O Presente
Esta é a época...
– Você vai estar lá, não vai, Lou? — perguntou Ruth, esforçando-se para esconder o pânico que tingia sua voz. Andava descalça pelo quarto, o som dos seus passos contra as tábuas de m adeira com o se estivesse pisando na água. Seu cabelo castanho e longo estava arm ado com gram pos e bobes, o corpo enrolado num a toalha, e gotas de água cintilando em seus om bros quando a luz os tocava.
Lou observava a m ulher com quem se casara há dez anos deitado na cam a, com a cabeça se m ovendo de um lado para outro com o se fosse o espectador de um a partida de tênis. Eles iriam para o centro da cidade em carros separados e em horários diferentes; ele tinha de com parecer à festa da em presa antes de se j untar à da fam ília para a celebração do aniversário de seu pai. Chegou em casa pouco tem po depois de term inar o expediente, tom ou banho e vestiu-se no espaço de vinte m inutos, m as, em vez de andar de um lado para outro no andar inferior e esperar im pacientem ente pela esposa, com o de costum e, ele decidiu deitar-se na cam a e observá-la. Acabara de perceber que observar era m uito m ais divertido do que andar de um lado para outro com um a raiva cada vez m aior. Lucy se j untara ao pai na cam a e estava agarrada ao seu cobertor. Recém -saída do banho, ela estava vestida com seu pij am a e exalava um cheiro delicioso de m orangos.
— É claro que estarei lá. — Ele sorriu para Ruth.
— Estou perguntando porque você deveria ter saído de casa há m eia hora, e isso vai acabar o atrasando se você continuar aqui. — Ela passou apressadam ente por ele e entrou no closet. O resto da frase desapareceu j unto com ela, conform e os sons abafados chegavam ao quarto, deixando as palavras dentro do arm ário, penduradas nos cabides e dobradas im pecavelm ente sobre as prateleiras. Ele se recostou na cam a, colocou os braços atrás da cabeça e riu.
— Ela está falando rápido — sussurrou Lucy.
— Ela sem pre faz isso — Lou sorriu, estendeu a m ão e colocou um a m echa rebelde do cabelo de Lucy atrás da sua orelha.
Ruth reapareceu, vestida apenas com as roupas de baixo.
— Você está linda — ele sorriu.
— Papai! — Lucy riu escandalosam ente. — Ela está só de calcinha!
— Sim , bem , ela fica bonita só de calcinha. — Ele m anteve os olhos em Ruth enquanto Lucy rolava na cam a, rindo daquela ideia.
Ruth se virou e estudou-o rapidam ente. Lou viu que ela engolia em seco, com um a expressão de curiosidade. Não estava acostum ada a receber toda aquela atenção; talvez estivesse preocupada com a possibilidade de que ele estivesse agindo assim devido a algum sentim ento de culpa. Outra parte dela estaria com m edo de ter esperanças, receosa de que aquilo fosse m ais um conj unto de prom essas que, posteriorm ente, se transform ariam em outra decepção. Ela desapareceu pela porta do banheiro por alguns m om entos e, quando voltou ao quarto, com eçou a saltitar de um lado para outro, som ente com a roupa de baixo.
Lucy e Lou com eçaram a rir enquanto a observavam .
— O que você está fazendo? — riu Lou.
— Estou secando o hidratante. — Ela correu sem sair do lugar, sorrindo.
Lucy levantou-se da cam a e se j untou à m ãe, rindo e dançando; antes de decidir que a m ãe estava seca, voltou para j unto do pai na cam a.
— Por que você ainda está aqui? — perguntou Ruth gentilm ente. — Você não vai querer se atrasar para a festa do Sr. Patterson.
— Isso aqui é bem m ais divertido.
— Lou — ela riu. — Em bora eu goste do fato de que você não estej a andando de um lado para outro sem parar pela prim eira vez nos últim os dez anos, você realm ente deveria ir. Eu sei que você disse que estará na festa do seu pai hoj e à noite, m as...
— Eu estarei lá hoj e à noite — respondeu ele, ofendido.
— Certo, m as, por favor, não se atrase m uito — continuou ela, correndo pelo quarto. — A m aioria dos convidados j á tem m ais de 70 anos. É o tipo de gente que j á foi dorm ir ou j á foi para casa no horário em que para você a noite está apenas com eçando. — Ela correu de volta para o closet.
— Eu estarei lá — respondeu ele, para si m esm o.
Lou ouviu Ruth abrir gavetas e portas. Ela esbarrou em algum a coisa, disse um palavrão, deixou outra coisa cair e, quando reapareceu no quarto, estava usando um vestido preto para noite.
Geralm ente, Lou diria autom aticam ente que ela estava bonita e m al olharia para ela ao dizer isso. Sentia que era a sua obrigação, que era isso que ela queria ouvir, que isso bastaria para saírem de casa m ais rápido, que faria com que ela se sentisse m enos ansiosa durante todo o traj eto, m as, naquela noite, Lou percebeu que estava sem palavras. Ela estava linda. Era com o se, durante toda a sua vida, as pessoas lhe dissessem que o céu era azul e, pela prim eira vez, ele realm ente levantasse a cabeça e o visse com seus próprios olhos. Por que ele não olhava para ela todos os dias? Ele se deitou de bruços e apoiou a cabeça nas m ãos. Lucy o im itou. Os dois adm iraram a beleza de Ruth. Dez anos com essa im agem à disposição e ele passara o tem po todo andando de um lado para outro no andar de baixo da casa enquanto gritava com ela.
— E lem bre-se — disse ela, fechando o zíper do vestido, enquanto passava por eles novam ente. — Você com prou um a passagem num cruzeiro para presentear seu pai.
— Achei que fôssem os lhe dar o título de sócio no clube de golfe.
— Lou, ele detesta j ogar golfe.
— É m esm o?
— O vovô detesta j ogar golfe — disse Lucy.
— Ele sem pre quis ir a St. Lucia. Lem bra-se da história sobre Douglas e Ann e com o eles ganharam um a viagem recortando o fundo de um a caixa de cereal?
— Não — Lou franziu a testa.
— A com petição da caixa de cereal. — Ela se deteve no traj eto de volta ao guarda-roupa, olhando-o com surpresa.
— Sim , m as o que houve?
— Ele conta essa história o tem po todo, Lou. Sobre com o Douglas entrou na prom oção do cereal e eles ganharam um a viagem para St. Lucia... Não se lem bra? — ela observou o m arido, esperando um vislum bre de recordação.
Lou balançou a cabeça negativam ente.
— Uau, com o é possível que você não saiba? — Ela continuou em sua m issão para chegar até o closet. — É a história favorita dele. Vai até se em ocionar.
— Meu pai não vai se em ocionar — sorriu ele. — Não é o tipo de pessoa que se em ociona.
Ruth desapareceu no closet e voltou a aparecer com um sapato no pé e outro debaixo do braço. Para cim a, para baixo, para baixo e de volta para cim a, ela chegou até a penteadeira.
Lucy riu.
Ruth colocou suas j oias — brincos, pulseira — e depois calçou o sapato que faltava.
Lou sorriu outra vez e a observou entrando no banheiro.
— Ah — ela disse, erguendo a voz quando estava lá dentro. — Quando conversar com Mary Walsh, não diga nada a respeito de Patrick — disse ela, colocando a cabeça para fora do banheiro. Metade do seu cabelo estava presa pelos gram pos e bobes, e a outra estava solta e cacheada. Seu rosto estava triste. — Ele a abandonou.
— Certo — disse ele, fazendo que sim com a cabeça e tentando perm anecer o m ais solene possível.
Quando Ruth se recolheu para dentro do banheiro novam ente, Lou se virou para Lucy.
— Patrick abandonou Mary Walsh — disse ele. — Você sabia?
Lucy balançou a cabeça negativam ente, com força.
— Foi você quem disse a ele para fazer isso?
Ela balançou a cabeça de novo, rindo.
— Quem im aginava que isso fosse acontecer?
Lucy deu de om bros.
— Talvez Mary soubesse.
Lou riu.
— Talvez.
— Ah, e, por favor, não pergunte a Laura se ela perdeu peso. Você sem pre faz isso e ela odeia.
— Mas isso não é algo bom para se dizer a alguém ? — perguntou Lou, com o rosto sério.
Ruth riu.
— Querido, ela está engordando consistentem ente nos últim os dez anos. Quando você pergunta isso a ela, é com o se estivesse zom bando dela.
— Laura é um a gorducha — ele sussurrou para Lucy e ela rolou na cam a, rindo.
Ele respirou fundo ao olhar para o relógio, e, estranham ente, o pânico tom ou conta dele.
— Certo, eu preciso m esm o ir. Até am anhã — disse ele, beij ando a testa de Lucy.
— Gosto m uito m ais de você agora, papai — disse ela, contente.
Lou ficou paralisado, m etade do corpo ainda na cam a e a outra m etade fora.
— O que foi que você disse?
— Eu disse que gosto m uito m ais de você agora — ela sorriu, revelando que tinha perdido um dente da arcada de baixo. — Eu, a m am ãe e o Pud vam os sair para patinar no gelo am anhã. Você vem com a gente?
Ainda em basbacado com o com entário e por quanto aquela frase o tinha afetado, ele sim plesm ente disse:
— Sim . É claro.
Ruth voltou para o quarto outra vez, trazendo um a brisa do seu perfum e, o cabelo solto em cachos longos que lhe caíam até abaixo dos om bros, com a m aquiagem im pecável. Lou não conseguia tirar os olhos dela.
— Mam ãe, m am ãe! — Lucy ficou em pé na cam a e com eçou a pular de um lado para outro. — O papai vai patinar no gelo com a gente am anhã.
— Lucy, desça daí, você sabe que não pode ficar pulando na cam a. Desça da cam a, Lucy, obrigada. Lem bre-se, eu lhe disse que o papai é um hom em m uito ocupado. Ele não tem tem po para...
— Eu irei com vocês. — Lou a interrom peu firm em ente.
Ruth ficou de queixo caído.
— Ah.
— Você se im porta?
— Ora, claro que não... não. Absolutam ente. Vai ser ótim o. — Ela assentiu e depois foi na direção oposta, claram ente chocada. A porta do banheiro se fechou delicadam ente atrás dela.
Ele deu cinco m inutos a Ruth, m as, ao final desse tem po, não conseguiu m ais esperar.
— Ruth. — Lou bateu gentilm ente na porta do banheiro. — Você está bem ?
— Sim , estou bem . — Ela lim pou a garganta e parecia estar m ais falante do que desej ava. — Estou só... assoando o nariz. — Ele ouviu um longo som de um nariz sendo assoado.
— Bem , nos vem os m ais tarde — disse ele, querendo entrar no banheiro e despedir-se com um abraço, m as sabendo que a porta só se abriria se essa fosse a vontade de Ruth.
— Certo — disse ela, sem tanta convicção. — Nos vem os na festa.
A porta continuou fechada, e ele saiu.
Os colegas de Lou Suffern, em diversos estágios de em briaguez, lotavam os escritórios da Patterson Em preendim entos. Eram apenas sete e m eia da noite e alguns deles j á tinham bebido bastante. Diferente de Lou, que fora para casa depois do trabalho, a m aioria das pessoas tinha ido para o pub e retornara ao escritório para continuar a festa. Havia m ulheres que ele m al reconhecia, em vestidos que revelavam corpos que ele nunca soube que existiam por baixo dos ternos que usavam . A uniform idade do dia fora quebrada; havia um ar de adolescência, o desej o de se exibir e m ostrar uns aos outros quem realm ente eram . Era um dia para quebrar regras, para dizer o que viesse à cabeça; um am biente perigoso para explorar. Ram os de visco estavam pendurados no topo de quase todos os batentes das portas. Lou j á recebera dois beij os assim que saiu do elevador, de oportunistas que estavam plantadas ali.
Os hom ens estavam sem paletó e usavam gravatas que tocavam m úsica, gorros de Papai Noel e tiaras com chifres de rena. Enfeites de árvores de Natal estavam pendurados nas orelhas das m ulheres e nas de alguns hom ens. Todos trabalharam duro o ano inteiro e queriam se divertir com a m esm a intensidade.
— Onde está o Sr. Patterson? — Lou perguntou a Alison quando a encontrou sentada no colo do quinto Papai Noel que viu por ali. Seus olhos estavam em baçados e não conseguiam focar em nada. Usava um vestido verm elho j usto que exibia cada form a e curva do seu corpo. Ele se esforçou para desviar os olhos.
— E o que você vai querer ganhar no Natal, garotinho? — disse a voz por trás da fantasia de Papai Noel.
— Ah. Olá, Jam es — disse Lou, educadam ente.
— Ele quer um a prom oção — disse alguém no m eio da m ultidão, que foi seguida por algum as risadas contidas.
— Não som ente um a prom oção. Ele quer o cargo de Cliff — gritou alguém que usava um a tiara com chifres de rena, e as pessoas riram outra vez.
Para esconder a frustração e o constrangim ento, Lou riu com eles e, quando a conversa m udou de tem a, afastou-se discretam ente. Refugiou-se em sua sala, que estava silenciosa e tranquila, sem qualquer vestígio de lantej oulas ou renas à vista. Sentou-se com a cabeça entre as m ãos, esperando a ligação do Sr. Patterson, escutando os versos de “Grandm a Got Run Over by a Reindeer” cantados pela m etade do grupo que estava lá fora e gritada pela outra m etade. Repentinam ente, a m úsica ficou m ais alta quando a porta da sua sala se abriu e voltou a ficar abafada quando a porta se fechou. Adivinhou quem estava ali m esm o antes de abrir os olhos.
Alison cam inhou em sua direção, com um a taça de vinho tinto num a m ão, um copo de uísque na outra e os quadris balançando no vestido verm elho j usto; ela parecia um a úvula pendurada no fundo da garganta. Seus tornozelos vacilavam sobre os sapatos de plataform a e o vinho tinto saltou algum as vezes da taça e m olhou seu polegar.
— Tenha cuidado. — Os olhos de Lou acom panhavam cada um de seus m ovim entos, m antendo a cabeça firm e, determ inado e hesitante ao m esm o tem po.
— Está tudo bem . — Ela deixou a taça em cim a da m esa e chupou o polegar, lam bendo o vinho derram ado na pele enquanto olhava para Lou de m aneira sedutora. — Eu trouxe um uísque para você. — Ela lhe entregou o copo e sentou-se ao lado dele, sobre o tam po da m esa. — Saúde. — Tocou o copo de Lou com sua taça e, em seguida, sem desviar os olhos do rosto dele, deu um gole no vinho.
Lou lim pou a garganta, sentindo-se cercado por um a m ultidão, e em purrou a cadeira para trás. Alison não com preendeu as intenções dele e deslizou o traseiro sobre o tam po da m esa de m odo a ficar bem à sua frente. Seu peito estava na altura dos olhos de Lou; ele desviou o olhar e observou a porta. Aquela posição era perigosa. Causaria um a im pressão horrível em quem os visse. Mas ele se sentia extrem am ente bem .
— Nunca chegam os a term inar o que estávam os fazendo antes — disse ela, sorrindo. — Todo m undo está falando sobre lim par suas m esas antes do Natal. — A voz de Alison era suave e sedutora. — Achei que seria bom vir até aqui para dar um a m ãozinha.
Ela em purrou algum as pastas que estavam em cim a da m esa de Lou; elas deslizaram sobre o tam po e caíram no chão, espalhando-se por toda parte.
— Oops — ela sorriu, sentando-se na m esa na frente de Lou, com o vestido verm elho e curto subindo ainda m ais sobre suas coxas, revelando pernas longas, torneadas e bronzeadas.
Gotas de suor se form aram na testa de Lou. Sua m ente analisou todas as possibilidades. Sair e procurar pelo Sr. Patterson ou ficar ali com Alison. Ele ainda tinha os dois com prim idos, que encontrara perto da caçam ba de lixo, seguram ente em brulhados num lenço em seu bolso. Podia tom ar um com prim ido e fazer am bos. Lem bre-se das suas prioridades: estar com Alison e ir para a festa do seu pai. Não. Estar com o Sr. Patterson e ir à festa do seu pai. Os dois ao m esm o tem po.
Descruzando as pernas, Alison usou seu pé para trazer a cadeira de Lou para perto da m esa, a renda verm elha entre suas coxas saudando-o enquanto as rodinhas da cadeira deslizavam lentam ente na direção dela. Ela levou o corpo até a borda da m esa, erguendo ainda m ais a barra do vestido. Até um ponto em que ele não conseguia m ais olhar para lugar nenhum . Poderia tom ar um com prim ido; ficar com Alison e ficar com Ruth.
Ruth.
Alison estendeu o braço e o puxou para perto, com as m ãos em seu rosto. Ele sentiu as unhas postiças. O tap-tap-tap sobre o teclado que o enlouquecia todos os dias. Lá estavam elas, em seu rosto, em seu peito, deslizando por seu corpo. Dedos longos correndo pelo tecido de seu terno, o terno que deveria refletir a sua dignidade interior.
— Sou casado — ele balbuciou quando a m ão de Alison chegou à sua virilha. Sua voz estava tom ada pelo pânico, parecendo até infantil. Fraca e fácil de convencer.
Alison j ogou a cabeça para trás e riu.
— Eu sei — ronronou ela, e suas m ãos continuaram a explorá-lo.
— Isso não foi um a piada — disse ele de m aneira firm e, e ela parou repentinam ente para olhá-lo. Ele a encarou de volta, e eles continuaram com aquele j ogo de olhares até que o canto dos lábios de Alison se ergueu num sorriso, apesar de tentar reprim i-lo. Quando não conseguiu m ais conter o riso, ela explodiu. Seus longos cabelos louros lhe caíram sobre as costas para tocar o tam po da m esa conform e ela se curvava para trás com as gargalhadas.
— Ah, Lou — ela suspirou, finalm ente enxugando o canto dos olhos.
— Isso não é um a piada — disse ele com m ais firm eza, com dignidade, com convicção. Era m ais hom em agora do que há cinco m inutos.
Percebendo que ele não a estava provocando, o sorriso de Alison se desfez im ediatam ente.
— Não é um a piada? — ela ergueu um a sobrancelha, olhando-o direto nos olhos. — Talvez você tenha conseguido enganá-la, Lou, m as não enganou o resto de nós.
— Nós?
Ela agitou a m ão por trás de si, desdenhosa.
— Nós. Todo m undo. Sej a lá quem for.
Ele em purrou a cadeira para longe da m esa.
— Ah, você quer que eu sej a m ais específica? Serei específica, então. Gem m a, na contabilidade; Rebecca, na cantina; Louise, no treinam ento; Tracey, sua secretária antes de m im , e a babá, cuj o nom e eu nunca fiquei sabendo. Quer que eu continue? — ela sorriu e tom ou um gole de vinho, observando-o. Os olhos de Alison lacrim ej aram , ficando averm elhados com o se o vinho estivesse passando diretam ente por eles. — Lem bra-se de todas elas?
— Isso aconteceu... — Lou engoliu em seco, com dificuldade para respirar. — Isso aconteceu há m uito tem po. As coisas são diferentes agora.
— Seu caso com a babá aconteceu há seis m eses — ela riu. — Meu Deus, Lou. O quanto você acha que um hom em com o você é capaz de m udar em seis m eses? Considerando que você sej a capaz de m udar.
Lou sentiu-se tonto, subitam ente enj oado. Deslizou as m ãos suadas pelos cabelos, com eçando a se sentir tom ado pelo pânico. O que ele havia feito?
— Pense, Lou. — Ela se em pertigou. — Quando você se tornar o Núm ero Dois aqui, você pode ter quem quiser, m as lem bre-se de que eu cheguei prim eiro — ela riu, deixando a taça de vinho sobre a m esa e estendendo o pé para puxar a cadeira de Lou para perto outra vez. — Se m e levar com você, posso cuidar de todas as suas necessidades.
Ela tirou o copo de uísque da m ão de Lou e colocou-o sobre a m esa. Em seguida, pegou na m ão dele, puxou-o para que ficasse de pé e ele obedeceu, entorpecido e inerte com o um m anequim . Ela esfregou as m ãos no peito de Lou, agarrou sua lapela e puxou-o para bem perto. Quando seus lábios estavam prestes a se tocar, ele parou, desviou a rota, levou os lábios até a orelha de Alison e sussurrou, com um som m uito baixo:
— Meu casam ento não é um a piada, Alison. Você é. E a m inha esposa é o tipo de m ulher da qual você nunca conseguirá chegar aos pés, m esm o que queira.
Ao dizer isso, ele recuou e se afastou da m esa.
Alisou ficou sentada sobre a m esa, paralisada e com a boca aberta. O único m ovim ento era da m ão, que tentava puxar a barra da saia para baixo.
— Sim — disse ele, observando-a arrum ar as roupas. — Você deveria m esm o se cobrir. Aproveite alguns m inutos para recuperar a lucidez, m as, por favor, coloque as pastas de volta na m inha m esa antes de sair — disse ele, calm o. Colocando as m ãos nos bolsos para esconder o quanto seu corpo trem ia, ele saiu da sala e viu-se no m eio de um karaokê, e um em briagado Alex, da contabilidade, estava colocando sua alm a para fora enquanto cantava “All I Want for Christm as”, de Mariah Carey. Serpentinas voavam por todos os lados, e hom ens e m ulheres bêbados e com barbas postiças o acossaram com beij os quando ele saiu de sua sala.
— Tenho que ir — disse ele, para ninguém em particular, tentando encam inhar-se para o elevador. Abriu cam inho por entre as pessoas; algum as delas tentavam agarrá-lo e puxá-lo para dançar, outras bloqueavam o seu cam inho e derram avam bebidas.
— Tenho que ir em bora — disse ele, um pouco m ais agressivo agora. Sua cabeça latej ava; sentia náuseas, com o se acabasse de acordar no corpo de um hom em que tivesse tom ado as rédeas da própria vida e encarado suas próprias fraquezas. — Meu pai faz 70 anos hoj e, tenho que ir vê-lo — disse ele, tentando chegar até o elevador. Finalm ente, chegou ao corredor, apertou o botão e não virou para trás. Abaixou a cabeça e esperou.
— Lou! — Ele ouviu seu nom e, m as m anteve a cabeça baixa, ignorando a voz. — Lou! Preciso falar com você por um m inuto! — Ele ignorou a voz de novo, olhando para os núm eros dos andares subindo pelo painel do elevador e agitando as pernas ansiosam ente, esperando conseguir entrar antes que fosse tarde dem ais.
Sentiu um a m ão em seu om bro.
— Lou! Eu o estava cham ando! — disse um a voz am istosa. Ele se virou. Ele se virou.
— Ah, Sr. Patterson, olá. Me desculpe. — Lou sabia que sua voz estava um pouco agressiva, m as precisava sair daquele lugar. Prom etera a Ruth que o faria, e apertou o botão do elevador rapidam ente. — Estou com um pouco de pressa, hoj e o m eu pai faz...
— Não vam os dem orar, eu prom eto. Som ente um a palavra. — Ele sentiu a m ão do Sr. Patterson em seu braço.
— Tudo bem . — Lou deu m eia-volta, m ordendo o lábio.
— Bem , eu esperava que pudéssem os conversar no m eu escritório, se não se im porta — disse o Sr. Patterson, sorrindo. — Você está bem ? Parece um pouco abalado.
— Estou bem . Estou só, o senhor sabe, um pouco apressado. — Ele perm itiu que o seu chefe o conduzisse pelo braço.
— É claro que está — riu o Sr. Patterson. — Você sem pre está apressado.
Ele levou Lou até o seu escritório, e eles sentaram frente a frente em sofás de couro m arrons, na parte m ais inform al da sala do Sr. Patterson. A testa de Lou estava suando; era capaz de sentir o próprio odor corporal e esperava que o Sr. Patterson não tivesse a m esm a sensibilidade. Pegou o copo de água que havia à sua frente; sua m ão trêm ula o levou aos lábios, e o Sr. Patterson o observou enquanto ele engolia.
— Quer algo m ais forte, Lou?
— Não, obrigado, Sr. Patterson.
— Laurence, por favor — disse o Sr. Patterson, balançando a cabeça negativam ente outra vez. — Francam ente, Lou, você faz com que eu m e sinta um professor da escola prim ária quando m e cham a pelo sobrenom e.
— Me desculpe, Sr. Patter...
— Bem , eu vou tom ar um trago, de qualquer form a. — O Sr. Patterson levantou-se e foi até o arm ário das bebidas. Serviu-se do conhaque que estava em um decantador de cristal. — Tem certeza de que não quer um pouco? — ele ofereceu outra vez. — Rém y XO — disse ele, girando o copo no ar, atiçando-o.
— Bem , acho que vou acom panhá-lo, obrigado. — Lou sorriu e relaxou um pouco, o pânico e a ansiedade que sentia em relação a cruzar a rua para chegar à outra festa dim inuíram .
— Ótim o — o Sr. Patterson sorriu. — Bem , Lou, vam os falar sobre o seu futuro. Quanto tem po você tem ?
Lou tom ou o prim eiro gole daquele conhaque caro e foi trazido de volta para a sala, de volta para o presente. Cobriu o relógio com o punho da cam isa, afastando a distração. Preparou-se para a grande prom oção, para que seus sapatos brilhantes seguissem os passos de Cliff, m as não literalm ente nem para o hospital no qual ele continuava internado, m as sim para o escritório principal, com um a vista panorâm ica da cidade de Dublin. Ele respirou fundo e ignorou os ponteiros do relógio que avançavam lentam ente na parede, tentando tirar a festa do seu pai da cabeça. Valeria a pena. Eles entenderiam . Estariam ocupados dem ais com a festa para perceber que Lou não estava lá.
— Tenho todo o tem po que o senhor precisar. — Lou sorriu nervoso, ignorando a voz dentro de si que gritava, tentando ser ouvida.