O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 4 de 36

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O mistério da cruz egípcia

2. Ano-novo em Weirton

 

Não havia razão lógica para o interesse persistente de Ellery Queen no caso do professor crucificado. Ele devia estar em Nova York. O inspetor recebera uma mensagem dizendo que precisava abreviar as férias e voltar à rua Centre; e Ellery geralmente seguia o inspetor aonde ele fosse. Mas algo na atmosfera da capital do condado da Virgínia Ocidental, uma empolgação reprimida que enchia as ruas de Weirton de boatos sussurrados, o manteve ali. O inspetor desistiu com desgosto e seguiu para Nova York, com Ellery o levando até Pittsburgh.

— — O que exatamente você acha que vai conseguir? perguntou o velho, exigente, enquanto Ellery o acomodava no assento do Pullman. — Vamos lá, me diga. Imagino que já tenha solucionado tudo, hã?

— — Ora, inspetor respondeu Ellery em uma voz tranquilizadora — , cuidado com a sua pressão. Estou apenas interessado. Nunca me deparei com algo tão escancaradamente lunático. Vou esperar pelo inquérito. Quero escutar as provas que Luden insinuou.

— — Você vai voltar a Nova York com o rabo entre as pernas

previu o inspetor, em tom sombrio.

— — — Ah, sem dúvida. Ellery abriu um sorrisinho. No entanto, eu meio que estou sem ideias para ficções, e esse caso tem tantas possibilidades…

Eles interromperam o assunto aí. O trem partiu e deixou Ellery parado na plataforma do terminal, livre e um tanto inquieto. Ele dirigiu de volta a Weirton no mesmo dia.

Era terça-feira. Ele tinha até sábado, o dia seguinte ao Ano-Novo, para arrancar o máximo de informação possível do promotor de justiça do condado de Hancock. O promotor Crumit era um homem severo de ambições engenhosas e tinha uma opinião exagerada sobre a própria importância. Ellery chegou à porta da antessala; e nenhuma quantidade de apelo ou bajulação o levou além disso. O promotor não pode receber ninguém. O promotor está ocupado. Volte amanhã. O promotor não pode receber quem quer que seja. De Nova York? Filho do inspetor Queen? Sinto muito…

Ellery mordeu o lábio, vagando pelas ruas, e escutou com ouvidos incansáveis as conversas dos cidadãos de Weirton. Em meio aos seus azevinhos, lantejoulas e árvores de Natal reluzentes, Weirton entregava-se a uma orgia de horror vicário. Havia pouquíssimas mulheres fora de casa, e nenhuma criança. Homens se encontravam com pressa, de lábios tensos, para discutir as possibilidades. Havia conversas sobre linchamento; um propósito digno que falhou devido à falta de alguém para linchar. A força policial de Weirton patrulhava as ruas, ansiosa. A polícia estadual entrava e saía do vilarejo em disparada. De tempos em tempos, o rosto macilento do promotor Crumit aparecia, com uma expressão firme e vingativa, passando com o seu automóvel em alta velocidade.

Em meio a todo o burburinho que se agitava ao redor, Ellery manteve a paz e um ar questionador. Na quarta-feira, ele tentou ver Stapleton, o magistrado do condado. Stapleton era um rapaz gordo em estado constante de perspiração; e que também era perspicaz, e Ellery não tirou dele algo além do que já sabia.

Então dedicou o restante dos três dias a investigar o que podia sobre Andrew Van, a vítima. Era incrível como se sabia quase nada sobre o homem. Poucos o haviam visto em carne e osso; ele era um cavalheiro reservado de hábitos solitários e raramente visitava Weirton. Havia rumores de que os aldeãos de Arroyo o consideravam um professor exemplar: ele era gentil, mas não leniente, com os seus alunos, e prestara um serviço satisfatório, na opinião do Conselho Municipal de Arroyo. Além disso, por mais que não fosse frequentador da igreja, era abstêmio; o que, pelo que parecia, cimentava a posição dele em uma comunidade sóbria e temente a Deus.

Na quinta-feira, o editor do principal jornal de Weirton tornara-se literário. O dia seguinte seria Ano-Novo, e era uma oportunidade fecunda demais para deixar passar infértil. Os seis cavalheiros reverendos que ministravam as atenções espirituais de Weirton pregaram os seus sermões na primeira página. Andrew Van, disseram, fora um homem ímpio. Quem vive na impiedade deve morrer na impiedade. Ainda que atos nascidos da violência… O editor não parou por aí. Havia um editorial com dez pontos em negrito. Eram abundantes as referências ao francês Barba Azul, Landru; ao Maníaco de Dusseldorf; ao bicho-papão americano, Jack, o Estripador; e a vários outros monstros da realidade e da ficção — uma pequena iguaria servida aos bons cidadãos de Weirton como sobremesa para a ceia de Ano-Novo.

 

O tribunal do condado, onde o inquérito do magistrado aconteceria na manhã de sábado, estava lotado até a porta muito antes do horário marcado. Ellery tomou a decisão sábia de ser um dos primeiros a chegar, ocupando um assento na primeira fileira, atrás do corrimão. Quando, alguns minutos antes das nove horas, o próprio magistrado Stapleton apareceu, Ellery o abordou, exibiu um telegrama assinado pelo comissário de polícia de Nova York e, com isso, assegurou a entrada à antessala onde se encontrava o corpo de Andrew Van.

— — — O cadáver está meio arruinado chiou o magistrado. Afinal, não pudemos seguir com o inquérito durante a semana do Natal, e já faz uns bons oito dias… O corpo vem sendo mantido na funerária local.

Ellery se preparou antes de remover o tecido que cobria o cadáver. Era uma visão repugnante, e ele reposicionou o tecido logo em seguida. Era o cadáver de um homem grande. No lugar da cabeça havia uma ausência… um buraco aberto.

Em uma mesa próxima havia uma veste masculina: um modesto terno cinza-escuro, sapatos pretos, uma camisa, meias, roupas de baixo; todas rígidas com sangue desbotado. Artigos tirados das roupas do morto — um lápis, uma caneta tinteiro, uma carteira, um molho de chaves, um maço de cigarros amassado, algumas moedas, um relógio barato, uma carta antiga — se provaram, até onde Ellery via, deveras desinteressantes. Exceto pelo fato de que vários dos objetos estavam gravados com as iniciais AV e a carta — de uma livraria de Pittsburgh — era endereçada a sr. Andrew Van, não havia algo de provável importância para o inquérito nos pertences.

Stapleton se virou para apresentar um homem velho, alto e amargo que acabara de entrar e encarava Ellery com desconfiança.

— … Sr. Queen o promotor de justiça Crumit.

— — Quem? disse Crumit, áspero.

Ellery sorriu, assentiu com a cabeça e voltou à sala de inquérito.

Cinco minutos depois, o magistrado Stapleton bateu o martelo e o tribunal lotado se aquietou. As preliminares habituais foram apressadamente descartadas, e o magistrado convocou Michael Orkins ao banco das testemunhas.

Orkins cambaleou pelo corredor, seguido por sussurros e olhares. Era um velho fazendeiro encurvado, com a pele queimada pelo sol. Ele se sentou, parecendo nervoso, e entrelaçou as mãozorras.

— — — Sr. Orkins chiou o magistrado , conte-nos como encontrou o corpo do falecido.

O fazendeiro umedeceu os lábios.

— Sim, senhor. Eu tava vindo pra Arroyo na última sexta de manhã no meu Ford. Logo antes de pegar a ponta de Arroyo eu vi o Véio Pete, de cima das montanha, andando na estrada. Dei uma carona pra ele. Nós chegamos na curva da estrada e… e o corpo tava ali, pendurado na placa. Pregado, ele tava, pelas mão e pelos pés. — A voz de Orkins falhou. — Nós arredamos pé pro vilarejo.

Alguém deu uma risadinha na plateia, e o magistrado bateu o martelo pedindo silêncio.

— Os senhores tocaram no corpo?

— Não, senhor! Nós nem saímos do carro.

— Muito bem, sr. Orkins.

Com um suspiro profundo, o fazendeiro se arrastou de volta pelo corredor, secando a testa com um grande lenço vermelho.

— … Hã Velho Pete?

Houve uma comoção, e uma figura estranha se ergueu nos fundos do tribunal. Era um velho empertigado com barba grisalha desgrenhada e sobrancelhas caídas. Usava vestes esfarrapadas; um amontoado de roupas antiquíssimas, rasgadas, sujas e remendadas. Ele cambaleou pelo corredor, hesitou, então balançou a cabeça e se sentou no banco de testemunhas.

O magistrado estava impaciente.

— Qual é o seu nome completo?

— Hein?

O velho o encarava de soslaio com os olhos brilhantes e cegos.

— … O seu nome! É Peter do quê?

Velho Pete balançou a cabeça.

— — — Não tenho nome declarou ele. Velho Pete, esse sou eu. Eu tô morto, tô sim. Tô morto faz vinte anos.

Fez-se um silêncio horrorizado, e Stapleton o encarou com perplexidade. Um pequeno homem de meia-idade e aparência alerta, sentado ao lado do pódio do magistrado, se levantou.

— Está tudo bem, sr. Magistrado.

— Como, sr. Hollis?

— — — Está tudo bem repetiu o homem em voz alta. Ele é doido, o Velho Pete. Já é assim há anos… desde que apareceu lá nas montanhas. Ele mora em uma cabana em algum lugar acima de Arroyo, e vem à cidade a cada poucos meses. Monta algumas armadilhas, eu acho. Tem passe livre no vilarejo. Uma figura regular, sr. Magistrado.

— Entendo. Obrigado, sr. Hollis.

O magistrado secou o rosto rechonchudo, e o prefeito de Arroyo se sentou com um murmúrio de aprovação. O Velho Pete abriu um sorriso radiante e acenou para Matt Hollis com uma das mãos sujas… O magistrado continuou bruscamente. As respostas do homem eram vagas, mas forneceram o suficiente para uma confirmação formal da história de Michael Orkins, e o homem da montanha foi liberado. Ele se arrastou de volta ao assento, piscando.

O prefeito Hollis e o policial Luden recitaram as suas histórias: como tinham sido tirados da cama por Orkins e Velho Pete, como tinham ido até o cruzamento, identificado o corpo, retirado os pregos, levado o corpo embora, parado na casa de Van, visto o caos no interior e o T sangrento na porta…

Um alemão idoso, acima do peso e enrubescido foi chamado.

— — Luther Bernheim. Ele sorriu, mostrou os dentes de ouro, balançou a barriga e se sentou. — O senhor é o dono da loja de conveniência de Arroyo?

— Sim, senhor.

— Conhecia Andrew Van?

— Sim, senhor. Ele comprava na minha loja.

— Há quanto tempo o senhor o conhecia?

— Ach! Muitos anos. Ele era um bom freguês. Sempre pagava em dinheiro.

— Ele fazia as próprias compras?

— Às vezes. Em geral era aquele Kling, ajudante dele. Mas ele sempre vinha pagar as contas pessoalmente.

— Ele era amigável?

Bernheim semicerrou os olhos.

— … Bem sim e não.

— Quer dizer que ele nunca entrava em assuntos pessoais, era só agradável?

— Ja , ja.

— O senhor diria que Van era um homem peculiar?

— Hã? Ah, sim, sim. Por exemplo, ele sempre pedia caviar.

— Caviar?

— Ja . Era meu único cliente que comprava isso. Eu fazia pedidos especiais para ele. De todo tipo. Beluga, vermelho, mas geralmente o preto, o melhor.

— Sr. Bernheim, pode se juntar ao prefeito Hollis e ao policial Luden e se encaminhar ao cômodo vizinho para uma identificação formal do corpo.

O magistrado deixou o estrado, seguido pelos três cidadãos de Arroyo, e houve um intervalo tomado por burburinhos até que eles retornassem. O rosto avermelhado do bondoso lojista estava tingido de cinza, e havia horror nos seus olhos.

Ellery Queen suspirou. Um professor de um vilarejo de duzentas pessoas pedindo caviar! Talvez o policial Luden fosse mais astuto do que parecia; era evidente que Van tinha um passado mais ilustre do que o seu emprego e ambiente indicavam.

A figura alta e corpulenta do promotor de justiça Crumit desfilou até o estrado. Uma leve empolgação transpassou a audiência. O que acontecera antes fora trivial; esse era o começo das revelações.

— — Sr. Promotor de Justiça disse o magistrado Stapleton, tenso, se inclinando à frente —, o senhor investigou o passado do falecido?

— Sim!

Ellery afundou mais no assento; ele desgostava do promotor de justiça com ardor, mas havia presságios nos olhos gélidos de Crumit.

— Por favor, relate o que descobriu.

O promotor de justiça do condado de Hancock agarrou o braço do banco de testemunhas.

— Andrew Van apareceu em Arroyo há nove anos em resposta a um anúncio de vaga para professor da escola do vilarejo. As referências e a preparação dele eram satisfatórias, e ele foi contratado pelo Conselho Municipal. Veio com o tal Kling, o seu criado, e alugou a casa da estrada Arroyo onde viveu até a sua morte. Desempenhava os deveres educativos de maneira satisfatória. A conduta durante a permanência em Arroyo foi apropriada. — Crumit fez uma pausa respeitosa. — Meus investigadores tentaram rastrear o homem antes da sua chegada a Arroyo. Descobrimos que era professor de uma escola pública em Pittsburgh antes de vir para cá.

— E antes disso?

— Nenhum rastro. Mas era um cidadão americano por naturalização, tendo recebido a cidadania em Pittsburgh há treze anos. Os documentos, registrados em Pittsburgh, informam que possuía nacionalidade armênia antes da naturalização, e que nasceu em 1885.

Armênia!, pensou Ellery, acariciando o queixo. Não fica longe da Galileia… Pensamentos peculiares corriam pela sua cabeça, mas ele os dispensou com impaciência.

— O senhor também investigou Kling, criado de Van, sr. Promotor de Justiça?

— Sim. Ele era um enjeitado, criado pelo orfanato St. Vincent de Pittsburgh, e ao atingir a maturidade foi contratado pela instituição como faz-tudo. Morou lá a vida toda. Quando Andrew Van pediu exoneração da rede pública de Pittsburgh e aceitou o emprego em Arroyo, ele visitou o orfanato e expressou o desejo de contratar um empregado. Kling era agradável, ao que parece; Van o investigou meticulosamente, se mostrou satisfeito, e os dois homens partiram para Arroyo, onde permaneceram até a morte de Van.

Ellery se perguntou, com indolência, que motivos poderiam impelir um homem a renunciar um emprego em uma metrópole como Pittsburgh para aceitar outro em um vilarejo como Arroyo. Uma ficha criminal, um desejo de se esconder da polícia? Improvável; cidades grandes possibilitavam o sigilo, ao contrário de vilarejos. Não, era algo mais profundo e mais obscuro, ele tinha certeza; talvez algo enraizado de modo indelével no cérebro do falecido. Alguns homens buscavam solidão depois de vidas frustradas; esse poderia muito bem ser o caso de Andrew Van, o professor apreciador de caviar dos Arroyoites.

— — Que tipo de homem era Kling? perguntou Stapleton.

O promotor de justiça parecia entediado.

— O orfanato o descreve como um homem de mente bem simples; acredito que o consideraram psicologicamente um idiota. Um sujeito inofensivo.

— Ele já demonstrou tendências homicidas, sr. Crumit?

— Não. Em St. Vincent, era considerado um homem de temperamento brando, fleumático e estúpido. Era gentil com as crianças do orfanato. Era humilde, contente e respeitoso com os superiores.

O promotor de justiça umedeceu os lábios e pareceu estar prestes a se lançar às prometidas revelações; mas o magistrado Stapleton o dispensou sem perder tempo e voltou a chamar o lojista de Arroyo.

— O senhor conhecia Kling, sr. Bernheim?

— Sim, senhor.

— Que tipo de homem ele era?

— Calado. De natureza bondosa. Burro como uma porta.

Alguém riu, e Stapleton se irritou. Ele se inclinou para a frente.

— É verdade, sr. Bernheim, que esse tal Kling era bem conhecido em Arroyo pela força física?

Ellery deu uma risadinha. O magistrado era uma alma simples. Bernheim fez um som de concordância.

— Ach, sim. Muito forte, aquele Kling. Conseguia levantar um barril de açúcar! Mas não faria mal a uma mosca, sr. Magistrado. Eu me lembro de uma vez…

— — — Já basta interrompeu Stapleton com irritação. Prefeito Hollis, por favor, ao banco de testemunhas.

Matt Hollis ficou radiante. Era um homenzinho bajulador, decidiu Ellery.

— O senhor é chefe do Conselho Municipal, prefeito Hollis?

— Isso!

— Conte ao júri o que sabe sobre Andrew Van.

— Sempre dava satisfação. Não se envolvia com ninguém. Um sujeito do tipo estudioso. Permanecia na bela casa que aluguei para ele fora do horário escolar, sozinho. Alguns o achavam esnobe; outros, um gringo, mas eu não. — O prefeito fez uma expressão sentenciosa. — Apenas calado, nada mais. Não era sociável? Ora, isso era problema dele. Se ele não queria se juntar a mim e ao policial Luden numa viagem de pesca, o problema era dele também. — Hollis sorriu e assentiu. — E falava inglês perfeitamente, como eu ou o senhor, sr. Magistrado.

— Ele recebia visitas, até onde o senhor sabe?

— Não. Mas é claro que não posso afirmar com certeza. Sujeito engraçado — continuou o prefeito com uma expressão pensativa. — Algumas vezes em que eu estava a caminho de Pittsburgh a trabalho, ele me pediu para comprar livros para ele; livros estranhos, uns negócios pretenciosos. Filosofia, história, algo sobre as estrelas e tal.

— Sim, sim, muito interessante, sr. Hollis. Agora, o senhor é o banqueiro de Arroyo, certo?

— Sim, sou.

O prefeito Hollis corou e baixou os olhos para os pés pequenos, em um gesto de modéstia. Ellery concluiu, pela expressão do homem, que ele era responsável por quase tudo no vilarejo de Arroyo.

— Andrew Van tinha conta no seu banco?

— Não tinha. Ele recebia o salário regularmente, em dinheiro, mas acho que não o depositava em lugar algum, porque eu lhe perguntei algumas vezes… sabe como é, ossos do ofício… e ele disse que guardava o dinheiro em casa. — Hollis deu de ombros. — Disse que não confiava em bancos. Bem, cada um com o seu gosto. Não vou discutir…

— Isso era sabido de forma geral em Arroyo?

Hollis hesitou.

— B-bom, talvez eu tenha comentado um pouco por aí. Acho que quase todos do vilarejo sabiam dessa esquisitice peculiar do professor.

O prefeito foi dispensado com um gesto, e o policial Luden foi chamado de volta. Ele subiu com uma postura rígida, como quem tem as próprias ideias sobre como tais coisas deveriam ser conduzidas.

— Policial, o senhor revistou a casa de Andrew Van na manhã de sexta-feira, 25 de dezembro?

— Certo.

— Encontrou algum dinheiro?

— Não.

Arquejos soaram pelo cômodo. Roubo! Ellery franziu a testa. Nada daquilo fazia sentido. Primeiro um crime com todas as características de obsessão religiosa, então um roubo de dinheiro. Os dois não combinavam. Ele se inclinou à frente… Um homem levava algo até o estrado. Era uma lata verde surrada e barata. O ferrolho estava bem retorcido, e o cadeado frágil frouxamente pendurado. O magistrado tirou-a do assistente, abriu-a e virou-a de cabeça para baixo. Estava vazia.

— Policial, o senhor reconhece essa lata verde?

Luden fungou.

— — — Com certeza disse ele com a voz grossa e rouca. Encontrei ela assim mermo na casa de Van. É a caixa de dinheiro dele, é sim.

O magistrado ergueu-a para o júri de cidadãos que se esticavam para vê-la.

— … Júri do magistrado, por favor, observe esta prova Muito bem, policial. O chefe dos correios pode, por favor, assumir o banco de testemunhas?

Um homenzinho encarquilhado saltou para a cadeira em questão.

— Andrew Van recebia muitas correspondências?

— — — Não disse o chefe dos correios com a voz esganiçada. Tirano umas propagandas, quase nunca.

— Chegou alguma carta ou pacote na semana antes da morte dele?

— Não!

— Ele mandava cartas com frequência?

— Não. Só algumas de vez em quando. Nada nos últimos três ou quatro meses.

O dr. Strang, médico-legista, foi convocado. À menção do nome dele, os expectadores começaram sussurros frenéticos. Era um homem esquálido com uma aparência lúgubre, que se arrastou pelo corredor como se tivesse todo o tempo do mundo.

Quando estava sentado, o magistrado perguntou:

— Dr. Strang, quando o senhor examinou o corpo do falecido pela primeira vez?

— Duas horas depois da sua descoberta.

— Pode determinar a hora aproximada da morte para o júri?

— Sim. Eu diria que o homem estava morto havia seis ou oito horas quando foi encontrado no cruzamento.

— Isso estabelece o assassinato por volta da meia-noite da véspera de Natal?

— Isso mesmo.

— O senhor pode fornecer mais detalhes sobre as condições do cadáver que possam ser pertinentes a este inquérito?

Ellery sorriu. O magistrado Stapleton se esforçava bastante para assumir um aspecto refinado; o linguajar era de uma nobreza oficial, e os expectadores, a julgar pelos queixos caídos, estavam adequadamente impressionados.

O dr. Strang cruzou as pernas e relatou em uma voz entediada:

— Nenhuma marca no corpo, com exceção da ferida aberta no pescoço onde a cabeça fora cortada e os buracos de prego nas mãos e nos pés.

O magistrado se ergueu um pouco e apoiou a barriga por cima da borda da mesa.

— — — Dr. Strang começou com a voz rouca , qual é a sua conclusão a partir deste fato?

— Que é provável que o falecido tenha levado um golpe ou um tiro na cabeça, visto que não há outras marcas de violência no corpo.

Ellery fez que sim com a cabeça; esse médico camponês de aparência triste tinha juízo.

— — — Na minha opinião continuou o médico-legista , a vítima já estava morta quando a cabeça foi cortada. Pela natureza do ferimento deixado na base do pescoço, um instrumento muito afiado deve ter sido utilizado.

O magistrado pegou um objeto cuidadosamente posicionado na mesa à frente e o ergueu. Era um machado de cabo longo e aparência perversa, a lâmina reluzindo onde não havia sangue.

— O senhor diria que esta arma, dr. Strang, pode ter decepado a cabeça da vítima?

— Sim.

O magistrado virou-se para o júri.

— A evidência foi encontrada na área de serviço da casa de Andrew Van, no chão, onde o assassinato foi cometido. Deixe-me trazer à atenção dos cavalheiros a ausência de impressões digitais na arma, demonstrando que o assassino ou usou luvas ou limpou o machado após o uso. Foi estabelecido que este machado pertencia ao falecido, e era habitualmente mantido na cozinha, em geral sendo usado pelo desaparecido Kling para cortar lenha… Isso é tudo, dr. Strang. Coronel Pickett, pode vir ao banco de testemunhas, por favor?

O chefe da polícia estadual da Virgínia Ocidental obedeceu; era um homem alto de aparência militar.

— Coronel Pickett, o que o senhor tem a reportar?

— — Uma busca minuciosa dos arredores de Arroyo começou o coronel, rápido como uma metralhadora — fracassou em localizar a cabeça do homem assassinado. Nenhum rastro do criado desaparecido foi encontrado. Uma descrição de Kling foi enviada a todos os estados vizinhos, e ele está sendo procurado.

— Acredito que tem estado no comando da investigação relativa às últimas movimentações conhecidas tanto do falecido quanto do desaparecido, coronel. O que descobriu?

— Andrew Van foi visto pela última vez às quatro horas da tarde de quinta-feira, 24 de dezembro. Ele visitou a casa da sra. Rebecca Traub, residente de Arroyo, para alertá-la de que o filho dela, William, aluno dele na escola, estava tendo dificuldades com o conteúdo. Então foi embora, e ninguém, até onde sabemos, o viu vivo novamente.

— E Kling?

— Kling foi visto pela última vez por Timothy Traynor, um fazendeiro, entre Arroyo e Pughtown, na mesma tarde, um pouco depois das quatro horas da tarde. Ele comprou um alqueire de batatas, pagou em dinheiro e levou-as embora no ombro.

— O alqueire de batatas foi encontrado nas premissas de Van? Isso pode ser importante, coronel, para determinar se Kling chegou à casa.

— Sim. Intocado e identificado por Traynor como o mesmo comprado naquela tarde.

— O senhor tem algo a mais a reportar?

O coronel Pickett olhou o tribunal ao redor antes de responder. A boca parecia uma armadilha quando ele exclamou, sombrio:

— Certamente tenho!

O tribunal ficou tão imóvel quanto a morte. Ellery sorriu com exaustão; o momento das revelações havia chegado. O coronel Pickett se debruçou para sussurrar algo no ouvido do magistrado; Stapleton piscou, sorriu, enxugou as bochechas rechonchudas e acenou positivamente com a cabeça. Os expectadores também pressentiram o acontecimento iminente e se contorceram nos assentos. Pickett sinalizou sem fazer barulho para alguém nos fundos do cômodo.

Um soldado alto apareceu, segurando o braço de um indivíduo surpreendente: um homenzinho velho com longos cabelos castanhos malcuidados e barba desgrenhada. Ele tinha olhinhos reluzentes, como os de um fanático. A pele era cor de bronze, enrugada e maltratada pelo sol e pelo vento, como se ele tivesse passado a vida toda ao ar livre. Ele vestia — Ellery forçou a vista — um short cáqui encrustado de terra e um suéter cinza de gola rulê velho. Nos pés marrons marcados por veias cinzentas e saltadas, ele usava um curioso par de sandálias. E carregava um objeto notável: um bastão similar a um cetro em cujo topo havia uma representação rústica de uma cobra, aparentemente feito à mão por um artesão não muito hábil.

Houve um burburinho instantâneo, uma explosão de risada, e o magistrado bateu o martelo como alguém alterado, pedindo ordem.

Atrás do soldado e do prisioneiro fantástico, arrastava-se um rapaz de rosto pálido e macacão espirrado de óleo. Era evidente que era bem conhecido pela maioria dos expectadores, pois mãos se estenderam de maneira furtiva enquanto ele passava, para lhe dar tapinhas encorajadores, enquanto outros pelo cômodo apontavam abertamente para a sua figura encolhida.

Os três passaram pelo portão e se sentaram. Era visível que o velho de barba castanha estava tomado por um medo terrível; os olhos se reviravam e as mãos finas e bronzeadas se apertavam e se afrouxavam convulsivamente ao redor do velho bastão que carregava.

— Caspar Croker para depor!

O rapaz de rosto pálido e macacão oleoso engoliu em seco, se levantou e subiu no banco de testemunhas.

— O senhor opera a garagem e posto de gasolina na rua principal, em Weirton? — perguntou o magistrado, exigente.

— … Ora, claro. O senhor me conhece, sr

— — — Responda à pergunta, por favor disse Stapleton, severo. Relate ao júri o que aconteceu por volta das onze horas da noite na véspera de Natal.

Croker respirou fundo, espiou ao redor como se em busca de um último olhar amigável, e disse:

— Não abri o estabelecimento na véspera de Natal; eu queria comemorar. Moro numa casa nos fundos da garagem. Às onze da noite, quando estava sentado na sala com a minha esposa, escutei um barulho horrível de batidas em algum lugar do lado de fora. Parecia vir da garagem, então corri lá pra fora. Tava escuro pra diabo. — Ele engoliu em seco e retomou rapidamente: — Bom, tinha um homem lá fora esmurrando a porta da garagem. Quando ele me viu…

— Só um minuto, sr. Croker. Como ele estava vestido?

O dono da garagem deu de ombros.

— De roupa escura, não deu pra enxergar direito. Não tive motivo pra prestar muita atenção, de qualquer jeito.

— O senhor deu uma boa olhada no rosto do homem?

— Sim, senhor. Ele estava embaixo da minha luz noturna. Tava encasacado… bom, tava bem frio… mas parecia que ele não queria ser reconhecido. Enfim, eu vi que ele tava de barba feita, tinha cabelo escuro e uma cara meio de gringo, por mais que falasse inglês como um bom americano.

— Quantos anos o senhor diria que ele tinha?

— Ah, uns 35, talvez mais, talvez menos. Difícil dizer.

— O que ele queria?

— Queria contratar um carro para levá-lo até Arroyo.

Ellery conseguia ouvir a respiração asmática de um homem troncudo na fileira atrás, de tão silencioso que o tribunal estava. Todos tensos, sentados na beirada do assento.

— — O que aconteceu? perguntou o magistrado.

— — — Bom respondeu Croker, com mais confiança , eu não gostei muito da ideia… eram onze da noite da véspera de Natal, e a minha esposa tava sozinha e tal. Mas ele puxou uma carteira e disse: “ ” Eu pago dez dólares pra você me levar. Ora, senhor, isso é um bocado de dinheiro pra um pobre como eu, então eu disse: “Tá bom, vamos lá”.

— O senhor o levou?

— Sim, senhor, levei. Eu voltei pra pegar um casaco, falei pra minha esposa que ficaria meia hora fora, saí, peguei meu ônibus velho, ele subiu e nós fomos. Perguntei pra onde de Arroyo ele queria ir, e ele respondeu: “Não tem um lugar onde a estrada de Arroyo cruza com a de New Cumberland-Pughtown?”. Eu falei que tinha, sim. Ele disse: “Bem, é pra lá que eu quero ir”. Eu o levei até lá, ele saltou, me deu uma nota de dez, e eu dei meia-volta e corri pra casa. Tava me sentindo meio trêmulo e assustado.

— O senhor viu o que ele fez enquanto o carro se afastava?

Croker assentiu com veemência.

— Eu tava olhando por cima do ombro. Quase caí numa maldita vala. Ele pegou o caminho pra Arroyo, a pé. Mancava muito, senhor.

O homem excêntrico de barba castanha sentado ao lado do soldado arquejou; o seu olhar vagava desesperadamente, como se buscasse uma rota de fuga.

— Com que pé, sr. Croker?

— Bem, ele meio que favorecia a perna esquerda. Botava o peso todo na direita.

— Foi a última vez que o senhor o viu?

— Sim, senhor. E a primeira. Nunca o vi antes daquela noite.

— Isso é tudo.

Grato, Croker saiu do banco de testemunhas e se apressou pelo corredor em direção à porta.

— — Agora disse o magistrado Stapleton, encarando fixamente o homenzinho de barba castanha, que estava encolhido na cadeira, com o olhar atento. — Você aí. Venha para o banco.

O soldado se ergueu e puxou o homem de barba castanha para que ficasse de pé, empurrando-o à frente. O homenzinho avançou sem resistir, mas havia pânico no seu olhar e ele não parava de se encolher. O soldado o jogou sem cerimônia no banco de testemunhas e voltou ao próprio assento.

— — Qual é o seu nome? exigiu saber o magistrado Stapleton.

Uma gargalhada se ergueu dos expectadores quando a estranheza completa das vestes e da aparência do homem se exibiu para eles do ponto de vista proeminente do banco de testemunhas. Levou um longo tempo até que a ordem fosse restaurada, durante o qual o homem lambeu os lábios e oscilou de um lado para o outro, murmurando para si mesmo. Ellery teve a sensação alarmante de que ele estava rezando… rezando — era chocante — para a cobra de madeira no topo do cetro.

Stapleton repetiu a pergunta com nervosismo. O homem estendeu a vara à frente, jogou os ombros magros para trás, parecendo invocar uma reserva de força e dignidade da postura, encarou diretamente os olhos de Stapleton e disse, em uma voz estridente e límpida:

— Eu sou o nomeado Harakht, deus do sol do meio-dia. Ra-Harakht, o falcão!

Fez-se um silêncio atônito. O magistrado Stapleton piscou e se encolheu como se alguém houvesse proferido ameaças ininteligíveis na sua presença. A plateia arquejou, então explodiu em gargalhadas histéricas; dessa vez, animadas não por escárnio, mas por um medo inominável. Havia algo aterrorizante e sinistro nesse homem; ele emanava uma determinação maníaca demais para ser simulada.

— — Quem? perguntou o magistrado com voz fraca.

O homem que se denominava Harakht cruzou os braços sobre o peito esquelético, o cetro agarrado firmemente à frente, e não se dignou a responder.

Stapleton enxugou as bochechas e pareceu não saber como continuar.

— … … Hã qual é a sua profissão, senhor sr. Harakht?

Ellery se afundou mais no assento e corou pelo magistrado. A cena tornava-se digna de pena.

Harakht disse por entre os lábios tensos e severos:

— Sou o Curandeiro dos Fracos. Torno corpos doentes sãos e fortes. Sou aquele que veleja Manzet, a Barca do Alvorecer. Sou aquele que veleja Mesenktet, a Barca do Crepúsculo. Alguns me chamam de Hórus, deus dos horizontes. Sou filho de Nut, deusa do céu, esposa de Qeb, mãe de Ísis e Osíris. Sou o deus supremo de Mênfis. Sou aquele com Etōm…

— — — Chega! exclamou o magistrado. Coronel Pickett, pelo amor de Deus, o que é isso? Achei que tivesse dito que este lunático tinha algo importante para contribuir com o inquérito! Eu…

O chefe da polícia estadual se ergueu no mesmo instante. O homem que se nomeava Harakht esperou com calma, o terror inicial completamente ausente, como se nas profundezas do cérebro conturbado ele tivesse se dado conta de que era o mestre da situação.

— — — Desculpe, sr. Magistrado disse o coronel, depressa. Eu deveria tê-lo alertado. Este homem não bate bem da cabeça. Acho melhor eu falar ao senhor e ao júri o que ele faz, então o senhor pode fazer perguntas mais diretas. Ele gerencia uma espécie de espetáculo místico; uma coisa meio doida, cheia de pinturas de sóis e estrelas e luas e desenhos estranhos de faraós egípcios. Parece que acredita que é o sol ou algo assim. É inofensivo. Viaja por aí numa carroça e num cavalo velho, como um cigano, de vilarejo em vilarejo. Ele vem passando por Illinois, Indiana, Ohio e Virgínia Ocidental, pregando e vendendo um cura-tudo medicinal que põe cabelo…

— — — É o elixir da juventude disse Harakht gravemente. Luz do sol engarrafada. Sou o escolhido, e prego o Evangelho da solaridade. Sou Menu e Attu e…

— — É só óleo de fígado de bacalhau puro, até onde sei explicou o coronel Pickett com um sorrisinho. — Ninguém sabe o nome verdadeiro dele; acho que até ele esqueceu.

— — Obrigado, coronel disse o magistrado com dignidade.

Ellery, no seu assento duro, foi tomado por empolgação diante de uma súbita descoberta. Ele reconhecera o emblema malfeito na mão do louco. Era o ureu, o cetro de serpente da divindade chefe dos egípcios antigos e dos seus reis descendentes de deuses. A princípio, ele ficara inclinado a pensar que era um caduceu improvisado, pelo desenho da cobra; mas o emblema de Mercúrio sempre incluía asas, e o cetro, como ele viu ao forçar a vista, tinha um disco solar tosco coroando a serpente ou serpentes… Egito faraônico! Alguns dos nomes que haviam saído da boca do homenzinho louco e cativante eram familiares: Hórus, Nut, Ísis, Osíris. Os outros, apesar de estranhos, tinham um quê egípcio… Ellery se empertigou.

— … — Hã Harakht, ou seja lá como se chame dizia o magistrado — , você ouviu o testemunho de Caspar Croker em referência a um homem de cabelo escuro e de barba feita que mancava?

Uma expressão mais racional brotou nos olhos do homem barbado e, com ela, o retorno daquele medo à espreita.

— … — — O o homem manco balbuciou ele. Sim.

— Reconhece alguém a partir dessa descrição?

Hesitação. Então:

— Sim.

— — — Ah! disse o magistrado, suspirando. Agora estamos chegando a algum lugar, Harakht. — O tom se tornou alegre e amigável. — Quem é esse homem e como você o conhece?

— Ele é meu sacerdote.

— Sacerdote!

Murmurinhos se ergueram da multidão, e Ellery ouviu o homem parrudo atrás dele dizer:

— Por Deus, que blasfêmia dos infernos!

— … Quer dizer que ele é o seu assistente?

— Ele é meu discípulo. Meu sacerdote. Sumo sacerdote de Hórus.

— — — Sim, sim disse Stapleton apressadamente. Qual é o nome dele?

— Velja Krosac.

— — — Humm falou o magistrado com uma carranca. Nome estrangeiro, é? Armênio? — disparou para o homenzinho de barba castanha.

— — Não existe nação além do Egito disse Harakht baixinho.

— — — Ora! Stapleton olhou feio para ele. Como se soletra esse nome?

O coronel Pickett informou:

— Já temos tudo isso, sr. Stapleton. É V-e-l-j-a K-r-o-s-a-c. Encontramos em alguns documentos na carroça deste homem.

— … — Onde está esse Vel Velja Krosac? perguntou o magistrado, exigente.

Harakht deu de ombros e respondeu:

— Foi embora.

Mas Ellery viu o reluzir de pânico nos olhinhos brilhantes.

— Quando?

Ele deu de ombros de novo e o coronel Pickett aproveitou a brecha.

— Talvez seja melhor eu contar, sr. Stapleton, e acelerar o inquérito. Krosac sempre se manteve disfarçado, até onde conseguimos descobrir. Já faz alguns anos que está com este homem. Um sujeito meio misterioso. Atuava como gerente de negócios e propagandista, mais ou menos, deixando o Harakht aqui cuidar da baboseira. Harakht o encontrou em algum canto do oeste. A última vez que Krosac esteve com ele foi na véspera de Natal. Eles estavam acampados perto da enseada de Holliday. — Ficava a alguns quilômetros de Weirton; Ellery se lembrava de algumas placas. — Krosac partiu por volta das onze horas da noite, e essa foi a última vez que Fulano-de-Tal alega tê-lo visto. O horário encaixa direitinho.

— O senhor não encontrou rastro desse Krosac?

— — — Ainda não retrucou o coronel com irritação. Desapareceu como se engolido pela terra. Mas vamos encontrá-lo. Ele não tem como escapar. Divulgamos descrições dele e de Kling.

— — — Harakht disse o magistrado , você já esteve em Arroyo?

— Arroyo? Não.

— — Eles nunca chegaram tanto ao norte da Virgínia Ocidental

explicou o coronel.

— O que sabe sobre Krosac?

— — — Ele é um verdadeiro fiel afirmou Harakht. Venera no altar com reverência. Participa do kuphi e ouve as escrituras sagradas com ânimo. Ele é o orgulho e a glória…

— — — Ah, chega disse o magistrado com exaustão. Leve-o embora, soldado.

O soldado sorriu, se levantou, agarrou o braço magrelo do homem de barba castanha e o arrancou do palanque. O magistrado soltou um suspiro de alívio quando os dois desapareceram na multidão.

Ellery ecoou o suspiro. O pai estava certo. Parecia mesmo que ele voltaria a Nova York, se não com o rabo entre as pernas, ao menos com um olhar de cão arrependido. O processo inteiro era tão insano, o caso tão incompreensível, tão impérvio à lógica, que beirava a farsa. Ainda assim… havia aquele corpo brutalmente mutilado, crucificado a…

Crucificado! Ele se sobressaltou, quase com um arquejo audível. Crucificação… Egito Antigo. Onde ele se deparara com esse estranho fato?

O inquérito prosseguiu rapidamente. O coronel Pickett apresentou vários artigos encontrados na carroça de Harakht e que Harakht afirmara pertencerem a Krosac. Eles eram inconsequentes, sem qualquer valor intrínseco ou funcionalidade como possíveis pistas para o passado e identidade do homem. Não havia fotografias de Krosac, como o magistrado apontou para o júri; um fato que tornava a captura do homem ainda mais difícil. Para acrescentar às dificuldades, também não havia qualquer amostra da letra dele.

Outras testemunhas foram chamadas. Pequenos argumentos foram apresentados. Não encontraram ninguém que estivesse observando a casa de Andrew Van na véspera de Natal, ou que houvesse visto Krosac depois que Croker, o garagista, o deixara no cruzamento. Além disso, ninguém passara por lá naquela noite… Os pregos encontrados no corpo crucificado de Van haviam vindo da própria caixa de ferramentas dele, que ficava guardada na despensa. Tinham sido comprados por Kling do lojista Bernheim havia muito tempo, como foi revelado; muitos deles usados na construção de um depósito de lenha.

Ellery tomou consciência dos arredores quando o magistrado Stapleton se levantou.

— — — Os cavalheiros do júri dizia o magistrado ouviram os procedimentos deste inqué…

Ellery se levantou em um pulo. Stapleton parou e olhou ao redor, irritado com a interrupção.

— Pois não, sr. Queen? O senhor está interferindo com as atividades do…

— — — Um momento, sr. Stapleton disse Ellery, depressa , antes que se direcione ao júri. Tenho na minha posse um fato que me parece pertinente ao inquérito.

— — O quê?! exclamou o promotor de justiça Crumit, se levantando. — Uma nova informação?

— — Não é nova, sr. Promotor de Justiça respondeu Ellery, sorrindo. — É bem antiga. Mais antiga que o cristianismo.

— — Ora disse o magistrado Stapleton; a audiência se esticava e sussurrava, e o júri se erguera dos assentos para encarar essa testemunha inesperada —, do que está falando, sr. Queen? O que o cristianismo tem a ver com isso?

— … — Nada eu espero. Ellery mirou o magistrado através do pincenê e disse com severidade: — A característica mais relevante deste crime terrível, se me permite dizer, não foi sequer mencionada neste inquérito. Refiro-me ao fato de que o assassino, seja quem for, deliberadamente se desdobrou para pintar a letra ou o símbolo T ao redor da cena do crime. O formato de T no cruzamento. O formato de T na placa. O formato de T no cadáver. O T marcado em sangue na porta de entrada da vítima. Tudo isso foi comentado pela imprensa… e com razão.

— — Sim, sim interrompeu o promotor de justiça Crumit com um sorriso de escárnio —, todos nós sabemos disso. Qual é a sua informação, então?

— — Ora. Ellery o encarou sem desviar o olhar, e Crumit corou e se sentou. — Não consigo ver a conexão… confesso estar totalmente perplexo… mas o senhor sabe que o símbolo T pode muito bem não se referir em absoluto ao alfabeto?

— — O que quer dizer, sr. Queen? perguntou o magistrado Stapleton, ansioso.

— Quero dizer que o símbolo T tem significado religioso.

— — Significado religioso? repetiu Stapleton.

Um velho cavalheiro corpulento usando um colarinho clerical se ergueu do meio da plateia e disse:

— … Se me permite a ousadia de interromper o erudito orador eu

sou ministro do Evangelho, e nunca ouvi falar de um significado religioso incorporado ao símbolo T!

Alguém gritou:

— É isso aí, pastor!

O ministro corou e se sentou. Ellery sorriu.

— Se me permite contradizer o erudito clérigo, o significado é este: dentre os muitos símbolos religiosos, há uma cruz que assume o

É

formato de um T. É chamada de cruz tau, ou crux comissa.

O ministro se ergueu do assento e exclamou:

— Sim! É verdade. Mas não é originalmente uma cruz cristã. Era um símbolo pagão!

Ellery deu uma risadinha.

— Exatamente, senhor. E a cruz grega não foi usada por povos pré-cristãos durante séculos, antes da Era Cristã? A tau antecede a familiar cruz grega por vários séculos. Alguns pensam que era um símbolo fálico na sua origem… Mas a questão é a seguinte…

Eles esperaram em um silêncio ansioso enquanto Ellery parava e pegava fôlego. Então voltou a encarar o magistrado através do pincenê e prosseguiu de maneira firme:

— tau A cruz , ou T, não é o seu único nome. Às vezes, é chamada — — ele fez uma pausa antes de concluir em voz baixa de cruz egípcia!

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