O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 10 de 36

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O mistério da cruz egípcia

7. Fox e o inglês

 

 

Eles adentraram mais profundamente o nevoeiro. Nenhuma luz brotava em lugar algum.

Não era esperado que a sra. Baxter, a governanta, por exemplo, tivesse qualquer contribuição importante. Ainda assim era necessário, por uma questão de meticulosidade, questioná-la. Eles retornaram à sala de estar e seguiram com a tediosa tarefa. A sra. Baxter, agitada, apenas confirmou a história de Stallings sobre a excursão da noite anterior. Não, o sr. Brad não lhe dissera nada sobre visitantes. Não, quando ela serviu o jantar para o sr. Brad, sozinho na sala de jantar, ele não parecia particularmente aborrecido ou nervoso. Só um pouco distraído, talvez. Sim, Fox os deixara no Roxy. Sim, ela e Stallings haviam voltado a Bradwood de trem e táxi, chegando pouco depois da meia-noite. Não, ela não achava que a sra. Brad ou os outros já haviam chegado em casa, mas não tinha certeza. A casa estava escura. Sim, senhor. Algo parecia errado? Não, senhor.

Muito bem, sra. Baxter… A governanta idosa se retirou sem perder tempo e o inspetor xingou com fluência.

Ellery olhava à frente, se ocupando com uma mancha na base da unha de tempos em tempos. O nome Andrew Van não parava de brotar na sua cabeça.

— — — Vamos lá disse Isham. Vamos falar com o chofer, Fox.

Ele saiu da casa com Vaughn a passos largos, e Ellery perambulou atrás, sentindo o aroma das rosas de junho e se perguntando quando os colegas parariam de correr atrás do próprio rabo e embarcariam em direção àquele pedaço de terra e árvores muito interessante no estuário, a ilha Oyster.

Isham guiou o grupo ao redor da ala esquerda da casa principal, seguindo por um caminho de cascalho estreito que logo adentrou um bosque cuidadosamente silvestre. Depois de uma curta caminhada, eles emergiram de debaixo das árvores em uma clareira, no centro da qual havia uma cabaninha simpática construída com troncos raspados. Um soldado do condado descansava ao sol em plena vista diante da choupana.

Isham bateu à porta robusta, e uma voz masculina grave exclamou:

— Pode entrar!

Quando eles entraram, o homem estava de pé, plantado como um carvalho, punhos cerrados, o rosto curiosamente salpicado de manchas pálidas. Era um homem alto e aprumado, esguio e forte como um broto de bambu. Quando viu quem eram os visitantes, os punhos relaxaram, os ombros murcharam e ele agarrou as costas da cadeira artesanal diante da qual se encontrava.

— — — Fox começou Isham , não tive muita oportunidade de falar com você hoje de manhã.

— — Não, senhor respondeu Fox.

A palidez, notou Ellery com certa surpresa, não era temporária; fazia parte da compleição natural do homem.

— — Sabemos que encontrou o corpo contribuiu o promotor de justiça, sentando-se na única cadeira da choupana.

— — — … Sim, senhor murmurou Fox. Foi uma experiência terrí

— — — O que queremos saber interrompeu Isham é por que abandonou Stallings e a sra. Baxter ontem à noite, aonde foi e quando chegou em casa.

Curiosamente, o homem não empalideceu nem se encolheu; a expressão no seu rosto manchado não se alterou.

— — — Eu só dirigi pela cidade respondeu ele. Voltei a Bradwood um pouco depois da meia-noite.

O inspetor Vaughn avançou deliberadamente e segurou o braço frouxo de Fox.

— — — Olhe aqui disse ele de forma quase agradável. Não estamos tentando machucá-lo ou incriminá-lo, entende? Se for honesto, o deixaremos em paz.

— — Eu sou honesto afirmou Fox.

Ellery pensou detectar traços de erudição na pronúncia e entonação do homem. Observou-o com interesse crescente.

— — — Certo falou Vaughn. Tudo bem. Agora esqueça essa baboseira de só ter dirigido pela cidade. Fale a verdade. Aonde foi?

— — Estou falando a verdade respondeu Fox em uma voz monótona, inexpressiva. — Dirigi pela Quinta Avenida, passando pelo Park e passeando pela Riverside por um bom tempo. O tempo estava agradável, e eu aproveitei o ar fresco.

O inspetor soltou o braço do homem de repente e abriu um sorrisinho para Isham.

— Ele aproveitou o ar fresco. Por que não foi buscar Stallings e a sra. Baxter depois que eles saíram do cinema?

Os ombros largos de Fox se contraíram de leve.

— Ninguém me disse para fazer isso.

Isham olhou para Vaughn, que retribuiu o olhar. Ellery, no entanto, olhou para Fox; e ficou surpreso ao ver os olhos do homem (parecia impossível) se encherem de lágrimas.

— — — Muito bem falou Isham. Se esta é a sua história, você está preso a ela, e que Deus o ajude se descobrirmos algo diferente. Há quanto tempo trabalha aqui?

— Desde o começo do ano, senhor.

— Referências?

— Sim, senhor.

Em silêncio, ele se virou e foi até um aparador antigo. Remexeu em uma gaveta e tirou dela um envelope limpo e conservado com esmero.

O promotor de justiça abriu-o com um rasgo, relanceou para a carta no interior e entregou-a a Vaughn. O inspetor leu-a com cuidado, então, virando-a na mesa, saiu da choupana sem explicação.

— — — Parece correto disse Isham, se levantando. Por sinal, você, Stallings e a sra. Baxter são os únicos empregados, não são?

— — Sim, senhor confirmou Fox sem erguer os olhos. Ele pegou as referências e ficou virando o envelope e o papel entre os dedos.

— … — — Hã Fox falou Ellery. Quando chegou em casa ontem à noite, você viu ou ouviu algo incomum?

— Não, senhor.

— — Fique aqui disse Isham, e saiu da choupana.

Do lado de fora, o inspetor Vaughn se juntou a ele, e Ellery parou na porta. Fox, do lado de dentro, não se mexera.

— — Ele está mentindo descaradamente sobre a noite de ontem

declarou Vaughn em voz alta; Fox não pôde deixar de ouvir. — Vamos averiguar de imediato.

Ellery se retraiu. Havia algo de cruel na tática dos dois homens, e ele não conseguia se esquecer das lágrimas nos olhos de Fox.

Em silêncio, eles seguiram na direção oeste. A choupana de Fox não ficava longe das águas da enseada de Ketcham, e eles conseguiam ver o brilho azul ensolarado por entre as árvores ao avançarem. A uma curta distância da choupana, eles chegaram a uma estrada estreita, sem cercas.

— — — Propriedade de Brad resmungou Isham. Ele não a cercaria. A casa alugada por aqueles Lynn deve ficar naquela extensão depois da estrada.

Eles atravessaram a estrada e mergulharam em uma mata imponente. Passaram-se cinco minutos até que Vaughn encontrasse a trilha que cruzava a densa vegetação rasteira na direção oeste. Logo depois de o caminho se alargar, a mata tornou-se mais espaçada, e eles viram uma casa de pedra baixa e ampla no coração da mata. Um homem e uma mulher estavam sentados na varanda aberta. O primeiro se levantou com pressa quando os três visitantes apareceram.

— — Sr. e sra. Lynn? perguntou o promotor de justiça ao pararem na base da varanda.

— — — Em pessoa respondeu o homem. Sou Percy Lynn. Esta é minha esposa… Os cavalheiros são de Bradwood?

Lynn era um inglês alto, de pele escura e feições angulosas com cabelo oleoso cortado curto e olhos astutos. Elizabeth Lynn era loira e gorda; o sorriso parecia fixo no rosto.

Isham fez que sim, e Lynn disse:

— … Bem por que não entram?

— — Não se preocupe respondeu o inspetor Vaughn com um tom agradável. — Só ficaremos um minuto. Souberam da notícia?

O inglês assentiu solenemente; o sorriso da esposa, no entanto, não desvaneceu.

— — — Chocante, de fato concordou Lynn. Ficamos sabendo quando eu estava caminhando pela estrada e esbarrei com um policial. Ele me contou a tragédia.

— — Naturalmente adicionou a sra. Lynn com uma voz estridente — depois disso , nós nem sonharíamos em ir lá .

— — Não, claro que não concordou o marido.

Fez-se um breve silêncio, durante o qual Isham e Vaughn conversaram na linguagem do olhar. Os Lynn permaneceram imóveis; havia um cachimbo na mão do homem alto, e uma pequena espiral de fumaça se erguia sem estremecer até o rosto dele.

De repente, ele gesticulou com o cachimbo e disse:

— Vamos lá. Tenho plena noção de como isso está constrangedor pra burro, cavalheiros. Os senhores são da polícia, presumo.

— — Isso mesmo disse Isham.

Ele pareceu satisfeito em permitir que Lynn tomasse a dianteira, e Vaughn permaneceu em segundo plano. Quanto a Ellery, estava fascinado por aquele sorriso terrível no rosto da mulher. Então ele próprio sorriu; agora sabia por que a expressão era tão rígida. A sra. Lynn tinha dentes falsos.

— — Imagino que queiram ver nossos passaportes continuou Lynn. — Averiguar os vizinhos e amigos e todo esse tipo de coisa. Não é?

Os documentos se mostraram regularizados.

— Imagino que também queiram saber exatamente como passamos… eu e a sra. Lynn… a morar aqui… — começou o inglês quando Isham devolveu os passaportes.

— — Já soubemos tudo pela srta. Brad disse Isham. Ele subiu dois degraus subitamente, e os Lynn ficaram tensos. — Onde vocês estavam ontem à noite?

Lynn pigarreou em alto e bom som.

— … … Ah sim. É claro. Na verdade, estávamos na cidade

— Nova York?

— … Isso mesmo. Fomos à cidade jantar e assistir a uma peça um

negócio xexelento.

— Que horas vocês voltaram?

Inesperadamente, a sra. Lynn interveio com uma voz esganiçada:

— Ah, nós não voltamos. Passamos a noite em um hotel. Estava tarde demais para…

— — Qual hotel? perguntou o inspetor.

— O Roosevelt.

Isham abriu um sorrisinho.

— Diga, que horas eram, afinal?

— — — Ah, depois da meia-noite respondeu o inglês. Fizemos um lanche depois da peça, e…

— — — Certo disse o inspetor. Conhecem muita gente por aqui?

Eles fizeram que não ao mesmo tempo.

— — — Praticamente ninguém disse Lynn. Exceto pelos Brad e por aquele camarada muito interessante, o professor Yardley, e o dr. Temple. Só eles mesmo.

Ellery abriu um sorriso insinuante.

— Algum de vocês por acaso já visitou a ilha Oyster?

O inglês deu um breve sorriso em resposta.

— Sossega aí, camarada. Nudismo não é algo novo para nós. Vimos o bastante na Alemanha.

— — — Além disso acrescentou a sra. Lynn , as pessoas naquela ilha… — Ela estremeceu. — Eu bem concordo com o pobre sr. Brad que eles deveriam ser expulsos.

— — — Humm disse Isham. Alguma explicação a oferecer pela tragédia?

— Estamos deveras perplexos, senhor. Deveras. Mas é amedrontador. Selvagem. — Lynn soltou um muxoxo. — O tipo de coisa que dá um olho roxo ao seu esplêndido país, na visão da Europa.

— — — … Sim, de fato concordou Isham, seco. Obrigado Vamos lá.

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