O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 18 de 36

Páginas do PDF

O mistério da cruz egípcia

15. Lázaro

 

 

O rosto de Stephen Megara era a definição de uma expressão furiosa. A metamorfose do homem vigoroso e composto foi assustadora. A pressão do desconhecido havia enfim arrancado a máscara de determinação do seu rosto. Os olhos brilhavam com uma inquietação gélida. Ele olhou rapidamente ao redor do cômodo: para as janelas, como se antecipasse o fenômeno de um Velja Krosac fantasmagórico saltando sobre ele; para a porta, onde o detetive estava recostado com indiferença. Tirou uma pistola automática diminuta do bolso do quadril e examinou o mecanismo com dedos ágeis. Então se sacudiu e caminhou a passos largos até a porta, fechando-a no rosto do detetive. Ele foi até as janelas e espiou com olhos severos. Ficou parado em silêncio por um momento, soltou uma risada curta e guardou a pistola no bolso do casaco.

Isham grunhiu:

— Sr. Megara.

O iatista se virou depressa, o rosto tenso.

— — — Tom era um fracote disse abruptamente. Ele não vai me pegar… desse jeito.

— Onde está Van? Como ele está vivo? O que esse bilhete significa? Por que…?

— — — Só um minuto interrompeu Ellery. Não tão rápido, sr. Isham. Temos muito a digerir antes de servirmos outra porção… Está aparente agora que Brad guardou esse bilhete em um lugar facilmente acessível, a escrivaninha ou a gaveta da mesa redonda, com a intenção de ser encontrado de imediato caso fosse assassinado. Mas ele não contava com a meticulosidade de Krosac, que ganha mais a minha admiração a cada passo da investigação.

“Depois de assassinar Brad, Krosac não deixou de inspecionar o cômodo. Talvez tivesse um pressentimento de que tal bilhete, ou alerta, existisse. De qualquer forma, ele encontrou o bilhete e, ao ver que não representava qualquer perigo para ele…”

— — — Por que acha isso? perguntou Vaughn. Parece-me a última coisa que qualquer assassino faria: deixar o bilhete da vítima para ser encontrado!

— — Não é preciso um raciocínio gigantesco, inspetor retrucou Ellery em tom seco —, para entender o motivo desse homem incrível para um ato aparentemente tolo. Se Krosac tivesse considerado o bilhete perigoso à sua segurança, com certeza ele o teria destruído. Ou, no mínimo, o levado embora. Mas não só ele não o destruiu, como na verdade… a despeito de qualquer suposta lógica, como o senhor disse… deixou-o na cena do crime, anuindo aos últimos desejos da vítima.

— — Por quê? perguntou Isham.

— — Por quê? As narinas finas de Ellery se expandiram com ferocidade. — Porque ele considerou a descoberta do bilhete pela polícia, longe de um perigo para a segurança dele, algo vantajoso! Ah, mas aqui nós identificamos o ponto crucial da situação. O que o bilhete diz? — Os ombros de Megara se contraíram, e uma determinação sinistra dominou as feições vitais dele. — O bilhete diz que Andrew Van ainda está vivo, e que apenas Stephen Megara saberá onde encontrá-lo !

O professor Yardley arregalou os olhos.

— Esperto como o diabo. Ele não sabe onde Van está!

— Exato. Krosac, e isso é uma certeza agora, de alguma forma matou o homem errado em Arroyo. Ele pensou ter assassinado Andrew Van; Thomas Brad era o próximo da lista e, quando encontrou e matou Brad, ele descobriu esse bilhete. Isso lhe informou que Van ainda estava vivo. Mas, se tinha motivo para tomar a vida de Van há seis meses, ele decerto ainda tem motivos, e o desejo, para cometer o crime. Van está vivo e, deixando de lado a pequena consideração do pobre coitado que Krosac matou por engano — interpolou Ellery, sério —, deve ser mais uma vez procurado e exterminado. Mas onde estava Van? Que ele desapareceu, deu o fora quando soube que Krosac estava atrás dele e que chegou até a matar outro homem por engano, é evidente. — Ellery brandiu o indicador. — Agora considere o problema que o nosso brilhante Krosac enfrenta. O bilhete não diz onde Van está. Ele diz que apenas um homem, Megara, sabe onde Van está…

— — — Calma aí interveio Isham. Entendo aonde está indo. Mas por que Krosac simplesmente não destruiu o bilhete e esperou que Megara retornasse? Então Megara nos revelaria onde Van está, e Krosac, como imagino que o senhor diria, de alguma forma também descobriria, através de nós.

— Uma pergunta excelente, na superfície. Na realidade, desnecessária. — Ellery acendeu um cigarro com dedos um tanto trêmulos. — Veja que, se nenhum bilhete houvesse sido deixado e Megara retornasse, ele não teria razão alguma para duvidar da morte de Van! Teria, sr. Megara?

— — Sim. Mas Krosac não teria como saber. A austeridade de Megara, a força de vontade ferrenha do homem, dominava até o tom da sua voz.

Ellery foi pego de surpresa.

— … Não entendo Krosac não saberia? Ao menos isso confirma o meu argumento. Ao deixar o bilhete aqui para ser encontrado pela polícia… de imediato, quero dizer, com a polícia sabendo logo após a descoberta do corpo que a biblioteca era a cena do crime… a polícia organizaria uma busca por Van no mesmo instante. Mas o próprio Krosac quer procurá-lo, e uma busca policial simultânea atrapalharia a investigação dele… naturalmente! Ao atrasar a descoberta do bilhete, Krosac alcança dois objetivos: um, no ínterim entre o assassinato de Brad e a chegada do sr. Megara, ele próprio pode procurar por Van desimpedido da polícia; que, ainda não tendo encontrado o bilhete, não saberia que o homem ainda estava vivo. Dois: se, nesse meio-tempo, Krosac não tivesse êxito em encontrar Van, ele não teria perdido nada; pois quando o sr. Megara adentrasse a cena, ele identificaria o cachimbo, que daria cabo a uma nova investigação, como fez, levando em última análise à descoberta da biblioteca como a verdadeira cena do crime. O cômodo seria meticulosamente revistado, o bilhete então encontrado, Megara saberia que Van não estava morto, o que exporia o paradeiro de Van à polícia… e Krosac precisaria apenas nos seguir para descobrir exatamente onde ele está escondido!

Megara murmurou com violência:

— Talvez tudo já esteja acabado!

Ellery se virou.

— Quer dizer que acha que Krosac já encontrou Van?

Megara abriu os braços e deu de ombros; um gesto continental, incongruente com a sua aparência viril de americano.

— É possível. Inferno, tudo é possível.

— — — Escute falou o inspetor com rispidez. Estamos perdendo um tempo valioso tagarelando enquanto podíamos estar conseguindo informações verdadeiras. Só um minuto, sr. Queen, isso não é um kaffeeklatsch; o senhor já ficou com a palavra por tempo o suficiente… Desembuche, sr. Megara. Qual é a maldita ligação entre Van, o seu sócio Brad e o senhor?

O iatista hesitou.

— … … — Nós somos nós éramos Instintivamente, a mão dele disparou para o bolso protuberante.

— — Pois bem? insistiu o promotor de justiça.

— Irmãos.

 

— Irmãos!

Os olhos de Ellery estavam fixos nos lábios do homem alto. Isham disse, com empolgação:

— Então o senhor tinha razão, sr. Queen! Esses não são os nomes verdadeiros deles. Não podem ser Brad, Megara ou Van. Quais são…

Megara sentou-se abruptamente.

— … — Não. Nenhum deles. Quando eu lhes contar O olhar ficou turvo; ele encarava algo muito além dos limites da biblioteca.

— — O que foi? perguntou o inspetor, com calma.

— Quando eu lhes contar, os senhores entenderão o que, até este momento, provavelmente consideraram um mistério. No instante em que me contaram sobre os Ts… aquela história maluca com os Ts… os corpos decapitados e configurações rígidas dos braços e pernas, os Ts em sangue na porta e no chão da edícula, o cruzamento, o totem…

— — — o seu nome Não me diga interrompeu Ellery que verdadeiro começa com T!

Megara assentiu como se a cabeça pesasse uma tonelada.

— — — Sim confirmou em voz baixa. O nosso sobrenome é Tvar. T-v-a-r… Daí vem o T, entende.

Eles ficaram em silêncio por um momento. Então o professor observou:

— Você estava certo, Queen, como de costume. Um significado literal, nada mais. Um mero T… nenhuma cruz, nenhuma egiptologia, nenhuma implicação religiosa confusa… Estranho. Incrível, na realidade.

Uma sombra de decepção tingiu o rosto de Ellery; ele observava Megara com olhos inabaláveis.

— — — Eu não acredito afirmou Vaughn com profundo desgosto. Nunca ouvi falar de algo do tipo.

— — Entalhar um homem no formato da inicial do nome dele!

murmurou Isham. — Ora, nós seríamos motivo de chacota no leste, Vaughn, se deixássemos isso escapar.

Megara se levantou de um salto, o corpo tomado pela raiva.

— — — Vocês não conhecem a Europa Central! rosnou ele. Seus tolos, ele está esfregando esses Ts… o símbolo do nosso odiado nome… na nossa cara! O homem é louco, estou dizendo! Droga, é tão claro… — A raiva escapou do homem, que afundou em uma cadeira. — — — Difícil acreditar murmurou. Sim, mas não o que os está perturbando. É difícil acreditar que ele vem nos caçando por todos esses anos. Como em um filme. Mas que ele mutilaria os corpos… — A voz dele voltou a endurecer. — Andreja sabia!

— — — Tvar disse Ellery baixinho. Um pseudônimo triplo por anos. Obviamente por motivos graves. E a Europa Central… Imagino que seja uma vingança, sr. Megara.

Megara concordou com a cabeça; a voz se tornava fraca.

— Sim, isso mesmo. Mas como ele nos encontrou? Não entendo. Quando Andreja, Tomislav e eu concordamos… meu Deus, há quantos anos… em disfarçar as nossas identidades, também concordamos que ninguém… ninguém, entende… poderia descobrir o nosso antigo sobrenome. Deveria ser um segredo, e o segredo foi guardado, eu poderia jurar. Nem mesmo a esposa de Tom, Margaret, ou a filha dela, Helene, sabe que o nosso sobrenome é Tvar.

— — — única O senhor quer dizer afirmou Ellery que Krosac é a pessoa que sabe?

— Sim. É por isso que não consigo nem imaginar como ele conseguiu nos rastrear. Os nomes que escolhemos…

— — — Vamos lá rosnou Vaughn. Continue. Quero informações. Primeiro: quem diabos é esse Krosac? O que ele tem contra vocês? Segundo…

— — Não seja precipitado, Vaughn interrompeu Isham, irritado. — Quero digerir essa história do T por um minuto. Não entendo direito. Por que ele destacaria a inicial do sobrenome deles?

— — — Para mostrar respondeu Megara em uma voz cavernosa que os Tvar estão condenados. Bobo, não é? — A risada enlouquecida dele chiou nos ouvidos dos presentes.

— — O senhor reconheceria Krosac se o visse? perguntou Ellery, refletindo.

O iatista comprimiu os lábios.

— Essa é a parte execrável! Nenhum de nós vira Krosac há vinte anos e, naquela época, ele era tão jovem que seria impossível identificá-lo ou reconhecê-lo hoje. Pode ser qualquer um. Estamos enfrentando um homem… que é quase invisível, droga!

— Ele manca com a perna esquerda, certo?

— Mancava de leve quando criança.

— — Não necessariamente algo permanente murmurou o professor Yardley. — Pode ser um ardil. A apropriação deliberada de uma deficiência física superada para deixar um rastro confuso. Seria consistente com a esperteza diabólica de Krosac.

Vaughn avançou de repente e crispou os lábios, mostrando os dentes.

— Vocês podem ficar papeando aqui o dia todo, mas eu vou correr atrás disso! Olhe aqui, sr. Megara… Tvar ou seja lá qual for o seu nome… por que Krosac não fica na dele? Por que diabos ele quer matar vocês? Qual é a história?

— — — Isso pode esperar interveio Ellery. Tem uma coisa mais importante do que qualquer outra no momento. Sr. Tvar, esse bilhete deixado pelo seu irmão diz que o senhor sabe onde encontrar Van. Como pode saber? Está sem comunicação com o mundo há um ano, e o assassinato de Arroyo aconteceu há apenas seis meses, no Natal passado.

— — — Preparado, tudo preparado murmurou Megara. Por muito tempo, por anos… Eu disse mais cedo que saberia, mesmo sem o bilhete, que Andreja estava vivo. O motivo é… algo que os senhores me contaram durante o relato dos fatos em Arroyo. — Eles o encararam. — Veja bem — continuou ele com um resquício de melancolia na voz —, quando mencionaram o nome dos dois homens que encontraram o corpo no cruzamento…

Ellery estreitou os olhos.

— Sim?

Megara escrutinou mais uma vez o cômodo, como se para se certificar de que o evanescente Krosac não pudesse escutar.

— Eu soube. Pois se o Velho Pete, o montanhês que mencionaram, estava vivo, então Andreja Tvar, o meu irmão, também estava vivo.

— … — Temo que começou o promotor de justiça, confuso.

— — Ah, perfeito! exclamou Ellery, virando-se para o professor Yardley. — Não vê? Andrew Van é o Velho Pete!

 

Antes que os outros pudessem se recuperar do espanto, Megara fez que sim e continuou:

— É isso. Ele assumiu a personalidade alternativa do montanhês há anos em preparação para uma circunstância exatamente como esta. Deve estar nas montanhas da Virgínia Ocidental agora… se Krosac ainda não o achou… escondido em temor pela própria vida, torcendo para que Krosac não tenha descoberto o erro. Krosac também não nos vê há vinte anos, lembrem-se. Ao menos, acredito que não.

— E foi por isso que Krosac cometeu um erro no assassinato original — anunciou Ellery. — Depois de tantos anos sem ver a sua vítima, foi fácil cometer tal equívoco.

— — Refere-se a Kling? perguntou Isham, sério.

— — — Quem mais? Ellery sorriu. Quer ação, inspetor? Parece que vamos ter um bocado. — Ele esfregou as mãos ágeis. — Porque uma coisa é certa. Precisamos atrasar Krosac e enganá-lo. Não acredito que tenha encontrado Andreja ainda. O disfarce do Velho Pete foi perfeito; eu estava naquele tribunal de Weirton e jamais suspeitei que pudesse haver algo inconsistente no homem. Precisamos ir até o seu irmão de imediato, sr. Megara, mas em segredo tão absoluto que Krosac… seja lá quem for, independentemente da identidade que pode estar assumindo… permaneça ignorante do disfarce do montanhês.

— — De acordo disse Vaughn com um sorrisinho ranzinza.

Megara se levantou; os olhos haviam se tornado fendas estreitas reluzentes.

— … Farei qualquer coisa que disserem, cavalheiros por Andreja. Quanto a mim — ele deu batidinhas ameaçadoras no bolso da pistola — , se aquele diabo do Krosac está procurando encrenca, ele encontrará. Um cartucho cheio.

OceanofPDF.com