O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 13 de 36

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O mistério da cruz egípcia

10. A aventura do Dr. Temple

 

 

A tarde se prolongava. O promotor de justiça Isham havia ido embora. O inspetor Vaughn emitia ordens e recebia relatórios em um fluxo interminável e inconsequente. A ilha Oyster estava tranquila. A sra. Brad estava enfurnada no quarto — doente, foi relatado —, e a filha Helene cuidava dela. Jonah Lincoln andava de um lado para o outro do terreno, inquieto. Soldados e detetives bocejavam por toda Bradwood. Repórteres iam e vinham, e o ar do fim de tarde estava espesso com o pó do flash.

Ellery, nem um pouco cansado, seguiu o professor Yardley pela rua principal, passando pelo portão de uma cerca alta de pedra e seguindo pelo caminho de cascalho até a casa de Yardley. Ambos os homens estavam desanimados e voltados aos próprios pensamentos.

O crepúsculo chegou, seguido por um céu noturno sem estrelas. Com o cair da noite, a ilha Oyster parecia mergulhar no estuário.

Por consenso tácito, nem Ellery nem o seu anfitrião discutiram o estranho problema que enfrentavam. Conversaram sobre assuntos antigos e mais agradáveis: a época da universidade, o velho e encarquilhado chanceler, as primeiras excursões de Ellery na investigação criminal, a carreira plácida de Yardley nos anos em que eles ficaram afastados. Às onze horas, Ellery cobriu as ancas com um pijama de algodão texturizado, deu um sorrisinho e foi dormir. O professor fumou serenamente no escritório por uma hora, escreveu várias cartas e se recolheu.

 

Era quase meia-noite quando houve um movimento na varanda da casa de pedra do dr. Temple, e o médico, vestido em calça, suéter e mocassins pretos, apagou o cachimbo e saiu silenciosamente da varanda, desaparecendo em meio às árvores escuras entre a casa dele e a fronteira leste de Bradwood.

O campo, exceto pelo cricrilar dos grilos, estava adormecido.

Ele se tornava invisível no cenário escuro da mata e dos arbustos; um borrão furtivo que não podia ser distinguido nem pela cor da pele. A alguns metros da lateral da estrada leste, ele parou atrás da proteção de uma árvore. Alguém marchava pela estrada, avançando na sua direção. Pela silhueta, o dr. Temple identificou a figura de um soldado do condado uniformizado, evidentemente fazendo patrulha. O homem passou direto, seguindo em direção à enseada de Ketcham.

Quando os passos do guarda se tornaram inaudíveis, dr. Temple atravessou a rua em uma corrida suave até a cobertura das árvores de Bradwood e começou a caminhar silenciosamente na direção oeste. Levou meia hora para atravessar a propriedade sem levantar suspeitas das ocasionais figuras escuras de passagem. Ele transpôs a edícula e o totem, transpôs a alta cerca de arame que demarcava uma quadra de tênis, transpôs a casa principal e a trilha principal para a doca de desembarque de Bradwood, transpôs a choupaninha de Fox na estrada leste que separava o terreno da propriedade dos Lynn.

Ali, com o corpo definido tenso, o dr. Temple redobrou a cautela, se esgueirando por entre as árvores da mata dos Lynn como um fantasma até que a silhueta grande e escura da casa assomasse à frente. Ele se aproximara pela frente até então; naquele momento, tateou em direção à face norte, onde as árvores cresciam aglomeradas até quase o muro da casa.

Uma luz brilhava na janela mais perto dele, a menos de um metro e meio de onde estava, agachado atrás do tronco de um velho plátano. A persiana estava totalmente fechada.

Ele conseguia ouvir passos arrastados vindo do cômodo; um dormitório. Uma vez, a silhueta gorda da sra. Lynn passou pela janela. O dr. Temple avançou de quatro, sentindo cada centímetro da terra diante de si, até que estivesse diretamente abaixo da janela.

Quase ao mesmo tempo, ele escutou o som de uma porta se fechando e a voz esganiçada da sra. Lynn, mais aguda do que o normal, dizer:

— Você a enterrou? Percy!

O dr. Temple cerrou os dentes, o suor escorrendo pelas bochechas. Mas não emitiu som algum.

— — Sim, sim. Pelo amor de Deus, Beth, não fale tão alto! A voz de Percy saiu tensa. — Este maldito lugar está lotado de policiais!

Passos perto da janela; o dr. Temple abraçou a base da parede, prendendo a respiração. A persiana deslizou para cima, e Lynn espiou para fora. Então ouviu o som da persiana sendo fechada de novo.

— — Onde? sussurrou Elizabeth Lynn.

O dr. Temple tensionou todos os músculos, aguçando os ouvidos com uma dificuldade que o fez estremecer. Mas, por mais que tentasse, não conseguiu captar as palavras que Lynn sussurrou em resposta…

Então…

— — Eles nunca vão encontrar disse Lynn em um tom mais calmo. — Ficaremos seguros se formos discretos.

— … Mas o dr. Temple estou com medo, Percy!

Lynn xingou com crueldade.

— Eu me lembro muito bem. Foi em Budapeste, depois da guerra. O caso de Bundelein… Malditos olhos! É o mesmo homem, posso jurar.

— — — Ele não disse nada sussurrou a sra. Lynn. Talvez tenha esquecido.

— … Não mesmo! Semana passada, na casa dos Brad ele não parava de me olhar. Tome cuidado, Beth. Estamos em uma situação periclitante…

A luz se apagou; uma mola de colchão rangeu; as vozes baixaram para um murmúrio indistinguível.

O dr. Temple ficou agachado ali por muito tempo, mas não escutou mais nada. Os Lynn haviam se recolhido.

Ele se levantou, escutou atentamente por alguns segundos, então voltou a se embrenhar entre as árvores. Uma sombra deslizando de árvore em árvore… Ao se esgueirar pela mata que margeava o semicírculo da enseada de Ketcham, ele ouvia o bater da água contra a doca de Bradwood.

Então voltou a se esconder atrás de uma árvore; vozes fracas vinham da direção geral da doca. Ele se esgueirou com imenso cuidado para mais perto da costa. Subitamente, as águas escuras gorgolejaram quase aos seus pés. Ele estreitou os olhos: a três metros da costa, a uma curta distância do píer lamacento, um barco a remo se aproximava. Duas figuras difusas estavam visíveis, sentadas no meio do barco. Um homem e uma mulher. A mulher envolvia o homem com os braços e suplicava com fervor.

— Por que você está tão gelado? Leve-me para a ilha. Ficaremos mais seguros lá… sob as árvores…

A voz do homem, baixa e resguardada, respondeu:

— Está agindo como uma tola. É perigoso, estou dizendo. Justo essa noite! Está louca? Alguém vai dar falta de você, e será um inferno. Eu disse que deveríamos nos manter afastados, pelo menos até essa história passar!

A mulher afastou os braços do pescoço do homem e lamuriou em um tom agudo e desesperado:

— … Eu sabia! Você não me ama mais. Ah, é

Ele espalmou a mão sobre a boca da mulher, sussurrando com ferocidade:

— Cale a boca! Tem soldados por aí!

Ela relaxou nos braços dele. Então o afastou com as mãos e ergueu as costas lentamente.

— Não. Você não a terá. Eu me certificarei disso.

O homem ficou quieto. Pegou um remo e levou o barco até a costa. Quando a mulher se levantou, ele empurrou-a sem cortesia para fora do barco. Então se afastou com pressa e começou a remar… em direção à ilha Oyster.

A lua apareceu naquele momento, e o dr. Temple viu que o homem no barco era Paul Romaine.

E a mulher parada na costa, trêmula e pálida, era a sra. Brad. O sr. Temple franziu a testa e desapareceu entre as árvores.

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