O mistério da cruz egípcia
19. T
Às 9h15 de sábado, o inspetor Vaughn, que passara a noite em Bradwood, foi chamado por Stallings ao telefone. Ele parecia esperar a ligação, pois ficou imediatamente inexpressivo e disse em um murmúrio audível:
— Quem será?
Quer Stallings tenha sido enganado ou não, ele não descobriu pelas respostas monossilábicas do inspetor à ligação matinal.
— … … … Humm Sim Não Tudo bem.
O inspetor desligou e, com os olhos brilhando, saiu correndo da casa.
Às 9h45, o promotor de justiça Isham fez uma grande entrada em Bradwood, chegando em um carro oficial do condado com três soldados. Todos desceram diante da casa colonial. O inspetor Vaughn saltou à frente, agarrou as mãos de Isham e começou a conversar com ele em voz baixa, mas de forma resoluta.
Sob a proteção daquela distração, Ellery entrou sorrateiramente com o Duesenberg na propriedade de Yardley alguns momentos depois.
Ninguém pareceu notar que um dos três soldados que acompanhavam o promotor de justiça não possuía a atitude militar tranquila dos companheiros. Ele se juntou a um grupo maior de soldados, que por sua vez se afastaram e dispersaram em várias direções.
O professor Yardley, de calça informal e suéter, fumando o inevitável cachimbo, cumprimentou Ellery com um grito de boas-vindas no selamlik da casa.
— — — Aí está o nosso hóspede mais importante! exclamou ele. Achei que não fosse mais voltar, meu garoto!
— — Caso esteja no estado de espírito de citações Ellery sorriu, tirando o casaco e se jogando no mármore —, pode considerar o fato de que hospes nullus tam in amici hospitium diverti potest… odiosus siet.
— Por que assassinar Plauto? Você não esteve aqui nos últimos três dias mesmo. — Os olhos do professor brilhavam. — Então?
— — — Então disse Ellery , ele está conosco.
— — — Não! Yardley ficou pensativo. De uniforme? Parece até uma peça, céus.
— Reorganizamos os detalhes em Mineola essa manhã. Isham arrumou dois soldados e um carro oficial, telefonou para Vaughn e seguiu para Bradwood. — Ellery suspirou; exibia olheiras enormes. — Aquela viagem! Van estava tão comunicativo quanto um mexilhão. Estou cansado! Mas não há descanso para os esgotados. Gostaria de testemunhar uma grande revelação?
O professor se levantou no mesmo instante.
— Com certeza! Já fui um mártir por tempo o suficiente. Tomou café da manhã?
— Enchemos a pança em Mineola. Venha comigo.
Eles saíram da casa e atravessaram calmamente a estrada para Bradwood; Vaughn ainda conversava com Isham quando eles chegaram à varanda.
— — Estava agora mesmo contando ao promotor de justiça disse Vaughn, como se Ellery não tivesse se afastado por um minuto — a informação que conseguimos sobre Fox.
— Fox?
O inspetor repetiu o que ele descobrira sobre o histórico do homem.
Ellery deu de ombros.
— … Pobre coitado Onde está Megara?
— — — Ele No iate. Vaughn baixou a voz. desceu para a doca de desembarque… Megara teve algumas dores feias na virilha ontem. A srta. Brad tentou chamar Temple, mas ele passou o dia todo fora. Acho que foi ao Helene hoje de manhã.
— Alguma novidade sobre aquela bela trama de ontem?
— Nada. A armadilha não atraiu nem um pato. Venham, vamos embora antes que essas pessoas comecem a se levantar. Estão todos dormindo ainda… ninguém deu as caras.
Eles deram a volta na casa e pegaram a trilha para a enseada. Havia três soldados na doca, e a lancha da polícia esperava para zarpar.
Ninguém prestou qualquer atenção ao terceiro soldado. Isham, Vaughn, Yardley e Ellery subiram desajeitadamente na lancha, e os três soldados seguiram. O barco deu a partida em direção ao iate a oitocentos metros de distância.
O mesmo procedimento foi observado ao embarcar no Helene. Os quatro homens subiram a escada, então os soldados os seguiram. Os integrantes da tripulação do Helene que esperavam no convés em trajes brancos imaculados só tinham olhos para o inspetor Vaughn, que avançava a passos largos como se pretendesse prender alguém.
O capitão Swift abriu a porta da cabine enquanto eles passavam.
— … — Há quanto tempo ? começou ele.
Vaughn seguiu em frente, sem demonstrar ter ouvido, e os outros o seguiram, com calma. O capitão os observou passar, contraindo a mandíbula; então xingou profusamente e se retirou para o interior da cabine, batendo a porta.
O inspetor bateu nos painéis da cabine principal. A porta se abriu para dentro, e o rosto austero do sr. Temple apareceu.
— — — Olá! disse ele. Vieram em bando, hein? Eu só estava dando uma examinada no sr. Megara.
— — Podemos entrar? perguntou Isham.
— — Entrem! falou Megara do interior da cabine, em uma voz tensa.
Eles entraram em fila, sem fazer barulho. Stephen Megara estava deitado em uma cama simples, nu onde o lençol não o cobria. O rosto do iatista estava pálido e contraído; havia gotas de suor na beira das sobrancelhas. Ele estava curvado, segurando a virilha com força. Não olhou para os soldados; os olhos estavam fixos em Temple, expressando sofrimento.
— — Qual é o problema, doutor? perguntou Ellery com muita seriedade.
— Hernia testis — anunciou o dr. Temple. — Um caso feio. Não é motivo de preocupação imediata. Eu lhe dei alívio temporário; ele sentirá o efeito a qualquer momento.
— — — Aconteceu na última viagem arfou Megara. Muito bem, doutor, tudo certo. Deixe-nos, por favor. Esses cavalheiros querem discutir algo comigo.
Temple o encarou; então deu de ombros e pegou a bolsa médica.
— … Como quiser Não negligencie isso, sr. Megara. Eu recomendo cirurgia, por mais que não seja absolutamente necessário de imediato.
Ele se curvou com rigidez militar para os outros e saiu depressa da cabine. O inspetor o seguiu para fora. Não voltou até que o dr. Temple estivesse no próprio barco a motor, a caminho do continente.
Vaughn fechou a porta da cabine com firmeza. No convés, dois soldados apoiaram as costas contra ela.
O terceiro soldado deu um passo adiante e umedeceu os lábios. O homem na cama arrancou o lençol.
Eles se entreolharam, silenciosamente; não apertaram as mãos.
— — Stefan disse o professor de Arroyo.
— Andreja.
Ellery sentiu um impulso alarmante de dar uma risadinha; havia algo de ridículo na situação, por mais trágica que fosse. Esses dois homens empertigados e respeitosos, com nomes estrangeiros; o iate, as dores, o uniforme enfadonho… Nunca vira algo como isso em toda a sua experiência.
— — — Krosac. Krosac, Andreja disse o homem doente. Ele nos encontrou, como você sempre disse que ele faria.
Andreja Tvar respondeu com severidade:
— … Se Tom tivesse seguido o meu conselho Eu o alertei por carta dezembro passado. Ele não entrou em contato com você?
Stefan balançou a cabeça devagar.
— Não. Ele não sabia onde me encontrar. Eu estava navegando pelo Pacífico… Como você tem estado, Andre?
— Muito bem. Quanto tempo faz?
— … Anos Cinco, seis?
Eles se calaram. O inspetor os observava com ansiedade, e Isham mal respirava. Yardley olhou para Ellery, que disse rapidamente:
— … — Por favor, cavalheiros. A história. O senhor Van ele indicou o professor — precisa sair de Bradwood assim que possível. A cada momento que ele permanece na região o perigo aumenta. Krosac, seja quem for, é esperto. Ele pode desvendar nosso pequeno truque sem dificuldade, e não queremos abrir espaço para a possibilidade de ele seguir o sr. Van de volta para a Virgínia Ocidental.
— — — Não concordou Van com um suspiro pesado , é verdade. Stefan, conte a eles.
O iatista se empertigou na cama (ou a dor foi embora ou ele a esqueceu na empolgação) e encarou o teto baixo da cabine.
— Como começar? Aconteceu há tanto tempo, droga. Eu, Tomislav e Andreja éramos os últimos da família Tvar. Um clã montanhês orgulhoso e abastado em Montenegro.
— — Que desapareceu acrescentou o professor, gélido.
O homem convalescente balançou a mão como se não fosse importante.
— Vocês precisam entender que nós viemos do sangue mais quente dos Bálcãs. Quente… tão quente que fervia. — Megara soltou uma breve risada. — Os Tvar tinham um inimigo tradicional: os Krosac, outro clã. Por gerações…
— — — Vendeta! exclamou o professor Yardley. É claro. Não exatamente vendeta, que é italiano, mas sem dúvida uma contenda de sangue, como as contendas dos nossos próprios montanheses de Kentucky. Eu deveria ter pensado nisso.
— — — Sim retrucou Megara. Não sabemos até hoje por que ela existia… o motivo original estava tão manchado de sangue que a nossa geração não o conhecia. Mas desde a infância fomos ensinados…
— — A matar os Krosac completou Van.
— — Nós éramos os agressores continuou Megara, franzindo a testa —, e, há vinte anos, devido à ferocidade e crueldade dos nossos avós e pais, apenas um homem Krosac sobrou… Velja, o homem atrás do qual vocês estão. Ele era uma criança na época. Ele e a mãe eram os únicos sobreviventes da família.
— — — Parece tão distante murmurou Van. Tão bárbaro! Eu, você e Tomislav, em retaliação ao assassinato do nosso pai, matamos o pai de Krosac e dois tios, os emboscamos…
— — Absolutamente inacreditável murmurou Ellery para Yardley. — É difícil acreditar que estamos lidando com pessoas civilizadas.
— — O que aconteceu com esse jovem Krosac? perguntou Isham.
— A mãe fugiu com ele de Montenegro. Eles foram para a Itália, se esconderam lá, e a ela morreu logo depois.
— E isso deixou Krosac para seguir com a contenda contra vocês — — disse Vaughn, pensativo. Imagino que essa senhora tenha destilado ódio na cabeça dele antes de morrer. Vocês acompanharam o paradeiro do garoto?
— Sim. Precisamos, por autoproteção, porque sabíamos que ele tentaria nos matar quando crescesse. Os agentes que contratamos o rastrearam por toda a Europa, mas ele desapareceu antes de fazer dezessete anos e nunca mais tivemos notícias dele… até agora.
— Vocês não viram Krosac em pessoa?
— Não. Não desde que ele saiu da encosta da nossa montanha, quando tinha onze ou doze anos.
— — — Só um momento disse Ellery, franzindo a testa. Como os cavalheiros podem ter tanta certeza de que Krosac queria matá-los? Afinal, uma criança…
— — — Como? Andrew Van sorriu com amargura. Um dos nossos agentes sorrateiramente ganhou a confiança do garoto enquanto ele ainda estava sob observação e o ouviu jurar acabar com todos nós, mesmo que tivesse que nos seguir até o fim do mundo para derramar o nosso sangue.
— — — E quer dizer que perguntou Isham , por causa dos disparates loucos de uma criança, os senhores de fato fugiram da sua terra natal e mudaram de nome?
Os dois homens ruborizaram.
— — O senhor não conhece os feudos croatas murmurou o iatista, evitando o olhar deles. — Um Krosac já seguiu um Tvar até o coração do sul da Península Arábica, há gerações…
— Então é um fato que, se ficassem frente a frente com Krosac, não o reconheceriam? — perguntou Ellery, de súbito.
— … Como poderíamos? Fomos deixados sozinhos; nós três. Pai, mãe… mortos. Decidimos sair de Montenegro e vir aos Estados Unidos. Não havia nada nos prendendo, eu e Andrew não éramos casados, e por mais que Tom já tivesse sido casado, a esposa morrera e não tiveram filhos. Éramos uma família rica, e as nossas propriedades eram valiosas. Vendemos tudo e, sob pseudônimos, separadamente, viemos para este país e nos encontramos, como combináramos de antemão, em Nova York. Havíamos decidido escolher os nossos nomes — Ellery se sobressaltou, então sorriu —, inspirados por diferentes países; consultamos um atlas, e cada um assumiu uma nacionalidade: eu, grega; Tom, romena; e Andrew, armênia, visto que na época não havia como disfarçar que éramos do sul da Europa em aparência e fala, e não poderíamos passar por americanos nativos.
— — Eu os alertei sobre Krosac disse Van, em tom sombrio.
— … … Eu e Tom nós três recebemos uma boa educação começamos o nosso atual negócio. Andrew aqui sempre foi uma alma inquieta e preferiu trabalhar sozinho, estudando a língua inglesa por conta própria, e acabou se tornando professor. Todos nós, é claro, nos tornamos cidadãos americanos. E aos poucos, conforme os anos se passaram, como não ouvimos mais nada sobre ou de Krosac, quase nos esquecemos dele. Ele se tornou, ao menos para mim e Tom, uma lenda, um mito. Pensamos que estivesse morto ou irremediavelmente fora do nosso rastro. — O iatista contraiu a mandíbula. — Se soubéssemos… De qualquer forma, Tom se casou. Nós nos saímos bem no negócio. E Andrew foi para Arroyo.
— — — Se tivessem seguido o meu conselho retrucou Van , isso não teria acontecido, e Tom estaria vivo. Eu falei repetidas vezes que Krosac voltaria para se vingar!
— — Por favor, Andre disse Megara com severidade; mas o olhar carregava certo compadecimento ao encarar o irmão. — Eu sei. E você não nos via com frequência. Culpa sua, como deve saber. Talvez, se tivesse sido mais fraterno…
— Ficar com você e Tom onde Krosac poderia nos exterminar com um único golpe? — questionou o homem de Arroyo. — Por que você acha que eu me enterrei naquele buraco? Eu amo viver também, Stephen! Mas fui sábio, e você…
— — — Não tão sábio, Andre disse o iatista. Afinal, Krosac encontrou-o primeiro. E…
— — — Sim interrompeu o inspetor. De fato encontrou. Eu gostaria de esclarecer essa história do assassinato de Arroyo, sr. Van, se não se importar.
O professor ficou tenso perante alguma memória sombria.
— — — Arroyo começou ele, com voz rouca. Um lugar de horrores. Foi o meu medo que me levou, anos atrás, a assumir o personagem do Velho Pete. Uma personalidade dupla, imaginava, seria útil, caso Krosac — emitiu um som de desprezo — me encontrasse. E encontrou… — Ele pausou, então continuou depressa: — Por anos cuidei daquela choupana, que encontrei por acidente, abandonada, enquanto explorava algumas cavernas antigas nas colinas. Instalei o arame farpado. Comprei o disfarce em Pittsburgh. Muito de vez em quando, quando estava livre dos meus deveres habituais como professor, subia discretamente até as colinas e me vestia como Velho Pete, aparecendo no vilarejo por tempo o suficiente para tornar a personalidade real na mente do povo de Arroyo. Tom e Stephen… eles sempre riam desse subterfúgio. Diziam que era uma atitude infantil. Era infantil, Stephen? Continua achando? Não acha que Tom, na cova, está arrependido de não ter seguido o meu exemplo?
— — — Sim, sim respondeu Megara, depressa. Conte a história, Andre.
O excêntrico professor deu uma volta na cabine, mãos atrás do uniforme emprestado, olhos angustiados… Eles ouviram uma narrativa extraordinária.
Com a chegada do Natal, explicou ele na voz intensa característica da sua dicção, ele se deu conta de que fazia dois meses que não aparecia em Arroyo como o velho montanhês. A ausência por um período tão longo poderia bem ter levado alguns dos citadinos — o policial Luden, talvez — a procurar o montanhês ancião e investigar a cabana… um evento que, observou ele, teria sido desastroso para a farsa cuidadosamente mantida. Durante mais de uma semana entre o Natal e o Ano-Novo, a escolinha ficou fechada; e ele viu que por vários dias ao menos ele poderia agir como o eremita Pete com impunidade. Em ocasiões prévias, quando ele assumira o personagem esfarrapado, fora quando o professor estava supostamente de férias, ou nos fins de semana.
— — Como explicava essas ausências a Kling? perguntou Ellery. — Ou o seu criado estava por dentro da farsa?
— — — Não! exclamou Van. Ele era burro, um imbecil. Eu só dizia que passaria uns dias de folga em Wheeling ou Pittsburgh.
Na véspera de Natal, então, ele informara Kling que estava partindo para Pittsburgh a fim de comemorar o Yuletide. Partira à noite para a cabana nas montanhas; ele deixava todos os acessórios de montanhês guardados na choupana, é claro. Lá ele se tornava o Velho Pete de novo. Depois de acordar bem cedo na manhã seguinte — — a manhã de Natal , ele desceu a pé para o vilarejo, pois precisava de mantimentos e sabia que poderia comprá-los com Bernheim, o lojista, por mais que fosse Natal e o supermercado estivesse fechado. Ele chegara à junção da autoestrada principal e a ponta de Arroyo e lá, sozinho, às 6h30, fizera a terrível descoberta do corpo crucificado. O significado dos vários Ts o atingira de imediato. Ele correu para casa, noventa metros adiante pela estrada de Arroyo. A carnificina que os outros viram mais tarde teve um sentido doloroso para ele; percebeu instantaneamente que, por puro acaso, Krosac viera na noite anterior, matara o pobre coitado do Kling (pensando que fosse Andreja Tvar), cortara a cabeça dele e o crucificara à placa.
Ele precisara pensar rápido. O que faria? Por uma generosidade inesperada do destino, Krosac agora acreditava que cumprira a sua vingança contra Andreja Tvar; por que não deixar que continuasse acreditando? Ao assumir a persona do Velho Pete de maneira permanente, não apenas Krosac seria enganado, todo o mundinho da Virgínia Ocidental onde Van morava também… Felizmente, o terno que Kling usava quando foi assassinado era um que o próprio Van dera ao homem havia pouco, um traje velho e bem usado. Ele sabia que o povo de Arroyo reconheceria o terno como sendo de Andrew Van, o professor da escola local; e se ele pusesse alguns papéis identificáveis nos bolsos do morto, não haveria dúvidas sobre a identidade.
Após pegar cartas e chaves dos seus antigos ternos, o professor voltara sorrateiramente ao cruzamento, tirara todos os objetos identificáveis do corpo mutilado de Kling — uma tarefa macabra, e o homem de uniforme estremeceu com a lembrança —, colocou os próprios objetos no morto, então, de forma deliberada, correra estrada acima para dentro da mata. Lá, acendeu uma fogueirinha protegida, queimou os objetos pessoais de Kling e esperou que alguém aparecesse.
— — — Por quê? perguntou Vaughn. Por que não fugiu de volta para a sua cabana e se escondeu?
— — — Porque respondeu Van, sem floreios era necessário que eu voltasse de imediato ao vilarejo e, de alguma forma, alertasse os meus irmãos sobre a aparição de Krosac. Se eu aparecesse e não dissesse qualquer coisa sobre o corpo no cruzamento, seria visto com desconfiança, pois era necessário passar por lá para chegar ao vilarejo. Se eu chegasse na cidade e relatasse a história da minha descoberta do corpo, sozinho, eu também poderia ficar sob suspeita. Mas se eu esperasse que alguém aparecesse, um cidadão inocente da vizinhança, eu teria uma companhia para a “descoberta” do corpo e, ao mesmo tempo, poderia chegar ao vilarejo, estocar suprimentos e notificar os meus irmãos.
Michael Orkins, o fazendeiro, aparecera em mais ou menos uma hora. Van, ou Velho Pete, inventou que caminhava pela estrada na direção do cruzamento. Ele chamara Orkins, o fazendeiro lhe dissera para entrar, eles encontraram o corpo… o resto, como Van disse, sério, o sr. Queen sabe por ter comparecido ao inquérito.
— — E o senhor conseguiu notificar os seus irmãos? perguntou Isham.
— Sim. Enquanto estava em casa, depois de encontrar o corpo de Kling no cruzamento, eu rabisquei um bilhete apressado para Tomis, o homem que os senhores conhecem como Thomas Brad. Quando chegamos, em meio à agitação do vilarejo, consegui enfiar a carta pela fresta da porta da agência de correio, já que a agência estava fechada. Eu fiz um breve resumo dos acontecimentos para Tom, alertando-o de que Krosac deveria estar indo na direção dele, determinado a se vingar. Também escrevi que, a partir daquele momento, eu pretendia ser o Velho Pete, e que nem ele nem Stephen deveria comentar nada. Eu, ao menos, ficaria protegido de Krosac; pois estava morto.
— — — Você teve sorte disse Megara com amargura. Quando Tom não conseguiu entrar em contato comigo depois de receber a sua carta, ele deve ter escrito aquele bilhete que encontramos endereçado à polícia; como um último alerta, caso algo lhe acontecesse antes que eu retornasse a Bradwood.
Os irmãos estavam pálidos e tensos; ambos transpareciam a tensão que sentiam. Até mesmo Megara sucumbira ao feitiço. Uma risada masculina rouca veio do convés; eles se sobressaltaram, então relaxaram ao perceber que era só um integrante da tripulação do Helene gracejando com um soldado.
— — — Bem disse Isham enfim, um tanto desamparado , está tudo muito bem, mas no que isso nos ajuda? Ainda estamos encalacrados, no quesito da captura de Krosac.
— — — Uma atitude pessimista disse Ellery , profundamente justificada. Cavalheiros, quem sabe ou já soube da contenda Tvar-Krosac? Uma pequena investigação nessa linha talvez nos ajude a estreitar a lista de suspeitos.
— — — Ninguém além de nós informou Van, taciturno. Eu naturalmente não contei a ninguém.
— Não há qualquer registro escrito da contenda?
— Não.
— — — Muito bem disse Ellery, se pondo a pensar. Isso torna Krosac um possível disseminador da história. Por mais que seja concebível que ele possa ter contado a alguém, não é provável; por que o faria? Krosac agora é um adulto; um maníaco obsessivo com uma fixação por vingança, além do mais. A vingança, ele acreditaria, deve ser consumada pessoalmente; essas coisas não são delegadas a agentes ou cúmplices. Certo, sr. Megara?
— — Não em Montenegro respondeu o iatista, com uma careta.
— É claro; é axiomático para qualquer um que conheça a psicologia das contendas — disse o professor Yardley. — E nas antigas contendas dos Bálcãs, que eram consideravelmente mais sangrentas até do que as dos nossos montanheses, só um membro da família poderia limpar a reputação.
Ellery assentiu.
— Krosac poderia ter contado a alguém neste país? Acho difícil. Isso o colocaria sob o poder de um indivíduo, ou deixaria uma trilha para si próprio, e Krosac, pela esperteza que já demonstrou, é um patife cauteloso apesar da obsessão dele. E se escolhesse um cúmplice, coisa que não faria, o que teria a oferecer a tal criatura?
— — Bom argumento concedeu Isham.
— O simples fato de que ele pegou todo o dinheiro contido na lata na casa do sr. Van…
— — Cento e quarenta dólares murmurou Van.
— …indica que Krosac estava duro e levou o que encontrou. Mas a casa do seu irmão Tomislav não foi saqueada. Certamente não havia um cúmplice, então, pois caso houvesse, ele não desperdiçaria a oportunidade de levar o que pudesse. Esses assassinatos foram motivados por vingança, não ganho… Outros sinais da não existência de um cúmplice? Sim. No assassinato de Kling, só uma pessoa foi vista nos arredores do cruzamento, e esse homem era Velja Krosac.
— — O que está tentando provar? rosnou Vaughn.
— Apenas que as chances de Krosac ter trabalhado sozinho e não ter contado a ninguém sobre os crimes que planejara são esmagadoras; a julgar pelo motivo individualista, o método sofrível e a trilha de um homem solitário que ele não fez qualquer tentativa de esconder, até certo ponto. Lembrem-se de que Krosac praticamente assinou os crimes ao estampar Ts pela cena dos dois. Ele deve ter percebido isso, insano ou não, e é inacreditável que um cúmplice se aliaria, em especial depois do primeiro assassinato, a um maníaco tão depravado e descarado.
— — E isso nos leva exatamente a lugar nenhum retrucou o inspetor com rispidez. — Por que se preocupar com um cúmplice mítico? Não fizemos um centímetro de progresso na busca pelo culpado, sr. Queen!
Ellery deu de ombros; era evidente que, na mente dele, a eliminação de um possível cúmplice ou conluiado com o segredo de Krosac era uma necessidade pertinente e primordial.
O promotor de justiça Isham andava de um lado para o outro entre os irmãos, inquieto.
— — — Olhe aqui disse enfim. Não podemos ser subjugados por esse caso. Não é razoável que um homem desapareça a ponto de não poder nem ser rastreado. Precisamos saber mais sobre a aparência dele. Dado que os cavalheiros não sabem como Krosac é, não podem nos contar mais sobre ele? Características que não mudariam da infância para a maturidade?
Os irmãos trocaram um olhar rápido.
— — Ele é manco disse Van, dando de ombros.
— — — Eu lhe contei isso afirmou Megara. Quando criança, Krosac contraiu uma leve doença no quadril… não desfigurante, mas o suficiente para fazê-lo mancar com a perna esquerda.
— — Permanentemente? perguntou Ellery, exigente.
Os Tvar ficaram inexpressivos.
— É possível que tenha se curado nos vinte anos que se passaram desde então, sabe. Nesse caso, o testemunho de Croker, o garagista em Weirton, indicaria outra faceta da esperteza de Krosac. Ao lembrar que os senhores sabiam que ele mancava na infância, ele poderia, como já sugerido pelo professor Yardley, fingir mancar… considerando, é claro, que tenha sido curado no ínterim.
— — — Por outro lado retrucou o inspetor , a deficiência pode ser autêntica. Por que o senhor fica problematizando todas as evidências que conseguimos, sr. Queen…
— — — Ah, muito bem disse Ellery, com aspereza. Krosac manca. Está satisfeito, inspetor? — Ele sorriu. — Mas pode contar com isso. Quer ele de fato manque quer não, ele continuará a mancar sempre que fizer uma das infrequentes aparições públicas dele.
— — — Já desperdiçamos muito tempo resmungou Vaughn. Uma coisa é certa. Os cavalheiros precisam de proteção a partir de agora. Acho que é melhor voltar agora mesmo para Arroyo, sr. Van, e ficar fora de vista. Mandarei meia dúzia de guardas de volta à Virgínia Ocidental com o senhor, e os deixarei lá.
— — — Ah, meu bom Deus grunhiu Ellery. Inspetor, o senhor percebe o que está dizendo? Assim entregará o jogo para Krosac! Podemos assumir que a nossa farsa foi bem-sucedida, que Krosac ainda não sabe onde Andreja Tvar está, por mais que saiba que está vivo. Qualquer atenção que dedicarmos a Andreja Tvar, então, está fadada a chegar ao conhecimento de Krosac se ele estiver de olho, e ele deve estar.
— — Ora, o que o senhor faria? perguntou Vaughn agressivamente.
— O sr. Van deve ser escoltado de volta à sua choupana nas colinas da maneira menos ostentadora possível; por um homem, não meia dúzia, inspetor. Por que não manda um exército logo? E então ele deve ser deixado em paz. Como o Velho Pete ele está seguro. Quanto menos rebuliço gerarmos, melhor ele ficará.
— … … — E quanto ao sr. Megara hã sr. Megara? perguntou Isham. Ele parecia ter dificuldade de escolher um nome apropriado para os irmãos com dois nomes. — Nós o deixaremos em paz também?
— — — Óbvio que não! exclamou Ellery. Krosac espera que ele fique protegido, e deve ficar. Abertamente, o máximo que desejar.
Os irmãos não disseram nada enquanto os seus destinos eram discutidos por esses forasteiros; eles se entreolharam sorrateiramente, e o rosto severo de Megara ficou ainda mais severo, enquanto Van piscava e se remexia com inquietude.
— Tem mais alguma coisa que os cavalheiros queiram discutir antes de serem separados? — perguntou Isham. — Rápido, por favor.
— — — … Venho pensando no assunto murmurou Van , e eu eu não acho que seria sábio que eu voltasse à Virgínia Ocidental. Tenho a sensação de que Krosac… — A voz estremeceu. — Acho que eu me afastaria o máximo possível desse país amaldiçoado. O máximo possível de Krosac…
— — — Não respondeu Ellery, com firmeza. Se Krosac tiver qualquer suspeita de que o senhor é o Velho Pete, a sua renúncia ao personagem e a sua fuga deixariam uma trilha aberta para ele seguir. Deve permanecer como Velho Pete até que tenhamos capturado o nosso homem, ou ao menos até termos prova de que Krosac desvendou o disfarce.
— … — — Eu pensei Van umedeceu os lábios. Não sou um homem muito abastado, sr. Queen. O senhor provavelmente acha que sou um covarde. Mas eu já vivi sob a sombra daquele demônio… — Os estranhos olhos dele arderam. — Há uma quantia de dinheiro destinada a mim pelo testamento do meu irmão Tomislav. Eu o renuncio. Só quero escapar… — A inconsistência e a incoerência do comentário deixaram todos desconfortáveis.
— — — Não, Andre disse Megara com voz carregada. Se quiser fugir… bem, você que sabe. Mas o dinheiro… eu o adiantarei. Você precisará dele seja lá aonde for.
— — Qual é o valor? perguntou Vaughn, desconfiado.
— — Menos do que deveria. Os olhos severos de Megara ficaram ainda mais severos. — Cinco mil dólares. Tom bem poderia ter provido… Mas Andreja é o caçula, e no nosso antigo país, os conceitos sobre herança eram rígidos. Eu mesmo…
— — Tom era o filho mais velho? perguntou Ellery.
O rosto de Megara ficou vermelho.
— … Não. Eu sou. Mas vou recompensá-lo, Andre
— — — Bem, faça o que bem entender sobre isso falou Vaughn. Mas vou lhe dizer uma coisa, sr. Van: o senhor não pode fugir. O sr. Queen tem razão quanto a isso.
O rosto do professor de Arroyo empalideceu.
— … Se os senhores acham que ele não sabe
— — Como diabos ele pode saber? perguntou Vaughn com irritação. — Se for se sentir melhor, o sr. Megara pode providenciar o seu dinheiro e o senhor pode levá-lo de volta consigo. Se precisar dar o fora sem aviso, não irá com uma mão na frente e a outra atrás. Mas esse é o melhor que podemos fazer.
— — Somado às minhas próprias economias na choupana
murmurou Van —, dá uma soma satisfatória. Mais do que o suficiente, seja lá aonde eu for… Muito bem. Voltarei a Arroyo. E, Stephen… obrigado.
— — — Talvez argumentou o iatista sem jeito você precise de mais. Suponha que eu lhe dê dez em vez de cinco…
— — — Não. Van estufou o peito. Eu só quero o que me é devido. Sempre me virei sozinho, Stephen, como você sabe.
Megara se encolheu de dor ao sair da cama e foi até uma escrivaninha. Ele se sentou e começou a escrever. Andreja Tvar andava de um lado para o outro. Agora que o seu destino imediato fora decidido por ele, parecia ansioso para ir embora. O iatista se ergueu, balançando um cheque.
— — — Precisará esperar até amanhã de manhã, Andre disse ele. Vou sacá-lo pessoalmente para você, então você pode pegar o dinheiro de manhã a caminho da Virgínia Ocidental.
Van olhou ao redor rapidamente.
— Preciso ir agora. Onde posso ficar, inspetor?
— Deixaremos que os soldados cuidem de você essa noite.
Os dois irmãos se entreolharam.
— Cuide-se, Andre.
— Você também.
Eles se encararam, e a barreira intangível entre os dois estremeceu e quase caiu. Mas não o fez. Megara deu meia-volta, e o irmão caminhou para a porta com ombros caídos.
Depois que eles já haviam voltado ao continente e Andreja Tvar saíra marchando em meio a um grupo de soldados, Ellery comentou:
— … Alguma coisa lhe pareceu? Não, é claro que sim, é uma pergunta supérflua. Por que o senhor pareceu perturbado, sr. Isham, pela explicação de Stephen Megara para a fuga dos irmãos Tvar de Montenegro?
— — — Porque respondeu o promotor de justiça é absurdo. Com ou sem contenda. Não é plausível que três homens adultos abandonem sua casa e país e mudem de nome só porque um pirralho tem incentivo emocional para matá-los.
— — Muito verdadeiro concordou Ellery, sorvendo o ar morno com aroma de pinheiros. — Tão verdadeiro que eu me pergunto por que o inspetor Vaughn não os prendeu na mesma hora por perjúrio. — — O inspetor Vaughn bufou. Isso me convence de que, por mais que a história de Krosac seja inegavelmente verdadeira, havia mais por trás da partida deles do que o medo de uma vingança problemática de um garoto de onze anos.
— — — O que quer dizer, Queen? perguntou o professor Yardley. Não vejo…
É
— É óbvio! Por que três adultos, como disse o sr. Isham, abandonariam sua terra natal e fugiriam para um país estrangeiro sob pseudônimos? Hein?
— — A polícia! murmurou Vaughn.
— precisaram Isso mesmo. Eles partiram porque partir, perseguidos por um perigo muito mais imediato, eu lhe garanto, do que a vingança do garoto Krosac. Se eu fosse o senhor, inspetor, faria um inquérito além-mar.
— — — Mandar um telegrama para a Iugoslávia falou o inspetor. Boa ideia. Farei isso esta noite.
— — — Veja só disse Ellery para o professor Yardley , a vida, como sempre, nos prega peças. Eles fugiram de um perigo real e, vinte anos depois, o perigo potencial os alcança.
OceanofPDF.com