O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 24 de 36

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O mistério da cruz egípcia

21. Briga de amantes

 

 

— — Uma abundância de coisa nenhuma comentou Ellery na noite seguinte, enquanto ele e o professor Yardley, do gramado de Yardley, observavam o céu pontilhado de estrelas acima de Long Island.

— — Humm falou o professor. Faíscas de tabaco caíram do cachimbo quando ele suspirou. — Para dizer a verdade, eu vinha esperando pelo início dos fogos de artifício, Queen.

— Paciência. De certa forma, visto que esta é a noite do nosso celebrado Dia da Independência, você pode esperar que o cenário se abunde de fogos de artifício. Ali! Um rojão!

Eles ficaram em silêncio enquanto assistiam ao longo dedo de luz brilhante disparar pelo céu escuro e explodir em um clarão de cores aveludadas em queda. O único rojão pareceu funcionar como um sinal; instantaneamente, a costa inteira de Long Island entrou em erupção, e por um tempo eles ficaram parados, observando a celebração da costa norte. Um pouco difusos, no céu acima do distante litoral de Nova York do outro lado do estuário, eles distinguiram clarões em resposta, como minúsculos vaga-lumes.

O professor resmungou:

— Ouvi falar tanto sobre a sua habilidade pirotécnica como detetive que a realidade… me desculpe se blasfemo… me decepciona. Quando você vai começar, Queen? Digo… quando é que Sherlock se levanta de um salto e fecha as algemas ao redor dos pulsos do ignóbil assassino?

Ellery encarou com melancolia os loucos padrões de luz disparando e girando diante das estrelas do Grande Carro.

— … Estou começando a achar que não haverá início ou desfecho…

— — — Não é o que parece. Yardley tirou o cachimbo da boca. Não acha que foi imprudente afastar os soldados? Temple me contou hoje de manhã; ele disse que o coronel das forças armadas do condado havia expedido a ordem de retirada. Eu mesmo não vejo por quê.

Ellery deu de ombros.

— Por que não? É óbvio que Krosac só está atrás de duas pessoas, Stephen Megara e Andrew Van, ou os Tvar, seja lá como escolha chamá-los. Megara tem proteção suficiente no isolamento aquático e da tropa de Vaughn, e Van está protegido o suficiente pelo seu disfarce.

“Há uma grande quantidade de elementos nesse segundo crime, professor, que daria espaço para discussão; a sua maneira, eles são extraordinariamente esclarecedores. Mas não parecem levar a lugar algum.”

— Não consigo pensar em nada.

— — — Sério? Ellery parou para assistir a um pistolão sibilante. Quer dizer que não leu a história completa, e deveras interessante, das peças de damas?

— — Damas, é? A barba curta de Yardley ficava levemente visível diante do brilho do fornilho. — Confesso que nada na última ceia de Brad, por assim dizer, me pareceu relevante.

— — Então eu recupero parte da minha autoestima perdida

murmurou Ellery. — A história era muito clara. Mas, droga, por mais que seja mais conclusivo do que o mero palpite que Vaughn e Isham vinham fazendo… — Ele se levantou e enfiou as mãos nos bolsos. — Pode me dar licença? Preciso caminhar para desanuviar a mente.

— É claro.

O professor se inclinou para trás e tragou o cachimbo, observando Ellery se afastar com uma curiosa concentração.

 

Ellery perambulou sob as estrelas e os fogos de artifícios. Exceto por clarões espasmódicos, estava profundamente escuro; a escuridão do campo. Ele atravessou a rua entre o terreno de Yardley e Bradwood, tateando sem enxergar, farejando o ar noturno, escutando os fracos sons de barcos festivos na água, roendo os ossos do cérebro feito um terrier frustrado.

Bradwood, exceto por uma luz noturna na varanda da frente — Ellery identificou, ao subir sem muita habilidade pela entrada para carros, dois detetives fumando ali —, estava sombria e desolada. As árvores assomavam à direta, e mais distantes à esquerda. Ao passar pela casa, um dos detetives se levantou e gritou:

— Quem está aí?

Ellery ergueu uma das mãos para cobrir o feixe ofuscante da poderosa lanterna.

— — — Ah disse o detetive. Perdão, sr. Queen.

O feixe se desligou.

— — Quanta vigilância murmurou Ellery, e continuou a caminhar ao redor da casa.

Ele se perguntou naquele momento por que os seus pés viraram naquela direção. Aproximava-se da pequena trilha que levava ao sinistro totem e à edícula. O eflúvio de medo que emanava da trilha e do fim dela — ou talvez fosse a sensitividade subconsciente a cenas de horror — o dominou, e ele passou apressado. O caminho principal estava obscuro diante dele.

De supetão, ele parou. Um pouco à direita, onde ficava a quadra de tênis, pessoas conversavam.

Veja bem, Ellery Queen era um cavalheiro por definição, mas aprendera uma lição com o bom inspetor, o seu pai, que era uma alma gentil em tudo exceto na cínica familiaridade com o crime. E essa lição era: “Sempre entreouça conversas”. O velho dizia: “A única evidência que vale um quinhão, filho, é a conversa entre pessoas que acham que não estão sendo ouvidas. Escute nesses momentos e descobrirá mais do que conseguiria com uma centena de interrogações de uma fileira de suspeitos”.

Portanto, Ellery, um filho obediente, permaneceu onde estava e escutou.

As vozes pertenciam a um homem e a uma mulher. Ambos os tons eram familiares aos ouvidos, mas ele não conseguia escutar as palavras. Já tendo chegado tão baixo, não havia nada para impedi-lo de se rebaixar ainda mais. Com a furtividade de um nativo americano, ele saltou do cascalho barulhento para a grama que ladeava a trilha e começou a avançar cautelosamente em direção à origem das vozes.

Uma consciência da identidade dos donos chegou ao seu cérebro. Eram Jonah Lincoln e Helene Brad.

Eles estavam sentados, ao que parecia, a uma mesa de jardim do lado oeste da quadra de tênis; Ellery se lembrava um pouco da disposição do terreno. Ele se esgueirou até ficar a um metro e meio deles, e se manteve petrificado atrás de uma árvore.

— — Não fará bem algum negar, Jonah Lincoln. Ele ouviu o tom gélido de Helene.

— — — Mas, Helene retrucou Jonah , eu já lhe disse uma dúzia de vezes que Romaine…

— … Besteira! Ele não seria tão indiscreto. Só só você, com as suas ideias peculiares, a sua… covardia bestial…

— — — Helene! Jonah ficou mortalmente ferido. Como pode dizer isso? É verdade que, como sir Galahad, eu tentei espancá-lo algumas vezes, e ele me nocauteou, mas eu…

— — — — Bem respondeu ela , talvez eu tenha sido injusta, Jonah. Fez-se um silêncio; Ellery percebeu que ela se esforçava para segurar as lágrimas. — Não posso dizer que não tentou, é claro. Mas você está sempre… ah, interferindo.

Ellery visualizava a cena o melhor que podia. O rapaz, ele tinha certeza, tornara-se tenso.

— — — É mesmo? perguntou Jonah com a voz cheia de amargura. Muito bem, é o que eu sempre quis saber. Interferindo, é? Não passo de um intruso. Não, certo. Muito bem, Helene. Não interferirei mais. Vou…

— — — Jonah! Havia pânico na voz dela agora. Como assim? Eu não…

— — — Estou falando sério rosnou ele. Já faz anos que não passo de um bom camarada, trabalhando como um cão para um homem que passa todo o tempo no mar e outro que fica em casa jogando damas. Bem, já chega! Aquela porcaria de salário não vale. Vou embora com Hester, por Deus, e já contei ao seu precioso Megara! Contei a ele esta tarde no iate. Deixe que ele mesmo gerencie o próprio negócio para variar; estou farto de fazer isso por ele.

Houve um breve e tenso intervalo durante o qual nenhum dos antagonistas disse uma palavra. Ellery, atrás da segurança da árvore, suspirou. Já imaginava o que estava por vir.

Ele ouviu a suave exalação de Helene e sentiu a rigidez defensiva de Jonah.

— — — … Afinal, Joe sussurrou ela , não é como como se você não devesse nada à memória de papai. Ele… ele fez muito por você, não fez? — Nenhum comentário do sr. Lincoln. — E quanto a Stephen… ah, você não mencionou dessa vez, mas eu já disse várias vezes que não há nada entre nós. Por que você precisa ser tão… tão venenoso em relação a ele?

— — Não estou sendo venenoso disse Jonah com dignidade.

— … — Está, sim! Ah, Jonah Outro silêncio, durante o qual Ellery visualizou a moça aproximando a cadeira ou se inclinando, como Calypso, em direção à sua vítima. — Vou lhe contar algo que nunca lhe contei!

— — É mesmo? Jonah se sobressaltou. Então prosseguiu apressado: — Não precisa, Helene. Não estou nem um pouco interessado… se for sobre Megara, digo.

— Não seja bobo, Joe. Por que acha que Stephen passou um ano inteiro longe, nessa última viagem dele?

— Eu estou certo de que não sei. Provavelmente encontrou uma dançarina de Hula do estilo dele no Havaí.

— … Jonah! Que grosseiro. Stephen não é desse tipo, e você sabe

Vou lhe contar. É porque ele me pediu em casamento. Pronto! Foi por isso. — Ela fez uma pausa triunfante.

— — — Ah, é? Bom resmungou Jonah , é um jeito e tanto de tratar a noiva prometida. Passar um ano longe! Desejo muita sorte a vocês dois.

— … Mas eu eu o rejeitei!

Ellery suspirou de novo e se esgueirou de volta para o caminho. A noite continuava desoladora, na opinião dele. Quanto ao sr. Lincoln e à srta. Brad… silêncio. Ellery bem achou que sabia o que estava acontecendo.

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