O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 20 de 36

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O mistério da cruz egípcia

17. O velho da montanha

 

Havia um bom motivo para a casa do professor Yardley não demonstrar evidências de vida no sábado de manhã. O professor seguia ordens, como qualquer policial; assim como a sua empregada, Nanny. Exibir-se sem reserva enquanto o inspetor Vaughn e Stephen Megara realizavam a saída ruidosa poderia ter sido indiscreto. Era sabido que o professor recebia um hóspede; o sr. Ellery Queen, agente especial de Nova York. Se o professor estivesse perambulado sozinho, poderia ter levantado suspeitas na mente de quem quer que julgasse necessário estar alerta. E, infelizmente, o professor não podia aparecer com o hóspede, pois ele havia partido. O hóspede, para ser exato, já estava a centenas de quilômetros de Long Island no momento em que Megara entrara no carro da polícia.

Fora uma trama sagaz. Tarde da noite de sexta-feira, na escuridão que encobria Bradwood, Ellery saíra discretamente da propriedade de Yardley no seu Duesenberg. Até chegar à autoestrada principal, ele manobrou o carro como um fantasma. Então acelerou em direção a Mineola. Lá ele apanhou o promotor de justiça Isham e disparou para Nova York.

Às quatro da manhã de sábado, o velho Duesenberg estava na capital da Pensilvânia. A cidade de Harrisburg estava adormecida; ambos os homens estavam cansados e, sem conversar, fizeram check-in no Hotel Senate e foram para os quartos. Ellery solicitara uma ligação para acordar às nove horas. Eles desabaram na cama, moídos.

Às 9h30 de sábado, eles estavam a quilômetros de Harrisburg, a caminho de Pittsburgh. Não pararam para almoçar. O carro esportivo estava coberto de poeira, e tanto Ellery quanto Isham deixavam transparecer o desgaste com o rangido tedioso… O Duesenberg, apesar de todos os seus anos, respondeu com nobreza. Duas vezes, enquanto Ellery forçava o velho motor a chegar aos 112 quilômetros por hora, eles foram perseguidos por policiais de

 

À

motocicleta. Isham mostrava a credencial, e eles continuavam… Às três da tarde, eles adentraram Pittsburgh.

Isham rosnou:

— Que se dane. Ele pode esperar. Não sei como você consegue, mas eu estou morrendo de fome. Vamos comer alguma coisa.

Eles perderam um tempo precioso enquanto o promotor de justiça enchia o estômago. Ellery estava estranhamente empolgado, brincando com a comida; por mais que o seu rosto estivesse marcado com rugas de fadiga, os olhos estavam descansados, brilhando com pensamentos não expressados.

Poucos minutos antes das cinco da tarde, o Duesenberg estava estacionado diante do prédio que abrigava os majestosos pais do destino municipal de Arroyo.

As juntas deles rangeram ao saltarem. Isham esticou os braços em um movimento exagerado, alheio aos olhos curiosos de um alemão velho e gordo — Ellery o reconheceu como o respeitável Bernheim, o lojista de Arroyo — e os camponeses vestidos de calça jeans que pareciam varrer a calçada diante da Câmara Municipal sem cessar. Isham bocejou e disse:

— Ora, é melhor acabarmos com isso de vez. Onde está o policial da província, sr. Queen?

Ellery guiou o caminho até os fundos do prédio, onde ficava a sala do policial. Ele bateu à porta, e uma voz grave e rouca respondeu:

— Pode entrar!

Eles entraram. O policial Luden estava sentado, grande e suado, como se não tivesse se mexido nos seis meses que haviam se passado desde a última visita de Ellery a Arroyo. Os dentes se projetaram do rosto rechonchudo e corado quando ele arquejou.

— — Mas que inferno! exclamou Luden, baixando os grandes pés para o chão com um estrondo —, se não é o sr. Queen! Entre, entre. Ainda tá correndo atrás daquele sujeito que deu um fim no nosso professor?

— — — Ainda no rastro dele, policial. Ellery sorriu. Quero apresentá-lo a um colega defensor da lei. Este é o promotor de justiça Isham do condado de Nassau, Nova York. Policial Luden… sr. Isham.

Isham resmungou e não ofereceu a mão. O policial abriu um sorrisinho.

— Nosso vilarejo tem visto uns mandachuvas dos grandes no último ano, senhor, então deixe de ser tão metido. — Isham

É

arquejou. — É isso aí… O que você tá pensando, sr. Queen?

Ellery disse, apressado:

— Podemos nos sentar? Estamos dirigindo a centenas de séculos.

— Sente.

Eles se sentaram. Ellery disse:

— Policial, o senhor tem visto aquele seu montanhês excêntrico, Velho Pete, ultimamente?

— — O Véio Pete? Ora, que esquisito disse Luden, lançando um olhar astuto para Isham. — Faz umas semanas que eu não vejo o véio gagá. Não vem muito pra cidade, o Véio Pete, sabe; mas dessa vez… diabo, acho que faz uns bons meses que eu não vejo ele! Deve ter feito um estoque de comida da última vez que desceu da montanha, melhor perguntar pro Bernheim.

— — O senhor não sabe onde fica a choupana dele? exigiu saber Isham.

— … Acho que sei Que preocupação toda é essa com o Véio Pete? Não vão prender ele, vão? Um biruta véio e inofensivo… Não que seja da minha conta… — adicionou o policial apressadamente quando Isham franziu a testa. — Nunca fui à cabana do Véio Pete… pouca gente daqui já foi. É cheio de cavernas lá em cima… uns troço antigo, de milhares de anos… e o povo é meio assustado. A cabana do Véio Pete fica lá nas colinas, num canto bem solitário. Vocês mesmos não iriam achar.

— — Pode nos guiar, policial? perguntou Ellery.

— — Certeza! Acho que consigo achar. Luden se levantou e, como um velho e gordo mastim inglês, se sacudiu. — Você não quer que a notícia se espalhe, não é? — perguntou casualmente.

— — — Não! respondeu Isham. Não conte nem para a sua esposa.

O policial resmungou.

— … Não precisa ter medo disso. Não tenho esposa, graças a Deus

Vamos.

Ele os conduziu não para a frente do edifício, onde o carro estava estacionado na rua principal, mas por uma porta dos fundos em direção a uma rua lateral deserta. Luden e Isham esperaram, e Ellery deu a volta rapidamente na Câmara Municipal e pulou para dentro do Duesenberg. Dois minutos depois, o carro estava na rua lateral, e os três homens partiram em uma nuvem de poeira sufocante, com Luden a tiracolo.

O policial os direcionou por caminhos tortuosos até uma estrada de terra que parecia mergulhar no coração das colinas próximas.

— — — Estrada diferente explicou ele. Você estaciona aqui e sobe andando.

— — Andando? perguntou Isham, reparando na subida íngreme.

— — — Ora disse Luden em uma voz animada , eu poderia carregar você, sr. Isham.

Eles deixaram o carro em um aglomerado de arbustos. O promotor de justiça olhou ao redor, então se abaixou na lateral do Duesenberg e pegou algo no chão. Era um pacote volumoso embrulhado. Luden o examinou com curiosidade sincera, mas nenhum dos homens concedeu uma explicação.

O policial abaixou a cabeçorra e, mergulhando em uma moita, procurou — com o ar de um homem que não se importa muito se encontra o que está procurando ou não — até apontar uma leve pegada. Ellery e Isham o seguiam com dificuldade, em silêncio. Era uma subida constante através de uma floresta selvagem, quase virgem; as árvores eram tão densas que o céu ficava invisível. O ar estava mormacento, e os três homens ficaram encharcados de suor antes de escalarem quinze metros. Isham começou a resmungar.

Depois de quinze minutos de uma subida de matar, com a mata ficando cada vez mais densa e a trilha mais sutil, o policial parou de supetão.

— — Matt Hollis, ele me falou sobre isso uma vez sussurrou, apontando. — Caramba! Ali está ela.

Eles se aproximaram, Luden guiando o caminho com cautela. E lá, bem como o policial dissera, estava… Na pequena clareira, debaixo de um gigantesco afloramento na lateral da montanha, aninhava-se uma cabana rústica. A floresta fora cortada dez metros nas laterais e na frente da choupana; era protegida nos fundos pelo granito saliente. E, reparou Ellery, todos os dez metros, nas laterais e na frente, eram protegidos por uma cerca de arame farpado alta, embolada, enferrujada e de aparência perigosa.

— — — Olhe só para isso! sussurrou Isham. Nem mesmo um portão!

Não havia qualquer abertura na cerca de arame farpado. A cabana era fria e sombria… quase uma fortaleza. Mesmo o fiapo de fumaça que escapava do buraco da chaminé era sinistro.

— — — Credo murmurou Luden. Pra que ele se fortificou desse jeito? Caduco, que nem eu disse.

— — Um lugar desagradável com o qual se deparar no escuro

murmurou Ellery. — Policial, eu e o promotor de justiça Isham temos um pedido deveras peculiar para lhe fazer.

O policial Luden, talvez lembrando da generosidade de Ellery no último encontro, mostrou interesse imediato.

— — — Agora, veja bem balbuciou ele , eu sou um sujeito que cuida da própria vida. Preciso, por aqui. É cheio de contrabando de bebida por essas colinas, mas vocês não me veem metendo o bedelho. Não senhor… o que é?

— — — Esqueça esse incidente todo falou Isham, sem rodeios. Nós nunca viemos aqui, entendeu? Você não deve reportar a nossa visita a outras autoridades de Arroyo ou do condado de Hancock. Você não sabe nada sobre o Velho Pete.

A enorme mão do policial Luden se fechou ao redor de algo que Ellery tirara da carteira.

— — — … Sr. Isham disse ele , eu sou surdo, burro e cego Vão encontrar o caminho de volta numa boa?

— Sim.

— … Então boa sorte pra vocês e brigado mesmo, sr. Queen.

A definição do desinteresse, Luden se virou e saiu pelo meio da mata. Não olhou nem uma vez para trás.

Isham e Ellery se entreolharam por um breve momento; então ambos estufaram o peito e se aproximaram da cerca de arame farpado.

Eles mal tinham posto o pé no solo diante da cerca — na verdade, Isham estava erguendo o embrulho que carregava por cima do feixe mais alto de arame — quando uma voz rouca e entrecortada do interior da cabana gritou:

— Pare! Dê o fora!

Eles pararam abruptamente; o embrulho caiu no chão. Pois da única janela da choupana, também protegida, eles notaram, por uma cortina de arame farpado, que o cano de uma espingarda havia aparecido e apontava na direção deles. A arma não oscilava; não estava para brincadeira, e estava pronta para falar por si.

Ellery engoliu em seco, e o promotor de justiça enraizou-se ao chão onde pisava.

— — — Esse é o Velho Pete sussurrou Ellery. Ou alguém que sabe imitar a voz dele muito bem, pelo menos! — Ele ergueu a cabeça e gritou: — Só um minuto! Tire o dedo do gatilho. Somos amigos.

Fez-se silêncio enquanto eram escrutinados com cuidado pelo dono da espingarda. Eles ficaram imóveis.

Então a voz grosseira voltou a agredir os seus ouvidos:

— Não acredito em você! Dê o fora. Vou atirar se não sair em cinco segundos.

Isham exclamou:

— Somos representantes da lei, seu tolo! Temos uma carta para você de… Megara. Mexa-se! Não queremos ser vistos aqui, pelo seu bem.

O cano não se moveu, mas a cabeça emaranhada do velho montanhês apareceu meio ofuscada por trás da cortina de arame, e um par de olhos brilhantes os analisou com desconfiança. Eles conseguiam sentir a indecisão do homem.

A cabeça desapareceu, assim como a espingarda. Um instante depois, a porta pesada coberta de pregos se abriu para dentro com um rangido, e o Velho Pete em pessoa apareceu: de barba cinza, desgrenhado, vestido em trapos. A espingarda estava abaixada, mas o cano os mirava.

— — Pulem a cerca, homens. Não tem outro jeito de entrar. A voz era a mesma, mas com uma nova nota.

Eles avaliaram a cerca com incredulidade. Então Ellery suspirou e, com muita delicadeza, ergueu uma perna e repousou-a no feixe de arame mais baixo. Com cautela, tentou encontrar um bom apoio para a mão.

— — — Vamos lá disse o Velho Pete, com impaciência. E nada de truques, nenhum dos dois.

Isham procurou um graveto no chão; ao encontrar um, ele o prendeu entre os dois feixes mais baixos, e Ellery se esgueirou pelo meio, mas não sem rasgar o ombro do terno. O promotor de justiça seguiu-o desajeitadamente. Nenhum dos dois disse uma palavra, e a espingarda em nenhum momento se desviou deles.

Sem perder tempo, correram em direção ao homem e se abrigaram na choupana. Isham fechou a porta pesada depois que todos entraram e pôs o ferrolho no lugar. Era uma habitação rústica ao extremo, mas fora equipada por uma mão cuidadosa. O chão era de pedra, bem varrido, e coberto de tapetes. Havia uma despensa cheia em um canto e, na lateral da lareira, uma pilha organizada de lenha. Um dispositivo similar a uma bacia na parede dos fundos, de frente para a única porta, era obviamente o lavatório do montanhês; acima dela havia uma prateleira repleta de suprimentos médicos. Sobre a bacia, havia uma pequena bomba à mão; pelo que parecia, o poço ficava abaixo da casa.

— — A carta pediu o Velho Pete com a voz rouca.

Isham pegou um bilhete. O montanhês não abaixou a arma; leu o bilhete em fragmentos, sem tirar os olhos dos convidados por mais de um instante. Ao ler, no entanto, a sua atitude mudou. A barba continuava ali, assim como os trapos e todo o traje superficial do Velho Pete, mas o homem em si estava diferente. Ele apoiou a espingarda na mesa e se sentou, mexendo no bilhete.

— — Então Tomislav está morto disse ele. A voz os atingiu com certo choque. Não exibia a afinação dos tons broncos do Velho Pete; era baixa e culta, a voz de um homem instruído no auge da vida.

— — — Sim, assassinado respondeu Isham. Ele deixou uma mensagem… gostaria de ler?

— — Por favor. O homem pegou o bilhete de Brad da mão de Isham e leu-o rápida e inexpressivamente. Acenou com a cabeça. — Entendo… Bem, cavalheiros, aqui estou. Andrew Van, um dia Andreja Tvar. Ainda vivo, enquanto Tom, aquele tolo teimoso…

Os olhos brilhantes dele reluziram e, de maneira bem precipitada, ele se levantou e foi até a bacia de ferro. Ellery e Isham se entreolharam. Que sujeito estranho! Van arrancou a barba espessa, tirou a peruca branca crespa da cabeça. Então lavou e limpou a sujeira do rosto… Quando se virou, era uma figura completamente diferente daquela que os enfrentara da janela. Alto, ereto, com cabelo escuro cortado rente e o rosto perspicaz de um asceta, marcado por dificuldades. Os trapos se penduravam do seu corpo forte, pensou Ellery. “Além do campo, fora do tom e solto das dobradiças”, como disse Rabelais.

— Sinto muito por não poder lhes oferecer cadeiras, cavalheiros. O senhor é o promotor de justiça Isham, imagino, e o senhor… acredito tê-lo visto, sr. Queen, sentado na primeira fileira do tribunal de Weirton no dia do inquérito.

— — Sim confirmou Ellery.

O homem era notável. Um excêntrico, sem dúvida. Após se desculpar pela única cadeira, ele se sentou nela, deixando os dois visitantes de pé.

— — O meu esconderijo. Um local agradável? O tom dele era amargurado. — Suponho que tenha sido Krosac?

— — É o que parece disse Isham. Tanto ele quanto Ellery estavam impressionados com a semelhança do homem com Stephen Megara; havia uma forte semelhança familiar.

— … — — … Stephen escreveu que ele Van estremeceu que ele usou os Ts.

— Sim. Cabeças decepadas. Deveras horrível. Então o senhor é Andrew Tvar!

O professor de Arroyo abriu um sorriso abatido.

— No meu antigo país eu era Andreja e os meus irmãos eram Stefan e Tomislav. Quando viemos para cá, com a esperança de… — Ele deu de ombros, então enrijeceu as costas, agarrando o assento da cadeira tosca. Os olhos se viraram, como os de um cavalo assustado, em direção à porta pesada e à janela coberta de arame. — Os senhores têm certeza — acrescentou em voz dura —, de que não foram seguidos?

Isham tentou parecer confiante.

— Positivo. Tomamos todas as precauções, sr. Tvar. O seu irmão Stephen foi escoltado abertamente pelo inspetor Vaughn da polícia do condado de Nassau por uma das principais autoestradas de Long Island, a caminho da cidade de Nova York. — O professor assentiu devagar com a cabeça. — Se qualquer um… Krosac, em qualquer que seja o seu disfarce… os seguisse, haveria homens de sobra para acompanharem o rastro. Eu e o sr. Queen fomos discretos ao sair ontem à noite.

Andreja Tvar mordiscou o fino lábio superior.

— … Chegou a hora, chegou a hora. É eu nem sei dizer como tudo isso é tenebroso. Ver um fantasma hórrido se materializar depois de anos de pavor… Querem ouvir a minha história?

— — Nas atuais circunstâncias argumentou Ellery, com aspereza — , não acha que temos direito a ela?

— — — Sim respondeu o professor, com pesar. Eu e Stephen precisaremos de toda assistência possível… O que ele lhes contou?

— — — Só que Brad e o senhor são irmãos dele respondeu Isham. Agora o que queremos saber…

Andrew Van se levantou, e o olhar dele endureceu.

— Nem uma palavra agora! Não direi nada até ver Stephen.

A mudança de comportamento e de atitude foi tão súbita que ambos o encararam.

— — — Mas por quê, homem? indagou Isham. Viajamos centenas de quilômetros para vir aqui…

O homem pegou a espingarda, e Isham recuou um passo.

— Não tenho como saber se vocês são de fato quem alegam ser. O bilhete está na letra de Stephen. O outro está na de Tom. Mas essas coisas podem ser arranjadas. Não tomei todas essas precauções para ser enganado no fim por um truque astuto. Onde está Stephen agora?

— — — Em Bradwood respondeu Ellery. Não aja como criança, homem; baixe essa arma. Quanto a não dizer nada até ver o seu irmão… ora, o sr. Megara antecipou isso e nós tomamos as providências. O senhor tem toda a razão para estar desconfiado, e nós consentiremos com qualquer sugestão razoável; não é, Isham?

— — Sim rosnou o promotor de justiça. Ele pegou o embrulho que carregara por toda a trilha montanha acima. — É assim que faremos, sr. Tvar. O que diz?

O homem olhou para o embrulho com incerteza; os trejeitos deixavam evidente que ele estava dividido entre o desejo e a indecisão. Finalmente, falou:

— Abra-o.

Isham rasgou o papel pardo. O embrulho continha um uniforme de soldado do condado de Nassau, completo com sapatos e revólver.

— — — Não há como levantar suspeitas afirmou Ellery. Assim que chegarmos a Bradwood, o senhor será um soldado. Há montes deles por todo lado. Um homem de uniforme é sempre só um uniforme, sr. Tvar.

O professor andou de um lado para o outro do chão de pedra.

— … — — Sair da cabana murmurou ele. Estou há meses em segurança aqui. Eu…

— — — O revólver está carregado informou Isham, ríspido , e há munição de sobra no cinto. O que pode lhe acontecer com uma arma carregada e uma escolta de dois homens fisicamente aptos?

Ele ruborizou.

— … Imagino que eu pareça um covarde aos cavalheiros Muito bem.

Ele começou a tirar os trapos; usava roupas de baixo limpas e decentes, notaram eles, outra nota de incongruência. Começou, bem desajeitadamente, a vestir o uniforme de soldado.

— — — Serviu comentou Ellery. Megara acertou o tamanho.

O professor não disse nada… Quando estava totalmente vestido, o revólver no pesado coldre de couro na lateral do corpo, se mostrava uma bela figura; alto, poderoso e, de certa forma, bonito. Ele levou a mão à arma e a acariciou, parecendo reunir forças ao fazê-lo.

— — Estou pronto declarou com voz firme.

— — Ótimo! Isham foi até a porta; Ellery espiou pela janela farpada. — A barra está limpa, sr. Queen?

— Parece estar.

Isham destravou a porta, e eles saíram rapidamente… A clareira estava deserta; o sol se punha, a mata já tocada pela escuridão do crepúsculo. Ellery se espremeu por entre os feixes mais baixos da cerca, Isham o seguiu, e os dois observaram enquanto o seu protegido uniformizado escalava atrás deles, com uma ligeireza que Ellery invejava.

A porta — Andrew Tvar cuidara disso — estava fechada. Fumaça ainda espiralava para fora da chaminé. Para qualquer um que perambulasse pela beira da floresta, a cabana ainda pareceria ocupada e impenetrável.

Os três homens dispararam para a mata, que se fechou sobre as cabeças deles. Seguiram com muito cuidado pela tênue trilha até o aglomerado de arbustos onde, como um fiel devoto, o Duesenberg os esperava. Eles não viram vivalma nas colinas ou na estrada.

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