O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 3 de 36

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O mistério da cruz egípcia

Parte um

 

A crucificação de um professor

 

“Um conhecimento prático da psiquiatria tem sido de ajuda inestimável na minha profissão de criminologista.”

— Jean Turcot

 

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1. NATAL EM ARROYO

 

Começou na Virgínia Ocidental, na junção de duas estradas a um quilômetro do pequeno vilarejo de Arroyo. Uma era a estrada principal de New Cumberland para Pughtown, a outra levava a Arroyo.

A geografia, Ellery Queen percebeu de imediato, era importante. Ele também viu muitas outras coisas ao primeiro olhar, e sentiu apenas confusão diante da natureza contraditória das provas. Nada se encaixava. Era necessário recuar e pensar.

Como Ellery Queen, um cosmopolita, acabou ao lado de um carro esportivo Duesenberg surrado no frio lamacento dessa tripinha da Virgínia Ocidental às duas horas post meridiem no fim de dezembro exige explicação. Tantos fatores confabularam para levar a esse extraordinário fenômeno! Um — o principal — foi uma viagem de trabalho disfarçada de férias fomentada pelo inspetor Queen, pai de Ellery. O velho estava afundado até o queixo no que poderia ser chamado de uma convenção de policiais; as coisas em Chicago, como sempre, estavam deploráveis, e o delegado convidara policiais proeminentes de cidades maiores para lamentar com ele a abominável falta de ordem no seu bailiado.

Foi enquanto o inspetor, com rara disposição, corria do seu hotel para a sede da Polícia de Chicago que Ellery, que o acompanhara, descobriu sobre o crime enigmático próximo a Arroyo; um crime que a United Press, com um toque de malícia, chamou de “O assassinato T”. Havia tantos elementos dos relatos jornalísticos que incitavam Ellery — o fato, por exemplo, de que Andrew Van fora decapitado e crucificado na manhã de Natal! —, que ele, de maneira decisiva, arrancou o pai das conferências enfumaçadas de Chicago e dirigiu o Duesenberg — uma relíquia de segunda mão que pode alcançar uma velocidade incrível — em direção ao leste.

O inspetor, apesar de ser um pai zeloso, imediatamente renunciou ao bom humor, como seria de esperar; e, por todo o caminho a partir de Chicago — passando por Toledo, Sandusky, Cleveland, Ravenna, Lisbon, uma série de cidades de Illinois e Ohio, até chegarem a Chester, Virgínia Ocidental —, manteve um silêncio ameaçador, pontuado pelos monólogos dissimulados de Ellery e pelo rugido do escapamento do carro.

Eles atravessaram Arroyo antes mesmo de perceberem que entraram; um lugarzinho minúsculo de uns duzentos habitantes. Então… o cruzamento.

A silhueta escura da placa com a barra transversal no topo ficou visível a certa distância, antes que o carro parasse. Pois a estrada de Arroyo terminava ali, ao encontrar a autoestrada que ligava New Cumberland e Pughtown em ângulos retos. A placa, portanto, ficava de frente para a saída da autoestrada de Arroyo, um braço estendido para nordeste em direção a Pughtown, o outro para sudoeste em direção a New Cumberland.

O inspetor resmungou:

— Vá em frente. Faça papel de bobo. Mas que baboseira tola! Arrastar-me até aqui… só por outro assassinato maluco… Eu não serei…

Ellery desligou o motor e saiu andando. A estrada estava deserta. As montanhas da Virgínia Ocidental assomavam à frente, tocando o céu cinza como aço. O chão de terra estava rachado e duro. Fazia um frio penetrante, e um vento mordaz soprava a barra do sobretudo de Ellery. E, à frente, estava a placa na qual Andrew Van, professor excêntrico de uma escola de Arroyo, fora crucificado.

A placa já fora branca um dia; agora estava de um cinza imundo, com manchas de lama incrustradas. Ela se erguia a 1,80 metro — o topo alinhado com a cabeça de Ellery —, e tinha braços robustos e longos. Lembrava perfeitamente uma letra T gigante, notou Ellery, ao parar a vários metros de distância. Agora ele entendia por que o homem da United Press batizara o crime de “O assassinato T”; primeiro essa placa em forma de T, então o cruzamento em forma de T onde a placa se encontrava, e finalmente o fantástico T pincelado em sangue na porta da casa do morto, pela qual o carro de Ellery passara, a algumas centenas de metros da junção das estradas.

Ellery suspirou e tirou o chapéu. Não era necessariamente um gesto de reverência; apesar do frio e do vento, ele perspirava. Secou a testa com um lenço e se perguntou que louco cometera aquele crime atroz, ilógico e muito intrigante. Até mesmo o corpo… Ele se lembrava com nitidez de um dos relatos jornalísticos da descoberta do cadáver, um artigo especial escrito por um repórter famoso de Chicago, muito hábil na descrição da violência:

 

“A história de Natal mais lamentável do ano foi revelada hoje

quando o corpo decapitado de Andrew Van, professor de 46

anos do pequeno vilarejo Arroyo, da Virgínia Ocidental, foi

encontrado crucificado na placa de um cruzamento deserto

próximo ao vilarejo, no início da manhã de Natal.

Pregos de metal de dez centímetros foram cravados nas

palmas da vítima, empalando-as às pontas dos braços da

placa desgastada pelo tempo. Dois outros pregos

transpassavam os tornozelos do morto, que estavam unidos

ao pé do poste. Mais dois foram fixados sob as axilas,

sustentando o peso do cadáver de forma que, com a cabeça

cortada, o corpo lembrasse uma letra T.

A placa formava um T. O cruzamento formava um T. Na

porta da casa de Van, não muito longe do cruzamento, o

assassino desenhara um T com o sangue da vítima. E, na

placa, o conceito maníaco de um T humano…

Por que no Natal? Por que o assassino arrastara a vítima

por noventa metros da casa até a placa e crucificara o corpo

ali? Qual é a importância dos Ts?

A polícia local está perplexa. Van era uma figura

excêntrica, mas tranquila e inofensiva. Não tinha inimigos;

nem amigos. A única pessoa próxima dele era uma alma

simples chamada Kling, que atuava como o seu empregado.

Kling está desaparecido, e dizem que o promotor de justiça

Crumit, do condado de Hancock, acredita, a partir de provas

omitidas, que Kling também possa ter sido vítima do louco

mais sanguinário nos anais do crime americano moderno…”

 

Havia muito mais nessa mesma linha, inclusive detalhes da vida bucólica do desafortunado professor de Arroyo, os escassos fragmentos de informação colhidos pela polícia sobre as últimas movimentações de Van e Kling, e as declarações pomposas do promotor de justiça.

Ellery tirou o pincenê, o poliu, colocou-o de volta, e deixou que o seu olhar aguçado varresse a relíquia horripilante.

Em ambos os braços, perto da extremidade da barra transversal, havia buracos irregulares na madeira, de onde a polícia arrancara os pregos. Os buracos estavam cingidos com uma mancha de cor marrom-avermelhada. Pequenos filetes desciam dos buracos, onde o sangue de Andrew Van escorrera das mãos mutiladas. Na barra vertical, onde os braços antes se projetavam, havia mais dois buracos sem bordas manchadas; os pregos arrancados deles haviam apoiado as axilas do cadáver. Toda a superfície restante da placa estava suja de manchas riscadas, esfregadas e escorridas de sangue seco, cuja fonte vinha do topo do poste, onde a ferida aberta na base do pescoço da vítima havia se apoiado. Perto da base central havia dois buracos separados por no máximo dez centímetros, também cingidos de sangue marrom; desses buracos, onde os tornozelos de Van haviam sido pregados à madeira, o sangue havia escorrido até a terra na qual a placa estava cravada.

Sério, Ellery caminhou de volta ao carro, onde o inspetor esperava com uma atitude familiar de desânimo e irritação, curvado contra o couro ao lado do assento do motorista. O velho estava coberto até o pescoço com um cachecol de lã antigo e o nariz adunco e vermelho se projetava como um sinal de perigo.

— — — Bem disse ele com rispidez , vamos logo. Estou congelando.

— — Nem um pouco curioso? perguntou Ellery, sentando-se no banco do motorista.

— Não!

— — Você não existe. Ellery deu a partida no carro.

Ele abriu um sorrisinho enquanto o carro lançava-se à frente como um galgo, se virava sobre duas rodas, dava um giro aos trancos e barrancos e disparava na direção em que viera, de volta a Arroyo.

O inspetor agarrou as bordas do assento em pavor mortal.

— — Que ideia bizarra gritou Ellery, acima do estrondo do motor. — Crucificação no dia do Natal!

— — Hã disse o inspetor.

— — — Eu acho berrou Ellery que vou gostar desse caso!

— — Dirija, maldição! gritou o velho, de repente. O carro se endireitou. — Você vai gostar de coisa nenhuma — adicionou com uma carranca. — Vai voltar para Nova York comigo.

Eles entraram em Arroyo em disparada.

— — Quer saber murmurou o inspetor, quando Ellery freou bruscamente diante da pequena estrutura de um prédio —, é uma vergonha a maneira como fazem as coisas por aqui. Deixar aquela placa na cena do crime! — Ele balançou a cabeça. — Aonde você vai agora? — perguntou ele, exigente, a cabecinha grisalha inclinada como a de um pássaro.

— — Achei que não estivesse interessado disse Ellery, saltando para a calçada. — Olá! — exclamou para um camponês encasacado de calça jeans azul que varria a calçada com uma vassoura esfarrapada. — — Aqui é a delegacia de Arroyo? O homem o encarou com uma expressão estúpida. — Que pergunta desnecessária. Ali está o letreiro para todos verem… Vamos lá, seu impostor.

 

Era uma construçãozinha tediosa, um punhado de prédios aglomerados. A estrutura diante da qual estacionara o Duesenberg parecia uma daquelas construções do Velho Oeste com fachadas falsas. O estabelecimento ao lado era uma loja de conveniência, com uma única bomba de gasolina decrépita na frente e uma pequena garagem adjacente. O prédio exibia um letreiro orgulhosamente escrito à mão: CÂMARA MUNICIPAL DE ARROYO.

Encontraram o cavalheiro que procuravam adormecido à sua mesa nos fundos do prédio, atrás de uma porta que o anunciava como POLICIAL. Ele era um camponês gordo, de rosto vermelho e dentes salientes e amarelos.

Quando o inspetor bufou, o policial ergueu as pálpebras pesadas. Ele coçou a cabeça e disse em uma voz grave e rouca:

— Se cês tão procurando Matt Hollis, ele saiu.

Ellery sorriu.

— Estamos procurando pelo policial Luden de Arroyo.

— Ah! Sou eu. O que cês querem?

— — — Policial disse Ellery em tom respeitoso , deixe-me apresentá-lo ao inspetor Richard Queen, chefe do Esquadrão de Homicídios do Departamento de Polícia de Nova York… em carne e osso.

— — — Ióque Quem? O policial Luden o encarou. Nova ?

— — — Sem tirar nem pôr disse Ellery, pisando no calo do pai. Agora, policial, nós queremos…

— — Sente-se falou o policial Luden, chutando uma cadeira na direção do inspetor, que fungou e se sentou com bastante delicadeza. — novaioquinos Essa história de Van, hein? Não sabia que os tavam interessados. O que tá apoquentando vocês?

Ellery pegou o estojo de cigarro e ofereceu-o ao policial, que grunhiu e mordeu um grande pedaço do tabaco.

— Conte-nos tudo sobre o caso, policial.

— Não tem nada pra contar. Tá cheio de gente de Chicago e Pittsburgh fuxicando pela cidade. Já tô meio de saco cheio.

O inspetor abriu um sorrisinho de escárnio.

— Não posso culpá-lo, policial.

Ellery tirou uma carteira do bolso da camisa, abriu-a e encarou, de maneira especulativa, os dólares no interior. Os olhos sonolentos do policial Luden se iluminaram.

— — — Ora disse ele, apressado , talvez eu num esteja tão de saco cheio assim. Posso contar mais uma vezinha.

— Quem encontrou o corpo?

— Véio Pete. Cês num conhecem. Tem uma cabana num canto lá das colinas.

— Sim, eu sei. Também não havia um fazendeiro envolvido?

— Mike Orkins. Tem uns dois acres lá na ponta de Pughtown. Parece que Orkins tava entrando em Arroyo no Ford dele… deixa eu vê, hoje é segunda… é, sexta de manhã, foi isso… manhã de Natal, bem cedinho. Véio Pete também tava vindo pra Arroyo… ele vive descendo da montanha. Orkins deu carona pra ele. Quando tiveram que virar pra Arroyo, lá tava o troço. Na placa. Pendurado, duro que nem um bicho no frigorífico… o corpo de Andrew Van.

— — Nós vimos a placa disse Ellery, encorajando-o.

— veio Acho que umas cem pessoas da cidade vê a placa nos últimos dias — resmungou o policial Luden. — Me deu um monte de problema de trânsito. Enfim, Orkins e o Véio Pete, eles ficaram bem assustados. Parece que os dois desmaiaram…

— — Humpf disse o inspetor.

— — Eles não tocaram no corpo, com certeza? perguntou Ellery.

O policial Luden balançou a cabeça grisalha, categórico.

— Que nada! Eles dirigiram pra Arroyo, como se fugindo do diabo, e me tiraram da cama.

— Que horas eram, policial?

O policial Luden corou.

— Oito horas, mas eu tive uma noite agitada na casa de Matt Hollis e meio que dormi demais…

— O senhor e o sr. Hollis, eu acho, foram imediatamente para o cruzamento?

— … … Aham. Matt ele é nosso prefeito, cês sabem Matt e eu, a gente chamou quatro garotos e dirigiu pra lá. Ele tava uma desgraça… Van. — O policial balançou a cabeça. — Nunca vi algo igual a vida todinha. E no Natal, ainda. É blasfêmia que chama. E Van ainda é ateu.

— — Hã? interrompeu o inspetor, depressa. O nariz vermelho despontando das dobras do cachecol como um dardo. — Ateu? Como assim?

— — Ah, talvez não bem ateu murmurou o policial, desconfortável. — Num sou muito de ir na igreja também, mas Van, ele nunca foi. O padre… bem, acho que é melhor eu num falar mais disso .

— — — Extraordinário disse Ellery, se virando para o pai. De fato extraordinário, pai. Decerto, parece o trabalho de um fanático religioso.

— — Aham, é o que tá todo mundo dizendo concordou o policial Luden. — Eu… eu num sei. Sou só um policial da roça. Não sei de nada, viu? Num tive mais do que um vagabundo na cela em três anos. Mas deixa eu contar, cavalheiros — disse ele com uma expressão sombria —, tem mais por trás disso do que só religião.

— — Ninguém do vilarejo, imagino afirmou Ellery, franzindo a testa —, é suspeito.

— sinhô Ninguém é tão doido, . Eu digo mesmo… é alguém do passado de Van.

— Houve estranhos no vilarejo recentemente?

— … Nem unzinho Então eu e Matt e os garotos, a gente identificou o corpo pelo tamanho, físico geral, roupa e documento e tal, e a gente tirou ele lá de cima. No caminho de volta pro vilarejo a gente parou na casa de Van…

— — — Sim disse Ellery, ansioso. E o que encontraram?

— — Um bagunça do diabo respondeu o policial Luden, mascando freneticamente o tabaco. — Sinais de luta horrível, todas as cadeira virada, sangue em quase tudo, aquele T grandão em sangue na porta da frente que os jornal não para de comentar, e o coitado do Kling desaparecido.

— — — Ah disse o inspetor. O criado. Só desaparecido, é? Levou as tralhas dele?

— … — Ó eu num sei direito respondeu o policial, coçando a cabeça. — O magistrado meio que assumiu as coisas. Sei que tão procurando Kling… e eu acho… — Ele fechou um olho devagar. — Acho que outra pessoa também. Mas num sei dizer — acrescentou, apressado.

— — Algum sinal de Kling até agora? perguntou Ellery.

— Não que eu saiba. Tão procurando. O corpo foi levado pra capital, Weirton… fica a uns vinte quilômetros, a comando do magistrado. Ele também fechou a casa de Van. A polícia estadual tá envolvida, e o promotor de justiça do condado de Hancock.

Ellery começou a devanear, e o inspetor se remexeu, desconfortável no assento. O policial Luden encarava o pincenê de Ellery com fascínio.

— — — E a cabeça foi cortada murmurou Ellery, enfim. Estranho. Por um machado, acredito?

— Aham, a gente achou o machado na casa. De Kling. Sem digital.

— E a cabeça em si?

O policial Luden balançou a cabeça.

— Nem sinal. Acho que o assassino doido só levou de lembrança. Rá!

— — Eu acho que é melhor irmos, pai disse Ellery, colocando o chapéu. — Obrigado, policial.

Ele ofereceu a mão, que o policial aceitou com um aperto frouxo. Um sorriso surgiu no seu rosto quando ele sentiu algo pressionado contra a palma. Ficou tão encantado que desistiu da sesta e os acompanhou até a rua.

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