O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 7 de 29

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O Presente

Um acordo

 

Quando a reunião com o Sr. Brennan sobre as lesm as — por sorte, não eram raras, m as m esm o assim eram um problem a — no canteiro de obras do condado de Cork estava chegando ao fim , Alison apareceu na porta dem onstrando ansiedade e a pilha de roupas, que deveria entregar a Gabe, nos braços.

— Desculpe, Barry, vam os precisar term inar agora — apressou-se Lou. — Tenho de correr. Preciso ir a dois outros lugares do outro lado da cidade, e você sabe com o é o trânsito.

E, sim plesm ente assim , com um sorriso de porcelana e um aperto de m ão firm e, o Sr. Brennan estava de volta ao elevador a cam inho do térreo, com seu casaco de inverno num dos braços e a papelada enfiada de qualquer j eito na m aleta que segurava no outro braço. Mesm o com essas atitudes, tinha achado a reunião agradável.

— Ele recusou? — perguntou Lou a Alison.

— Quem ?

— Gabe? Ele não aceitou o em prego?

— Não havia ninguém lá — disse ela, parecendo confusa. — Fiquei na recepção cham ando o nom e dele sem parar... m eu Deus, que vergonha! E ninguém veio. Por acaso isso é um a piada, Lou? Não acredito que eu caí em outra das suas brincadeiras! Não bastava ter m e m andado levar a florista rom ena ao escritório de Alfred?

— Não é piada. — Ele a pegou pelo braço e a arrastou até a j anela.

— Mas não havia nenhum hom em ali — ela disse, exasperada.

Ele olhou pela j anela e viu que Gabe ainda estava sentado no m esm o lugar, no chão. Um a chuva leve estava com eçando a cair e respingava no vidro; rapidam ente os pingos com eçaram a se transform ar em granizo. Gabe se encolheu ainda m ais contra o vão da porta, trazendo os pés para bem perto do peito, longe do chão m olhado. Ele ergueu o capuz do casaco por cim a da cabeça e puxou os cordões com força. Do alto do décim o terceiro andar, aqueles cordões pareciam presos ao coração de Lou.

— Aquilo ali não é um hom em ? — ele perguntou, apontando pela j anela.

Alison apertou os olhos e aproxim ou o nariz do vidro.

— Sim , m as...

Ele arrancou as roupas dos braços dela.

— Eu m esm o vou cuidar disso.

 

Assim que Lou passou pelas portas giratórias do saguão, sentiu o ar gelado fustigar seu rosto. Seu fôlego foi m om entaneam ente arrancado por um a forte lufada de vento, e a chuva lhe deu a sensação de que sua pele estava sendo atingida por cubos de gelo. Gabe estava concentrado intensam ente nos sapatos que passavam por ele, com a m ente focada em algum a outra coisa, sem dúvida para tentar ignorar a chuva que castigava tudo ao seu redor. Em sua m ente, ele estava em algum outro lugar, qualquer outro lugar. Num a praia onde o clim a estivesse quente, onde a areia fosse com o o veludo e o rio Liffey, à sua frente, fosse o m ar que se estendia até o horizonte. Enquanto estava nesse outro m undo, sentia um a espécie de êxtase que um hom em na posição dele não deveria sentir. Seu rosto, entretanto, não refletia isso. A expressão de contentam ento desaparecera. Seus olhos azuis estavam m ais frios agora do que no início da m anhã e seguiam a traj etória dos sapatos de Lou, da porta giratória até a ponta do seu cobertor.

Enquanto Gabe observava os sapatos, im aginava que aqueles eram os pés do hom em que trabalhava na praia onde ele estava relaxando. O hom em se aproxim ava dele com um coquetel equilibrado no centro de um a bandej a, a bandej a erguida e exibida com o as hastes de um candelabro. Gabe pedira sua bebida há algum tem po, m as não se im portava com o pequeno atraso. O dia estava m ais quente do que o habitual, a areia estava lotada de corpos resplandecentes cheirando a óleo de coco, e por isso ele perdoava aquele deslize. O ar abafado deixava todos um pouco letárgicos. Os pés calçando chinelos que se aproxim avam dele afundavam , espalhando grãos de areia a cada passo. À m edida que os pés se aproxim avam , os grãos de areia se transform aram em respingos de chuva, e os chinelos se transform aram num par de sapatos brilhantes m uito fam iliares. Gabe ergueu os olhos, esperando ver um coquetel m ulticolorido cheio de frutas e guarda-chuvas em m iniatura. Em vez disso, viu Lou com um a pilha de roupas nos braços e precisou de um m om ento para se aj ustar de novo ao frio, ao barulho do trânsito e ao corre-corre que tom ou o lugar do seu paraíso tropical.

A aparência de Lou tam bém estava diferente da que exibira no início da m anhã. Seu cabelo perdera o brilho ao estilo de Cary Grant; o topete cuidadosam ente penteado e os om bros do paletó pareciam cobertos de caspa à m edida que os pequenos flocos de neve cobriam seu terno caro e dem oravam a derreter. Depois de derretidos, os flocos deixavam m anchas escuras no tecido. Lou estava estranham ente desgrenhado e seus om bros, geralm ente relaxados, pareciam contraídos e erguidos num a tentativa de proteger as orelhas do frio. Seu corpo trem ia e ele não estava usando o sobretudo de casim ira. Parecia um a ovelha que acabara de ser tosada: nua e com os j oelhos à m ostra.

— Quer um em prego? — perguntou Lou, confiante, m as a frase soou baixa e subm issa, pois m etade do som foi levada pelo vento, acabando por se dirigir a um estranho que estava m ais adiante na calçada.

Gabe sorriu.

— Tem certeza?

Confuso com aquela reação, Lou fez que sim com a cabeça. Não que quisesse beij os e abraços de gratidão, m as parecia que Gabe j á esperava por aquela oferta. Lou não gostou disso. Talvez quisesse que ele saísse dançando e cantarolando, com “ohhhs” e “ahhhs”, ou que pelo m enos dissesse “m uito obrigado” e fizesse um a declaração de que lhe devia um a. Não recebeu nada disso de Gabe. O que recebeu foi um sorriso discreto e, depois que Gabe tirou o cobertor de cim a do corpo e se levantou, um aperto de m ão firm e e quente, apesar da tem peratura gelada do dia. Sem que Lou dissesse qualquer outra palavra, sentiu que estava fechando um acordo com Gabe, m as não se lem brava de ter negociado nada.

Frente a frente, exatam ente com a m esm a altura, os olhos azuis de am bos se encarando. Os olhos de Gabe sob o capuz do blusão, que estava puxado para a frente, cobrindo-lhe as sobrancelhas e dando-lhe a aparência de um m onge, penetravam os de Lou com tanta intensidade que Lou piscou e desviou o olhar. Ao m esm o tem po em que seus olhos piscaram , um a dúvida tom ou conta de Lou, agora que a sim ples ideia de fazer um a boa ação estava se transform ando em realidade: quem era aquele hom em ? A dúvida chegou com o um hóspede teim oso que tenta conseguir um quarto num hotel para o qual não fez reserva. Lou ficou ali parado, confuso; não sabia nada sobre Gabe. Queria fazer várias perguntas, m uitas que j á deveria ter feito, m as só conseguiu pensar em um a naquele m om ento.

— Posso confiar em você? — perguntou Lou.

Queria ser convencido, queria que sua m ente pudesse se acalm ar, m as não contava com a resposta que recebeu.

Gabe nem titubeou.

— Com a sua vida.

A suíte presidencial para o cavalheiro por sua palavra.