O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 23 de 36

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O mistério da cruz egípcia

20. Dois triângulos

 

Enquanto Ellery, o professor Yardley, Isham e Vaughn davam a volta na ala leste da casa, alguém os chamou por trás. Todos se viraram depressa; era o dr. Temple.

— — Já acabaram a grande congregação? perguntou Temple; ele deixara a bolsa médica em algum lugar e caminhava tranquilamente pela trilha, de mãos vazias, fumando.

— … — Ah sim respondeu Isham.

No mesmo instante, a figura alta de Jonah Lincoln veio em disparada pelo caminho e virou a esquina; ele e Ellery colidiram, e Jonah recuou com um murmúrio vago de desculpas.

— — — Temple! exclamou ele, ignorando os outros. Qual é o problema com Megara?

— — — Não se empolgue, sr. Lincoln disse o inspetor, seco. Megara está bem. Só uma hérnia. O que o apoquenta?

Jonah secou a testa, arfando.

— Ah, está tudo tão misterioso por aqui. Maldição, não temos mais nenhum direito? Soube que vocês tinham ido em bando até o iate atrás de Temple, e pensei…

— — — Que o sr. Megara fora assassinado? perguntou Isham. Não, é como o inspetor Vaughn disse.

— — Bem! A vermelhidão se dissipou das feições angulosas de Lincoln; ele ficou mais calmo. O dr. Temple fumava tranquilamente, observando-o sem perturbação. — Esse lugar parece uma prisão de qualquer forma — resmungou Jonah. — A minha irmã teve muita dificuldade de entrar em Bradwood. Acabou de voltar da ilha Oyster, e o homem na…

— — A srta. Lincoln voltou? interrompeu o inspetor.

O dr. Temple tirou o cachimbo da boca; o ar sereno abandonou os olhos dele.

— — Quando? perguntou com exigência.

— … Há alguns minutos. O detetive não queria

— Sozinha?

— … — Sim. Eles A indignação do pobre Lincoln estava destinada a nunca ser expressa. A boca dele se abriu e assim permaneceu. Os outros homens tensionaram.

De algum lugar da casa viera uma ressonante risada selvagem.

— — Hester! gritou o dr. Temple, e se lançou à frente, derrubando Lincoln para o lado e desaparecendo na esquina.

— — — Meu Deus comentou Isham , o que foi isso?

Lincoln se levantou apressadamente e disparou atrás do médico, com Ellery na sua cola e os outros gritando às costas deles.

A origem da risada fora o andar superior da casa. Ao correrem para o saguão de entrada, eles passaram por Stallings, o mordomo, parado ao lado da escada, com o rosto lívido. O pescoço rígido da sra. Baxter se projetava de uma porta nos fundos.

O andar superior abrigava os dormitórios. Eles chegaram ao patamar bem a tempo de ver a figura magra do dr. Temple se lançar pela porta de um dos quartos… Os gritos persistiram; berros e berros da histeria estridente de uma mulher.

Eles encontraram o dr. Temple segurando Hester Lincoln nos braços, acariciando o cabelo desgrenhado, acalentando-a gentilmente. O rosto da garota estava escarlate, os olhos ferozes e irracionais, a boca aberta e torta; os gritos escapavam como se ela não tivesse qualquer controle sobre as próprias cordas vocais.

— — — Histeria! falou o médico com rispidez por cima do ombro. Ajude-me a botá-la na cama.

Vaughn e Jonah saltaram à frente; a risada estridente da garota redobrou em volume, e ela começou a se debater. Foi naquele momento que Ellery ouviu passos velozes no corredor e, ao se virar, avistou Helene e uma sra. Brad de negligé na porta.

— — — Qual é o problema? arquejou a senhora. O que aconteceu?

Helene se apressou à frente. O dr. Temple forçou a garota esperneante de volta para a cama e deu um tapa súbito no rosto dela. Um guincho estremeceu e morreu. Hester se ergueu parcialmente na cama e encarou o rosto pálido e rechonchudo da sra. Brad. A racionalidade voltou aos olhos dela, assim como um ódio desumano.

— … … — Saia daqui, sua sua Saia da minha frente! exclamou ela. — Eu odeio, odeio você, e tudo que pertence a você. Saia daqui, eu disse, saia daqui!

A sra. Brad corou, os lábios fartos tremendo. Os ombros sacudiram quando ela arquejou. Então soltou um gemido baixo, deu meia-volta e desapareceu.

— — — Chega, Hester! ordenou Helene, com ferocidade. Você não está falando sério. Seja uma boa garota e sossegue. Está fazendo uma cena.

Os olhos de Hester pareceram se revirar nas órbitas; a cabeça se pendurou e ela desabou como uma trouxa amarrotada na cama.

— — — Fora! exclamou o dr. Temple. Todo mundo.

Ele esticou a garota inconsciente de barriga para cima na cama enquanto os outros saíam lentamente do quarto. Jonah, afobado, nervoso, mas de certa forma triunfante, fechou a porta com cuidado.

— — Eu me pergunto o que a deixou histérica comentou Isham com uma carranca.

— — A reação a uma experiência emocional violenta respondeu Ellery. — A psicologia está correta?

— — A consciência da Nova Inglaterra murmurou o professor Yardley —, em violenta erupção.

— — Por que ela saiu da ilha? perguntou Vaughn.

Jonah deu um sorriso fraco.

— Já está tudo acabado agora, inspetor, então acho que não há problema em contar ao senhor; não é mistério algum. Hester estava enamorada por aquele patife Romaine na ilha Oyster. Mas agora há pouco voltou correndo. Parece que ele… se engraçou para cima dela. — — O rosto dele ficou sombrio. Outra conta que eu preciso acertar com ele, maldita seja a sua alma vil! Mas de certa forma estou grato. Ele abriu os olhos dela e devolveu-lhe o bom-senso.

O inspetor comentou de forma seca:

— Não é da minha conta, é claro, mas a sua irmã pensou que ele recitaria poesia para ela?

A porta se abriu e o dr. Temple apareceu.

— — — Ela está tranquila agora, não a incomodem rosnou ele. A senhorita pode entrar, srta. Brad. — Helene assentiu e entrou, fechando rapidamente a porta atrás de si. — Ela vai ficar bem. Vou lhe dar um sedativo; vou pegar a minha bolsa… — Ele se apressou escada abaixo.

Jonah o observou se afastar.

— Quando ela retornou, me disse que estava farta de Romaine e de todo esse maldito negócio nudista. Ela quer sair daqui e ir a outro lugar… Nova York, falou. Quer ficar sozinha. Bom para ela.

— — — Humm disse Isham. Onde está Romaine agora?

— Na ilha, imagino. Ele não deu as caras por aqui, aquele nojento… — Jonah mordeu o lábio e deu de ombros. — Hester pode sair de Bradwood, sr. Isham?

— … Bom O que acha, Vaughn?

O inspetor massageou a mandíbula.

— Não vejo problema, se soubermos onde encontrá-la se precisarmos.

— — Ficará responsável por ela, sr. Lincoln? perguntou Isham.

Jonah assentiu com vontade.

— … Eu garanto

— — — Por sinal murmurou Ellery , o que exatamente a sua irmã tem contra a sra. Brad, sr. Lincoln?

O sorriso de Jonah sumiu; algo se congelou no olhar dele.

— — — Não faço a menor ideia respondeu ele, categórico. Não dê atenção a ela; ela não sabia o que estava dizendo.

— — — Estranho respondeu Ellery. Pareceu-me que ela falava com uma clareza notável. Acho, inspetor, que seria prudente que conversássemos com a sra. Brad.

— … — Temo começou Lincoln, e parou; todos se viraram um degrau abaixo.

Um dos detetives de Vaughn estava parado ali.

— — — Um tal de Romaine e o velho informou o detetive estão na doca lá embaixo. Querem falar com o senhor, chefe.

O inspetor esfregou as mãos.

— Ora, não é ótimo? Muito bem, Bill, estou indo. Vamos adiar aquela conversinha com a sra. Brad, sr. Queen; ela pode esperar.

— — Alguma objeção a que eu vá junto? perguntou Jonah em voz baixa. O seu grande punho direito já estava cerrado.

— — Humm. O inspetor olhou para o punho e abriu um sorrisinho. — Nenhuma. Será um prazer ter a sua companhia.

 

Eles seguiram pela trilha. Perto da quadra de tênis, encontraram o dr. Temple, que andava apressadamente com a bolsa preta. O médico abriu um breve sorriso; parecia preocupado e não notara os dois visitantes da ilha Oyster.

Jonah continuou andando de forma ameaçadora.

A grande figura marrom de Paul Romaine assomava na doca de desembarque. O magrelo Stryker, o egiptólogo louco, tremia sentado no barquinho com motor de popa amarrado ao píer. Ambos os homens estavam vestidos; o imortal Ra-Harakht, ao que parecia, dispensara o bastão e a túnica branca como a neve da divindade dele para essa visita, sentindo que poderia conquistar mais como mortal do que como deus. A lancha da polícia boiava por perto, e havia vários detetives ao lado de Romaine.

As pernas de Romaine estavam firmemente plantadas nas tábuas de madeira. O pequeno horizonte verde de árvores da ilha Oyster e a extensão branca oscilante do Helene atrás dele de alguma forma funcionava como um cenário apropriado para ele. Fosse lá o que fosse, sem sombra de dúvida era um homem da natureza. Mas havia uma indecisão no seu rosto e um desejo meio sorridente de agradar que denunciava de imediato o estado de espírito dele.

Ele disse de pronto:

— Não queremos incomodá-lo, inspetor. Mas gostaríamos de resolver uma questão. — O tom era agradável.

Ele manteve os olhos fixos em Vaughn, ignorando Jonah Lincoln, que respirava calmamente, examinando Romaine quase com curiosidade.

— — — Vá em frente rosnou o inspetor. O que quer?

Romaine olhou por um segundo para a figura encolhida de Stryker às suas costas.

— Os senhores basicamente arruinaram o nosso negócio, o meu e o do Vosso Todo-Poderoso. Está mantendo os nossos hóspedes presos na ilha.

— Ora, isso não é bom para vocês?

— — — Sim respondeu Romaine, com paciência , mas não assim. Eles estão todos assustados, como um bando de crianças. Querem desistir, e os senhores não permitem. Mas não estou preocupado com eles. E sim com os próximos. Certamente não conseguiremos mais clientes.

— E daí?

— Queremos permissão para partir.

Muito subitamente, o velho Stryker se levantou do barco a motor.

— — — Isso é perseguição! esganiçou ele. Um profeta não tem honra exceto na própria terra! Harakht exige o direito de pregar o Evangelho…

— — Quieto ordenou Romaine.

O louco arquejou e se sentou.

— — Abobrinha murmurou o professor Yardley; ele estava pálido. — Pura abobrinha. O homem é maluco de pedra. Cita Mateus; tagarela em egípcio e teologia cristã…

— — Bem, vocês não têm disse o inspetor Vaughn, com calma.

O belo rosto de Romaine se tornou ameaçador de imediato. Ele deu um passo adiante e cerrou os punhos. Os detetives ao redor dele se aproximaram, ansiosos. Mas o desejo obscuro de agradar sufocou o temperamento raivoso, e ele relaxou.

— — — Por quê? perguntou, engolindo com força. O senhor não tem nada contra nós, inspetor. Temos sido bons meninos, não temos?

— Você me escutou. Não deixarei você nem aquele velho depravado fugirem de mim… nem a pau. Claro que têm se comportado bem. Mas até onde sei, vocês dois estão na corda bamba, Romaine. Onde você estava na noite em que Thomas Brad foi assassinado?

— Eu já disse! Na ilha.

— — Ah, é? inquiriu o inspetor.

Em vez de explodir de raiva de novo, Romaine, para a surpresa de Ellery, ficou pensativo. As narinas do inspetor estremeceram; um tanto por acidente, parecia, ele esbarrara em alguma informação. Isham abriu a boca; Vaughn o cutucou e Isham a fechou.

— — — Então? vociferou Vaughn. Não tenho o dia todo. Desembuche!

— — — Suponha disse Romaine devagar , suponha que eu possa provar definitivamente onde eu estava naquela noite… por meio de uma testemunha confiável, digo. Isso me liberaria?

— — — Ah falou Isham. Claro que sim, Romaine.

Aconteceu um pequeno rebuliço atrás deles que ninguém notou exceto Ellery. A compostura de Jonah Lincoln evaporara; ele rosnava pela garganta e tentava avançar para a frente do grupo. Ellery fechou os dedos firmemente ao redor do bíceps de Lincoln; que flexionaram e tensionaram sob o toque, mas ele parou onde estava.

— — Muito bem disse Romaine, de súbito; estava um tanto pálido ao redor das narinas. — Eu não ia divulgar isso, porque envolve… bem, algumas pessoas podem interpretar mal. Mas precisamos sair daqui… Eu estava…

— — — Romaine soou a voz nítida de Jonah , se disser mais uma palavra eu juro que mato você.

Vaughn deu meia-volta.

— — — Ei, ei! repreendeu ele com rispidez. Que papo é esse? Não se meta, Lincoln!

— — Você me ouviu, Romaine reiterou Jonah.

Romaine balançou a cabeçorra e riu; uma risadinha enlouquecida que arrepiou os cabelos da nuca de Ellery.

— — — Tolice disse ele de forma brusca. Eu o joguei na enseada uma vez e posso jogar de novo. Não dou a mínima para você ou qualquer outro nesse lugar torpe. Eis a verdade, inspetor. Entre 22h30 e mais ou menos 23h30 daquela noite…

Jonah se lançou à frente sem fazer barulho, sacudindo os braços. Com um resmungo, Ellery passou um braço ao redor do pescoço dele e arrastou-o para trás. Um detetive se juntou à briga e agarrou a gola de Jonah em uma chave de braço. Depois de uma breve resistência, o jovem sucumbiu; ele arfava e encarava Romaine com uma raiva assassina nos olhos ardentes.

Romaine prosseguiu apressadamente:

— Eu estava na ilha Oyster com a sra. Brad.

Jonah afastou o braço de Ellery.

— — — Tudo bem, sr. Queen disse ele com frieza. Estou muito bem agora. Ele já falou. Deixe que conte a historinha dele.

— … — Como assim na ilha Oyster com a sra. Brad? perguntou o inspetor, estreitando os olhos. — A sós com ela?

— — — Ah, não se faça de inocente retrucou Romaine. Foi o que eu disse. Passamos uma hora juntos perto da costa, sob as árvores.

— Como a sra. Brad chegou à ilha naquela noite?

— Tínhamos um encontro. Esperei por ela no meu barco, na doca de Bradwood. Ela apareceu logo depois que eu cheguei. Um pouco depois das 22h30.

O inspetor Vaughn tirou um cigarrinho esfarrapado de um dos bolsos e enfiou-o na boca.

— Você precisa retornar à ilha, e nós investigaremos a sua história. Leve o doido junto… E agora, sr. Lincoln — anunciou depois de refletir, dando as costas para Romaine —, se desejar dar uns socos neste espécime sujo da ninhada fedorenta de uma hiena, vá em frente. Eu… hum… voltarei para a casa.

Romaine ficou parado na doca, inexpressivo. Os detetives se afastaram dele. Jonah tirou o casaco, arregaçou as mangas e deu um passo à frente.

— — — Um disse Jonah , por se engraçar com a minha irmã. Dois, por mexer com a cabeça de uma mulher deveras tola… Assuma a sua posição, Romaine.

O louco agarrou a borda do barco e guinchou:

— Paul, vamos embora!

Romaine lançou um olhar rápido para os rostos hostis ao redor.

— — Tire as fraldas primeiro! exclamou, erguendo os ombros largos e se virando parcialmente.

O punho de Jonah colidiu com o maxilar do homem. Foi um golpe vigoroso, bem dado, e carregava consigo todo o ódio amargurado que Jonah vinha acumulando havia semanas. Nocautearia um homem de porte normal; mas Romaine era um touro, e o golpe só o fez cambalear. Ele piscou de novo, um rosnado ferino obscureceu a sua beleza, e ele ergueu o punho de cassetete em um gancho curto e poderoso que ergueu Jonah dois centímetros do píer de madeira e o derrubou, feito um monte inanimado, nas tábuas.

A simpatia do inspetor Vaughn desapareceu e ele gritou para os seus homens, se lançando à frente como uma dardo:

— Mantenham distância!

Romaine, movendo-se a uma velocidade extraordinária para o seu tamanho, saltou da doca para o barco a motor onde Stryker se acovardava, quase afundando o barco, e afastou-o com um empurrão colossal da pata. O motor ligou com um forte ruído, e o barco disparou na direção da ilha Oyster.

— — — Vou entrar na lancha disse o inspetor, calmo. Levem esse coitado de volta; me juntarei aos senhores em alguns minutos. Aquele sujeito precisa de uma lição.

Enquanto a lancha assobiava para longe da doca atrás do barco a motor, Ellery se ajoelhou ao lado do gladiador caído e estapeou, com gentileza, as bochechas pálidas. O professor Yardley se debruçou sobre o cais e encheu a mão de água do estuário.

Os detetives gritaram palavras de encorajamento para o inspetor, que se posicionava de pé na proa da lancha, como o capitão Ahab, e tirava o paletó.

Ellery espirrou água no rosto de Jonah.

— — — Um exemplo notável observou do triunfo da justiça. Acorde, Lincoln; a guerra acabou!

 

Quinze minutos mais tarde, eles estavam sentados na varanda colonial, quando o inspetor Vaughn virou a esquina. Jonah Lincoln ocupava uma cadeira de balanço e segurava a mandíbula com ambas as mãos como se estivesse surpreso por ela continuar presa ao rosto. Ellery, Isham e Yardley o ignoravam, fumando em paz de costas para ele.

A rosto do inspetor, apesar de não exatamente angelical, visto que havia rastros de sangue no nariz e um corte sob um dos olhos, indicava que ele estava satisfeito com a sua justa cavalheiresca.

— — Olá disse, bem-humorado, subindo ruidosamente os degraus da varanda entre os pilares. — Bem, sr. Lincoln, o senhor deu uma surra por tabela nele. Foi uma batalha real, mas aquele mulherengo vai passar um mês longe dos espelhos.

Jonah murmurou:

— … Eu Meu Deus, eu simplesmente não tenho a força necessária. Não sou um covarde de fato. Mas aquele homem… ele é um Golias.

— — Bom, e eu sou o pequeno Davi dele. Vaughn chupou um corte no nó do dedo. — Achei que o velho lunático teria um treco. Eu realmente nocauteei o discípulo líder! Heresia, hein, professor? Melhor ir se lavar, sr. Lincoln. — Ele parou de sorrir. — Vamos voltar aos negócios. Viram a sra. Brad?

De repente, Jonah se levantou e entrou na casa.

— — Acho que ainda está no andar de cima falou Isham.

— — — Bom disse o inspetor, seguindo atrás de Jonah , vamos alcançá-la antes que Lincoln o faça. Ele vem dando uma de cavalheiro e tudo o mais, mas isso é uma investigação oficial e está na hora de arrancarmos a verdade de alguém.

Helene, ao que parecia, continuava no quarto de Hester Lincoln. Stallings achava que o dr. Temple também estava lá em cima; o médico não reaparecera depois de subir com a bolsa médica havia algum tempo.

 

Eles chegaram ao andar dos dormitórios bem a tempo de ver Jonah entrar no quarto. Seguindo as instruções de Stallings, eles foram até uma porta nos fundos da casa e o inspetor bateu.

A voz trêmula da sra. Brad falou:

— Quem é?

— Inspetor Vaughn. Podemos entrar?

— — Quem? Ah, um momento! Havia pânico no tom da mulher. Eles esperaram, até que uma fresta da porta se abriu. O rosto deveras belo da sra. Brad apareceu, os olhos úmidos e apreensivos. — O que é, inspetor? Eu… estou doente.

Vaughn empurrou delicadamente a porta.

— Eu sei. Mas é importante.

Ela recuou, e eles entraram. Era um quarto bem feminino: perfumado, pregueado, repleto de espelhos e com uma penteadeira coberta de cosméticos. Ela continuou recuando, apertando o negligé com mais firmeza ao redor do corpo.

— — — Sra. Brad começou Isham , onde a senhora estava entre 22h30 e 23h30 da noite em que o seu marido foi assassinado?

Ela parou de apertar o negligé ao redor do corpo, parou de recuar; pareceu quase parar de respirar.

— — — Como assim? perguntou ela, enfim, com a voz apática. Eu estava no teatro com a minha filha, com…

— — — Paul Romaine interrompeu o inspetor Vaughn disse que a senhora estava com ele, na ilha Oyster.

Ela vacilou.

— … — Paul Os grandes olhos escuros dela estavam assombrosos. — … Ele ele disse isso?

— — — Sim, sra. Brad confirmou Isham com seriedade. Entendemos como isso deve ser doloroso para a senhora. Evidentemente, não é da nossa conta, contanto que seja só isso e nada mais. Conte-nos a verdade, e não tocaremos no assunto de novo.

— — É mentira! exclamou ela, e desabou em uma cadeira de chita.

— Não, sra. Brad. É verdade. Coincide com o fato de que, por mais que a senhora e a srta. Brad tenham ido ao teatro Park naquela noite, só o sr. Lincoln e a sua filha voltaram para esta casa de táxi. Coincide com o fato de que o porteiro do teatro Park viu uma mulher com a sua descrição sair no meio do primeiro ato naquela noite, por volta das nove horas… Romaine disse que tinha um compromisso com a senhora, que a encontraria perto do cais.

Ela cobriu os ouvidos.

— — — Por favor implorou. Eu estava louca. Não sei como aconteceu. Fui uma tola… — Eles se entreolharam. — Hester me odeia. Ela o queria também. Ela pensou… ela pensou que ele fosse decente… — As linhas de expressão apareciam com nitidez surpreendente, como se recém-formadas, no seu rosto. — Mas ele é um monstro do pior tipo!

— — Ele não fará esse tipo de coisa por muito tempo, sra. Brad

afirmou o inspetor Vaughn sombriamente. — Ninguém está julgando a senhora, ou tentando fazê-lo. A senhora manda na própria vida, e se foi tola o bastante para se misturar com aquele trapaceiro, imagino que já tenha sofrido o bastante. Só o que nos interessa é: como a senhora chegou em casa e o que exatamente aconteceu naquela noite?

Ela retorceu os dedos no colo; um soluço seco engasgando-a.

— … Eu eu saí do teatro mais cedo, durante o espetáculo; disse a Helene que não estava me sentindo bem e insisti para que ela ficasse e esperasse por Jonah… Fui à estação Pensilvânia e peguei o primeiro trem de volta; por sorte um passou quase de imediato. Eu… eu saltei na estação seguinte e peguei um táxi até um local próximo a Bradwood. Andei o resto do caminho, e não parecia haver vivalma por perto, então… então…

— — — Naturalmente disse Isham , não queria que o sr. Brad soubesse que a senhora voltara. Entendemos.

— — Sim sussurrou ela; o rosto estava tingido de um tom escuro e doentio de vermelho. — Eu o encontrei… na doca.

— Que horas eram?

— Pouco depois das 22h30.

— A senhora tem certeza de que não viu nem ouviu nada? Não encontrou ninguém?

— — — Sim. Ela ergueu os olhos aflitos. Ah, não acha que eu teria contado… tudo… se eu tivesse visto algo ou alguém? E quando… quando voltei, eu entrei de fininho na casa e vim direto para o quarto.

Isham estava prestes a fazer outra pergunta quando a porta se abriu e Helene Brad apareceu. Ela ficou imóvel, olhando do rosto atormentado da mãe para o dos homens.

— — O que houve, mãe? perguntou ela, os olhos firmes.

A sra. Brad afundou a cabeça nas mãos e começou a chorar.

— — Então a história veio à tona sussurrou Helene. Ela fechou a porta com calma. — Você foi fraca demais para guardá-la. — Ela olhou com desprezo de Vaughn para Isham, então para a mulher chorosa. — Pare de chorar, mãe. Se é sabido, é sabido; outras mulheres já tentaram reviver o romance e fracassaram. Só Deus sabe…

— — — Vamos em frente disse Vaughn. É tão desagradável para nós quanto para vocês. Como Lincoln e a senhorita sabiam onde a sua mãe estava naquela noite, srta. Brad?

Helene se sentou ao lado da mãe e deu tapinhas nas largas costas sacolejantes.

— … … Pronto, mãe Quando a mamãe me deixou naquela noite bem, eu sabia. Mas ela não sabia que eu sabia. Eu mesma fui fraca. — Ela encarou o chão. — Decidi esperar por Jonah; nós dois havíamos notado… bem, certas coisas antes. Quando ele chegou, eu contei a ele, e nós voltamos para casa. Olhei para dentro deste quarto; mamãe estava na cama, dormindo… Na manhã seguinte, no entanto, quando vocês encontraram o… o corpo…

— Ela confessou?

— Sim.

— — Se me permite duas perguntas interveio Ellery. Os olhos grandes da garota, tão parecidos com os da mãe, se viraram para ele. — Há quanto tempo a senhorita começou a desconfiar do que estava acontecendo, srta. Brad?

— — — Ah! Ela balançou a cabeça, como se sentisse dor. Semanas, semanas atrás.

— Acha que o seu padrasto sabia?

A srta. Brad ergueu a cabeça de súbito; o rosto estava manchado de lágrimas e ruge.

— — — Não! exclamou ela. Não!

Helene sussurrou:

— Tenho certeza de que não sabia.

— — Acho que já basta falou o promotor de justiça Isham, curto e grosso, e seguiu para a porta. — Vamos lá. — E saiu para o corredor.

Obedientes, o inspetor Vaughn, o professor Yardley e Ellery o seguiram.

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