O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 16 de 36

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O mistério da cruz egípcia

Parte três

 

 

Crucificação de um cavalheiro

 

“J’ai découvert comme Officier Judiciaire Principale près le Parquet de Bruxelles que l’opération du cerveau criminel est dirigée par motifs souvent incompréhensibles au citoyen qui observe la loi.”

— Félix Brouwage

 

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13. O SEGREDO DE NETUNO

 

O iate de Stephen Megara, Helene, fez uma viagem recorde do norte da Jamaica pelas ilhas salpicadas das Bahamas, mas, ao se aproximar da ilha de Nova Providência, desenvolveu problemas sérios no motor e o seu mestre, o capitão Swift, foi forçado a levá-lo

 

vários dias depois. o Então foi apenas no dia 1 ao porto de Nassau para reparos. Ele só conseguiu retornar ao mar de julho, oito dias depois de o inspetor

Vaughn receber o radiograma de Megara, que o Helene apareceu no horizonte do litoral de Long Island. Foram feitos arranjos com as autoridades do porto para acelerar a liberação de Megara pelo ancoradouro de Nova York e, depois de um breve atraso, o Helene entrou a todo vapor no estuário de Long Island, acompanhado de um barco da polícia e uma congregação de pequenas embarcações contratadas por jornalistas intrépidos que foram mantidos afastados dos deques de arenito do Helene com muita dificuldade.

Oito dias… Oito dias de singular tranquilidade. Com a exceção do funeral. E mesmo aquilo foi um evento calmo. Brad fora enterrado em um cemitério de Long Island sem pompa ou cerimônia desagradável; a sra. Brad, como foi observado pelos cavalheiros da imprensa, suportou a provação com bravura notável. Mesmo a sua filha, que não tinha parentesco sanguíneo com o falecido, ficou mais afetada pelo enterro do que a viúva.

A busca por Velja Krosac assumira as proporções de uma caçada nacional. A descrição fora enviada para sedes da polícia e gabinetes de xerifes por todos os Estados Unidos, além de para todos os portos; ele estava sendo observado pela polícia dos 48 estados, Canadá e México. Apesar da ampliação da rede, no entanto, nenhum peixe montenegrino foi capturado; o homem desaparecera com tanta eficiência como se tivesse saído voando da Terra para o espaço. De Kling também, nenhum sinal.

O chofer Fox, continuava sob guarda na sua choupana; não preso formalmente, mas tão prisioneiro quanto se estivesse atrás das grades de Sing Sing. A investigação se alastrou sem alarde ao redor dele; mas até a chegada de Megara as suas impressões digitais ainda não tinham sido identificadas em nenhuma lista de criminosos da Costa Leste. O inspetor, obstinado, enviara cópias das digitais mais para o oeste. O próprio Fox se mantinha em um silêncio ferrenho. Não reclamava do confinamento não oficial, mas havia um brilho de desespero no olhar, e o rigoroso inspetor dobrou a guarda. Era parte do gênio de Vaughn ignorar por completo o homem, exceto pelos guardas silenciosos; Fox não foi questionado ou intimidado; foi deixado totalmente sozinho. Apesar da tensão, no entanto, não cedeu. O homem permaneceu em silêncio na sua choupana, dia após dia, mal tocando a comida levada a ele da cozinha da sra. Baxter, mal se mexendo, mal respirando.

 

Tudo estava pronto na sexta-feira, 1o de julho, quando o Helene avançou pelo estuário de Long Island e pelos estreitos a oeste da enseada de Ketcham, ancorando nas águas profundas entre a ilha Oyster e o continente. A doca de desembarque de Bradwood estava apinhada de pessoas; detetives, policiais, soldados. Todos observaram as lentas manobras do iate. Era uma embarcação de um branco reluzente, baixa e curvilínea. No ar matinal límpido, o belo brilho dos detalhes em bronze e as figuras minúsculas no deque ficavam claramente visíveis. Barquinhos oscilavam ao redor do ventre estreito.

O inspetor Vaughn, o promotor de justiça Isham, Ellery Queen e o professor Yardley esperavam em silêncio na doca. Uma lancha encostou na lateral, golpeada pelas águas da enseada. Várias figuras podiam ser vistas descendo a escada de ferro e entrando na lancha. Imediatamente, um barco de polícia avançou, e a lancha seguiu, submissa. Ambos seguiram para a doca de desembarque. A multidão se agitou.

Stephen Megara era um homem alto e bronzeado de físico imponente, com um bigode preto e um nariz que, pela sua aparência, fora irremediavelmente golpeado em uma briga. Ele era, de modo geral, uma figura vigorosa e sinistra. O salto da lancha para a doca foi rápido, certeiro, ágil; todos os movimentos eram decididos. Ali, sentiu Ellery ao analisá-lo com profundo interesse, estava um homem de ação; uma pessoa muito diferente do homem barrigudo, superalimentado e prematuramente envelhecido que deve ter sido Thomas Brad.

— — Sou Stephen Megara disse ele, de súbito, em um inglês com um leve sotaque de Eton. — Um comitê de recepção e tanto. Helene!

Ele a destacou da multidão; os protagonistas, acanhados no fundo — Helene, a mãe dela, Jonah, dr. Temple… Megara pegou as mãos de Helene, ignorando os outros, e olhou-a nos olhos com uma ternura feroz. Ela corou e retraiu lentamente as mãos. Megara abriu um breve sorriso que ergueu o bigode, murmurou algo no ouvido imóvel da sra. Brad, fez um breve aceno com a cabeça para o dr. Temple e se virou.

— Então Tom foi assassinado? Estou a serviço de qualquer um disposto a se apresentar.

O promotor de justiça resmungou:

— — — É mesmo? Então continuou: Sou Isham, promotor de justiça do condado. Esse é o inspetor Vaughn do departamento investigativo do condado de Nassau. Sr. Ellery Queen, investigador especial. Professor Yardley, o seu novo vizinho.

Megara trocou apertos de mãos com indiferença. Então se virou e curvou um dedo bronzeado para um velho de rosto fechado e antipático de uniforme azul que o acompanhara na lancha.

— — Capitão Swift, meu marinheiro disse Megara.

Swift tinha mandíbulas fortes e olhos como as lentes de um telescópio; límpidos como cristal em um rosto tão castigado pelo tempo quanto o do Judeu Errante.

— — Prazer disse o capitão Swift para ninguém em particular, e levou a mão esquerda ao quepe. Faltavam três dedos, observou Ellery.

E quando todos, por consenso tácito, começaram a se encaminhar da doca para o caminho que levava à casa, Ellery viu que o capitão caminhava com o balanço dos homens de águas profundas.

— — Que pena que não recebi a notícia antes falou Megara, sem enrolação, para Isham enquanto caminhavam. Os Brad, Lincoln e o dr. Temple vinham atrás com rostos inexpressivos. — Venho vagando em alto-mar há meses; não se recebe notícias desse jeito. Foi um baque descobrir sobre Tom.

Ainda assim, ao dizer isso, ele não parecia baqueado; discutia o assassinato do sócio com a mesma ausência de emoção que talvez ponderasse a compra de uma nova remessa de tapetes.

— — Eu estava lhe esperando, sr. Megara afirmou o inspetor Vaughn. — No seu conhecimento, quem poderia ter motivo para matar o sr. Brad?

— — Humm. Megara virou a cabeça por um momento para olhar para a sra. Brad e para Helene às costas dele. — Prefiro não responder no momento. Deixe-me saber exatamente o que aconteceu.

Quando Isham abriu a boca para responder, Ellery perguntou em uma voz mansa:

— Já ouviu falar de um homem chamado Andrew Van?

Por uma fração de segundo, as passadas ritmadas de Megara vacilaram, mas o rosto permaneceu inescrutável ao continuar.

— Andrew Van? O que ele tem a ver com isso?

— — Então o senhor o conhece! exclamou Isham.

— Ele foi assassinado em circunstâncias parecidas com as que envolveram a morte do seu sócio, sr. Megara — disse Ellery.

— — Van também foi assassinado! O iatista perdeu parte da pose, e uma faísca de inquietude piscou nos olhos audazes.

— — Cabeça decepada e corpo crucificado em forma de T

continuou Ellery.

Megara parou de repente daquela vez, e a procissão inteira que o seguia também. O rosto dele ficou violeta sob a camada queimada de sol.

— — — … T! murmurou ele. Ora Vamos entrar na casa, cavalheiros.

Ele estremeceu ao dizer isso, e os ombros murcharam; a compleição cor de mogno estava lívida. Naquele momento, ele pareceu ter envelhecido alguns anos.

— — Sabe explicar os Ts? perguntou Ellery com urgência.

— … — Tenho uma ideia Megara bateu os dentes e seguiu em frente.

Eles percorreram o resto da distância até a casa em silêncio.

Stallings abriu a porta da frente, e o seu rosto desinteressado se abriu na mesma hora em um sorriso convidativo.

— … Sr. Megara! Que felicidade receb

Megara passou direto por ele, sem um olhar de relance. Ele passou para a sala de estar, seguido pelos outros, então começou a andar de um lado para o outro com passos longos. Parecia revirar algo na mente. A sra. Brad se aproximou suavemente e repousou a mão gorducha no braço dele.

— … … Stephen se você pudesse esclarecer esse terrível

— sabe Stephen, você ! — exclamou Helene.

— Se você sabe, Megara, pelo amor de Deus, desembuche e acabe com esse suspense execrável! — disse Lincoln com a voz áspera. — Tem sido um pesadelo para todos nós.

Megara suspirou e enfiou as mãos nos bolsos.

— Fiquem tranquilos. Sente-se, capitão. Desculpe por arrastá-lo para um negócio sórdido como esse. — O capitão Swift piscou e não se sentou; parecia desconfortável, e se aproximou da porta. — Cavalheiros — anunciou Megara —, acredito saber quem assassinou meu… quem assassinou Brad.

— — Sabe, é? perguntou Vaughn sem qualquer animação.

— — Quem? indagou Isham.

Megara jogou os ombros largos para trás.

— … Um homem chamado Velja Krosac. Krosac não tenho dúvidas. O senhor disse T? Se significa o que eu penso, ele é o único homem no mundo que poderia o ter deixado. T, não é? De certo modo, é um sinal claro de que… Apenas me conte o que aconteceu. Tanto no assassinato de Van quanto no de Brad.

Vaughn olhou para Isham, que assentiu. Imediatamente, o inspetor se lançou em um resumo conciso do que ocorrera em ambos os crimes, começando com a descoberta de Velho Pete e Michael Orkins do corpo do professor no cruzamento da ponta de Arroyo com a autoestrada de New Cumberland-Pughtown. Quando Vaughn relatou o testemunho de Croker, o garagista, sobre o homem manco que contratara Croker para levá-lo até o cruzamento, Megara assentiu com lentidão e disse, como se dispensando a sua última dúvida:

— Ele mesmo, ele mesmo.

Quando a história se concluiu, Megara sorriu sem humor.

— — Já entendi tudo. Ele recuperara a pose; havia propósito e coragem na postura dele. — Agora me conte exatamente o que os senhores encontraram na cabana do jardim. Há algo um pouco estranho…

— — — … Mas sr. Megara protestou Isham. Não vejo

— — Leve-me lá agora mesmo disse Megara, brusco, e caminhou para a porta.

Isham pareceu hesitante, mas Ellery o olhou e assentiu. Todos saíram atrás do iatista.

Ao pegarem o caminho até o totem e a edícula, o professor Yardley murmurou:

— finale Ora, Queen, parece que chegamos ao , hein?

Ellery deu de ombros.

— Não vejo por quê. O que falei sobre Krosac ainda se aplica. Onde ele está? A não ser que Megara possa identificá-lo na personalidade atual…

— — — É querer demais disse o professor. Como sabe que ele está por perto?

— Eu não sei! Mas é certamente possível.

A edícula fora envolvida por lona, e um soldado estava de guarda. Vaughn afastou a lona e, sem pestanejar, Megara entrou. O interior da cabana aparentava estar exatamente como os investigadores a encontraram na manhã seguinte ao crime; uma pequena precaução por parte do inspetor que, ao que parecia, renderia frutos.

Megara só tinha olhos para uma coisa — ele ignorou o T, a mancha de sangue, os sinais de uma luta e de um massacre —, só encarava o cachimbo cujo fornilho era entalhado como uma cabeça e um tridente de Netuno…

— — Foi o que pensei falou em voz baixa, se abaixando e pegando o cachimbo. — No momento em que mencionou o cachimbo de cabeça de Netuno, inspetor Vaughn, eu soube que havia algo errado.

— — Errado? Vaughn estava perturbado; os olhos de Ellery estavam brilhantes e questionadores. — O que há de errado, sr. Megara?

— — Tudo. Megara olhou para o cachimbo com resignação amarga. — Os senhores acham que esse cachimbo era de Tom? Ora, não era!

— — — Não quer dizer começou o inspetor que o cachimbo pertence a Krosac!

— — — Bem que eu gostaria respondeu Megara. Não. Ele pertence a mim.

Os homens digeriram a revelação por um instante, revirando-a na mente como se para extrair tudo dela. Vaughn estava perplexo.

 

— — — for Afinal disse ele , mesmo se …

— — Espere um minuto, Vaughn interrompeu o promotor de justiça. — Acho que há mais por trás disso. Sr. Megara, tínhamos a impressão de que o cachimbo pertencia a Brad. Stallings nos transmitiu certeza disso, por mais que, pensando agora, seja fácil cometer tal erro. Mas o cachimbo tem as digitais de Brad, e foi fumado na noite do assassinato com a marca de tabaco dele. Agora o senhor diz que é seu. O que eu não entendo…

Megara estreitou os olhos; o seu tom era teimoso:

— Há algo errado aqui, sr. Isham. Esse cachimbo é meu. Se Stallings disse que era de Tom, ou ele mentiu ou presumiu que fosse de Tom só porque o notara na casa antes de eu ir embora no ano passado. Eu o deixei aqui sem querer quando zarpei há mais ou menos um ano.

— — O que você não consegue entender disse Ellery suavemente para Isham — é por que um homem fumaria o cachimbo de outro.

— Isso mesmo.

— — — Ridículo! explodiu Megara. Tom não fumaria meu cachimbo, ou de mais ninguém. Ele próprio tinha vários, como pode ver se abrir a gaveta do escritório. E homem nenhum coloca a piteira de outro na boca. Especialmente Tom; era obcecado por higiene. — Ele virou a cabeça de Netuno nos dedos com afeto distraído. — Senti falta do velho Netuno… Já o tenho há quinze anos. Tom… ele sabia como eu prezava por ele. — O homem ficou em silêncio por um momento. — Ele não fumaria esse cachimbo tanto quanto não colocaria os dentes falsos de Stallings na boca.

Ninguém riu. Ellery interveio rapidamente:

— Enfrentamos uma situação interessante, cavalheiros. O primeiro raio de luz. Não veem a importância da identificação desse cachimbo como sendo do sr. Megara?

— — — Importância o caramba resmungou Vaughn. Só significa uma coisa: Krosac está tentando incriminar o sr. Megara.

— — — Bobagem, inspetor respondeu Ellery com simpatia. Não significa nada do tipo. Krosac não poderia esperar nos fazer acreditar que o sr. Megara assassinara Brad. Todo mundo sabia que o sr. Megara estava em outro canto, há milhares de quilômetros de distância, alongando as pernas em um dos seus passeios marítimos periódicos. Então os Ts e a ligação com o assassinato de Van… tão bons quanto uma assinatura. Não. — Ele se virou para o iatista, que ainda estudava o cachimbo com uma carranca. — Onde você estava, senhor… o iate, o senhor, a tripulação… no dia 22 de junho?

Megara virou-se para o capitão.

— — Já esperávamos isso, não é, capitão? O bigode dele se ergueu em um breve sorriso. — Onde estávamos?

O capitão Swift ruborizou e tirou uma folha de papel de um dos bolsos azuis salientes.

— — — Meu diário de bordo disse ele deve ter as respostas, senhor.

Eles examinaram o diário. Atestava que no dia 22 de junho o Helene passara pelo lago Gatún no Canal do Panamá, a caminho das Índias Ocidentais. Anexo ao diário havia um canhoto de aparência oficial que confirmava o pagamento pela passagem às autoridades do canal.

— — A tripulação toda a bordo afirmou o capitão Swift com a voz rouca. — Meu diário de bordo tá aberto pra inspeção. Távamos navegando pelo leste do Pacífico. Fomos até a Austrália na passagem pro oeste.

Vaughn assentiu com a cabeça.

— Ninguém está duvidando de vocês. Mas vamos dar uma olhada no diário de bordo mesmo assim.

Megara afastou as pernas e oscilou para a frente e para trás; era fácil imaginá-lo em uma ponte de comando, balançando ao subir e descer de uma embarcação de águas profundas.

— Ninguém está duvidando de nós. De fato! Não que eu dê a mínima se vocês duvidarem, entende… O mais perto que chegamos da morte nessa viagem toda foi uma dor na virilha que desenvolvi perto de Suva.

Isham pareceu desconfortável, e o inspetor se virou para Ellery.

— Ora, sr. Queen, o que está passando pela sua mente? O senhor está com alguma ideia, dá para ver.

— — Temo dizer, inspetor, a partir dessa evidência material disse Ellery, apontando para o diário de bordo e para o canhoto —, que não podemos muito bem acreditar que Krosac queria que pensássemos que o sr. Megara assassinara o sócio. — Ele tragou o cigarro antes de continuar. — O cachimbo… — Ele bateu as cinzas do cigarro na direção do estranho cachimbo de madeira briar na mão de Megara. — Krosac deve ter sabido que o sr. Megara teria um álibi incontestável para o momento do assassinato. Desconsideremos qualquer suposição, portanto, nessa direção. Mas, a partir do conhecimento de que este cachimbo é do sr. Megara e Brad não o teria fumado, podemos estabelecer uma teoria viável.

— — — Esperto comentou o professor Yardley , se for verdade. Como?

— Brad não teria fumado esse cachimbo de cabeça de Netuno, propriedade do sócio dele. Ainda assim ele foi fumado; manuseado, aparentemente, pela própria vítima. Mas se Brad não teria fumado o cachimbo e ainda assim há evidências de que ele o fez, o que temos?

— — — Engenhoso murmurou o professor. O cachimbo foi preparado para parecer fumado por Brad. Seria muito fácil implantar as digitais do morto na haste.

— — — Precisamente! exclamou Ellery. E a tarefa de fazer o cachimbo parecer usado seria simples. Talvez o próprio assassino o tenha abastecido, acendido e dado um trago. Uma pena que o método Bertillon não leva em consideração as variações entre bactérias individuais; eis uma ideia! Agora, quem poderia querer fazer parecer que Brad havia fumado esse cachimbo? Apenas o assassino. Por quê? Para confirmar a impressão de que Brad saíra andando e fumando o cachimbo, em um paletó para fumar, até a edícula e fora atacado e morto lá.

— — — Parece provável confessou Isham. Mas por que Krosac faria isso com o cachimbo do sr. Megara? Por que ele não escolheu um de Brad?

Ellery deu de ombros.

— Há uma resposta simples para isso, se parar para pensar. Krosac pegou o cachimbo… onde? Na gaveta da mesinha de leitura da biblioteca. Correto, sr. Megara?

— — — Provavelmente disse Megara. Tom guardava todos os cachimbos lá. Quando encontrou o meu depois que fui embora, deve tê-lo guardado na mesma gaveta até meu retorno.

— Obrigado. Agora, ao ir até a gaveta, Krosac vê uma série de cachimbos. Sem dúvida, presume que todos pertençam a Brad. Ele quer deixar um cachimbo para fazer parecer que Brad estava fumando na edícula. Então escolhe o de aparência mais distinta, seguindo a excelente teoria de que será o mais fácil de identificar. Logo… Netuno. Felizmente para nós, no entanto, Netuno era propriedade do sr. Megara, não de Brad.

“Ah, mas aqui chegamos a uma dedução interessante. Nosso amigo Krosac teve bastante trabalho, não teve, para fazer parecer que Brad foi atacado e morto enquanto fumava na edícula? Porque, veja bem, se não houvesse cachimbo ou qualquer evidência de fumo, nós teríamos questionado a presença de Brad na edícula, especialmente visto que ele estava usando um paletó de fumar; ele poderia ter sido arrastado até lá. Mas, quando sabemos que um homem estava fumando em certo lugar, sabemos que, até certo ponto ao menos, ele estava lá por livre arbítrio… Agora descobrimos, no entanto, que ele não estava fumando lá, e sabemos que o assassino quer que acreditemos que ele estava. A única dedução sã é que a edícula não foi a cena do crime, mas o assassino queria muito que acreditássemos que foi.”

Megara observava Ellery com um brilho especulativo e um tanto cínico nos olhos. Os outros permaneceram em silêncio.

Ellery jogou o cigarro porta afora.

— O próximo passo está claro. Se essa não é a cena do crime, algum outro lugar é. Precisamos encontrar tal lugar e examiná-lo. Encontrá-lo, creio eu, não será nada difícil. A biblioteca, é claro. Brad foi visto vivo pela última vez lá, jogando damas sozinho. Ele esperava alguém, visto que esvaziara cuidadosamente a casa de possíveis testemunhas ou interrupções.

— — — Só um minuto. A boca de Megara estava tensa. Foi um belo discurso e agradável aos ouvidos, sr. Queen, mas parece totalmente errado.

O sorriso de Ellery murchou.

— Hein? Não entendo. De que forma a análise é falha?

— Ela está errada na suposição de que Krosac não sabia que o cachimbo era meu.

Ellery tirou o pincenê e começou a esfregar as lentes com o lenço; um sinal infalível de perturbação, satisfação ou empolgação.

— Uma declaração extraordinária, se verdadeira, sr. Megara. Como Krosac saberia que o cachimbo pertence ao senhor?

— estojo Porque o cachimbo estava em um . Vocês encontraram o estojo na gaveta?

— — — Não. Os olhos de Ellery brilharam. Não me diga que o estojo tinha as suas iniciais, senhor!

— — — Melhor do que isso retrucou Megara. O meu nome completo em letras douradas estava impresso na capa de couro marroquino. O cachimbo estava no estojo da última vez que o vi. O estojo naturalmente tem um formato tão estranho quanto o do cachimbo, e não poderia ser usado para outro, a não ser que fosse uma réplica deste.

— — — Ah, esplêndido! exclamou Ellery com um sorriso amplo. Retiro tudo o que disse. O senhor nos deu um novo sopro de vida, sr. Megara. Isso traz uma perspectiva totalmente diferente à questão. Oferece-nos mais com o que trabalhar… Então Krosac sabia que o cachimbo era seu. Mesmo assim, de maneira deliberada, o escolheu para deixar na edícula. O estojo ele levou embora, é óbvio, já que sumiu. Por que levá-lo embora? Porque, se ele o tivesse deixado, nós o teríamos encontrado, visto a semelhança entre o formato do estojo de Stephen Megara e o formato do suposto cachimbo de Brad, e concluído no mesmo instante que o cachimbo não era de Brad. Ao levar o estojo embora, Krosac nos fez acreditar temporariamente que o cachimbo era de Brad. Entende a inferência?

— — Por que temporariamente? perguntou Vaughn.

— — — de fato Porque respondeu Ellery, triunfante o sr. Megara voltou, de fato identificou o cachimbo, de fato nos contou sobre o estojo desaparecido! Certamente Krosac sabia que o sr. Megara acabaria fazendo isso. Conclusão: até o sr. Megara chegar, Krosac queria que acreditássemos que o cachimbo pertencia a Brad e, portanto, que a edícula era a cena do crime. Depois de o sr. Megara chegar, Krosac almejava que soubéssemos que a edícula não fora a cena do crime; almejava, ademais, visto que seria inevitável, que nós procurássemos a verdadeira cena do crime. Por que digo “ ” almejava? Porque Krosac poderia ter evitado tudo isso se tivesse escolhido outra forma de fazer a edícula parecer a cena do crime; na verdade, se tivesse escolhido um dos próprio cachimbos de Brad!

— — — Você pensa, então interveio o professor , que o assassino deliberadamente deseja que voltemos à verdadeira cena do crime. Não consigo entender por quê.

— — Parece-me curioso disse Isham, balançando a cabeça.

— — — É tão absurdamente simples. Ellery deu um sorrisinho. Não veem? Krosac queria que nós olhássemos a cena do crime agora ; não há uma semana, veja bem, mas agora.

— — Mas por quê, homem? perguntou Megara com impaciência. — Não faz sentido.

Ellery deu de ombros.

— Não sei dizer especificamente, mas estou convencido de que faz bastante sentido, sr. Megara. Krosac quer que nós encontremos algo agora… enquanto o senhor está em Bradwood… que ele não queria que encontrássemos enquanto o senhor estava em algum lugar do Pacífico.

— — Maluquice! exclamou o inspetor Vaughn com uma carranca.

— — — Seja lá o que for falou Isham , estou disposto a duvidar.

— — — Sugiro declarou Ellery que sigamos as pistas do bagunceiro Krosac. Se ele queria que encontrássemos algo, façamos esse favor. Vamos à biblioteca?

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