O mistério da cruz egípcia

Ellery Queen · Capítulo 35 de 36

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O mistério da cruz egípcia

30. Ellery fala de novo

 

— — Estou perplexo. Estou absolutamente perplexo declarou o inspetor Vaughn. — Não consigo enfiar na cabeça como uma solução era possível a partir dos fatos. Estou perplexo, sr. Queen, e precisará me convencer de que não foi só adivinhação.

— — — Um Queen afirmou Ellery com severidade nunca adivinha.

Era quinta-feira, e eles estavam sentados no compartimento de estar de um trem da Twentieth Century Limited a caminho de Nova York. Yardley, Ellery, o inspetor Queen, Isham e Vaughn. Um grupo cansado, mas não infeliz. Os rostos transpareciam a tensão da experiência enervante pela qual haviam passado; todos exceto, é claro, pelo inspetor Queen, que parecia se divertir do seu modo introvertido.

— — Você não é o primeiro disse o mais velho para Vaughn com uma risadinha. — É sempre assim. Toda vez que ele soluciona um caso extraordinário alguém quer saber como o fez e diz que foi adivinhação. Droga, eu mesmo não sei como ele consegue na maioria das vezes, mesmo depois da explicação.

— — É um mistério para mim confessou Isham.

O professor Yardley parecia irritado com o desafio ao seu intelecto.

— — Não sou um indivíduo ignorante resmungou ele diante do sorrisinho de Ellery —, mas poderia ser enforcado tão alto quanto Haman antes ver como a lógica poderia ser aplicada a este caso. Tem sido um turbilhão de inconsistências e contradições do começo ao fim.

— — — Errado retrucou Ellery. Era um turbilhão de inconsistências e contradições do começo até o quarto assassinato. Naquele momento tudo ficou claro como cristal, toda a lama decantou. Veja bem — disse ele, franzindo a testa —, o tempo todo eu senti que, se conseguisse captar só uma pecinha minúscula e colocá-la na posição crítica, todas as outras, tão embaralhadas e ilógicas na aparência, tomariam um formato compreensível. Aquela peça foi fornecida na cabana da Virgínia Ocidental.

— — — Foi o que falou ontem à noite resmungou o professor. E ainda não consigo entender como…

— Claro que não. Você não investigou a choupana.

— — — Eu investiguei retrucou Vaughn com desdém , e se o senhor puder me mostrar o que solucionou o maldito caso…

— — Ah, um desafio. Como quiser. Ellery soprou fumaça para o teto baixo do compartimento. — Deixe-me voltar um pouco. Até o assassinato de Arroyo na noite de terça-feira, eu sabia pouco. O primeiro assassinato foi um completo mistério até o próprio Andrew Van aparecer. Ele disse na época que o criado Kling fora morto por engano, que um homem chamado Velja Krosac com motivações de sangue fora o assassino do tal Kling. Thomas Brad, irmão de Van, foi assassinado. Stephen Megara, irmão de Van, foi assassinado. Megara confirmara a história sobre Krosac, assim como os investigadores oficiais na Iugoslávia. Tudo parecia bem claro de maneira geral… um monomaníaco cujo cérebro fora apodrecido por uma vingança vitalícia não saciada estava à solta atrás dos assassinos do pai e dos tios. Quando descobrimos que os Tvar também haviam roubado a herança Krosac, um motivo adicional reforçou a teoria.

“Expliquei ao professor Yardley que havia duas conclusões definitivas a serem tiradas das circunstâncias que cercavam a morte de Brad. Uma era que o assassino de Brad era alguém próximo a ele; a outra era que o assassino de Brad não mancava. Correto, professor?”

Yardley fez que sim, e Ellery resumiu rapidamente o raciocínio baseado na disposição das peças de damas e nos outros fatos conhecidos por Vaughn e Isham.

— Mas essas conclusões não me levaram a lugar algum. Já havíamos presumido ambas as possibilidades sem raciocínio conclusivo. O fato de que eu as provei, portanto, foi de pouco valor. Então, até que eu encontrasse o corpo na choupana, a minha única explicação para os detalhes estranhos dos três primeiros assassinatos era a insanidade de Krosac e a obsessão dele por uma aversão peculiar a Ts; as cabeças decepadas, os Ts desenhados, a ênfase muito estranha ao T ao redor dos três crimes.

Ellery sorriu, relembrando, e encarou o cigarro com afeto.

— A parte surpreendente foi que, bem no começo da investigação… na verdade, há sete meses, quando vi o terrível primeiro cadáver no tribunal de Weirton… um pensamento me ocorreu, que, se eu houvesse o levado a cabo, poderia ter concluído o caso ali mesmo. Era uma explicação alternativa aos Ts espalhados. Foi só um pensamento fugaz, o resultado da minha experiência com a lógica. Mas pareceu uma possibilidade tão remota que eu a descartei; e continuei a descartá-la quando nada subsequente lhe forneceu qualquer base factual. Mas o pensamento continuou persistindo…

— — — Qual era? perguntou o professor com interesse. Lembra de quando discutimos a cruz egípcia…

— — — Ah, deixe isso para lá interrompeu Ellery. Vou logo chegar nessa parte. Primeiro, deixe-me repassar os detalhes do quarto assassinato.

Ele esboçou uma rápida descrição da cena com a qual se deparou quando cruzou a soleira da choupana barricada logo no dia anterior. Yardley e o inspetor Queen escutaram com as sobrancelhas franzidas, concentrados no problema; mas, quando Ellery terminou, eles se entreolharam sem expressão.

— — Um perfeito vácuo até onde eu sei confessou o professor.

— — Não conte comigo também disse o inspetor.

Vaughn e Isham olhavam para Ellery com desconfiança.

— — — Meu Deus exclamou Ellery, jogando a bituca pela janela , é tão nítido! Há uma história épica escrita dentro e ao redor daquela choupana, cavalheiros. Qual é aquele lema pendurado na sala de aula da Escola de Ciência Policial do Palais de Justice, pai? “O olho vê nas coisas apenas o que procura, e procura apenas o que já está na cabeça.” A nossa polícia americana deveria seguir esse lema ao pé da letra, inspetor Vaughn. As pegadas em frente à choupana. Os senhores as examinaram com cuidado?

Vaughn e Isham assentiram.

— Então devem ter visto de imediato o fato evidente de que só havia duas pessoas envolvidas naquele assassinato. Havia dois conjuntos de pegadas: um para dentro, outro para fora; pelo formato e tamanho das pegadas, ambos os conjuntos haviam sido feitos pelos mesmos sapatos. Era possível estabelecer aproximadamente a hora em que as pegadas foram feitas. A chuva parara em Arroyo por volta das onze horas da noite anterior. Fora uma chuva forte. Se as pegadas tivessem sido feitas antes da chuva parar elas teriam, na sua posição exposta, sido apagadas e obliteradas por completo. Então é certo que foram feitas às onze horas ou mais tarde. A condição do corpo crucificado à parede da choupana quando o vi me informou que a vítima estava morta havia umas catorze horas; em outras palavras, ela morrera por volta das onze horas da noite anterior. As pegadas… as únicas, por sinal… foram portanto feitas mais ou menos na hora do assassinato. — Ellery colocou outro cigarro na boca. — O que as pegadas revelavam? Que apenas uma pessoa entrara e saíra da choupana durante o período aproximado do assassinato. Só havia uma entrada ou saída: a porta; estando a única janela obstruída por arame farpado. — Ellery levou um fósforo ao cigarro e tragou, pensativo. — É elementar, então. Havia uma vítima e um assassino. Nós havíamos encontrado a vítima. Então eram as pegadas do assassino que estavam impressas na terra molhada diante da cabana. As pegadas mostravam um homem manco. Até aí, tudo bem.

“Agora, no chão de pedra havia diversos objetos muito esclarecedores. A prova número um era uma espiral de atadura ensanguentada e manchada de iodo que, pelo formato e circunferência, só poderia estar ao redor de um pulso. Próximo dela havia um rolo de atadura parcialmente usado.”

Isham e Vaughn assentiram outra vez, e o professor disse:

— Então é isso! Eu bem que me perguntei sobre o pulso.

— Prova número dois: uma grande garrafa de vidro azul de iodo, a rolha no chão a alguns metros. A garrafa era opaca e não tinha rótulo. Fui confrontado no mesmo instante por uma pergunta: ao redor de que pulso aquela atadura estivera? Havia duas pessoas envolvidas: vítima e assassino. Então ela veio de um ou do outro. Se a vítima usara o curativo, então um dos pulsos exibiria uma ferida. Eu os examinei: ambos incólumes. Conclusão: o assassino cortara um dos próprios pulsos. Por inferência, quando ele brandira o machado sobre o corpo da vítima ou talvez durante uma luta antes de a vítima ser morta.

“Se o assassino cortara o pulso, então fora ele quem usara o iodo e a atadura. O fato de que ele cortara a atadura mais tarde era irrelevante; a ferida deve ter sangrado profusamente, como a atadura indicava, e ele apenas trocou de curativo antes de sair da choupana. — — Ellery balançou o cigarro que fumava. Mas observe que fato significativo fora trazido à tona! Pois, se o assassino usou o iodo, o que nós temos? Deveria ser mamão com açúcar agora. Ainda não veem, nenhum de vocês?”

Eles se esforçaram bastante, pelas caretas, unhas roídas e expressões de profunda concentração; mas no final todos balançaram a cabeça em negativa.

Ellery se recostou.

— Acho que é uma dessas coisas. A mim parece extraordinariamente claro. Quais eram as duas características do frasco de iodo, peculiar ao frasco em si, deixado no chão pelo assassino? Primeiro: era de um vidro azul opaco. Segundo: não tinha rótulo. Então como o assassino sabia que ele continha iodo?

 

O queixo do professor Yardley caiu, e ele estapeou a testa de um jeito hilário que lembrava o promotor de justiça Sampson, aquele admirável procurador associado com Ellery e o inspetor Queen em tantos dos seus casos metropolitanos.

— — — Ah, como sou idiota! lamentou ele. É claro, é claro!

Vaughn fez uma expressão de imensa surpresa.

— — É simples para caramba disse ele com um tom admirado, como se não conseguisse entender como isso escapara à sua observação.

Ellery deu de ombros.

— Essas coisas em geral são. Você entende, portanto, a linha de raciocínio. O assassino não teria como saber que o conteúdo era iodo a partir da garrafa, visto que não possuía rótulo e a cor azul e a opacidade do vidro mascaravam a cor do líquido. Então ele só poderia descobrir o conteúdo de duas maneiras: ou por ser familiar com o frasco por experiência prévia, ou tirando a rolha e o investigando.

“Agora, os senhores se lembram de que havia dois espaços vazios na estante de medicamentos acima do pequeno lavatório caseiro do “ ” Velho Pete. Ficou aparente de imediato que aqueles dois espaços vazios haviam sido ocupados pelos dois objetos no chão, o frasco de iodo e o rolo de atadura, que normalmente ficam em uma estante de medicamentos. Em outras palavras, o assassino, após se machucar, foi impelido a recorrer à tal estante para obtê-los. — Ellery abriu um sorrisinho. — Mas que estranho! O que mais havia nela? Os senhores devem se lembrar de que, em meio a artigos diversos e inócuos, havia dois frascos que o assassino poderia ter pegado para usar no pulso: um de iodo e um de mercurocromo, ambos com rótulos visíveis? Por que, então, ele abriria o frasco sem rótulo, opaco, em busca de um antisséptico quando havia dois frascos de antisséptico claramente identificados em plena vista? Na verdade, não existe razão alguma; nenhum homem, desconhecedor da choupana, com tempo limitado, investigaria um frasco de conteúdo imprevisível quando o que ele queria estava bem diante dos olhos desde o começo.

“Então a primeira das minhas duas hipóteses precisa se aplicar: o assassino devia ser familiar à grande garrafa opaca não identificada, devia saber de antemão que ela continha iodo! Mas quem teria tal conhecimento? — Ellery suspirou. — E ali estava. A partir das circunstâncias e da própria história de Van sobre o isolamento do esconderijo, apenas uma pessoa poderia deter tal conhecimento: o dono da choupana.”

— — Eu lhe disse comentou o inspetor Queen, animado, ao estender a mão para a antiga caixa de rapé marrom.

— Nós demonstramos que só havia duas pessoas envolvidas, assassino e vítima, e que foi o assassino que cortou o pulso e usou o iodo. Portanto, se o dono da choupana, Andreja Tvar, pseudônimo Andrew Van, pseudônimo Velho Pete, era o único que poderia saber de antemão que a garrafa misteriosa continha iodo, então foi ele que cortou o pulso, e o pobre sujeito crucificado à parede não era Andrew Van, mas fora assassinado por ele.

Ellery fez silêncio. O inspetor Vaughn se remexia com inquietação, e o promotor de justiça Isham disse:

— Sim, mas e quanto aos assassinatos anteriores? O senhor disse ontem à noite, depois que prendemos Van, que a história toda estava clara para você do começo ao fim assim que investigou o último assassinato. Não entendo como, mesmo aceitando o argumento sobre Van ser o culpado do último crime, o senhor poderia provar de forma lógica que ele fora o assassino nos anteriores.

— — Meu querido Isham respondeu Ellery, erguendo as sobrancelhas —, certamente a partir daqui o caso fica óbvio, não? Apenas uma questão de análise e senso comum. Onde eu estava nesse ponto? Eu sabia, então, que o homem desaparecido, o homem que deixara as pegadas, o assassino, era o próprio Andrew Van. Mas não bastava que ele fosse o assassino. Eu conseguia visualizar uma situação na qual Van poderia ter assassinado um Krosac invasor, por exemplo, somente em autodefesa; nesse caso ele não poderia, sob circunstância alguma, ser considerado o assassino dos outros três. Mas um fato se destacava: Andrew Van matara alguém e deixara o corpo desse alguém na choupana vestido com os trapos do Velho Pete; ou seja, vestido como ele próprio. Então havia um ardil! Naquele momento eu soube que o problema seria relativamente simples. Quem fora assassinado nesta última execução?

“O corpo não era de Van, como já demonstrei. A possibilidade incongruente de que poderia ser de Brad eu considerei e descartei: o corpo de Brad fora identificado em definitivo pela viúva dele por meio do hemangioma na coxa. Por propósitos puramente lógicos, eu me perguntei na mesma linha se o último corpo era de Megara. Não, não poderia ser; o dr. Temple diagnosticara a enfermidade de Megara como um tipo específico de hérnia, e o dr. Rumsen encontrara no corpo pendurado no mastro de antena de Helene uma mácula idêntica. Então os corpos considerados de Brad e Megara eram de fato deles. Apenas duas outras figuras estavam envolvidas no caso, descartando a possibilidade de um total estranho: Velja Krosac e Kling, o criado de Van.”

Ellery parou para respirar, então continuou:

— Será que o corpo poderia ser de Krosac? Esta seria uma conclusão superficial. Ainda assim, se aquele fosse Krosac e Van o matara, Van teria um caso perfeito de autodefesa! Só o que ele precisaria fazer seria chamar a polícia, apontar para o corpo e, com o histórico do caso conhecido e aceito, seria liberado sem questionamentos. Do ponto de vista de Van, se ele fosse inocente, tal procedimento seria inevitável. O fato de que ele não fez isso prova que não podia. Por quê? Porque o corpo não era de Krosac!

“Se não era de Krosac, deve ter sido de Kling, a única possibilidade restante. Mas Kling supostamente fora morto no primeiro crime, aquele assassinato no cruzamento de Arroyo há sete meses! Ah, mas como sabíamos que o primeiro corpo era de Kling? Só pela história do próprio Van, e Van agora é um assassino comprovado, e ardiloso além do mais. Temos todo o direito de presumir que qualquer testemunho sem embasamento dado por Van está aberto a dúvida e de que, nas atuais circunstâncias, visto que os fatos apontam para essa possibilidade como a única restante, o último cadáver devia ser de Kling. — Ellery continuou depressa. — Veja como tudo se encaixa direitinho. Sendo o último corpo de Kling, onde estava Krosac? O corpo de Brad e Megara foram identificados nos seus respectivos assassinatos. Então a única pessoa que, seguindo a lógica, poderia ter sido exterminada em Arroyo há sete meses fora o próprio Krosac? O ‘demônio’ que foi procurado pela polícia por sete meses em 48 estados e três nações… Não é de se espantar que nenhum rastro dele tenha sido encontrado. Ele estava morto desde o começo.”

— — Inacreditavelmente fantástico! exclamou o professor.

— — Ah, dê ouvidos a ele. O inspetor Queen deu uma risadinha. — Ele é cheio de surpresas assim.

Um cabineiro apareceu com uma bandeja de bebidas geladas. Eles beberam em silêncio e olharam a paisagem em constante mudança pelas janelas. Quando o cabineiro saiu, Ellery continuou:

— Quem matou Krosac em Arroyo? Estabeleçamos logo a condição fundamental de que, seja lá quem cometeu aquele primeiro assassinato, sabia da história dos Tvar e a utilizou ao deixar aqueles símbolos T. Quem tinha conhecimento da história dos Tvar? Van, Megara, Brad e Krosac; pois tanto Van quanto Megara nos contaram que apenas os irmãos Tvar e Krosac conheciam essa história. Poderia Megara, então, ter assassinado Krosac em Arroyo e deixado os Ts? Não; Megara está excluído por motivos puramente geográficos; ele estava do outro lado do mundo. Brad? Impossível; a sra. Brad testemunhou na presença de pessoas que poderiam negar se não fosse verdade, que Brad tinha sido anfitrião do campeão nacional de damas na véspera de Natal e jogado com ele sem parar naquela noite. Krosac, a vítima, está de fora, é claro. Kling, a única outra possibilidade física? Não, pois além de ser ignorante do significado fatal do T, ele foi várias vezes caracterizado como um indivíduo de pouca inteligência, estúpido, que seria mentalmente incapaz de executar um crime tão intricado. Então Krosac deve ter sido assassinado por Van, o único fator restante que preenche todas as qualificações do assassino.

“E aí está. Van assassinara Krosac. Como, sob quais circunstâncias? A história se encaixa. Ele sabia que Krosac estava atrás dele e dos irmãos. De algum modo, descobriu onde Krosac estava; viajando com o velho lunático, Stryker. Ele próprio deve tê-lo atraído até Arroyo usando uma carta anônima como isca. Krosac, ao ver que o sonho de vingança estava de fato prestes a ser concretizado, mordeu a isca, sem questionar a origem da informação na sua avidez, e guiou os movimentos do seu fantoche, Stryker, de forma que a caravana viesse ao vilarejo de Arroyo. Então Krosac… o próprio Krosac, pela primeira e única vez que de fato apareceu no caso como participante ativo… contratou um carro com Croker, o garagista de Weirton, para levá-lo até o cruzamento. Krosac não carregava uma maleta, lembrem, naquele momento; algo significativo quando consideramos que o assassino de fato carregava uma nos crimes subsequentes. Por que Krosac não estava com ela daquela primeira vez; aquela única vez, para ele? Porque não tinha qualquer intenção de fazer picadinho da vítima; ele era provavelmente um vingador são, apesar de determinado, que se satisfaria com a mera morte, não a carnificina, dos seus inimigos. Se o plano de Krosac tivesse sido bem-sucedido, nós teríamos encontrado o corpo do professor de Arroyo, sem qualquer mutilação, provavelmente morto a tiros.

“Mas Van, o instigador da cadeia de eventos, estava à espera do vingador desavisado e o matou. Já tendo amarrado e escondido o corpo vivo do infeliz Kling, Van vestiu Krosac com as próprias roupas, então decapitou o cadáver e tudo o mais.

“É evidente que foi uma trama de Van, ou Andreja Tvar, desde o início. Um crime com anos de preparação. Ele planejara a série de assassinatos de tal forma que eles parecessem a vingança de um homem, Krosac, que poderia muito bem ter enlouquecido depois de anos de ruminação do passado. Ele escondeu Kling com o único propósito de usar o corpo no fim para parecer o dele próprio. Então a trama fez parecer que Krosac, depois de matar um homem inocente a princípio, assassinou dois dos irmãos Tvar e, por fim, o terceiro; uma correção do que parecia ter sido um erro cometido sete meses antes. Quanto a Van, esse último assassinato enganoso passou a impressão de que ele também fora vítima da vingança do monomaníaco; enquanto ele próprio na verdade fugiu com as suas economias e a bela soma que, com habilidade, conseguira arrancar do irmão Stephen. Enquanto isso, a polícia procuraria eternamente pelo fantasmagórico e há muito morto Krosac… O engodo com os corpos foi criado sem dificuldade; lembrem que o próprio Van contratara Kling no orfanato de Pittsburgh, e portanto pôde selecionar um criado cuja aparência física fosse similar à própria. Quanto ao primeiro engodo, fazer o corpo de Krosac parecer o dele próprio… foi provavelmente a similaridade física entre eles, uma similaridade que ele descobriu logo que localizou o montenegrino, antes de mandar a carta anônima, que ajudou a inspirar a trama inteira.”

— — Você disse algo antes comentou o inspetor, depois de refletir, ao se abaixar mais uma vez sobre a caixa de rapé —, sobre como estava no caminho certo no começo, mas se desviou dele. O que quis dizer?

— — — E não só no começo disse Ellery com pesar. O pensamento não parava de voltar por toda a investigação, e eu não parava de dispensá-lo. Não era exclusivo o suficiente… Pois, veja. Mesmo no primeiríssimo assassinato, um detalhe se destacou: a cabeça do cadáver fora decepada e levada embora. Por quê? Não parecia haver resposta exceto a obsessão do assassino. Mais tarde descobrimos a história dos Tvar e o significado superficial dos Ts como símbolo da vingança de Krosac. Então, é claro, dissemos que as cabeças foram cortadas fora para dar aos corpos a aparência física de um T maiúsculo. Mas aquela velha dúvida…

“Pois, no fim das contas, havia uma explicação alternativa para a decapitação das cabeças; uma teoria notável. De que o corpo foi preparado para lembrar um T, de que o T nos outros elementos… o cruzamento, a placa e o T rabiscado no primeiro crime; o totem no segundo; o mastro de antena no terceiro (o T rabiscado continuou reaparecendo, é claro, no quarto crime também)… De que todos esses Ts aglomerados haviam sido deixados pelas cenas dos crimes com um único propósito: para encobrir o fato de que as cabeças tinham sido cortadas. Pelo desconhecimento de outras formas de identificação, a cabeça, ou rosto, é a forma mais fácil de identificar um cadáver. Então, falei para mim mesmo, é logicamente possível que esses sejam crimes não de um monomaníaco com uma obsessão por Ts, mas de um conspirador perfeitamente lúcido (apesar de desequilibrado) que cortou fora as cabeças com o propósito de falsificar a identificação . Parecia haver uma confirmação disso: nenhuma das cabeças foi encontrada. Por que o assassino não as deixou nas cenas dos crimes ou por perto, livrando-se delas assim que possível? O que seria o impulso natural de um assassino, insano ou não. Os corpos ainda formariam um T, ainda satisfazendo o complexo pela letra. Mas as cabeças estavam desaparecidas. Parecia possível para mim que tudo não estivesse exatamente como deveria estar; no entanto, porque tratava-se apenas de uma teoria e porque todos os outros fatos apontavam de modo tão certeiro para um vingador enlouquecido como o assassino, eu insistia em descartar o que era, na realidade, a verdade.

“Mas quando, na investigação do quarto assassinato, eu descobri que Andreja Tvar era o deus ex machina, todo o motivo ficou óbvio. No primeiro assassinato, a morte de Krosac, ele foi forçado a decapitar Krosac para impedir a identificação do corpo e permitir uma aceitação da ideia inicial de que o corpo era de Van, e a ideia subsequente de que o mesmo corpo era de Kling. Ainda assim, a mera decapitação do corpo teria levantado suspeita e desastre; qualquer investigador teria encontrado o caminho certo. Então Van fabricara o conceito brilhante e objetivamente irracional de Ts concebidos por um maníaco: os mais diversos formatos em T, sem qualquer inter-relação possível. Isso confundiu tanto a questão principal que ele teve certeza de que ninguém compreenderia o real significado das cabeças desaparecidas; que era, claro, permitir identificações falsas do primeiro e do último corpo.

“Depois de iniciada, é claro, ele foi forçado a continuar com a fantasia dos macabros Ts. Ele teve que cortar as cabeças de Brad e Megara para dar continuidade à interpretação da aversão de Krosac. No último assassinato, é claro, a decapitação serviu um propósito genuíno de novo. Foi uma trama esperta para caramba, tanto psicologicamente quanto na execução.”

— — Sobre o último assassinato disse Isham, engolindo em seco. — … Hã foi só a minha imaginação, ou o conjunto de pegadas que levava ao interior da choupana era mais profundo do que o conjunto que levava para fora?

— — — Excelente, sr. Isham! exclamou Ellery. Fico feliz que tenha trazido isso à tona; um bom ponto. Serviu como uma confirmação primordial de toda a recapitulação do caso. Eu notei, como o senhor disse, que as pegadas do assassino se aproximando da cabana eram mais profundas do que as que se afastavam dela. Explicação? Um silogismo bem simples de lógica. Por que pegadas de uma mesma pessoa no mesmo terreno seriam mais pesadas em um caso do que no outro? Porque em um deles, o assassino estava carregando algo pesado; no outro, não… É o único argumento que explica a estranha diferença de peso do mesmo indivíduo em um período aproximado. Isso se encaixava de forma admirável. Eu sabia que o último corpo encontrado era de Kling. Onde Van o escondera? Não na choupana; então deve ter sido em algum lugar das redondezas. O policial Luden uma vez disse que as colinas da Virgínia Ocidental são crivadas de cavernas naturais; o próprio Van em um ponto disse que encontrara a choupana abandonada durante uma pequena expedição de exploração de cavernas! (É provável que já com essa exata ideia em mente!) Então Van foi até a caverna onde mantivera Kling prisioneiro por longos meses, o pegou e o carregou para o interior da choupana. A chuva deve ter parado depois que Van saiu da choupana para buscar Kling, mas antes de ele retornar carregando-o; ela apagou as pegadas de partida, mas manteve as de retorno. Então as pegadas profundas foram feitas quando ele carregou Kling para dentro da cabana; e as mais superficiais quando saiu de lá depois do assassinato, pela última vez.

— andar Por que ele não fez Kling para o interior da choupana? — perguntou Isham.

— Obviamente porque pretendia, desde o começo, deixar um rastro para um homem manco, Krosac. Ao carregar Kling e mancar, ele alcançou os dois objetivos: levar a vítima para dentro da casa e passar a impressão de que um homem, Krosac, entrara. Ao sair mancando ele cimentou a ilusão da fuga. Só cometeu um erro: esqueceu que, com o peso extra, as impressões na terra macia ficariam mais profundas.

— — Não consigo enfiar na minha cabeça dura murmurou o professor. — O homem deve ter sido… deve ser… um gênio. Perverso e tudo o mais; mas aquela trama dele exigiu um cérebro brilhante.

— — — Por que não? perguntou Ellery com um humor áspero. Um homem instruído, com anos de planejamento. Mas brilhante mesmo assim. Por exemplo, Van enfrentou um problema por todo o processo: ele tinha que organizar as coisas de modo que sempre houvesse um motivo legítimo para Krosac ter feito exatamente as mesmas coisas que ele próprio, Van, teve que fazer. Aquela história com o cachimbo, por exemplo, e o tapete virado com a mancha de sangue, e ter, de forma deliberada deixado o bilhete de Brad. Eu já relatei a você os motivos de Krosac para querer atrasar a descoberta da verdadeira cena do crime; que só deveria ser descoberta quando Megara entrasse em cena, de forma que o irmão pudesse aparentemente guiar Krosac até Van, que, pelo bilhete, o suposto assassino teria descoberto que ainda estava vivo.

“Mas Van, apesar de nos ter fornecido esse engenhoso motivo de Krosac, como o verdadeiro culpado tinha motivos ainda melhores para causar a demora. Se a polícia investigasse a biblioteca de cara, encontraria o bilhete de Brad, sem dúvidas sugerido pelo próprio Van, bem antes do retorno de Megara. Eles descobririam de imediato, então, que ele ainda estava vivo. Se qualquer deslize nas atividades de Van fizesse a polícia desconfiar de que o Velho Pete era Van, então a posição dele se tornaria precária. Imagine que Megara nunca voltasse, morresse no mar em algum canto. Então não sobraria alguém para confirmar à polícia que o Velho Pete, ou Van, era na verdade irmão de Brad e Megara. Ao causar o atraso ele garantiu uma confirmação da fraternidade precisamente no momento em que Megara retornou. Sem confirmação, ele poderia ser posto sob suspeita; com Megara para corroborar todas as declarações, parecia um homem inocente.

“Mas por que ele iria querer reaparecer na cena? Ah, mas aqui nós vemos o verdadeiro fim alcançado pelo complicado esquema do atraso até o retorno de Megara. Ao orquestrar de antemão que Brad deixasse o bilhete que instituía toda a cadeia de acontecimentos que culminava no retorno de Andrew Van à cena como um irmão confirmado dos Tvar, ele assegurou a herança. Com isso eu quero dizer: Van poderia ter feito a polícia acreditar que ele fora mesmo assassinado no primeiro crime, e poderia ter permanecido legalmente morto depois disso, enquanto dava continuidade à trama de matar os irmãos a partir da obscuridade do disfarce de Krosac. Mas se tivesse permanecido legalmente morto, como receberia o dinheiro que Brad lhe deixara por herança? Então ele precisava voltar… vivo. E em um momento em que Megara pudesse confirmar o fato de que Van era um dos irmãos. Desse modo, recebeu os cinco mil dólares que lhe eram devidos com perfeita segurança. Além disso, o acanhamento dele foi louvável. Lembram que Megara, comovido com o apuro do irmão “assustado” e a própria consciência, chegou a oferecer a Van um adicional de cinco mil… e Van recusou? Ele só queria o que lhe era devido, foi o que disse… Sim, um patife esperto. Ele sabia que aquela recusa cimentaria a ilusão do personagem eremítico que construíra com tanto cuidado.

“E, finalmente, por meio do bilhete e da história que contou no retorno à cena, ele preparou a polícia para uma aceitação do próprio segundo assassinato, já que agora eles sabiam que havia um vingador na cola dos irmãos Tvar e haviam descoberto que ele cometera um erro no primeiro assassinato. Diabólico, de fato.”

— — Complexo demais para mim disse Vaughn, balançando a cabeça.

— — É com isso que eu venho lidando desde que me tornei pai

murmurou o inspetor Queen. Ele suspirou e olhou alegremente pela janela.

Mas o professor Yardley não tinha a paternidade para alimentar o ego, e não parecia nem remotamente feliz. Ele puxava a barba curta com dedos distraídos, porém poderosos.

— — — Mesmo considerando tudo isso disse ele , eu tenho vasta experiência em enigmas… décadas de experiência, confesso… então outro exemplo da genialidade humana não me impressiona muito. Mas uma coisa, sim. Você disse que Andreja Tvar, irmão de sangue de Stefan e Tomislav Tvar, associado à mesma família e iniquidades pessoais, planejou por anos o extermínio desses mesmos irmãos. Por quê? Em nome de Deus, por quê?

— — — Entendo o que o perturba falou Ellery, pensativo. É a natureza terrível dos crimes. Além do motivo, existe uma explicação para isso. Pode admitir duas coisas? Para que o plano todo fosse bem-sucedido, era necessário que Andreja Tvar fizesse várias coisas desagradáveis: cortar cabeças de pessoas (incluindo a dos irmãos), pregar mãos e pés mortos a cruzes improvisadas, derramar uma quantidade incomum de sangue… E segundo, que Andreja Tvar seja louco. Ele deve ser. Se era são quando concebeu esse plano grotesco, estava insano quando começou a executá-lo. Então a coisa toda se esclarece: um louco derrama oceanos do icor divino, em parte oriunda dos corpos dos próprios irmãos. — Ellery encarou Yardley. — Onde exatamente está a diferença? Você estava pronto para aceitar Krosac como um louco; por que não Van? A única distinção é tênue: mutilar estranhos ou mutilar irmãos. Mas é certo que mesmo o seu conhecimento amador de crimes inclui as histórias sórdidas de maridos incinerando esposas, de irmãs picando irmãs em pedacinhos ensanguentados, de filhos martelando o cérebro das mães, de incesto e degeneração e todo tipo de crime intrafamiliar. É difícil para um ser humano normal começar a entender; mas se perguntar ao meu pai, ou ao inspetor Vaughn… escutará as verdadeiras histórias de atrocidades que fariam essa sua barba se encrespar de horror.

— — — Verdade concordou Yardley , consigo entender tais coisas até com o pressuposto de sadismo reprimido. Mas o motivo, meu garoto, o motivo? Como você poderia saber o motivo de Van se até o quarto crime considerava Velja Krosac o culpado?

— — — A resposta a isso respondeu Ellery com um sorriso é que eu não sabia o motivo de Van e que continuo sem saber neste minuto. Na verdade, que diferença faz? O motivo de um louco pode ser tão evanescente quanto o ar, tão difícil de cristalizar quanto o de um pervertido. Quando digo louco, é claro, não necessariamente quero dizer um maníaco delirante. Van, como você mesmo viu, parece estar em plena posse da sua sanidade. A loucura dele é uma peculiaridade, uma distorção no cérebro; ele é são em todos os outros aspectos. O meu pai ou o inspetor Vaughn podem lhe contar dúzias de casos em que assassinos parecem ser tão sãos quanto eu ou você, mas na verdade são os psicopatas mais cruéis.

— — Eu posso lhe dizer o motivo falou o inspetor Queen, suspirando. — Uma pena que você não estava presente ontem à noite, filho, e nem o senhor, professor, enquanto o delegado e Vaughn o pressionavam. O interrogatório mais interessante que já presenciei. Ele quase teve um ataque epiléptico, mas finalmente se acalmou e contou tudo; entre xingamentos contra os irmãos.

— — — Cuja cabeças, por sinal comentou Isham , ele disse ter afundado no estuário com pesos. As outras ele enterrou nas colinas.

— … … — O motivo contra o irmão Tomis Tomis Tom continuou o inspetor Queen — era o de sempre: uma mulher. Parece que no antigo país Van amava uma garota, mas Tom a roubou dele… a velha história de sempre. Essa foi a primeira esposa de Brad, que, segundo Van, morreu em consequência dos maus-tratos do irmão. Se isso é verdade ou não, é provável que nunca chegaremos a saber; mas é o que ele diz.

— — — E contra Megara? perguntou Ellery. Ele parecia um tipo de camarada decente, mesmo que melancólico.

— — Bem, é um pouco nebuloso respondeu Vaughn, franzindo a testa para a ponta do cigarro que fumava. — Parece que Van era o mais novo dos três irmãos, e dessa forma não tinha direito a nenhuma parte da propriedade do velho Tvar. Parece que os irmãos o tiraram da partilha ou algo assim. Megara era o mais velho e controlava o antigo erário. E depois eles não deram um centavo do dinheiro que roubaram dos Krosac a Van; lhe disseram que ele era jovem demais ou algo assim. E como ele deu o troco! — Vaughn abriu um sorrisinho sardônico. — Ele não podia abrir o bico, é claro, porque estava planejando tudo. Mas isso explica por que, quando os três irmãos vieram para este país, Van se separou dos outros dois e ficou na dele. Brad deve ter sentido algum peso na consciência, porque deixou aqueles cinco mil para Van. Ajudou à beça!

Todos ficaram em silêncio por um longo momento. O trem Twentieth Century ribombava pelo estado de Nova York.

Mas o professor Yardley estava irredutível. Ele se recusava a renunciar à perplexidade. Tragou o cachimbo por vários minutos, remoendo algum pensamento. Então disse a Ellery:

— Diga-me, ó Onisciência. Você acredita em coincidências?

Ellery relaxou e soprou anéis de fumaça.

— … O professor está com problemas Não, não acredito. Não em assassinatos, meu velho chapa.

— — Então como explica o fato atormentador perguntou Yardley em tom exigente, balançando o cachimbo — de que o amigo Stryker (Outro lunático, céus! Aí mesmo há uma coincidência!) apareceu tanto na cena do crime de Arroyo quanto na dos crimes subsequentes, tão distantes? Pois, já que Van é o culpado, o pobre e velho Ra-Harakht, filho do sol, deve ser inocente… A presença dele no segundo assassinato não é uma coincidência espantosa?

— Você é uma companhia valiosa, professor. Fico feliz por ter trazido isso à tona — disse Ellery energeticamente, sentando-se ereto. — É claro que não foi coincidência, como expliquei por inferência no dia da nossa primeira conversa no selamlik (como eu amo esta palavra!) do seu amigo. Não enxerga as deduções lógicas a partir dos fatos? Krosac não era um mito, era real. Ele descobriu que um dos irmãos Tvar estava em Arroyo, Virgínia Ocidental; não é de se imaginar, portanto, que a mesma carta “anônima” que Van escreveu também informasse onde os outros Tvar estavam? Brad em Long Island, Megara morando com Brad. Não podia haver tropeços na trama de Van; ele sabia que Krosac viajava com Stryker para Illinois, ou até mais para o oeste, e que, como ele precisava passar pela Virgínia Ocidental a caminho do leste, atacaria o professor primeiro.

“Muito bem. Precisamos acreditar que Krosac também não é nenhum tolo. Ele matara primeiro o Tvar que se autodenominava Andrew Van e depois os Tvar que se autodenominavam Brad e Megara. Ele sabe também que o assassino do pobre “desavisado” professor Van provocará um rebuliço, e será necessário que ele se esconda. Conclusão: por que não se esconder nos arredores da residência das suas segunda e terceira vítimas? Então ele procura nos jornais de Nova York, encontra o anúncio do velho Ketcham para o aluguel da ilha Oyster, convence o pobre Stryker a ir para lá e começar um culto ao sol, aluga a ilha por correio com bastante antecedência… Entende o que acontece? O próprio Krosac é assassinado. Stryker, le pauvre innocent, alheio a qualquer nuance, se junta ao também inocente Romaine, lhe mostra o aluguel da ilha Oyster, e lá vão eles. O que explica a presença dos adoradores do sol e dos nudistas na ilha Oyster.”

— — — Por Deus! exclamou o inspetor. Van não poderia ter organizado melhor as coisas se quisesse Stryker como suspeito!

— … — — E isso me lembra disse o professor, refletindo. Aquela história egípcia, Queen. Você não insinua que houvesse algum plano pré-concebido na mente de Van para ligar a egiptologia do velho Stryker aos assassinatos?

— — — Graças a você respondeu Ellery com um sorrisinho , não insinuo nada do tipo. Pensando melhor, fiz papel de idiota com aquela minha peroração sobre a “cruz egípcia”, não fiz, professor? — Ele se empertigou de repente e estapeou a coxa. — Pai, um pensamento perfeitamente cataclísmico!

— — Escute retrucou o inspetor com rispidez, o bom humor abandonando-o —, agora que eu estou pensando melhor, você deve ter gastado metade da conta bancária dos Queen fretando aviões e tudo o mais naquela sua perseguição louca e confusa, para cima, para baixo e ao redor do país. Eu preciso bancar essa conta?

Ellery deu uma risadinha.

— Deixe-me aplicar lógica ao problema. Tenho um de três caminhos para seguir. O primeiro é cobrar as minhas despesas do condado de Nassau. — Ele olhou para o promotor de justiça Isham, que se sobressaltou, começou a falar e enfim se recostou com um sorrisinho desconfortável e um tanto tolo no rosto severo. — Não, vejo que isso é, no mínimo, impraticável. O segundo: bancar o prejuízo por conta própria. — Ele balançou a cabeça e franziu os lábios. — Não, é filantrópico demais… Eu lhe disse que tive um pensamento cataclísmico.

— — — Ora resmungou o inspetor Vaughn , se não pode colocar na conta de outro e não vai bancar por conta própria, sei lá como diabos…

— — — Meu caro inspetor disse Ellery , eu escreverei um livro sobre o caso, o intitularei como uma recordação da minha erudição às vezes impulsiva, O mistério da cruz egípcia, e deixarei que os leitores paguem a conta!

Si finis bonus est,

Totum bonum erit.

— Gesta Romanorum

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