O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 11 de 36

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O mistério da cruz egípcia

8. Ilha Oyster

 

 

A enseada de Ketcham era um semicírculo tosco recortado na costa da propriedade de Thomas Brad. No centro do arco de praia, oscilava um grande píer, onde vários barcos motorizados e uma lancha estavam atracados. Ellery, que voltara com os dois parceiros para a estrada a oeste e seguira por ela em direção à água, se encontrava em um píer menor a várias centenas de metros dos ancoradouros principais. A pouco mais de um quilômetro sobre a água, se estendia a ilha Oyster. O litoral fazia parecer que a ilha fora arrancada do continente, ficando ligeiramente distendida no processo. Ellery não conseguia ver o outro lado da ilha, mas julgava que o contorno houvesse inspirado o nome.

Ilha Oyster, ou “ilha ostra”, instalada como uma pedra preciosa verde no plano de fundo turquesa do estuário Long Island, estava tão distante que a sua aparência externa indicava um emaranhado intocado de floresta nativa. As árvores e os arbustos selvagens se estendiam quase até a linha da água. Não… havia uma pequena doca. Ao estreitar os olhos, era possível enxergar a silhueta cinza instável. Mas não havia qualquer outra estrutura construída pelo homem à vista.

Isham avançou pelo píer e gritou “Oi!” para uma lancha policial que navegava sem rumo de um lado para o outro entre o continente e a ilha Oyster. Pelo pequeno estreito a oeste, Ellery viu a popa de outra lancha policial; ela patrulhava perto da costa, percebeu, ao vê-la desaparecer atrás da ilha.

A primeira lancha avançou em direção à terra e chegou depressa ao píer.

— — Bem, lá vamos nós disse Vaughn, ao entrar na lancha, em uma voz um tanto tensa. — Vamos, sr. Queen. Este pode ser o fim.

Ellery e Isham saltaram para dentro, e a lancha fez um desvio acentuado, avançando diretamente para o centro da ostra.

Eles cortaram caminho pela enseada. Aos poucos, a vista da ilha e do continente se tornava mais nítida. Não muito distante do píer onde haviam embarcado, notavam agora, havia um píer similar a oeste; evidentemente para uso dos Lynn. Uma canoa, amarrada em um dos postes, desbotava ao sol. No ponto correspondente a leste, do outro lado da enseada, uma réplica do píer dos Lynn era visível.

— — O dr. Temple mora ali, não é? perguntou Ellery.

— — Sim. Aquela deve ser a doca dele. O píer leste estava vazio.

A lancha rasgava a água. Ao se aproximarem da pequena doca da ilha Oyster, os detalhes tornaram-se visíveis. Eles ficaram em silêncio, observando-a aumentar.

De repente, o inspetor Vaughn se levantou de um salto, o rosto tomado de empolgação, e gritou:

— Tem algo acontecendo ali!

Eles encararam a doca. A silhueta de um homem carregando nos braços uma mulher que se debatia e soltava gritos fracos disparou para fora dos arbustos, saltou com dificuldade para dentro de um minúsculo barco com motor externo, que eles agora viam estar amarrado ao lado oeste da doca. O homem jogou a mulher de qualquer jeito na bancada do barco, ligou o motor e, com pressa, guiou a embarcação para longe da doca, avançando na direção da lancha policial. A mulher estava imóvel, como se atordoada; eles viram o rosto escuro do homem quando ele se virou rapidamente para olhar de volta para a ilha.

Menos de dez minutos depois da fuga — se é que era uma fuga —, uma aparição assombrosa surgiu do meio da mata, seguindo o mesmo caminho dos fugitivos.

Era um homem nu. Um sujeito alto, grande, de pele escura e músculos abundantes, com o cabelo preto voando ao vento. Tarzan, pensou Ellery; ele estava quase pronto para ver a tromba do companheiro elefantino e improvável de Tarzan surgir do arbusto às suas costas. Mas onde estava a tanga…? Eles conseguiram ver a expressão de decepção dele ao parar bruscamente na doca, olhando feio para o barco que se afastava. O homem ficou parado por um momento, braços definidos relaxados ao lado do corpo, inconsciente da própria nudez. Ele só tinha olhos para o motor de popa, e o homem no barco retribuía com um olhar tenso, aparentando ignorância ao que estava no caminho da embarcação.

Então, tão de repente que Ellery até piscou, o homem nu desapareceu. Ele executara um mergulho rápido da beira da doca, rasgando a água como um arpão. Reapareceu quase imediatamente e se lançou em um nado veloz na direção dos fugitivos.

— — — Que tolo maldito! exclamou Isham. Ele espera ultrapassar um barco a motor?

— — O barco parou observou Ellery, seco.

Isham lançou um olhar aguçado para o barco, sobressaltado. Estava inerte na água a cem metros da praia, e o seu piloto tentava ligar o motor de popa freneticamente.

— — — Acelere! gritou o inspetor Vaughn para o piloto da polícia. Aquele cara está com um olhar assassino!

A lancha rugiu, e a sirene soltou um grunhido grosso que ecoou atrás da ilha. Como se consciente da presença da lancha pela primeira vez, o homem no barco e o homem na água paralisaram em busca da fonte do alarme. O nadador, avançando pela água, encarou por um segundo, então sacudiu o cabelo de maneira feroz e mergulhou. Ele reapareceu um momento depois e retomou o nado rápido, mas daquela vez voltando para a ilha como se todos os demônios do inferno estivessem na sua cola.

A garota na bancada se sentou e encarou. O homem afundou sem forças no centro do barco e acenou para a lancha.

Eles emparelharam com o barco no momento em que o homem nu subia da água para a costa. Sem olhar para trás, ele se jogou para a proteção da mata e desapareceu.

Surpreendentemente, quando a embarcação da polícia se enganchou no barco a motor inerte, o homem jogou a cabeça para trás e riu; uma risada grossa e calorosa de puro alívio e satisfação.

Era um indivíduo magro e definido de idade indeterminada, com cabelo castanho e rosto quase roxo de tão queimado; uma tez que só podia ser o resultado de longos anos sob o sol equatorial. Os olhos também pareciam desbotados; eram de um cinza aguado, quase sem cor. A boca era como uma armadilha; os músculos da mandíbula sustentavam a bochecha roxa feito vigas de aço. Ellery o julgou uma figura formidável de maneira geral, apesar da sua fuga, ao observar o homem rolar dentro do barco em total êxtase de alegria.

A mulher que esse homem notável sequestrara só poderia ser, pela semelhança com Jonah Lincoln, a rebelde Hester. Era uma moça comum, mas de boa compleição. De ótima compleição, como os constrangidos homens da lancha policial não tiveram dificuldade de notar; por mais que houvesse um casaco masculino ao redor dos ombros — o homem risonho, notou Ellery, estava sem casaco —, por baixo ela estava escassamente coberta por um pedaço sujo de lona, como se alguém tivesse coberto a nudez à força com o primeiro trapo que arranjou.

Ela retribuiu os olhares com olhos azuis preocupados, então corou e tremeu, baixando a cabeça. As mãos deslizaram discretamente para o colo.

— — — Do que você está rindo? perguntou o inspetor, exigente. E quem é você? Por que está sequestrando essa mulher?

O homem sem casaco secou uma lágrima.

— — — Não o culpo arquejou ele. Meu Deus, isso foi engraçado! — — Ele expulsou o resquício de júbilo do rosto sério e se levantou.

Desculpe. Meu nome é Temple. Esta é a srta. Hester Lincoln. Obrigado pelo resgate.

— — Entre a bordo grunhiu Vaughn.

Isham e Ellery ajudaram a mulher silenciosa a entrar na lancha.

— — Ora, espera aí interveio o dr. Temple, brusco. Não havia mais humor na expressão dele; estava sombria de desconfiança. — Quem são vocês, afinal?

— Polícia. Venha, venha!

— — Polícia! O homem estreitou os olhos e subiu lentamente na lancha. Um detetive amarrou o barco à proa da embarcação maior. O dr. Temple olhou de Vaughn para Isham para Ellery. A garota se jogara em um assento e olhava para o chão. — Ora, que estranho. O que houve?

O promotor de justiça Isham contou a ele. O rosto do homem ficou lívido, e Hester Lincoln ergueu a cabeça com os olhos cheios de horror.

— — — … Brad! murmurou dr. Temple. Assassinado Não parece possível! Ora, ontem de manhã mesmo eu o vi, e…

— — — … Jonah começou Hester, tremendo. Ele está está bem?

Ninguém respondeu. O dr. Temple mordia o lábio inferior; uma expressão muito pensativa tomara os seus olhos pálidos.

— … — Os senhores viram os Lynn? perguntou ele em uma voz peculiar.

— Por quê?

Temple ficou quieto; então sorriu e deu de ombros.

— … — Ah, nada. Só uma pergunta amigável Pobre Tom. Ele se sentou e olhou por cima da água para a ilha Oyster.

— — Volte para a propriedade de Brad ordenou Vaughn.

A lancha agitou a água e começou a avançar de volta para o continente.

Ellery notou a silhueta alta e estranha do professor Yardley parado no grande píer e acenou. Yardley acenou de volta com um braço desengonçado.

— — Agora, dr. Temple disse o promotor de justiça Isham em tom sombrio —, suponho que vá começar a enrolação. O que foi aquela grande cena de sequestro e quem, em nome de Deus, era aquele lunático pelado seguindo vocês?

— … É lamentável Imagino que seja melhor eu contar a verdade. Hester… me perdoe.

A garota não respondeu; parecia aturdida pela notícia da morte de Thomas Brad.

— … — A srta. Lincoln foi prosseguiu o homem queimado de sol. — Bom, digamos que um pouco impulsiva. Ela é jovem, e certas coisas fazem os jovens perderem a cabeça.

— — Ah, Victor disse Hester em uma voz cansada.

— — — Jonah Lincoln continuou o dr. Temple com uma careta não tomou… como dizer? Ele não cumpriu o seu dever, na minha opinião, em relação à irmã.

— sua Na opinião — retrucou a garota, cheia de amargura.

— … — Sim, Hester, porque eu sinto Ele mordeu o lábio de novo. — De qualquer forma, quando uma semana se passou e Hester não havia voltado daquela maldita ilha, achei que já passara da hora de alguém trazê-la de volta à razão. Já que parecia que ninguém conseguia fazê-lo, eu assumi a tarefa. Nudismo! — Ele bufou. — Perversão, é o que essas pessoas praticam. Eu não sou médico à toa. Eles são um bando de impostores tirando vantagem das inibições de pessoas decentes.

A garota arquejou.

— Victor Temple! Você tem noção do que está dizendo?

— — Perdoe-me a intromissão interveio o inspetor suavemente — , mas posso perguntar por que é da sua conta que a srta. Lincoln queira passear por aí sem roupas? Ela parece maior de idade.

O dr. Temple trincou a mandíbula com força.

— — — Se precisa saber respondeu com irritação , sinto que tenho o direito de interferir. Emocionalmente, ela é apenas uma criança, uma adolescente. Deixou-se levar por um belo físico e um papinho sedutor.

— — Está falando de Paul Romaine, imagino comentou Ellery com um sorriso cínico.

O médico assentiu.

— Sim, aquele canalha pérfido! Ele é o símbolo vivo daquele culto maluco ao sol. O sol está bem onde deveria estar… Fui lá essa manhã fazer uma ronda. Eu e Romaine tivemos uma pequena briga. Como homens da caverna! Foi ridículo, e é por isso que eu ri agora há pouco. Mas foi sério na hora, e ele é bem mais forte do que eu. Notei que ia me ferrar, peguei a srta. Lincoln da forma apropriada e saí correndo. — Ele sorriu com ironia. — Se não fosse pelo fato de que Romaine tropeçou e bateu a cabeça dura em uma pedra, temo dizer que eu levaria uma bela surra. E eis a história do grande rapto.

Hester encarou-o inexpressivamente; tremia com toda aquela agitação.

— … — Mas ainda não vejo que direito o senhor tinha começou Isham.

O dr. Temple se levantou, o rosto tomado por uma expressão feroz.

— Realmente não é da sua conta, maldição, seja lá quem você seja. Mas espero tornar esta jovem minha esposa um dia. Esse é o direito que tenho… Ela está apaixonada por mim, mas não sabe. E, por Deus, eu vou fazer com que saiba!

Ele olhou com raiva para ela e, por um momento, os olhos dela brilharam com uma fúria correspondente.

— — — Esse murmurou Ellery para Isham é o puro êxtase do amor.

— — Hã? disse Isham.

Um soldado segurou a corda no píer principal. O professor Yardley disse:

— … Olá, Queen! Voltei para ver como estava indo Olá, Temple! Novidades?

O dr. Temple fez que sim com a cabeça.

— Acabei de sequestrar Hester, e esses cavalheiros querem me enforcar.

O sorriso de Yardley desvaneceu.

— … Sinto muito

— … — — Hã venha conosco, professor disse Ellery. Acho que precisaremos de você na ilha.

— Boa ideia. Dr. Temple, o senhor disse que viu Brad ontem de manhã? — adicionou o inspetor Vaughn.

— Só por um momento. Quando ele estava de saída para a cidade. Eu o vi na segunda-feira à noite também… anteontem. Parecia perfeitamente normal. Não consigo entender, não consigo mesmo. Alguma suspeita?

— — — Estou perguntando disse Vaughn. Como passou a noite de ontem, doutor?

Temple abriu um sorrisinho.

— … Não vai começar comigo, vai? Eu passei a noite toda em casa

moro sozinho, sabe. Uma mulher vem todo dia para cozinhar e limpar.

— — — Só por formalidade explicou Isham. Nós gostaríamos de saber um pouco mais sobre o senhor.

Temple fez um gesto desanimado.

— O que quiser.

— Há quanto tempo mora aqui?

— … Desde 1921. Sou oficial aposentado do Exército, sabe médico. Estava na Itália quando a guerra estourou e entrei para o corpo médico italiano de forma bem impulsiva; eu era um garoto recém-saído das fraldas e da faculdade de Medicina. Posto de major, baleado uma ou duas vezes… eu estava na Campanha dos Bálcãs e fui capturado como prisioneiro. Não foi muito divertido. — Ele abriu um breve sorriso. — Isso acabou com a minha carreira militar. Fui aprisionado pelos austríacos em Graz por toda a duração da guerra.

— Então veio para os Estados Unidos?

— … Viajei por aí por vários anos recebi uma herança considerável durante a guerra… então voltei para casa. Bem, sabe como as coisas foram para muitos de nós. Velhos amigos perdidos, nenhuma família… o de sempre. Eu me acomodei aqui, e aqui estou desde então, vivendo como um senhor de terras.

— — — Obrigado, doutor disse Isham com mais cordialidade. Vamos deixá-lo aqui e… — Um pensamento lhe ocorreu. — É melhor voltar para a casa dos Brad, srta. Lincoln. Pode haver alvoroço lá na ilha. Vou providenciar que as suas coisas sejam enviadas de volta.

Hester Lincoln não ergueu o rosto. Mas havia uma dureza teimosa no seu tom ao dizer:

— não Eu vou ficar aqui. Vou voltar.

O sorriso do dr. Temple murchou.

— — — Voltar! exclamou ele. Está louca, Hester? Depois de tudo o que aconte…

Ela tirou bruscamente o casaco dos ombros; o sol reluziu em sua pele bronzeada e os olhos brilharam em harmonia.

— Não receberei ordens do senhor ou de mais ninguém, dr. Temple! Vou voltar, e o senhor não pode me impedir. Não ouse.

Vaughn lançou um olhar desanimado para Isham, que começou a resmungar de raiva.

Ellery disse, com a voz arrastada:

— Ah, vamos lá. Vamos todos voltar. Acho que pode acabar se provando uma aventura.

 

E novamente a lancha cruzou as águas da enseada de Ketcham, daquela vez chegando à pequena doca de desembarque sem problemas. Ao subirem no píer, com uma Hester séria e recusando qualquer ajuda, eles se sobressaltaram com a aparição do que, ao primeiro olhar, parecia ser um fantasma.

Era um velhinho desgrenhado e de barba castanha, com olhos fanáticos. Estava coberto por uma túnica branquíssima. Usava sandálias curiosas. Na mão direita segurava um bastão tosco e peculiar com a representação de uma cobra mal entalhada no topo… Ele saiu calmamente dos arbustos, estufou o peito magrelo e encarou-os, altivo.

Atrás dele assomava o nadador pelado; exceto que ele tinha, no ínterim, se vestido com uma calça de lona branca e uma regata. Os pés estavam descalços.

Os dois grupos se encararam por um instante, então Ellery disse, com simpatia calorosa:

— Ora, se não é Harakht em pessoa!

O professor Yardley sorriu em meio à barba.

O homenzinho fantasma se sobressaltou, olhando na direção de Ellery. Mas o brilho neles não refletia um pingo de reconhecimento.

— — Esse é meu nome anunciou ele com a voz límpida e estridente. — Vocês são adoradores do santuário?

— seu Vou adorar no santuário, seu serzinho desprezível — rosnou o inspetor Vaughn, avançando e agarrando o braço de Harakht. — Você é o golpista chefe desse carnaval, não é? Onde fica o seu barraco? Queremos falar com você.

Harakht, desamparado, se virou para o acompanhante.

— Paul, está vendo? Paul!

— — Ele deve ter gostado do nome murmurou o professor Yardley. — Um raro discípulo!

Paul Romaine não desviou o olhar; ele encarava o dr. Temple, que retribuía o olhar com interesse. Hester, notou Ellery, havia se esgueirado para dentro do mato.

Harakht voltou a olhar para a frente.

— Quem são vocês? Qual é a sua missão? Somos um povo pacífico.

Isham bufou, e Vaughn resmungou:

— O Moisés em pessoa. Olha só, vovô. Somos a polícia, entende, e estamos procurando um assassino!

O velho homenzinho se encolheu como se Vaughn o tivesse golpeado; os lábios acinzentados tremeram e ele arquejou:

— De novo! De novo! De novo!

Paul Romaine ganhou vida. Ele afastou Harakht para o lado de um jeito brusco e avançou um passo para confrontar o inspetor.

— Fale comigo, seja lá quem seja. O velho é meio doido. Está procurando um assassino? Vá em frente e procure. Mas o que isso tem a ver conosco?

Ellery o admirou; o homem era um espécime animal esplêndido, bonito e com uma masculinidade magnética que tornava fácil entender por que mulheres de natureza reprimida ou sentimental morreriam de amores por ele.

Isham perguntou em voz baixa:

— Onde você e esse lunático estavam ontem à noite?

— Bem aqui na ilha. Quem foi morto?

— Você não sabe?

— Não! Quem?

— Thomas Brad.

Romaine piscou.

— … Brad! Bem, estava provavelmente chegando a hora dele E

daí? Estamos livres de suspeita. Não temos nada a ver com aquelas velhas lamuriosas no continente. Só queremos ser deixados em paz!

O inspetor Vaughn afastou Isham com gentileza; o próprio inspetor não era nenhum fracote, e os seus olhos ficavam bem alinhados com os de Romaine ao se encararem.

— — Vamos lá disse Vaughn, cravando os dedos no pulso do homem —, mantenha a civilidade no linguajar. Está falando com o promotor de justiça deste país, e o inspetor da polícia. Responda às perguntas como um bom menino, ouviu?

Romaine contorceu o braço, mas os dedos de Vaughn eram de ferro e permaneceram fechados em torno do pulso grosso.

— — — Ah, tudo bem balbuciou ele , se é assim que você quer. É só que ninguém nos deixa em paz. O que querem saber?

— Quando foi a última vez que você e o Chefe Baboseira aí atrás saíram da ilha?

Harakht começou, estridente:

— Paul, vamos embora! Eles são infiéis!

— Fique quieto! O velho não saiu daqui desde que chegamos. Eu fui ao vilarejo há uma semana para buscar suprimentos.

— — — Agora sim. O inspetor soltou o braço de Romaine. Vamos lá. Queremos ver a sua sede, ou templo, ou seja lá como vocês chamam.

 

Em fila única, eles seguiram a incongruente figura de Harakht por uma trilha que levava da costa até o coração da ilha, passando pelo meio da mata. A ilha era de uma quietude curiosa naquele momento; parecia haver poucos pássaros e insetos, e nenhum ser humano. Romaine marchava à frente, mostrando-se indiferente; aparentava ter se esquecido da presença do dr. Temple, que seguia os seus passos, observando as costas musculosas com olhos atentos.

Era evidente que Romaine havia soado um alarme antes da chegada do grupo investigativo, pois quando eles emergiram da mata em uma grande clareira, onde ficava a casa — uma enorme estrutura de madeira com ripas esparsas construída de forma rústica —, os membros do culto de Harakht esperavam por eles, todos vestidos. Fora um alerta apressado, pois os neófitos, somando uns vinte homens e mulheres de todas as idades e descrições, estavam trajados em trapos. Romaine rosnou algo indistinguível, e, como uma comunidade de trogloditas, eles se dispersaram de volta para várias alas da casa.

O inspetor não fez qualquer comentário; não estava interessado em infrações da lei de decência pública naquele momento.

Harakht seguiu em frente, alheio; segurava o ureu caseiro erguido à frente e movia os lábios no que se presumia ser uma reza. Ele guiou o caminho pelos degraus da construção central até o que era aparentemente o “santuário” — um cômodo impressionante, extenso, adornado com mapas astronômicos, estátuas de gesso de Hórus, o deus egípcio com cabeça de falcão, chifres de vaca, um sistro, um disco emblemático sustentando um trono, e um tipo curioso de púlpito cercado de tábuas de madeira crua cujo uso era, ao menos para Ellery, obscuro. O cômodo não tinha teto, e o sol de fim de tarde lançava longas sombras nas paredes.

Harakht foi diretamente para o altar, como se ali encontrasse segurança, e, ignorando os visitantes, ergueu os braços finos e ossudos para o céu e começou a murmurar em uma língua estranha.

Ellery olhou inquisitivamente para o professor Yardley, que estava imóvel, alto e feio, escutando com atenção.

— — — Extraordinário murmurou o professor. Esse homem é um anacronismo. Escutar um ser humano do século XX falar egípcio antigo…

Ellery ficou perplexo.

— Quer dizer que esse homem realmente sabe do que está falando?

Yardley sorriu com tristeza e sussurrou:

— Esse homem é louco. Mas teve um bom motivo para enlouquecer, e quanto à autenticidade do seu discurso… Ele se autodenomina Ra-Harakht. Na verdade, ele é, ou era, um dos maiores egiptólogos do mundo!

As palavras sonoras continuaram. Ellery balançou a cabeça.

— — — Eu pretendia lhe contar sussurrou o professor , mas não tivemos um momento a sós. Reconheci-o no instante em que o vi, há algumas semanas, quando remei até a ilha em uma exploração cujo único propósito era satisfazer a minha curiosidade… História interessante. O nome dele é Stryker. Sofreu uma insolação terrível enquanto escavava no Vale dos Reis anos atrás, e nunca se recuperou. Pobre sujeito.

— … — Mas falando egípcio antigo! protestou Ellery.

— Ele está entoando uma reza sacerdotal para Hórus; na linguagem hierática. Esse homem — disse Yardley, sério —, era autêntico, que fique claro. Naturalmente, está confuso agora, e a memória não funciona como deveria. A insolação distorceu tudo o que ele já soube. Não existe algo como esse cômodo, por exemplo, em um senso egiptológico. É um conglomerado… O sistro e os chifres de vaca são sagrados para Ísis, o ureu é o símbolo da divindade, e tem um quê de Hórus. Quanto aos acessórios, as placas de madeira onde, suponho, os adoradores se reclinam durante cerimônias, uma apropriação bíblica… — O professor deu de ombros. — Foi tudo misturado pela sua imaginação e pelos destroços do seu cérebro.

Harakht abaixou os braços, pegou um incensário de um recuo no altar, salpicou as pálpebras, então desceu do púlpito em silêncio. Até mesmo sorria, e parecia mais racional.

Ellery o analisou com um novo olhar. Louco ou não, o homem como uma figura autêntica tornou-se um problema totalmente diferente. O nome Stryker, agora que ele o ruminara na memória, emanava um leve sabor de familiaridade. Anos atrás, quando estava na escola preparatória particular… Sim, era o mesmo homem sobre o qual ele lera. Stryker, o egiptólogo! Murmurando uma linguagem morta havia séculos…

Ellery se virou e encontrou Hester Lincoln, vestindo uma saia curta e um suéter, encarando-os de um batente baixo do lado oposto do cômodo. O rosto comum, apesar de pálido, exibia uma determinação ferrenha. Ela não olhou para o dr. Temple, mas atravessou o cômodo para se pôr abertamente ao lado de Paul Romaine. Segurou a mão dele. Para a surpresa de todos, ele ficou vermelho-beterraba e afastou-se um pouco.

O dr. Temple sorriu. O inspetor Vaughn não seria dissuadido por frivolidades. Caminhou até Stryker, que observava os seus inquisidores tranquilamente, e disse:

— Pode responder algumas perguntas simples?

O louco inclinou a cabeça.

— Pergunte.

— Quando você saiu de Weirton, Virgínia Ocidental?

Seus olhos brilharam.

— kuphi Depois do rito de , há cinco luas.

— Quando? — guinchou Vaughn.

O professor Yardley tossiu.

— Acho que sei o que ele está tentando dizer, inspetor. O rito de kuphi , como ele o chama, era praticado pelos antigos sacerdotes egípcios ao pôr do sol. Consistia em uma cerimônia elaborada durante a qual o kuphi, uma preparação feita com uns dezesseis ingredientes (mel, vinho, resina, mirra e assim vai), era misturado em um incensário enquanto as escrituras sagradas eram lidas. Naturalmente, ele está se referindo a uma cerimônia similar realizada há cinco luas no pôr do sol; janeiro, é claro.

Foi enquanto o inspetor Vaughn assentia e Stryker sorria de modo solene para o professor que Ellery soltou um urro ressonante que fez todos pularem:

— Krosac!

Seus olhos se iluminaram ao observar o deus do sol e o gerente de negócios.

O sorriso de Stryker desapareceu, e os músculos ao redor da sua boca começaram a se contrair. Ele se encolheu em direção ao altar. Romaine ficou imóvel; um tanto perplexo, pela expressão.

— — — Perdão disse Ellery. Eu faço isso às vezes. Prossiga, inspetor.

— — — Não foi tão estúpido assim. Vaughn deu um sorrisinho. Harakht, onde está Velja Krosac?

Stryker umedeceu os lábios.

— … Krosac Não, não! Eu não sei. Ele abandonou o santuário. Fugiu.

— você Quando foi que se juntou a esse tonto? — perguntou Isham, apontando o indicador para Romaine.

— — — Que história é essa de Krosac? rosnou Romaine. Só o que sei é que eu me juntei ao velho em fevereiro. Achei que ele tinha uma boa ideia.

— Onde foi isso?

— — Pittsburgh. Pareceu uma ótima oportunidade para mim

continuou Romaine, encolhendo os ombros largos. — É claro que toda essa… — ele abaixou a voz — essa tolice sobre deuses do sol… É bom para os caipiras, mas meu único interesse é fazer as pessoas tirarem as roupas fedidas e pegarem sol. Olhe para mim! — Ele inalou profundamente, e o seu tórax magnífico se inflou como um balão. — Não estou doente, estou? Isso é porque eu permito que os benéficos raios de sol cheguem à minha pele e abaixo dela…

— — — Ah, cale a boca disse o inspetor. Já sei o roteiro, o papo de vendedor de sempre. Eu uso roupas desde que saí do berço, e poderia torcer você com meu mindinho. Como foi que veio parar aqui, na ilha Oyster?

— — — Poderia, é? As costas de Romaine se endireitaram. Ora, policial ou não, imagino que você poderia tentar um dia! Eu ado…

— — Foi arranjada guinchou Stryker, ansioso.

— — — Arranjada? Isham franziu a testa. Por quem?

Stryker recuou.

— Foi arranjada.

— — — Ah, não dê ouvidos a ele! desdenhou Romaine. Quando fica teimoso, não dá para tirar uma palavra sensata dele. Quando me juntei a ele, disse a mesma coisa. Foi arranjada… a vinda para a ilha Oyster.

— … Antes que você se tornasse a divindade parceira dele, é isso? — perguntou Ellery.

— Isso mesmo.

Eles pareciam ter chegado a um beco sem saída. Era evidente que, louco ou não, o egiptólogo vítima de insolação não poderia ser persuadido a proferir outro pensamento coerente. Romaine não sabia, ou professava não saber, sobre os acontecimentos de seis meses atrás.

Uma consulta revelou a informação de que havia 23 nudistas morando na ilha, a maioria da cidade de Nova York, que foram atraídos para essa Arcádia duvidosa por propagandas de jornal ardilosas e o trabalho pessoal de Romaine como missionário. O transporte foi providenciado a partir da estação ferroviária local; táxis os trouxeram para uma doca de desembarque pública na margem mais distante da propriedade de dr. Temple; e Ketcham, o dono da ilha, fez a travessia deles a canoa por um valor simbólico.

O velho Ketcham, ao que parecia, morava com a esposa do lado leste da ilha.

O inspetor Vaughn reuniu os 23 subjugados neófitos da adoração do sol e do nudismo do deus do sol; um grupo terrivelmente assustado. A maioria, agora que a excursão aos prazeres proibidos da nudez fora exposta à investigação pública, parecia profundamente constrangida; e vários apareceram em traje completo, arrastando bolsas de mãos. Mas o inspetor balançou a cabeça, firme; ninguém sairia da ilha até que desse permissão. Ele pegou o nome e o endereço deles, sorrindo cheio de sarcasmo para a coleção de Smith, Jones e Brown que as páginas do seu caderno começaram a exibir.

— — Algum de vocês saiu da ilha ontem? perguntou Isham.

Um rápido balanço negativo de cabeça; ninguém, ao que parecia, pisava no continente havia vários dias.

O grupo de investigação se virou para ir embora. Hester Lincoln continuava ao lado de Romaine. O dr. Temple, que até aquele momento esperara pacientemente sem proferir uma palavra, disse:

— Hester, vamos.

Ela balançou a cabeça.

— — — Você só está sendo teimosa disse Temple. Eu a conheço, Hester. Seja sensata; não fique aqui com esse bando de impostores, trapaceiros e idiotas enrustidos.

Romaine saltou à frente.

— — — O que você disse? grunhiu ele. Do que você me chamou?

— Você me ouviu, seu picareta idiota!

Todo o veneno e raiva frustrada na alma do bom médico efervesceu; ele lançou o braço direito à frente e acertou o punho na mandíbula de Romaine com um estalo surdo.

Hester ficou paralisada por um momento, então os seus lábios tremeram. Ela se virou e correu para a mata, soluçando convulsivamente.

O inspetor Vaughn se sobressaltou; mas Romaine, depois de um único instante de estupefação, jogou os ombros para trás e riu.

— Se isso é o melhor que consegue fazer, seu homenzinho traiçoeiro… — As orelhas dele estavam vermelho-fogo. — Estou avisando, Temple; fique longe daqui. Se eu o pegar de novo nesta ilha, vou quebrar todos os ossos do seu maldito corpo enxerido! Agora chispa.

Ellery suspirou.

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