O mistério da cruz egípcia
O frasco azul sem rótulo e os meus turbulentos devaneios
O frasco azul sem rótulo e os meus turbulentos
devaneios
Por Mabê Bonafé
Começou na Virgínia Ocidental… mas essa jornada se encerra aqui. Lembro-me de ter ouvido alguém dizer que o posfácio é parte da obra que deve ser escrita com extrema cautela, de forma a não acrescentar nada à história já finalizada. Marcou-me profundamente e, por isso, decidi adotar a mesma abordagem em relação a este texto. Portanto, reservo-me ao direito de não acrescentar absolutamente nada à vida de vocês, queridos leitores, e espero seguir assim até o final.
Se, por alguma razão, tirarem qualquer aprendizado daqui; a culpa não é minha.
A primeira vez que li Ellery Queen o achei um tanto quanto presunçoso, confesso que cheguei a revirar os olhos com essa coisa meio “estudei em Harvard, me erra”. Mas, devo admitir que, aos poucos, ele vai se tornando mais humano. Também ajuda o fato de ele ser um grande observador, ter o grande poder da dedução e sempre resolver os mais misteriosos casos.
Daniel Nathan e Maniod Lepofsky (imagina ter que soletrar isso com uma arma apontada para sua cabeça…?) nasceram em Nova York no início do século XX. Eles eram primos e aficionados pela literatura policial, tanto é que foram responsáveis por diversas publicações acerca do assunto, sendo uma das mais importantes a já icônica The Misadventures of Sherlock Holmes, uma antologia com quase mil páginas e uma grande referência para quem quer se aprofundar no vasto universo daquele que talvez seja o detetive mais famoso da história.
Mas uma pergunta paira no ar: o que Daniel Nathan, Maniod Lepofsky e Ellery Queen têm em comum? O gosto pelo gênero policial, a obsessão por saber mais sobre o assunto e, principalmente, a gana por escrever sobre. Não, não é só isso que eles compartilham…
DESAFIO PARA O LEITOR
Se tem uma coisa que me interessa muito é desafiar a inteligência do leitor, mesmo quando este não está em posse de tudo que é preciso para chegar às próprias conclusões. Fato é, que se você souber, isso não lhe trará nenhuma reviravolta. E, se não souber, também. Assim, respondendo à pergunta acima sem qualquer cerimônia, o que Daniel Nathan, Maniod Lepofsky e Ellery Queen têm em comum é que eles são a mesma pessoa.
*CORTINA SE FECHA E COMEÇA UMA TRILHA DE SUSPENSE*
Ok, como três pessoas podem ser uma só? É que os dois primos decidiram, em alguma tardezinha de outono enquanto passeavam pelo Central Park (uma descrição meramente especulativa, assumo), que escreveriam juntos, sob o pseudônimo de Ellery Queen. E que Ellery Queen também seria o Sherlock Holmes deles, alguém que investigaria os casos com entusiasmo e chegaria às mais duras conclusões que mais ninguém conseguiu desvendar.
Bom, essa história também é para lá de sangrenta, afinal, quatro homens decapitados e, não obstante, crucificados formando um grande T? O que é isso, um filme? Eu sou da época em que Natal era uma noite mais feliz, ou ao menos é o que dizia a canção…
O meu maior fascínio por whodunnit (quem é o assassino?, em tradução livre) vai além do seu formato, onde um investigador está descobrindo quem é o culpado do crime, enquanto o espectador procura desvendar o mistério junto dele. É também pela forma com que estimula a nossa mente, quase como se estivéssemos todos sentados em um sofá duvidoso e apertado, fumando um charuto, tomando uma dose de uísque e conjecturando teorias.
Apesar de ter se iniciado principalmente com Poe, e depois passeado por Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle, e pelas histórias de Poirot e Miss Marple de Agatha Christie, entre tantas outras, é o tipo de história que explora temas universais que são relevantes até hoje, como a natureza humana, a maldade, a ganância, o poder e o controle.
Existe um senso de comunidade entre quem lê, porque é possível debater teorias e discutir as evidências de forma apaixonada, quase como se estivéssemos de fato debatendo em um júri, sem contar a sensação inenarrável quando o mistério é finalmente respondido, trazendo uma satisfação emocional.
Particularmente me apetece muito o romance policial em que no último capítulo descobrimos o famigerado assassino ou o motivo, mas, principalmente, o raciocínio por trás, a reunião de todas as evidências para se chegar às respostas — e isso Ellery faz muito bem. Com um pouco de arrogância? Sim. Fumando um charutinho na boa? Sim. Zombando dos coleguinhas? Também.
Até aí, tudo bem.
Eu adoro como as histórias são habilmente entrelaçadas no universo criado pelo autor, e é especialmente fascinante ver o competente Ellery correndo de um lado para o outro, conectando todos os pontos para desvendar o mistério. Ao criar uma sensação de tensão e suspense ao revelar as pistas de forma gradual, ele nos mantém engajados e ansiosos para descobrir a verdade junto com o detetive. Quando você menos espera, na sua imaginação, você está lá, ao lado dele, com seu quadro de camurça enumerando meticulosamente todas as evidências e informações relevantes das vítimas.
Quando somos confrontados com uma pergunta para a qual não sabemos a resposta, pode ser tentador inventar alguma situação para não assumir a verdade. Há de se ter muita coragem para mostrar quem somos de verdade, e sempre existirá uma abordagem melhor que a mentira. Quando confessamos que não sabemos algo, criamos em nós a oportunidade de aprender algo novo.
Bem, essa é uma situação difícil para mim, mas aprecio muito a honestidade. Então, sim, essa é a parte que eu admito que errei o culpado. Errei até mesmo a motivação do crime. Reconheço e assumo total responsabilidade pelos meus erros. Devo dizer, no entanto, que cheguei bem perto. Infelizmente, estava muito ocupada, o que acabou dificultando minha capacidade de me relacionar mais com o caso.
Não, não estou me justificando, não. (Ok, a tripla negativa não é lá o melhor dos sinais, mas me acompanhe.)
Eu só acho que é muito fácil para aqueles que tiveram o luxo de dissecar a história em detalhes, viajando por diversos estados em uma jornada obsessiva e, por fim, transformá-la em um livro. E, se agora me vejo envolvida em uma potencial discussão com um possível heterônimo de duas pessoas que já partiram deste mundo, a responsabilidade é toda minha.
Mas, voltando, não é um pouco engraçado que a grande resposta seja um frasco azul sem rótulo contendo iodo? Ou que um detetive possa viajar pelo país todo, fretando aviões, andando de trem, de carro (um zap hoje faria metade do trabalho), pois se passa em uma época em que o contato não era lá muito rápido?
Lembra o que eu disse sobre revirar os olhos ao primeiro contato com Ellery Queen? Confesso que nosso início não foi dos mais promissores, entretanto, como em um típico clichê de romance barato de folhetim, o que começou com uma pura implicância quase infantil, evoluiu para uma admiração crescente, quase arrebatadora, daquelas cuja só a implícita ideia de um adeus se torna doloroso.
A mim, leitora entusiasmada que já está ultrapassando os limites da breguice, cabe apenas torcer para que possamos nos encontrar novamente em um futuro próximo para desfrutar de uma experiência tão marcante quanto o elo que criamos em meio a uma trama cheia de intrigas, desafios e descobertas emocionantes.
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Frederic Dannay (1905-1982)
e Manfred B. Lee (1905-1971)
Frederic Dannay, nascido Daniel Nathan, foi um roteirista e autor de literatura policial. Trabalhou como diretor de arte em uma agência publicitária de Manhattan antes de se tornar escritor. Seu primo, Manfred B. Lee, nasceu no Brooklyn, em Nova York, como Emanuel B. Lepofsky. Antes de se tornar escritor e editor, atuou como agente e redator publicitário.
Sob o pseudônimo de Ellery Queen, os dois escreveram sua primeira obra, The Roman Hat Mystery, para um concurso da revista McClure’s. A parceria deu origem a dezenas de livros protagonizados pelo detetive também nomeado Ellery Queen, e muitos outros por Drury Lane, assinados pelo segundo pseudônimo da dupla, Barnaby Ross. Seus livros venderam mais de 150 milhões de cópias mundialmente. Os dois também criaram a Ellery Queen’s Mystery Magazine, uma das mais influentes revistas de ficção de mistério do século XX, e foram cofundadores da Mystery Writers of America. Pela contribuição à literatura policial, receberam inúmeros prêmios e indicações, e suas obras foram adaptadas para a TV, o cinema e o rádio.
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Sumário
1. Capa
2. Rosto
3. Créditos
4. Sumário
5. Nota da editora
6. Prólogo
7. Parte um
1. 1. Natal em Arroyo
2. 2. Ano-novo em Weirton
8. Parte dois
1. 3. Professor Yardley
2. 4. Bradwood
3. 5. Assuntos internos
4. 6. Damas e cachimbos
5. 7. Fox e o inglês
6. 8. Ilha Oyster
7. 9. O Depósito de cem dólares
8. 10. A aventura do Dr. Temple
9. 11. Pega!
10. 12. O professor fala
9. Parte três
1. 13. O segredo de Netuno
2. 14. A chave de marfim
3. 15. Lázaro
4. 16. Os embaixadores
5. 17. O velho da montanha
6. 18. Fox fala
7. 19. T
8. 20. Dois triângulos
9. 21. Briga de amantes
10. 22. Correspondência estrangeira
11. 23. Conselho de guerra
10. Parte quatro
1. 24. TS de novo
2. 25. O homem manco
3. 26. Ellery fala
4. 27. O píer
5. 28. Morto duas vezes
6. Desafio para o leitor
7. 29. Uma questão de geografia
8. 30. Ellery fala de novo
9. O frasco azul sem rótulo e os meus turbulentos devaneios
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