O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 17 de 36

Páginas do PDF

O mistério da cruz egípcia

14. A chave de marfim

 

A biblioteca estivera lacrada desde a manhã seguinte à descoberta do corpo mutilado de Brad. Isham, Vaughn, Megara, o professor Yardley e Ellery entraram no cômodo; o capitão Swift voltara à doca, e as Brad e Lincoln estavam nos próprios aposentos. O dr. Temple desaparecera havia algum tempo.

Megara ficou em um canto enquanto a busca era realizada; daquela vez, não foi uma inspeção superficial, mas uma expedição que explorou cada rachadura e que não deixou nenhuma partícula de poeira intacta. Isham transformou a escrivaninha em uma cena de massacre, cobrindo-a de corpos destroçados de papéis perdidos. Vaughn assumiu a tarefa de revistar o móvel, cantinho por cantinho. O professor Yardley, por conta própria, se retirou para a alcova onde estava o piano de cauda e se divertiu explorando o armário de partituras.

A descoberta foi feita quase de imediato; ou ao menos uma descoberta, não fazendo diferença se fosse a que Velja Krosac pretendera ou não naquele momento. Foi uma descoberta de enorme importância; e feita por Ellery, enquanto perambulava ao lado do inspetor. Quase por acidente, ou por uma afeição pela meticulosidade, Ellery segurou um canto do divã e afastou-o da parede coberta de livros de forma que ficasse totalmente sobre o tapete chinês, quando antes as pernas traseiras repousavam sobre o chão exposto. Ao fazê-lo, exclamou em voz alta e se abaixou para examinar algo na parte do tapete que estivera escondida sob o divã. Isham, Vaughn e Yardley correram para o lado dele; Megara esticou o pescoço, mas não se mexeu.

— O que foi?

— — — Minha nossa murmurou o inspetor. Entre todos os lugares óbvios. Uma mancha!

— — — Uma mancha de sangue disse Ellery, baixinho. A não ser que a experiência, como o meu venerável professor aqui, seja uma mentora ruim.

Era uma mancha seca escura, destacando-se com a crueza de um selo de cera nos tons dourados do tapete. Próximo a ela — a poucos centímetros de distância — havia uma depressão quadrada no tecido do tapete, o tipo de marca deixada pelo peso da perna de uma cadeira ou mesa que passou muito tempo no mesmo lugar. O formato da depressão não se encaixava com o pé do divã, que tinha a base redonda.

Ellery, se ajoelhando, olhou ao redor. O olhar vagou por um momento, então foram para a escrivaninha, na parede oposta.

— … — Deveria haver começou ele, e empurrou o divã em direção ao centro do cômodo.

Ele assentiu de imediato: a um metro da primeira depressão estava o par dela nas fibras amassadas.

— … — — Mas a mancha Isham franziu a testa. Como ela foi parar embaixo do divã? Quando o interroguei, Stallings me disse que nada fora movido de lugar no cômodo.

— — Isso não exige explicação, exige? observou Ellery ao se levantar. — Nada foi movido… exceto pelo próprio tapete, e seria difícil esperar que Stallings tivesse notado isso.

Seus olhos brilharam ao analisar a biblioteca. Ele estivera certo sobre a escrivaninha; era o único móvel do cômodo que poderia ter deixado marcas no exato formato e tamanho das duas sob o divã. Ele atravessou o cômodo e ergueu uma das pernas de pontas quadradas da escrivaninha. No tapete diretamente abaixo havia uma depressão, bem nítida, como as duas do outro lado do cômodo, com a exceção de que não era tão profunda ou definida.

— — Podemos conduzir um experimentozinho interessante disse Ellery, se empertigando. — Vamos girar esse tapete.

— — — Girar? perguntou Isham. Para quê?

— Para que ele fique como estava na terça à noite, antes de Krosac mudar a posição dele.

O rosto do inspetor Vaughn se iluminou e ele exclamou:

— Meu Deus! Agora entendi. Ele não queria que encontrássemos a mancha de sangue, e não conseguiu se livrar dela!

— — Essa é só metade da história, inspetor observou o professor Yardley —, se entendi a sugestão de Queen.

— — — Você entendeu respondeu Ellery. É apenas uma questão de tirar essa mesa do caminho. O resto é fácil.

Stephen Megara continuava parado em um canto, escutando em silêncio; ele não se mexeu para ajudar os quatro homens. Vaughn ergueu a mesa redonda sem esforço e carregou-a para o corredor. Em poucos minutos, ao posicionar um homem em cada canto do tapete, eles conseguiram puxá-lo de debaixo de todos os móveis pequenos e girá-lo, de forma que a parte que estivera escondida embaixo do divã agora ficasse onde devia estar na noite do assassinato de Brad; do lado oposto do cômodo. As duas depressões, eles viram na mesma hora, se encaixavam com precisão sob as duas pernas dianteiras da escrivaninha. E a mancha de sangue seca…

Isham encarou.

— Atrás da mesa do tabuleiro de damas!

— — Humm. A cena começa a se materializar falou Ellery.

A mancha de sangue ficava sessenta centímetros atrás da cadeira embutida na parede do tabuleiro de damas ao lado da escrivaninha.

— — — Golpeado por trás murmurou o professor Yardley , enquanto praticava o maldito jogo de damas. Talvez soubesse que essa obsessão o meteria em apuros algum dia.

— — O que acha, sr. Megara? perguntou Ellery subitamente, virando-se para o iatista silencioso.

Megara deu de ombros.

— Esse é o seu trabalho, cavalheiro.

— — Eu acho disse Ellery, sentando-se em uma poltrona acolchoada e acendendo um cigarro — que vamos economizar tempo com uma pequena análise improvisada. Alguma objeção, inspetor?

— — — Eu ainda não entendo reclamou Vaughn por que ele giraria o tapete. Quem estava tentando enganar? Nem teríamos descoberto isso se ele não tivesse, como o senhor apontou, deliberadamente deixado uma trilha de volta a esse cômodo por meio daquele cachimbo do sr. Megara.

— Calma, inspetor. Deixe-me pensar por um momento. Está aparente agora… não tem como haver qualquer discordância neste ponto… que Krosac nunca intencionara ocultar permanentemente o fato de que este cômodo foi a cena do crime. Não só ele não queria ocultar esse fato permanentemente, como organizou as coisas de um jeito esperto como o diabo para nos guiar de volta a esse cômodo, no tempo dele, quando sabia que uma inspeção mais cuidadosa do cômodo revelaria a mancha de sangue. Se quisesse ocultar esse fato de modo permanente, ele não teria, para começo de conversa, deixado a trilha do cachimbo de volta para a biblioteca nem deixado a mancha de sangue como está. Pois observe. — Ellery apontou para a tampa aberta da escrivaninha. — Bem à mão, quase acima da mancha de sangue, havia dois frascos de tinta. Suponha que Krosac houvesse deixado o tapete na posição original e virado um desses frascos de tinta de propósito. A polícia teria encontrado o frasco e a mancha, presumido a verdade superficial, de que a tinta fora derramada, por Brad ou outra pessoa, e nunca teria pensado em procurar por uma mancha de sangue embaixo da tinta… Em vez de adotar esse procedimento perfeitamente simples, Krosac se deu ao grande trabalho de girar o tapete, arrumando o cômodo de modo que deixássemos a mancha de sangue passar despercebida na primeira inspeção, fôssemos trazidos de volta a ela pela identificação do cachimbo pelo sr. Megara, e então a encontrássemos em uma segunda inspeção. O ponto essencial é que Krosac não ganhou nada com essas manobras complexas exceto… tempo.

— — — Tudo muito engenhoso disse o professor, aborrecido , mas nem morto que eu entendo por que ele sequer queria que descobríssemos isso tudo.

— — — Caro professor respondeu Ellery , não se precipite. Esta é a minha área. Você é excelente em história antiga, mas o meu forte é a lógica, e eu não baixo a cabeça para ninguém no meu domínio. Rá, rá! Bem, deixe para lá. — Ele ficou sério. — Krosac não queria o encobrimento permanente da cena do crime, mas o atraso da descoberta. Por quê? Três possíveis motivos. Prestem atenção… o sr. Megara em especial; o senhor talvez possa nos ajudar.

Megara fez que sim e se sentou no divã, que fora devolvido à posição anterior contra a parede.

— Um: havia neste cômodo algo perigoso para Krosac que ele queria levar embora mais tarde, visto que, por algum motivo peculiar, não pôde levá-lo embora na noite do assassinato… Dois: havia algo que Krosac queria adicionar ou devolver mais tarde, que ele não conseguiu adicionar ou devolver na noite do assassinato…

— — Segure as pontas um minuto disse o promotor de justiça, que até o momento franzia as sobrancelhas com afinco. — Ambos os motivos parecem razoáveis, pois, nos dois casos, fazer a edícula parecer a cena do crime atrairia a atenção para longe da biblioteca, talvez a deixando acessível ao assassino durante aquele período.

— — — Contradição presente. Errado, sr. Isham respondeu Ellery. Krosac de certo esperava, mesmo que a mancha tivesse passado despercebida na primeira busca, como ele planejara, e a edícula aceita como a cena do crime… Krosac de certo esperava, repito, que a casa estaria sendo vigiada e que ele seria impedido por medidas policiais meramente preventivas de levar embora ou trazer algo mais tarde. Mas há uma objeção ainda mais importante às duas primeiras possibilidades, cavalheiros.

“Se Krosac quisesse voltar aqui e, dessa forma, deliberadamente fez com que a edícula parecesse ser a cena do crime, com certeza seria vantajoso para ele fazê-la parecer ser a cena do crime definitiva. Isso lhe daria oportunidades e tempo ilimitados para conseguir acesso à biblioteca. Mas não o fez… ele, de maneira deliberada, deixou uma trilha de volta a esse cômodo, o que, se a conjectura que mencionei estiver correta, seria a última coisa que ele faria. Então eu digo: nenhuma das duas primeira teorias é plausível.”

— — — Estou perdido afirmou Vaughn, com desprezo. Tem invenção de moda demais para mim.

— — — Cale a boca, camarada retrucou Isham, áspero. Esse não é um dos métodos grosseiros da polícia, Vaughn. Admito que não é uma forma ortodoxa de solucionar um crime, mas parece fazer sentido. Vá em frente, sr. Queen. Estamos escutando.

— — Inspetor, considere-se publicamente repreendido disse Ellery. — Terceira possibilidade: que haja algo agora na biblioteca que também estava lá na noite do assassinato, que (uma abundância de “quês”) não seja perigoso para o criminoso, que ele não planejava levar embora mais tarde, que queria que a polícia encontrasse, mas que não queria que fosse encontrado pela polícia até o retorno do sr. Megara.

— — — Nossa! exclamou Vaughn, jogando as mãos para o alto. Tirem-me daqui.

— — Não dê ouvidos a ele, sr. Queen falou Isham.

Megara semicerrou os olhos para Ellery e disse:

— Vá em frente, sr. Queen.

— — — Visto que somos almas prestativas continuou Ellery , é claro que devemos procurar e encontrar o que Krosac planejava que encontrássemos apenas quando o sr. Megara estivesse em cena… Sabe — adicionou ele, pensativo —, eu sempre tive a impressão… e acho que vai concordar, inspetor… de que quanto mais o assassino se envolve, mais erros ele está apto a cometer. Chamemos o nosso amigo Stallings aqui por um momento.

O detetive à porta gritou:

— Stallings!

O mordomo apareceu com uma pressa contida.

— — — Stallings começou Ellery , você conhece esse cômodo muito bem, não conhece?

Ele tossiu.

— Modéstia à parte, senhor, eu o conheço tão bem quanto o próprio sr. Brad o conhecia.

— — Fico arrebatado em ouvir isso. Dê uma olhada ao redor.

Stallings, obediente, deu uma olhada ao redor. — Está tudo em ordem? Alguma coisa foi adicionada? Tem alguma coisa aqui que não deveria estar aqui?

Stallings deu um breve sorriso e começou a caminhar com pompa pela biblioteca. Ele espiou em cantinhos, abriu gavetas, investigou o interior da escrivaninha… Levou dez minutos, mas, ao concluir a inspeção, afirmou:

— Este cômodo está exatamente como da última vez que o vi, senhor… Quero dizer antes de o sr. Brad ser morto… exceto, senhor, pela mesa retirada.

Todos sentiram que não havia mais o que perguntar. Mas Ellery foi persistente.

— Mais nada foi tirado do lugar ou levado embora?

O mordomo balançou a cabeça, enfático.

— Não, senhor. A única coisa que está realmente diferente é aquela mancha, senhor — afirmou ele, apontando para o tapete. — Ela não estava ali na noite de terça, quando eu saí da casa. E o tabuleiro de damas…

— — O que tem o tabuleiro? perguntou Ellery.

Stallings deu de ombros com decoro.

— As peças. É claro, a posição delas está diferente. O sr. Brad naturalmente continuou jogando depois que eu saí.

— — — Ah disse Ellery, aliviado. Excelente, Stallings. Você tem em si as delicadas aptidões de um Sherlock, uma memória fotográfica… Isso é tudo.

Stallings lançou um olhar reprovador para Stephen Megara, que encarava a parede de mau humor e tragava um charuto das Índias Ocidentais, e saiu do cômodo.

— — — Agora recomeçou Ellery, cheio de energia , vamos nos espalhar.

— — Mas o que diabos estamos procurando? resmungou Vaughn.

— Céus, inspetor, se eu soubesse, não precisaríamos fazer uma busca!

A cena que se sucedeu teria sido ridícula a qualquer observador além de Stephen Megara; aquele homem, ao que parecia, carecia da habilidade da risada. O espetáculo de quatro homens adultos engatinhando por um cômodo, dando o seu melhor para escalar paredes e dar pancadinhas em gesso e madeira, revirando o recheio das almofadas do divã, puxando com cuidado pernas e braços de cadeiras, divã, escrivaninha, tabuleiro de damas… uma situação à la Alice no País das Maravilhas. Depois de quinze minutos de busca infrutífera, Ellery, amarrotado, acalorado e muito aborrecido, se ergueu e se sentou ao lado de Megara, mergulhando em um devaneio. Pela expressão do rosto dele, o sonho acordado tinha mais a natureza de um pesadelo. O professor, nem um pouco desencorajado, perseverou; divertia-se bastante ao engatinhar, com a sua altura desajeitada curvada, pelo tapete. Em um momento, ele se empertigou e ergueu o olhar para o lustre antiquado.

— — Ora, esse seria um esconderijo incomum murmurou ele, e no mesmo instante se pôs a subir em uma cadeira e remexer os ornamentos de cristal do lustre.

Havia um fio defeituoso ou exposto em algum lugar, pois ele subitamente gritou e desabou no chão. Vaughn resmungou e ergueu outro pedaço de papel contra a luz; o inspetor se dedicava à teoria, pelo que parecia, de que uma mensagem fora escrita em tinta invisível. Isham sacudia as cortinas; ele já havia desenrolado as persianas das janelas e procurado interiores ocos nas luminárias. Era tudo satisfatório, surreal e inútil.

Todos eles, em algum momento, lançaram olhares especulativos para os livros que enchiam as estantes embutidas, mas ninguém tomara a iniciativa de examiná-los. A enormidade da tarefa de inspecionar aquela miríade de volumes um por um parecia desencorajar até mesmo um começo.

Ellery se reclinou para trás subitamente e disse:

— Que bando de grandes tolos nós somos! Correndo atrás dos próprios rabos como cachorrinhos… Krosac queria que voltássemos e procurássemos uma pista neste cômodo. Então queria que a encontrássemos. Ele não a colocaria em um lugar que exigiria o talento combinado de um Houdini e um cão de caça para ser encontrado. Por outro lado, a esconderia em um lugar não tão óbvio a ponto de ser encontrada em uma busca superficial, mas ainda assim não tão obscuro a ponto de nunca ser encontrada, mesmo com uma busca minuciosa. Quanto a você, professor, por favor lembre-se, quando tentar explorar lustres de novo, de que Krosac provavelmente não tem tanta familiaridade com este cômodo a ponto de saber onde haveria espaços ocos em pernas de móveis ou luminárias… Não, o esconderijo é um lugar perspicaz, mas acessível.

— — — — Belo discurso disse Vaughn, sarcástico , mas onde? Ele estava cansado e pingando suor. — Conhece algum esconderijo, sr. Megara?

O cavanhaque do professor Yardley se projetou como a barba falsa de um faraó egípcio quando Megara fez que não com a cabeça.

Ellery falou:

— Isso me lembra uma busca bem familiar que o meu pai, o promotor de justiça assistente Cronin e eu fizemos há não muito tempo enquanto investigávamos o assassinato daquele advogado desonesto, Monte Field, que foi envenenado (lembram?) no teatro romano durante uma apresentação de Gunplay. Nós encontramos a pista em um…

Os olhos do professor reluziram, e ele atravessou o cômodo correndo até a alcova que abrigava o piano de cauda. Isham revistara a alcova havia alguns minutos. Mas Yardley não deu atenção ao corpo do instrumento nem à cadeira do piano ou ao armário de partituras. Ele apenas se sentou na cadeira e, com toda a seriedade que Ellery se lembrava das aulas do professor na universidade, começou na primeira nota grave do piano e avançou com o indicador em direção ao agudo, uma nota por vez, pressionando cada tecla lentamente.

— — Uma análise astuta, Queen disse ele ao tocar uma nota depois da outra. — Deu-me uma inspiração positiva… Imagine que eu fosse Krosac. Quero esconder algo… pequeno, digamos, fino. Tenho apenas tempo e conhecimento limitados do local. O que faria? Aonde iria… — Ele parou por um momento; a nota que tocava estava desafinada. Ele apertou-a diversas vezes, mas quando ficou aparente que a nota estava meramente fora do tom, continuou a exploração ascendente. — Krosac quer um lugar que não seja descoberto até que ele esteja pronto; que não seja descoberto nem por acidente. Ele olha ao redor… e ali está o piano. Agora se atentem a isso: Brad está morto; esse cômodo é de Brad. É certo, pensa ele, que ninguém vai tocar um piano no escritório particular de um homem morto… não por agora, pelo menos. E dessa forma…

— — Um verdadeiro triunfo do intelecto, professor! exclamou Ellery. — Eu mesmo não faria melhor!

E, bem como se o concerto tivesse sido programado para começar na conclusão imediata daquele modesto programa, o professor fez a sua descoberta. A onda uniforme da escala fora interrompida; ele chegara a uma tecla teimosa que se recusava a ceder.

— — Eureca disse Yardley, com uma expressão de profunda incredulidade no rosto.

Ele parecia um homem que aprendera um truque de mágica e ficara atônito ao descobrir, na primeira tentativa, que o truque funcionava.

Eles se aglomeraram, Megara tão ansioso quanto o resto. A tecla se recusava a descer mais do que seis milímetros, apesar de todos os esforços do professor. E, de repente, ela emperrou por completo, se recusando até mesmo a se erguer de novo.

Ellery disse com perspicácia:

— Só um segundo.

E tirou do bolso o pequeno kit que sempre carregava a despeito do escárnio do pai. Selecionou uma agulha longa do kit e começou a cutucar as frestas entre a tecla teimosa e as vizinhas. Após um momento de trabalho, a pontinha de um chumaço de papel apareceu entre duas teclas de marfim.

Todos se empertigaram, suspirando. Ellery puxou o chumaço delicadamente para fora. Em silêncio, eles o cercaram e recuaram de volta para a biblioteca. O papel fora achatado e amassado; Ellery o desdobrou com cuidado e esticou-o na mesa.

O rosto de Megara estava inescrutável. Quanto aos outros, nenhum deles, inclusive o próprio Ellery, poderia ter profetizado a extraordinária mensagem transmitida pelo texto rabiscado com força no papel.

 

À polícia:

Se eu for assassinado — e tenho boa razão para acreditar

que um atentado será feito contra a minha vida —,

investiguem imediatamente o assassinato do professor de

Arroyo (Virgínia Ocidental), Andrew Van, que foi encontrado

crucificado e decapitado no último Natal.

Concomitantemente, notifiquem Stephen Megara, seja lá

onde ele esteja, para que volte de imediato a Bradwood.

Diga a ele para não acreditar que Andrew Van está morto.

Só Stephen Megara saberá onde encontrá-lo.

Por favor, se prezam pela vida de pessoas inocentes,

mantenham isso em absoluto segredo. Não façam qualquer

movimento até que Megara os aconselhe sobre o que fazer.

Van, assim como Megara, precisará de proteção.

Isso é tão importante que preciso repetir o meu aviso para

deixar Megara guiar o caminho. Vocês estão lidando com um

monomaníaco que não parará por nada.

 

O bilhete estava assinado — era inegavelmente genuíno, como comprovado por uma imediata comparação com outras amostras da letra do homem na escrivaninha — por Thomas Brad.

OceanofPDF.com