professor tomavam café, um homem entrou correndo na sala de jantar do professor, ignorando os protestos escandalizados de Nanny, com uma mensagem de Vaughn.

O capitão Swift fora encontrado na sua cabine a bordo do Helene alguns momentos antes, amarrado e inconsciente devido a um golpe violento no dorso da cabeça.

O corpo decapitado de Stephen Megara fora encontrado, rígido e horrível, preso a um dos mastros da antena acima da superestrutura.

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