O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 30 de 36

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O mistério da cruz egípcia

26. Ellery fala

 

Eles atravessaram Bradwood a pé com pressa, decididos a evitar as pobres vítimas do desnorteamento e da náusea que se locomoviam, inquietas, pela propriedade. Jonah Lincoln não disse uma palavra; parecia atônito demais para falar e apenas os seguiu pela trilha como se aquele fosse um plano de ação tão razoável quanto qualquer outro. A morte de Megara, por mais peculiar que fosse, pesava muito mais como uma mortalha sobre Bradwood do que a morte do seu proprietário. Fox, de rosto branco, estava sentado nos degraus da varanda, com a cabeça entre as mãos. Helene ocupava uma cadeira de balanço, encarando o céu fixamente sem enxergar um fiapo do aglomerado de nuvens de tempestade que apareceram de repente. A sra. Brad sofrera um colapso; Stallings balbuciava que o dr. Temple deveria examiná-la: ela se entregava a um choro histérico no quarto e ninguém, nem mesmo a filha, conseguia aplacá-la. Eles ouviram os gemidos da sra. Baxter ao passarem pelos fundos da casa.

Hesitaram na entrada para carros, então seguiram em frente por acordo tácito. Lincoln os seguiu cegamente até o portão mais externo. Até que parou e se recostou no pilar de pedra. O inspetor e Isham haviam ficado em algum lugar, ocupados com as próprias questões.

O rosto negro e enrugado da velha Nanny estava franzido de horror; ela abriu a porta para eles, murmurando:

— dissu Tem alma penada por trás , sr. Yadley, ouve o que eu tô dizenu .

O professor não respondeu; ele foi direto para a biblioteca, e, como se ali houvesse refúgio, Ellery o seguiu.

Eles se sentaram no mesmo silêncio incômodo. No rosto irregular do professor, por baixo do choque e do desgosto, havia uma expressão desafiadora. Ellery afundou em uma cadeira e começou a revirar os bolsos mecanicamente em busca de um cigarro. Yardley jogou uma grande caixa de marfim para ele por cima da mesa.

— — — O que o incomoda? perguntou com a voz gentil. Com certeza o pensamento não pode ter lhe escapado por completo.

— É como se nunca tivesse existido nada além da mais ridícula sensação. — Ellery tragou o cigarro com fúria. — Sabe aqueles sentimentos intangíveis? Algo se esquiva por todos os becos do fundo da sua mente, e você nunca consegue mais do que um vislumbre indistinto. É o que acontece comigo. Se eu conseguisse capturá-lo… É importante. Tenho a sensação avassaladora de que é importante.

O professor pressionou o tabaco dentro do fornilho.

— Um fenômeno comum. Já cheguei à conclusão de que se concentrar na captura da ideia é fútil. Um bom plano é apagar da mente todos os pensamentos sobre o assunto e falar sobre outras coisas. É surpreendente a frequência com que esse método funciona. É como se, ao ignorá-lo, você o provocasse a aparecer. Do nada, a visão total e completa do que você vem tentando relembrar aparecerá; gerada, parece, a partir de irrelevâncias.

Ellery grunhiu. Um trovão balançou as paredes da casa.

— … … — Há alguns momentos há quinze minutos continuou o professor com um sorriso triste —, você disse que estava tão longe de uma solução hoje quanto estava há três semanas. Muito bem. Então está enfrentando o fracasso. Ao mesmo tempo, já se referiu em várias ocasiões a conclusões às quais chegou, nada óbvias na superfície, aparentemente desconhecidas a Isham, a Vaughn e a mim. Por que não as repassar agora? Talvez exista algo que, na concentração exclusiva da sua análise, lhe escapou, mas que se esclarecerá se você expressar os pensamentos em palavras. Pode acreditar em mim… (toda a minha vida tem sido enlaçada de maneira inextricável com experiências assim…) há uma diferença vital entre o isolamento frio da reflexão independente e a personalidade cálida de um tête-à-tête. Você mencionou peças de damas, por exemplo. É evidente que o escritório de Brad, o tabuleiro, a disposição das peças, teve um significado para você que passou completamente despercebido ao restante de nós. Repasse essas coisas em voz alta.

Sob o fluxo das palavras graves e tranquilizadoras do professor Yardley, os nervos agitados de Ellery relaxaram. Ele passou a fumar em silêncio, e as linhas de expressão do seu rosto suavizaram.

— — Não é um plano ruim, professor. Ele assumiu uma posição mais confortável e semicerrou os olhos. — Deixe-me tentar. Que história você montou a partir do testemunho de Stallings e do tabuleiro de damas como nós o encontramos?

O professor soprou fumaça em direção à lareira enquanto refletia. O quarto escurecera bastante; o sol desaparecera atrás de uma barragem de nuvens escuras.

— Muitas teorias sem embasamento de provas concretas me vieram à mente, mas não vejo razão lógica para duvidar da aparência superficial das informações.

— E qual é?

— … Da última vez que Stallings viu Brad podemos presumir que ele foi a última pessoa com exceção do assassino a vê-lo com vida… Brad estava sentado ao tabuleiro de damas jogando contra si mesmo. Não há algo de incomum ou de incongruente nisso; Stallings atestou que ele o fazia com frequência, criando jogadas para ambos os lados, como só um entusiasta e especialista faria, e eu mesmo posso confirmar isso. Então parece que após a saída de Stallings, e enquanto Brad continuava jogando sozinho, Krosac ganhou acesso ao escritório, matou Brad e tudo o mais. Na hora em que foi morto, Brad tinha na mão uma das peças vermelhas, o que explica como a encontramos perto do tóteme.

Ellery coçou a cabeça com cansaço.

— … “ ” Você disse ganhou acesso ao escritório. O que quer dizer, para ser exato?

Yardley abriu um sorrisinho.

— Eu estava chegando a esse detalhe. Lembra-se de como falei há um momento que eu tinha muitas teorias sem embasamento de provas? Uma delas é que Krosac, que, como você já afirmou várias vezes, pode ser alguém bem perto de nós, era o visitante que Brad esperava naquela noite, o que explica como ele entrou na casa. Brad, é claro, ignorava o fato de que alguém que ele pensava ser um amigo ou conhecido era, na realidade, o seu inimigo de sangue.

— — — Sem embasamento! Ellery suspirou. Veja bem, posso esboçar neste instante um argumento indestrutível para uma teoria. Não um tiro no escuro, professor, não uma conjectura, mas uma conclusão alcançada por passos claros e lógicos. O único problema é: ele não dissipa em nada a neblina.

O professor tragou o cachimbo, pensativo.

— Só um momento. Eu não terminei. Posso oferecer outra teoria; mais uma vez sem embasamento de provas, mas até onde eu consigo ver, tão verossímil quanto a outra. Que é: Brad tinha dois visitantes naquela noite; a pessoa que ele esperava, e por causa da qual mandou a esposa, enteada e funcionários para longe; e Krosac, o inimigo. Nesse caso, o visitante legítimo, tenha ele vindo antes ou depois de Krosac… ou seja, enquanto Brad ainda estava vivo ou quando já estava morto… naturalmente manteve a visita em segredo, sem querer ser envolvido de forma alguma. Fico surpreso por ninguém ter pensado nessa possibilidade antes. Venho esperando que você a propusesse pelas últimas três semanas.

— — Então? Ellery tirou o pincenê e colocou-o na mesa; os olhos estavam vermelhos e irritados. Um relâmpago iluminou o cômodo por um momento, tingindo os rostos deles de um azul fantasmagórico. — Altas expectativas.

— Não me diga que não pensou nisso!

— Mas eu não estou dizendo. Nunca mencionei essa teoria porque ela não é verdadeira.

— — — Rá disse o professor. Agora estamos chegando a algum lugar. Pretende ficar sentado aí e me dizer que pode provar que só havia um visitante na casa na noite do assassinato?

Ellery sorriu fracamente.

— Está me colocando em uma posição desconfortável. Uma prova, afinal, não depende tanto daquele que a prova quanto daquele que a aprova… Será um pouquinho complicado. E você se lembra do

 

Clapier de Vauvenargues, disse: “Lorsqu’une pensée est trop faible 1 pour porter une expression simple, c que aquele moralista francês com o nome questionável, Luc de ’ est la marque pour la rejeter”.

Mas chegarei lá no momento apropriado. — O professor se inclinou para a frente com expectativa, e Ellery continuou, devolvendo o pincenê à ponta do nariz: — O meu argumento depende de dois elementos: a disposição das peças de damas no tabuleiro de Brad e a psicologia dos jogadores especialistas. Você entende o jogo, professor? Lembro que disse que nunca jogou com Brad, ou algo nessa linha.

— É verdade, por mais que eu saiba jogar. Mas sou péssimo nele. Não jogo há anos.

— Se entende o jogo, entenderá a minha análise. Quando Stallings entrou no escritório, antes de sair de casa, ele viu Brad começando um jogo consigo mesmo, viu duas jogadas de abertura, na verdade. Foi o testemunho dele que lançou os nossos amigos na direção errada. Eles presumiram que, porque Brad jogava sozinho quando Stallings o viu pela última vez, ele continuava jogando sozinho quando foi assassinado. Você caiu no mesmo erro.

“Mas as peças na mesa contaram uma história totalmente diferente. Qual era a disposição não apenas das peças em jogo, mas daquelas que tinham sido ‘capturadas’ e tiradas do tabuleiro? Você se lembrará que o lado preto capturara nove peças vermelhas, que estavam na margem entre o tabuleiro e a borda da mesa; que o lado vermelho capturara apenas três peças pretas, na margem do lado oposto. É óbvio, então, para começar, que o lado preto era deveras superior ao vermelho. O tabuleiro em si, lembre-se, tinha três ‘ ’ damas, ou peças duplas, do lado preto, além de três peças únicas pretas; e duas modestas peças únicas do lado vermelho.”

— — — O que isso tem a ver? perguntou o professor. Ainda não vejo nenhum significado, além de que Brad estava jogando sozinho e criara uma série de jogadas desastrosíssimas para o adversário hipotético, o lado vermelho.

— — — Uma conclusão intolerável retrucou Ellery. Do ponto de vista de um experimento, um jogador especialista só se interessa por jogadas de abertura e encerramento. Isso é tão verdadeiro no jogo de damas quanto no xadrez, ou qualquer outro jogo de competição intelectual cujo resultado depende unicamente da habilidade do jogador individual. Por que Brad, jogando apenas como treino contra si mesmo, perderia tempo com um jogo no qual um dos lados tem a vantagem avassaladora de três damas completas e uma peça? Ele nunca permitira que um jogo experimental chegasse a tal estado. Especialistas sabem dizer, a partir de um único relanceio para o tabuleiro, mesmo quando a vantagem é consideravelmente menor (uma única peça, ou mesmo uma igualdade de peças, mas uma vantagem estratégica na posição) qual será o resultado se ambos os lados jogarem sem erros. Que Brad tenha jogado a sério aquele jogo desigual consigo mesmo seria equivalente a Alekhine jogar uma partida experimental de xadrez consigo mesmo no qual um lado tem a vantagem de uma rainha, dois bispos e um cavalo.

“Então chegamos a isso: por mais que Brad estivesse jogando uma partida experimental quando Stallings o viu, ele jogou uma genuína partida competitiva mais tarde naquela noite. Pois, mesmo que um especialista não fosse praticar com uma divisão tão desequilibrada de força, o desequilíbrio se torna compreensível quando se escolhe a alternativa: que ele jogou com alguém.”

Começara a chover torrencialmente do lado de fora; lâminas de água cinza açoitavam as janelas. Os dentes brancos do professor Yardley apareceram acima da barba preta em um sorriso relutante.

— Justo. Justo. Faz sentido. Mas você ainda não eliminou a teoria plausível de que, por mais que Brad tenha jogado damas com o visitante legítimo naquela noite, deixando o jogo como o encontramos, ele foi assassinado por Krosac mais tarde, depois de o visitante ter ido embora, talvez.

— — — Engenhoso. Ellery deu uma risadinha. Você é duro na queda. E me incita a usar duas armas: lógica e bom senso.

“ hora Olhe por este lado. Podemos fixar a do assassinato em relação à duração da partida? Eu afirmo com toda a lógica de que podemos. Pois o que encontramos? Na primeira fileira do lado preto, uma das duas peças vermelhas ainda estava no jogo. Mas, no jogo de damas, quando você chega à primeira fileira do seu oponente, tem direito a ter a sua peça coroada, ou transformada em dama; que, como sabe, significa posicionar uma segunda peça por cima da primeira. Como, então, aconteceu de o lado vermelho dessa partida ter uma peça na casa de coroação que, mesmo assim, não estava coroada?”

— — Estou começando a entender murmurou Yardley.

— Simplesmente porque o jogo parou naquele momento, pois ele não poderia ter continuado a não ser que a dama fosse coroada — prosseguiu Ellery, de imediato. — Existe confirmação de que a partida parou neste ponto? Existe! A primeira pergunta a fazer é: Brad estava jogando com o preto ou o vermelho? Temos todo tipo de testemunha ao fato de que Brad era um damista exímio. Na verdade, ele já foi até anfitrião do campeão nacional de damas, e se mostrou merecedor até. É concebível, então, que Brad fosse o lado vermelho nesta partida onde o vermelho era obviamente o jogador inferior; tão inferior que o oponente tinha uma vantagem de três damas e uma peça? Não, não é concebível, e podemos concluir de imediato que Brad jogava do lado preto… Aliás, para esclarecer as coisas, deixe-me interpolar uma emenda. Agora sabemos que a vantagem do lado preto sobre o vermelho não era de três damas e uma peça, mas duas damas e duas peças, visto que uma das peças vermelhas deveria ser um rei. Ainda assim, no entanto, uma tremenda vantagem.

“Mas, se Brad estava jogando do lado preto, então devia estar sentado durante a partida na cadeira perto da escrivaninha, e não do outro lado da mesa, longe do móvel. Esse é o caso porque todas as peças vermelhas capturadas estavam do lado mais próximo da escrivaninha, e o lado preto captura as peças vermelhas, é claro.

“Até aí tudo bem. Brad jogava do lado preto e ocupava a cadeira perto da escrivaninha; o seu visitante e oponente, portanto, ocupava a cadeira oposta, de frente para ela, enquanto Brad ficava de costas.”

— … Mas aonde isso?

Ellery fechou os olhos.

— Se aspira a genialidade, professor, siga o conselho de Disraeli e cultive paciência. Estou em uma sequência, honrado professor. Muitas vezes já fiquei sentado, fervilhando na carteira, durante as suas aulas, tentando em vão antecipar o seu calmo argumento sobre os Dez Mil, Felipe ou Jesus…

“Onde eu estava? Sim! Havia uma peça vermelha faltando, que encontramos do lado de fora, perto da cena da crucificação de Brad. Na palma da mão dele havia uma mancha vermelha circular. Ele segurava a peça quando foi morto, então. Por que ele pegara a peça vermelha e a segurara? Teoricamente, muitas explicações são possíveis. Mas só há uma com um fato comprovado para embasá-la.”

— — Qual? inquiriu o professor.

— O fato de que uma peça vermelha estava na casa de coroação, e não estava coroada. Na mão de Brad, que era o lado preto, veja bem, estava a única peça vermelha que faltava. Eu não entendo — disse Ellery com firmeza — como pode escapar à conclusão de que o lado vermelho, oponente do preto, conseguiu levar uma das peças à casa de coroação; que o lado preto, ou Brad, pegou uma das peças vermelhas capturadas para colocá-la em cima da que acabara de chegar na última fileira; que, antes de conseguir posicionar a peça vermelha que pegara, algo ocorreu e, com êxito, concluiu a partida. Em outras palavras, o fato de que Brad pegara uma peça vermelha para o propósito específico de coroar a peça do oponente, mas nunca completou a ação, nos mostra por dedução direta não apenas quando o jogo parou, mas por quê.

Yardley permaneceu quieto e atento.

— A dedução? Simplesmente que Brad nunca completou a ação porque não conseguiu. — Ellery pausou e suspirou. — Ele foi atacado naquele momento, e, usando termos leves, não conseguiu coroar a dama vermelho.

— — E a mancha de sangue murmurou o professor.

— — — Exato concordou Ellery. E aí está a confirmação: a posição da mancha de sangue no tapete. A mancha de sangue estava sessenta centímetros atrás da cadeira na qual o lado preto, ou Brad, se sentava. Já provamos há muito tempo que o assassinato aconteceu no escritório; e aquela mancha de sangue é a única no cômodo. Se Brad tivesse sido atingido na cabeça pela frente, prestes a coroar a peça vermelha, ele teria caído para trás, entre a cadeira e a escrivaninha. E foi precisamente ali que encontramos a mancha… O dr. Rumsen afirmou que Brad teve ter sido primeiro golpeado na cabeça, visto que não havia outras marcas de violência no corpo; então foi uma ferida aberta que manchou o tapete onde ele caiu, antes que o assassino pudesse erguer o corpo e levá-lo à edícula. Todos os detalhes se encaixam. Mas o fato saliente se destaca: Brad foi atacado enquanto jogava damas com o seu agressor. Em outras palavras, o assassino de Brad era também o seu adversário no jogo… Ah, você tem objeções.

— — É claro que tenho replicou Yardley. Ele reacendeu o cachimbo e tragou com vigor. — O que há no seu argumento que invalida o seguinte? Que o adversário de Brad era inocente ou um cúmplice de Krosac; que, enquanto o cúmplice jogava com Brad para distrai-lo, Krosac entrou de fininho no escritório e acertou Brad por trás, como falei no dia em que encontramos a mancha de sangue.

— — — O quê? Muito, professor. Os olhos de Ellery brilharam. Nós já mostramos há muito tempo que Krosac não teria um cúmplice. Sem dúvidas, esses crimes são de vingança, e não há nada nos crimes para atrair um cúmplice de um ponto de vista financeiro.

“A possibilidade de que havia duas pessoas o tempo todo, uma delas Krosac, a outra um visitante inocente que jogava damas com Brad…? Por favor, considere o que isso significaria. Significaria que Krosac, de forma deliberada, atacou Brad na presença de uma testemunha inocente! Absurdo; ele por certo teria esperado a pessoa ir embora. Mas suponhamos que ele tenha de fato atacado na presença de alguém. Ele não faria de tudo, então, para silenciá-la? Um homem como Krosac, com tanto sangue na consciência, seria difícil que hesitasse diante da necessidade de tirar outra vida. Ainda assim, a vítima aparentemente foi deixada ilesa… Não, professor, nenhuma testemunha, sinto dizer.”

— Mas e se a pessoa tivesse chegado antes de Krosac e partido antes… uma testemunha que jogava damas com Brad? — insistiu o professor.

Ellery deu uma risadinha preocupada.

— Ora, ora, você está ficando grogue, professor. Se a pessoa tivesse chegado e partido antes ou depois de Krosac, ela não seria uma testemunha, seria? — Ele voltou a rir. — Não, a questão é que a partida que encontramos era a partida entre Brad e Krosac e, caso houvesse um visitante prévio ou posterior, isso não invalidaria o fato de que Krosac, o assassino, de fato jogou com Brad.

— — E a conclusão de toda essa confusão? murmurou Yardley.

— Como falei antes: que o assassino de Brad jogou damas com ele. E que Krosac era alguém próximo de Brad, apesar de não como Krosac, é claro, mas como outra pessoa.

— — — Arrá! exclamou o professor, estapeando a canela fina. Peguei você, rapaz. Por que alguém próximo? Hein? Quer dizer que isso é lógico? Que porque um homem como Brad jogava damas com alguém, esse alguém era necessariamente um amigo dele? Ridículo! Ora, Brad jogaria até com um colecionador de estrume. Qualquer desconhecido era uma presa, desde que soubesse jogar. Precisei de três semanas para convencê-lo de que realmente não estava interessado!

— Caramba, professor. Se eu lhe passei a impressão de que foi a partir da partida de damas que deduzi que o adversário de Brad era amigo dele, sinto muito; não foi a minha intenção. Há razões muito mais potentes. Brad sabia que Krosac, inimigo da família, estava à solta, sedento pelo bom e velho sangue Tvar?

— Sim, é claro. O bilhete que ele deixou mostra isso, e o próprio Van escreveu para Brad e o alertou.

— Bien assurément! E Brad, sabendo que Krosac estava à solta, marcaria um encontro com um desconhecido, de propósito, mandando todos os possíveis protetores para longe, como ele fez?

— Humm, imagino que não.

— — — Veja explicou Ellery com um suspiro cansado , é possível provar qualquer coisa se coletar informações o suficiente. Olhe aqui; deixe-me usar o argumento mais extremo. Suponha que o visitante esperado por Brad naquela noite tenha de fato vindo, efetuado o seu negócio com Brad, e partido. Então Krosac apareceu. Um completo desconhecido, lembre-se. Mas já demonstramos que Krosac, assassino de Brad, jogou damas com ele. Isso significaria que a vítima deliberadamente convidou um completo desconhecido para dentro da sua casa desprotegida… Errado, é claro. Então Krosac devia ser um conhecido de Brad, fosse ele o visitante esperado ou um convidado fortuito da noite. Na verdade, não dou a mínima. A minha teoria é que só uma pessoa além de Brad esteve no escritório naquela noite: Krosac. Mas se houvesse duas, três ou uma dúzia, isso não invalidaria a conclusão de que a vítima conhecia Krosac em qualquer disfarce que ele tenha usado, e que Brad jogou damas com ele e foi assassinado durante a partida.

— E aonde isso o leva?

— — — A lugar algum respondeu Ellery com pesar. E é por isso que eu falei mais cedo que não estou melhor agora do que estava há três semanas… Sabe, tem outro fato positivo, agora que estou pensando melhor, que podemos pescar dessa bagunça de indecisões. Sou um imbecil por não ter pensado nisso antes.

O professor se levantou e esvaziou o cachimbo na lareira.

— — — Você está cheio de surpresas hoje disse ele sem se virar. Qual é?

— Podemos afirmar com certeza absoluta que Krosac não manca.

— — — Já dissemos isso antes retrucou Yardley. Não, tem razão. Dissemos que não podíamos ter certeza. Mas como…?

Ellery se levantou, esticou os braços e começou a andar de um lado para o outro. Estava úmido na biblioteca; o chiado da tempestade do lado de fora redobrou em intensidade.

— Krosac, fosse lá quem fingisse ser, era alguém próximo de Brad. Nenhum amigo de Brad manca. Portanto, Krosac não manca de verdade; mas utilizou a enfermidade da juventude como uma característica física consistente apenas para despistar a polícia.

— — — É por isso murmurou Yardley que ele tem sido aparentemente descuidado ao deixar rastros que levam a um homem manco.

— Exato. Ele para de mancar no momento em que fareja perigo. Não é de se espantar que nenhum rastro tenha sido encontrado. Eu deveria ter pensado nisso ontem.

Yardley oscilou sobre os grandes pés, o cachimbo frio se projetando da boca.

— — — E aqui estamos. Ele observou Ellery com atenção. Mas nenhum sinal do fugitivo, hein?

Ellery balançou a cabeça.

— … Ainda escondido atrás de uma convolução em algum lugar

Vejamos agora. Assassinato da primeira vítima, Kling, explicado sem problemas. Krosac, a pseudocoxeadura, nas imediações; motivo, proximidade, natureza peculiar do crime… tudo se encaixa. Existe uma contenda. Krosac acha que matou Andreja, um dos irmãos. Como ele finalmente encontra Van, o mais remoto dos três Tvar? Questão irrespondível; a ser respondida só Deus sabe quando… Krosac ataca de novo. Brad dessa vez; mesma pergunta, também irrespondível. A história se complexifica deliciosamente: Krosac encontra o bilhete de Brad que lhe diz pela primeira vez que ele cometeu um erro no primeiro assassinato, que Van continua vivo. Mas onde está Van? Precisa ser encontrado, diz Krosac a si mesmo, ou a vingança estará incompleta. Desce a cortina do segundo ato; muito melodramático… Megara retorna; Krosac sabe que retornaria; chega o único detentor, de acordo com o bilhete, do segredo da nova identidade e do atual paradeiro de Van… Intervalo. Demora. Então… Por Deus — disse Ellery.

O professor Yardley enrijeceu, mal respirando. Todos os sinais apontavam para a captura do fugitivo. Ellery estava enraizado no chão, olhando feio para o anfitrião com a feroz luz da descoberta no olhar.

— — Por Deus! gritou Ellery, saltando sessenta centímetros no ar úmido do professor Yardley. — Que tolo eu fui! Que idiota, que imbecil, estúpido, ignorante! Já sei!

— — Sempre funciona. O professor abriu um sorrisinho, relaxando. — O quê… Ora, meu garoto, qual é o problema?

Ele fez uma pausa alarmada. Uma mudança notável dominava o rosto exultante de Ellery. O queixo caiu, o olhar enuviou e ele se encolheu como as pessoas fazem, às vezes, diante do impacto puramente imaginado de um golpe ilusório.

A expressão veio e se foi. O maxilar de Ellery se salientou na bochecha lisa e bronzeada.

— — — Escute disse ele sem perder tempo. Não tenho tempo para nada além da análise mais superficial. Pelo que estávamos esperando? Pelo que Krosac estava esperando? Nós esperávamos que Krosac tentasse descobrir por meio de Megara, a única fonte de informação, onde Van estava. Krosac estava esperando para fazer essa descoberta. E então ele matou Megara. Só pode significar uma coisa!

— — Ele descobriu! exclamou Yardley, a gravidade do pensamento fazendo a voz falhar. — Meu Deus, Queen, que tolos, que tolos cegos nós fomos! Talvez já seja tarde demais!

Ellery não perdeu tempo respondendo. Ele correu para o telefone.

— … Western Union Mande um telegrama. Rápido. Endereçado ao policial Luden, Arroyo, Virgínia Ocidental… Sim. Mensagem: “ Forme pelotão imediatamente e vá à choupana do Velho Pete. Proteja o Velho Pete até a minha chegada. Notifique Crumit Krosac voltando. Se algo tiver acontecido quando você chegar à choupana, siga o rastro de Krosac, mas deixe a cena do crime intacta”. Assine como Ellery Queen. Repita, por favor… Krosac. K-r-o-s-a-c. Certo… Obrigado.

Ele afastou o instrumento de si, então mudou de ideia e voltou a pegá-lo. Fez uma ligação para Bradwood, do outro lado da estrada, e perguntou pelo inspetor Vaughn. Vaughn, ele descobriu por Stallings, deixara Bradwood apressadamente havia pouco tempo. Ellery dispensou Stallings sem rodeios e perguntou por um dos homens de Vaughn. Onde estava o inspetor? O homem do outro lado da linha pediu desculpas, mas não fazia ideia. O inspetor recebera uma mensagem, e ele e o promotor de justiça Isham chamaram um carro e foram embora em disparada.

— — — Droga resmungou Ellery, desligando , o que faremos agora? Não temos tempo a perder!

Ele correu para uma janela e olhou para fora. A chuva parecia ficar cada vez mais forte, caindo em torrentes; raios cortavam o céu; os trovões eram quase incessantes.

— — — Escute disse Ellery, se virando de volta , você terá que ficar para trás, professor!

— — Eu não gosto nem um pouco da ideia de você ir lá sozinho

respondeu Yardley com relutância. — Muito menos nessa tempestade. Como chegará lá?

— Não importa. Fique aqui e tente ao máximo entrar em contato com Vaughn e Isham. — Ellery saltou para o telefone de novo. — Aeródromo de Mineola. Rápido!

O professor coçou a barba em desconforto enquanto Ellery esperava.

— Ah, vamos lá, Queen, você não pode estar pensando em pegar um avião com esse tempo.

Ellery balançou uma das mãos.

— Alô, alô! Mineola? Posso fretar um avião rápido para o sudoeste de imediato? O quê? — A expressão dele murchou e, depois de um momento, desligou o telefone. — Até os elementos estão conspirando contra nós. A tempestade veio do Atlântico e está viajando para o oeste e para o sul. O homem de Mineola disse que estará ruim nos montes Alleghenies. Nenhum avião decolará. O que eu posso fazer, inferno?

— — Trem sugeriu Yardley.

— Não! Confiarei no velho Duesie! Tem uma capa de chuva que eu possa pegar emprestada, professor?

Eles correram para o corredor do professor, que abriu um armário e tirou dele uma longa capa de chuva. Ele ajudou Ellery a vesti-la.

— — — Olhe, Queen arquejou ele , não seja precipitado. O carro é aberto, as estradas estarão ruins, é uma viagem terrivelmente longa…

— — — Não correrei riscos desnecessários interrompeu Ellery. Luden deve cuidar das coisas, de qualquer forma. — Ele saltou à frente e abriu a porta, e o professor o seguiu para dentro do átrio. Ellery ficou em silêncio, então ofereceu a mão. — Deseje-me sorte, meu velho. Ou melhor, deseje sorte a Van.

— — Vá em frente grunhiu o professor, balançando a mão de Ellery para cima e para baixo. — Farei o meu melhor para encontrar Vaughn e Isham. Cuide-se. Tem certeza disso? Não é uma viagem desnecessária?

Ellery respondeu com austeridade:

— Só uma coisa impediu Krosac de matar Megara nas últimas duas semanas: ele não sabia onde Van estava. Se finalmente matou Megara, deve ser porque descobriu a farsa do Velho Pete e o esconderijo na montanha. Extorquiu a informação de Megara, é provável, antes de matá-lo. É o meu trabalho prevenir um quarto assassinato; Krosac está sem sombra de dúvida a caminho da Virgínia Ocidental neste momento. Estou torcendo para que ele tenha tirado um tempo para dormir ontem à noite. Caso contrário… Nota

Ele deu de ombros, sorriu para Yardley, que o olhava ansiosamente, então disparou pelos degraus em direção à tempestade açoitante, sob relâmpagos, e à entrada para carros na lateral onde ficava a garagem e o velho carro esportivo.

Mecanicamente, o professor Yardley consultou o relógio. Era exatamente uma hora da manhã.

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1 “Quando um pensamento é fraco demais para ser expressado com simplicidade, é um sinal de que deve ser rejeitado.”

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