O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 32 de 36

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O mistério da cruz egípcia

28. Morto duas vezes

 

 

O inspetor Vaughn e o promotor de justiça Isham chegaram a Bradwood às oito horas de quarta-feira, cansados, porém felizes. Com eles havia um homem da promotoria dos Estados Unidos. E, sentados na caçamba, taciturnamente obstinados, estavam Percy e Elizabeth Lynn.

Os ladrões britânicos foram mandados para Mineola sob escolta, e o inspetor alongava os braços com tranquilidade ostensiva quando o seu tenente, Bill, chegou correndo, balançando os braços e falando depressa. A expressão de triunfo desvaneceu do rosto de Vaughn, substituída por uma de ansiedade. Isham ouviu toda a história deixada pelo professor Yardley e xingou com irritação.

— O que devemos fazer?

— — Segui-los, é claro! retrucou Vaughn com rispidez, e voltou a subir na viatura policial. O promotor de justiça esfregou a careca e o seguiu com resignação exausta.

Em Mineola, no aeródromo, eles conseguiram notícias de Yardley. O professor contratara um avião às seis horas daquela manhã a caminho de um destino anônimo no sudoeste. Dez minutos mais tarde eles estavam no ar, voando em direção ao mesmo destino na cabine de uma poderosa aeronave de três motores.

 

Era 13h30 quando eles seguiram até Arroyo. O avião pousara em um pasto a quatrocentos metros da cidade. Eles seguiram para a Câmara Municipal. Um homem de calça jeans azul estava sentado nos degraus do prédio, uma vassoura esfarrapada aos pés, roncando tranquilamente. Ele se levantou de súbito ao ouvir o resmungo do inspetor.

— Cês são de Nova York?

— Sim.

— Cês se chamam Vaughn, Isha ou um troço desse?

— Sim.

— Tenho um bilhete procês.

O zelador abriu a mão enorme; na palma, amassado, sujo e úmido, porém intacto, encontrava-se o bilhete do professor Yardley.

Eles leram a mensagem do professor em silêncio, então viraram o papel. Ellery rabiscara o adendo:

 

Bilhete de Yardley autoexplicativo. Já estive na choupana.

Uma bagunça terrível lá. Venham assim que puderem.

Pegadas em círculos diante da choupana são minhas; o outro

par…

Desvendem por conta própria. Sejam rápidos se quiserem

presenciar o fim.

Q.

 

— — Aconteceu resmungou Isham.

— — Que horas o sr. Queen saiu daqui? perguntou Vaughn com um rosnado.

— — — Lá pra uma da tarde respondeu o zelador. Fala, o que que tá havendo, capitão? Cês tão cheio de vai e vem, parece.

— — — Vamos lá, Isham murmurou o inspetor. Mostre o caminho. Precisamos ver aquela choupana primeiro.

Eles viraram a esquina, deixando o zelador os encarando e balançando a cabeça.

 

A porta da choupana estava fechada.

Com dificuldade, Isham e Vaughn pularam a cerca de arame farpado.

— — Não ande sobre essas pegadas ordenou o inspetor de pronto. — … Vejamos Essas são de Queen, eu acho, as que fazem o desvio. O outro par…

Eles ficaram imóveis e seguiram com os olhos a linha de pegadas que Ellery observara havia pouco mais de uma hora. Havia dois conjuntos de pegadas feitos com o mesmo par de sapatos; e, com a exceção das de Ellery, mais nenhuma. Os dois conjuntos estavam definidos com nitidez: um indo da cerca para a porta da cabana; o outro voltando em uma linha ligeiramente divergente. Além da cerca de arame, a natureza rochosa do solo impossibilitava um rastro visível. As pegadas que chegavam à cabana estavam mais afundadas na terra do que as que saíam. Em todas as pegadas, a impressão do pé direito era mais forte do que a correspondente ao esquerdo.

— — — O rastro manco, certo balbuciou Vaughn. O primeiro conjunto… estranho.

O inspetor acompanhou o rastro duplo de pegadas e abriu a porta, seguido por Isham. Eles encararam a cena em profundo horror.

Na parede oposta à porta, pregado às toras de madeira rústicas como um troféu, havia o corpo de um homem. Sem cabeça. As pernas tinham sido pregadas juntas. Coberto pelos farrapos ensanguentados — os trapos de um pseudomontanhês — estava o cadáver do infeliz professor de Arroyo.

Havia sangue no chão de pedra. Sangue espirrado pelas paredes. A choupana, que estivera tão organizada e aconchegante quando Isham a visitara antes, agora parecia um abatedouro. Os tapetes de palha estavam salpicados com manchas vermelhas espessas. O chão exibia faixas e borrões vermelhos. O tampo da mesa velha e robusta, esvaziada dos objetos usuais, fora utilizada como lousa; e nesta lousa, em uma marca gigante de sangue, estava o familiar símbolo da vingança de Krosac: uma letra T maiúscula.

— — — Minha nossa murmurou Vaughn. É de revirar o estômago. Acho que eu esganaria aquele canibal com as minhas próprias mãos, com ou sem justificativa, se conseguisse pegá-lo.

— — — … Vou lá fora anunciou Isham com a voz rouca. Estou fraco.

Ele cambaleou pelo portal e se recostou contra a parede externa, passando mal.

O inspetor Vaughn piscou, estufou o peito e atravessou o cômodo. Desviou das poças de sangue endurecidas. Tocou no corpo; estava rígido. Gotículas de sangue escorriam da cabeça dos pregos nas palmas e nos pés.

Morto há umas quinze horas, pensou Vaughn, fechando a mão em punho. O rosto dele ficou branco ao encarar o cadáver crucificado. Com um buraco carmesim aberto onde a cabeça estivera, os braços rigidamente esticados, as pernas unidas, era uma paródia grotesca e insana do humor de um demônio… um T monstro e monstruoso composto de carne humana morta.

Vaughn sacudiu a cabeça para se livrar da vertigem e deu um passo para trás. Pensou que devia ter havido resistência, pois no chão perto da mesa havia vários objetos que contavam uma história tenebrosa. O primeiro era um machado pesado, o cabo e a lâmina pintados com sangue seco; obviamente a arma que decapitara Andreja Tvar. O segundo era uma espiral de atadura, como uma rosquinha bidimensional; tinha as bordas desfiadas e sujas e estava encharcada de um dos lados com um líquido vermelho amarronzado, já seco. O inspetor se abaixou e pegou a espiral com cuidado; ela se desmanchou quando Vaughn a ergueu e, para a sua ligeira surpresa, ele viu que ela fora cortada ao meio com um utensílio afiado. Uma tesoura, deduziu ele, e olhou ao redor. Sim, a alguns metros no chão, como se tivesse sido jogada ali em uma pressa desesperada, havia um par de tesouras pesadas.

Vaughn foi até a porta. Isham, mesmo que pálido e doentio, se recuperara em parte.

— — O que isto lhe parece? perguntou Vaughn, erguendo a atadura cortada. — Credo, você escolheu um belo lugar para passar mal, Isham!

O promotor de justiça franziu o nariz. Estava com uma aparência miserável.

— — — Curativo ao redor de um pulso respondeu, vacilante. E uma ferida feia, a julgar pelas manchas de sangue e iodo.

— — — Tem razão concordou Vaughn. Pela circunferência da espiral, deve ser um pulso. Não existe outra parte do corpo humano tão fina assim, nem mesmo o tornozelo. Temo que o sr. Krosac tenha um pequeno ferimento marcado no pulso!

— … Ou houve uma briga, ou ele se cortou enquanto mutilava o corpo — arriscou Isham com um arrepio. — Mas por que ele deixou a atadura para que a encontrássemos?

— Fácil. Veja como está ensanguentada. O corte deve ter sido no começo da briga, ou seja lá o que for. Então ele cortou o primeiro curativo e pôs um novo… Quanto a por que ele o deixou para trás; estava com uma pressa danada, Isham, para sair de perto desta choupana. E acho que nem está se arriscando de verdade. O simples fato de que deixou a atadura tende a mostrar que a ferida está em um lugar que pode ser mantido coberto. O punho da camisa provavelmente a esconde. Vamos voltar lá para dentro.

Isham engoliu em seco e seguiu com bravura o inspetor de volta para a choupana. Vaughn apontou para o machado e para as tesouras; então indicou uma grande garrafa opaca caída no chão perto do lugar onde encontrara a atadura, uma garrafa de vidro azul-escuro sem rótulo. Estava quase vazia; a maior parte do conteúdo manchou o chão de marrom onde caíra, e a rolha quicara até alguns metros de distância. Ali perto havia um rolo de atadura, parcialmente desenroscado.

— — — Iodo pronunciou Vaughn. Isso conta a história toda. Ele o pegou da prateleira de medicamentos ali em cima quando se cortou. Deixou a garrafa na mesa e mais tarde derrubou-a por acidente, ou só a jogou no chão… como se não desse a mínima. O vidro é grosso, não quebrou.

Eles foram até a parede onde o corpo estava pendurado; vários metros para o lado, em um canto, em cima do dispositivo similar a uma bacia e da alavanca da bomba, estava a prateleira que Isham notara na visita anterior à choupana. Exceto por dois espaços, a prateleira estava cheia; sobre ela havia um grande pacote azul de algodão, um tubo de pasta de dente, um rolo de adesivo, um rolo de atadura e um de gaze, uma garrafinha rotulada como iodo e uma garrafa industrializada rotulada como mercurocromo e vários frasquinhos e jarros; catárticos, aspirina, pomada de zinco, vaselina e coisas do tipo.

— — — Está bem óbvio disse o inspetor. Ele usou as coisas de Van. A atadura e a grande garrafa de iodo vieram da prateleira, e ele não se daria ao trabalho de devolvê-los ao lugar.

— — — Só um minuto falou Isham, franzindo a testa. Você está partindo do princípio de que foi Krosac quem se cortou. Imagina se tiver sido esse pobre coitado pendurado na parede. Não vê, Vaughn? Se não foi Krosac quem se feriu, mas Van, então estaríamos seguindo um rastro falso se procurássemos um homem com um corte no pulso, pensando que era de Krosac.

— — — Até que você não é tão burro! exclamou Vaughn. Não tinha pensado nisso. Ora! — Ele jogou os ombros fortes para trás. — Só há uma coisa a fazer… dar uma olhada no corpo. — Ele avançou em direção à parede com lábios cerrados.

— … — — … Ah. Veja bem gemeu Isham, se encolhendo. Eu eu acharia melhor não, Vaughn.

— — — Escute retrucou Vaughn com severidade , eu não gosto deste trabalho tanto quanto você. Mas é preciso ser feito. Vamos lá.

Dez minutos depois, o corpo sem cabeça estava no chão. Eles tinham extraído os pregos das palmas e dos pés. Vaughn cortara os trapos do cadáver, que estava nu e esbranquiçado, uma chacota da imagem de Deus. Isham se apoiou na parede com as mãos pressionadas contra o estômago. Foi o inspetor que, com dificuldade, escrutinou a carne exposta em busca de ferimentos; virou o troço horrendo e repetiu a análise no dorso.

— — — Não disse ele, se levantando , nenhuma ferida exceto os buracos dos pregos nas palmas e nos pés. O corte no pulso é de Krosac, sim.

— Vamos sair daqui, Vaughn. Por favor.

Eles retornaram para Arroyo em um silêncio pesado, respirando o ar fresco. No vilarejo, o inspetor Vaughn buscou um telefone e ligou para Weirton, a sede do condado. Falou com o promotor de justiça Crumit por cinco minutos. Então desligou e voltou a se juntar a Isham.

— — — Crumit vai ficar quieto anunciou, sério. Como ficou surpreso! Mas a informação não vai vazar, e é só isso que me interessa. Ele vai trazer o coronel Pickett para cá, e o magistrado. Falei a ele que tomamos algumas liberdades com o mais novo defunto do condado de Hancock. — Ele deu uma risadinha sem humor enquanto eles emergiam na rua principal de Arroyo e se apressavam em direção à minúscula garagem. — Segunda vez que eles precisarão realizar um inquérito sobre a morte de Andrew Van!

Isham não disse nada; continuava tomado por náusea. Eles contrataram um carro rápido e partiram — uma hora e meia depois de Ellery —, erguendo uma nuvem idêntica de poeira. Seguiram para o rio Ohio, a ponte e Steubenville.

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