O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 12 de 36

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O mistério da cruz egípcia

9. O Depósito de cem dólares

 

A neblina estava cada vez mais densa. A visita “importante” tinha acabado.

Eles deixaram a ilha com humores sorumbáticos. Um maníaco com a quantidade habitual de astúcia e incoerência; uma pista vazia que levou a um homem desaparecido… o mistério estava mais complicado do que nunca. Todos sentiam que, de alguma forma, a presença do homem autodenominado Harakht nas proximidades de Bradwood era significativa. Não podia ser coincidência. Ainda assim, que ligação poderia haver entre o assassinato de um professor de uma cidade rural e o assassinato de um milionário a centenas de quilômetros de distância?

A lancha da polícia arrancou da doca de desembarque e seguiu para leste ao longo da costa da ilha Oyster, contornando a faixa verde da praia. Na extremidade oriental da ilha, eles viram uma estrutura similar na água.

— — — Esse deve ser o píer particular de Ketcham disse Vaughn. Siga para lá.

Naquela região, a ilha estava ainda mais deserta do que o lado ocidental. Da plataforma de madeira onde chegaram, eles tinham uma visão desobstruída do estuário e do litoral de Nova York a norte. Era um local com vento e maresia.

O dr. Temple, deveras subjugado, e o professor Yardley permaneceram na lancha. O promotor de justiça Isham, Vaughn e Ellery saltaram no píer decrépito e seguiram uma trilha tortuosa pela mata. Estava fresco ali, e, não fosse pela trilha — que parecia ter sido percorrida pela última vez por pés indígenas —, eles poderiam estar em uma floresta virgem. Em 140 metros, no entanto, o grupo se deparou com uma bruta evidência de civilização, uma cabana construída com troncos desgastados pelo tempo e talhados de forma rústica. Sentado no degrau de entrada, fumando um cachimbo de sabugo de milho com tranquilidade, havia um grande e velho homem queimado de sol. Ele se levantou de imediato ao avistar os visitantes, e as suas sobrancelhas brancas espessas se franziram sobre olhos impressionantes de tão claros.

— — O que cês tão fazendo aqui? perguntou ele em uma voz hostil e arrastada. — Cês não sabem que isso aqui é privado, a ilha toda?

— — — Polícia disse o inspetor Vaughn de forma sucinta. Sr. Ketcham?

O velho assentiu.

— Poliça, é? Atrás dos nudistas, garanto. Ora, cês não vão achar nada comigo ou com a sra. Ketcham, cavalheiros. Eu só sô dono desse pedaço de terra aqui. Se meus inquilinos tão fazendo besteira, problema deles. Não sô respon…

— — Ninguém está culpando o senhor retrucou Isham com aspereza. — Não sabe que um crime foi cometido no continente… em Bradwood?

— — Cê tá brincando! O queixo de Ketcham caiu, e o cachimbo balançou entre dois dentes escurecidos. — Ouviu isso, mulher? — Ele virou a cabeça para a cabana, e eles conseguiram distinguir o rosto franzido de uma velhota entre o braço estendido dele e o batente da porta. — Teve um crime em Bradwood… Ora, ora, mas que pena. O que a gente tem a ver com isso?

— … — — Nada eu espero respondeu Isham com severidade. Thomas Brad foi assassinado.

— — Não o sr. Brad! gritou uma voz velha e feminina, e a sra. Ketcham enfiou a cabeça para fora. — Mas que terrível! Ah, eu sempre disse…

— — Tu volta lá pra dentro, mulher falou o velho Ketcham com os olhos gélidos. A cabeça da velha desapareceu. — Ora, cavalheiros, num posso dizer que tô surpreso com a notícia.

— — — Que bom! disse Vaughn. Por quê?

— Ora, têm acontecido umas coisas.

— Como assim? Que tipo de coisas?

O velho Ketcham deu uma piscadela.

— … — Ora, o sr. Brad e o lunático Ele balançou o dedão com uma crosta de sujeira por cima do ombro. — Eles vêm tendo umas brigas desde que aquele pessoal alugou a ilha Oyster de mim pro verão. Eu sou dono da ilha, sabe? Minha família tá aqui tem mais de quatro gerações. Desde a época dos índios, eu acho.

— — — Sim, sabemos disso falou Vaughn com impaciência. Então o sr. Brad não gostou da ideia de Harakht e o seu bando tão perto dele, é isso? O senhor…?

— — Um momento, inspetor disse Ellery; o olhar estava brilhante. — Sr. Ketcham, quem alugou a ilha do senhor?

O cachimbo de sabugo de Ketcham vomitou fumaça amarela.

— Num foi o camarada doido. Um homem com um nome engraçado pra diabo. Um tipo meio estrangeiro. Kro-sac — pronunciou com dificuldade.

Os três homens trocaram olhares. Krosac… uma pista, enfim. O misterioso manco do assassinato de Arroyo…

— — Ele mancava? perguntou Ellery, ansioso.

— — — Considerando respondeu Ketcham com a voz arrastada que eu nunca vi ele, num sei dizer. Calma aí; tenho um negócio que cês podem se interessar. — Ele se virou e desapareceu na escuridão da cabana.

— — — Ora, sr. Queen disse o promotor de justiça , parece que o seu palpite estava certo. Krosac… sendo Van armênio, e Brad romeno… bem, talvez não, mas certamente da Europa Central… e Krosac perambulando por aí depois de ser visto pela última vez na cena do primeiro crime… Estamos perto, Vaughn.

— — — É o que parece murmurou o inspetor. Vamos precisar tomar uma atitude agora mesmo… Aí vem ele.

O velho Ketcham reapareceu, o rosto vermelho de suor, balançando uma folha de papel suja e cheia de marcas de dedos, triunfante.

— — — Esta carta aqui anunciou veio do tal Krosac. Cês podem ver por conta própria.

Vaughn arrancou-a dele; Ellery e Isham a examinaram por cima do ombro dele. Era uma comunicação datilografada em um papel de carta genérico, datada de 13 de outubro do ano anterior. Era uma resposta, informava a carta, a um anúncio de um jornal de Nova York

 

anexava, segundo a carta, uma ordem de pagamento de cem dólares o como garantia até a ocupação acontecer, no dia 1 oferecendo a ilha Oyster para alugar durante o verão. O remetente de março. A carta

era assinada à máquina: Velja Krosac.

— — A ordem de pagamento estava anexada, sr. Ketcham?

perguntou Vaughn rapidamente.

— Estava, sim.

— — — Que bom! exclamou Isham, esfregando as mãos. Vamos rastreá-lo e conseguir o canhoto que ele deve ter preenchido na agência de correio da qual ele a enviou. Conterá a assinatura dele, e isso já bastará.

— — — Sinto dizer respondeu Ellery , que se o sr. Velja Krosac, nosso estimado e escorregadio procurado, for tão astuto quanto as atitudes dele até agora indicam, o senhor descobrirá que o canhoto

 

de Krosac na investigação de Van, lembre-se. o — foi preenchido pelo seu amigo Harakht. Não havia amostras da letra

Esse tal Krosac apareceu pessoalmente no dia 1 de março? —

perguntou o promotor de justiça.

— sinhô Não, . Ninguém com esse nome apareceu, mas aquele demônio velho… Har… é Harakht o nome dele…? Ele veio, e o sujeito que veio com ele, Romaine, eles pagaram o aluguel em dinheiro e ocuparam a ilha.

Por mútuo consenso, Vaughn e Isham desistiram de perguntar sobre Krosac. Obviamente o velho sujeito não poderia ajudar com mais nada naquela direção. O inspetor guardou a carta no bolso e passou a questioná-lo sobre o desentendimento entre Brad e Harakht. Ele descobriu que, desde o começo, quando ficou evidente que o culto era na verdade uma colônia nudista, Brad fora à ilha em pessoa para verbalizar a oposição conjunta da comunidade do continente. Harakht, ao que parecia, mostrara-se impassível a bajulações ou ameaças; e Romaine mostrara os dentes. Brad, em desespero, se oferecera várias vezes para reembolsá-los; ele oferecera uma quantia absurda pelo aluguel.

— — Quem assinou o contrato de aluguel, por sinal? perguntou Isham.

— — O velho salafrário respondeu Ketcham.

Harakht e Romaine haviam recusado a oferta de Brad. Então ele ameaçara tomar medidas legais alegando que os dois estavam criando um incômodo público. Romaine retrucara que não estavam prejudicando ninguém, que a ilha ficava afastada de autoestradas públicas, e que pela duração do aluguel ela basicamente pertencia a eles. Então Brad tentara convencer Ketcham a expulsá-los por medidas legais sob o mesmo pretexto.

— Mas eles não estavam fazendo mal nenhum pra mim e pra sra. Ketcham — explicou o velho. — O sr. Brad me ofereceu mil dólares pra expulsar eles. Não, sinhô, falei, não pro velho Ketcham; nenhum processo pro velho Ketcham.

A última briga, mais violenta, acontecera havia apenas três dias, revelou Ketcham… no domingo. Brad velejara pelas águas da enseada como um Menelau a caminho de Troia, encontrara Stryker na mata, então os dois tiveram um embate verbal ferrenho, durante o qual o homenzinho de barba castanha entrara em um frenesi.

— — Achei que ele fosse ter um troço, achei mesmo comentou Ketcham placidamente. — O tal sujeito Romaine… um brutamontes poderoso, ele é… se mete e manda o sr. Brad dar o fora da ilha. Eu tava assistindo da mata; nada da minha conta, não mesmo. Então o sr. Brad… ele num quis sair, e Romaine, ele pegou o sr. Brad pelo pescoço e disse: “Vai agora, desgraçado, ou eu vou acabar com a tua cara até tua mãe não te reconhecer!”, e o sr. Brad foi, gritando que ia dar o troco, nem que gastasse todos os centavos que tinha.

Isham voltou a esfregar as mãos.

— Excelente, sr. Ketcham. Queria que houvesse mais pessoas como o senhor por aqui. Diga-me… mais alguém do continente teve alguma desavença com Harakht e Romaine?

— — Pode apostar. O velho Ketcham pareceu satisfeito e abriu um sorriso ardiloso. — Aquele sujeito Jonah Lincoln… mora em Bradwood. Ele saiu no soco com Romaine semana passada, bem aqui na ilha. — Ele estalou os lábios ressecados. — Rapaz, mas que disputa! Digna de campeonato profissional. Lincoln, ele tinha vindo pra pegar a irmã Hester, que tinha acabado de chegar.

— É mesmo?

O velho Ketcham tagarelava eloquentemente, os olhos brilhando.

— Bem bonita, aquela garota. Ela saiu arrancando as roupa, pode acreditar, bem na frente dos dois! Tava brava com o irmão por se meter. Disse que ele mandava na vida dela desde que ela era miúda, e que ela podia fazer o que bem entendesse agora… Vou te dizer, foi uma cena e tanto. Eu tava olhando do meio das árvores…

— — Ketcham, seu velho safado! guinchou a voz feminina do interior da cabana. — Cê devia ter vergonha docê mesmo!

— — — Humm disse Ketcham, controlando-se. Enfim, quando Lincoln soube que a irmã num ia voltar e viu ela parada ali, pelada que nem um neném, e ainda mais, vê só, na frente de Romaine… Ele não gostou! Avançou e deu um murro nele, e os dois tiveram a briguinha deles. Lincoln levou uma bela surra, mas é valente, é mesmo… enfrentou que nem homem. Romaine tacou ele dentro da enseada, maldição. Sujeito forte, o Romaine.

Não havia mais a ser descoberto com o velho tagarela. Eles voltaram para a lancha. O professor Yardley fumava em silêncio e o dr. Temple andava de um lado para o outro da doca, o rosto roxo atormentado.

— — Descobriu alguma coisa? perguntou Yardley.

— Um pouco.

Estavam todos pensativos enquanto a lancha acelerava e balançava em direção ao continente.

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