O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 6 de 36

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O mistério da cruz egípcia

3. Professor Yardley

 

E isso foi tudo. Extraordinário, incrível… mas morreu ali. A conexão críptica que Ellery Queen apontou para a população de Weirton aprofundou, mais do que mitigou, o mistério. Ele se consolou com o pensamento de que era difícil aplicar lógica às divagações de um louco.

Se o problema era demais para ele, era pior ainda para o magistrado Stapleton, para o promotor de justiça Crumit, para o coronel Pickett, para o júri, para os cidadãos de Arroyo e Weirton, e para as dúzias de jornalistas que se amontoaram no vilarejo no dia do inquérito. Orientado pelo magistrado, que resistiu com rigor à tentação de saltar à solução óbvia, porém sem fundamento, o júri coçou a cabeça coletiva e chegou ao veredito de “morte pelas mãos de pessoa ou pessoas desconhecidas”. Os jornalistas bisbilhotaram por um ou dois dias, o coronel Pickett e o promotor de justiça Crumit andaram em círculos cada vez mais lentos, e finalmente o caso morreu na imprensa; uma sentença de morte de fato.

Ellery voltou a Nova York com um dar de ombros filosófico. Sentia-se inclinado a acreditar, quanto mais remoía o problema, que a explicação era simples, afinal. Não havia motivo, achava ele, para duvidar das indicações avassaladoras das provas. Circunstanciais, com certeza, mas corretas nas suas implicações. Havia um homem de nome Velja Krosac, um estrangeiro fluente em inglês, uma espécie de charlatão, que, por motivos sombrios particulares, havia planejado, procurado, e por fim tirado a vida de um professor da área rural, também nascido no exterior. O método, apesar de interessante de um ponto de vista criminológico, não era necessariamente importante. Era a expressão horrível, mas compreensível, de uma mente subjugada pelas estranhas chamas da psicologia maníaca. O que estava por trás — que história sórdida de imoralidade fantasiosa, fanatismo religioso ou vingança sanguinária — talvez nunca viesse à tona. Depois de cumprir a missão macabra, seria natural que Krosac desaparecesse; e talvez estivesse agora mesmo em alto-mar, a caminho do seu país natal. Kling, o criado? Sem dúvida uma vítima inocente, pega no fogo cruzado, liquidada pelo executor por ter testemunhado o crime ou vislumbrado o rosto do assassino. Era provável que Kling representasse um fio solto que Krosac se sentiu compelido a cortar. Afinal, um homem que não hesitou em decepar uma cabeça humana apenas para ilustrar em carne e osso o símbolo da sua vingança dificilmente amoleceria diante da necessidade de matar uma inesperada ameaça à própria segurança.

E, assim, Ellery voltou a Nova York para se submeter aos comentários mordazes do inspetor.

— “ ” — Não falarei eu lhe disse comentou o velho com uma risadinha à mesa de jantar na noite de retorno de Ellery —, mas quero destacar uma moral.

— — Prossiga murmurou Ellery, atacando a costela.

— A moral é: assassinato é assassinato, 99 por cento dos assassinatos cometidos em qualquer canto do globo, seu jovem idiota, são moleza de explicar. Nada elaborado, entende. — O inspetor estava radiante. — Não sei o que você esperava conseguir naquele maldito lugar, mas qualquer policial fazendo uma ronda poderia ter lhe dado a resposta.

Ellery pousou o garfo.

— … Mas a lógica

— — — Bobagem! exclamou o inspetor com desdém. Vá dormir um pouco.

 

Seis meses se passaram, durante os quais Ellery se esqueceu por completo dos acontecimentos bizarros do assassinato em Arroyo. Havia coisas a fazer. Nova York, ao contrário da sua vizinha Pensilvânia, não era exatamente uma cidade de amor fraterno; homicídios eram vastos. O inspetor disparava de um lugar ao outro em um êxtase de investigação, e Ellery o seguia, contribuindo com as suas capacidades peculiares nos casos que o interessavam.

Só em junho, seis meses depois da crucificação de Andrew Van na Virgínia Ocidental, que o assassino de Arroyo foi, à força, trazido de volta à sua mente.

Era quarta-feira, dia 22, quando a faísca se acendeu. Ellery e o inspetor Queen tomavam café da manhã quando a campainha tocou, e Djuna, o faz-tudo dos Queen, atendeu a porta e encontrou um mensageiro com um telegrama para Ellery.

— — — Estranho disse ele, abrindo o envelope amarelo. Quem poderia estar me escrevendo a essa hora da manhã?

— — De quem é? murmurou o homem mais velho com a boca cheia de torrada.

— … — É de Ellery desdobrou a mensagem e baixou os olhos para a assinatura digitada. — De Yardley! — exclamou com grande surpresa. Ele sorriu para o pai. — Professor Yardley. O senhor se lembra, pai? Um dos meus professores na universidade.

— Claro que sim. O sujeito de história antiga, não é? Ficou um fim de semana conosco quando veio a Nova York. Um camarada feio de cavanhaque, se bem me lembro.

— — Um dos melhores. Não se faz mais professores assim disse Ellery. — Deus, faz anos que não recebo notícias dele! Por que ele iria…

— — — Sugiro que leia a mensagem disse o velho em tom suave. Em geral, essa é a melhor maneira de descobrir por que uma pessoa lhe escreveu. Para algumas coisas, meu filho, você é burro como uma porta.

O brilho no olhar dele se apagou enquanto observava o rosto de Ellery. O queixo do cavalheiro caíra perceptivelmente.

— — — O que houve? perguntou o inspetor, apressado. Alguém morreu? — Ele ainda preservava a superstição da classe média de que telegramas nunca traziam algo de bom.

Ellery jogou o papel amarelo por cima da mesa, se levantou de um salto, atirou o guardanapo para Djuna e disparou para o quarto, despindo o roupão pelo caminho.

O inspetor leu:

 

PENSEI QUE DEPOIS DE TODOS ESSES ANOS VOCÊ TALVEZ QUISESSE

COMBINAR NEGÓCIOS COM PRAZER PONTO POR QUE NÃO ME FAZ

AQUELA VISITA HÁ TANTO ADIADA PONTO VAI ENCONTRAR UM BELO

ASSASSINATO EM FRENTE AO MEU CHALÉ PONTO ACONTECEU ESSA

MANHÃ MESMO E OS GENDARMES LOCAIS AINDA ESTÃO CHEGANDO

PONTO MUITO INTERESSANTE PONTO MEU VIZINHO FOI ENCONTRADO

CRUCIFICADO AO TÓTEME DELE SEM CABEÇA PONTO ESPERO VOCÊ HOJE

YARDLEY

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