O Presente
Com certeza
Sozinho em seu escritório, Lou tirou os com prim idos do bolso e colocou-os sobre a m esa. Apoiou a cabeça contra o tam po e finalm ente fechou os olhos.
— Meu Deus, você está um desastre — ele ouviu um a voz falar ao lado do seu ouvido e levantou-se, assustado.
— Alfred — disse ele, esfregando os olhos. — Que horas são?
— Sete e vinte e cinco. Não se preocupe, você não perdeu sua reunião. Graças a m im . — Ele abriu aquele sorriso torto outra vez, deslizando as suas unhas grossas, m anchadas de nicotina e roídas sobre a m esa de Lou. Um toque era o suficiente para estragar tudo e deixar a m esa m arcada, o que irritava Lou. A expressão “dedos suj os e pegaj osos” se encaixava perfeitam ente. — Ei, o que é isso? — Alfred pegou a em balagem de com prim idos e abriu a tam pa.
— Devolva. — Lou estendeu a m ão para pegá-las, m as Alfred se esquivou. Colocou algum as sobre a palm a úm ida da m ão.
— Alfred, devolva isso — disse Lou, com a voz severa, tentando im pedir que o desespero o dom inasse enquanto Alfred corria pela sala agitando o pote no ar, provocando-o com o m esm o ar e atitude de um garoto que se com porta com o o valentão da escola.
— Lou, seu m enino travesso, o que está aprontando? — perguntou Alfred, cantarolando com um toque acusador na voz, que fez Lou sentir seus ossos gelarem .
Sabendo que Alfred provavelm ente tentaria usar os com prim idos contra ele, Lou pensou rápido.
— Parece que você está tentando inventar um a história — disse Alfred, sorrindo. — Eu sei quando você está blefando. Já o vi fazendo isso em várias reuniões, lem bra-se? Não confia em m im o bastante para dizer a verdade?
Lou sorriu e m anteve a voz tranquila, quase com um tom de brincadeira, m as os dois agiam com seriedade.
— Quer que eu sej a honesto? Ultim am ente, não. Eu não ficaria surpreso se você inventasse um plano para usar essa pequena em balagem contra m im .
Alfred riu.
— Ah, o que é isso, Lou? Isso é j eito de tratar um velho am igo?
O sorriso de Lou se desfez.
— Não sei, Alfred. Me diga você.
Os dois se encararam por um m om ento, até que Alfred quebrou o contato visual.
— Tem algum a coisa em m ente, Lou?
— O que você acha?
— Escute — os om bros de Alfred relaxaram , a arrogância se desfez e a fachada hum ilde com eçou a atuar. — Se você está preocupado com a reunião desta noite, pode ficar tranquilo. Não tive nada a ver com o agendam ento dos seus com prom issos. Converse com Louise, se quiser. Quando Tracey saiu da em presa e Alison assum iu o posto, m uitas coisas acabaram se perdendo — disse ele, dando de om bros. — Que ninguém nos ouça, m as Alison parece ser um pouco desorganizada.
— Não coloque a culpa em Alison — Lou cruzou os braços.
— Ah, sim ! — Alfred sorriu e assentiu lentam ente para si m esm o. — Esqueci que vocês têm um caso.
— Não tem os caso nenhum . Pelo am or de Deus, Alfred.
— Certo. Desculpe. — Alfred deslizou os dedos sobre os lábios com o se estivesse fechando um zíper. — Ruth nunca vai saber de nada, eu prom eto.
O sim ples fato de Alfred ter m encionado aquilo m exeu com os nervos de Lou.
— O que deu em você? — perguntou Lou, bastante sério agora.
— O que há com você? É estresse? É aquele pó que você vive enfiando no nariz? Que diabo está acontecendo? Está preocupado com as m udanças...
— As m udanças... — Alfred torceu o nariz. — Você faz com que eu pareça um a m ulher na m enopausa.
Lou olhou fixam ente para ele.
— Estou ótim o, Lou — disse Alfred. — Com o sem pre estive. É você que está agindo de um j eito estranho por aqui. Todos estão falando disso, até o Sr. Patterson. Talvez sej a por causa disto aqui. — Ele agitou o pote de com prim idos na frente do rosto de Lou, exatam ente com o Gabe fizera.
— São com prim idos para dor de cabeça.
— Não tem nenhum rótulo nesse pote.
— Meus filhos o arrancaram . Agora, será que você pode parar de chacoalhar esse pote e devolvê-lo para m im ? — Lou estendeu a m ão aberta para Alfred.
— Ah, com prim idos para dor de cabeça. Entendo. — Alfred estudou a em balagem novam ente. — É isso m esm o? Porque eu im aginei ter ouvido o m endigo dizer que era um rem édio hom eopático.
Lou engoliu em seco.
— Você está m e espionando, Alfred? É isso que está fazendo?
— Não — Alfred riu tranquilam ente. — Vou m andar alguém analisar isso aqui para você, só para ter certeza de que não são nada m ais do que com prim idos para dor de cabeça. — Ele pegou um com prim ido, guardou-o no bolso e devolveu a em balagem . — É bom poder descobrir algum as coisas sozinho quando m eus am igos estão m entindo para m im .
— Conheço bem essa sensação. — Lou concordou, feliz por ter o pote de volta em suas m ãos. — Com o quando descobri a reunião que você e o Sr. Patterson tiveram há alguns dias durante a m anhã, e o alm oço que vocês tiveram j untos na sexta-feira passada.
De m aneira bastante incom um , Alfred parecia estar genuinam ente chocado.
— Ah — disse Lou, suavem ente. — Você não sabia que eu sabia disso, não é? Desculpe. Bem , é m elhor ir para o seu j antar ou vai perder os aperitivos. Muito trabalho e pouco caviar deixam Alfred um chato.
Lou levou Alfred, que m anteve o silêncio, até a porta, abriu-a e piscou para ele antes de fechá-la tranquilam ente e dar as costas ao colega.
As sete e m eia da noite chegaram e passaram sem que Arthur Ly nch surgisse no m onitor de plasm a de cinquenta polegadas à frente de Lou na m esa da sala de reuniões. Sabendo que poderia ser visto por qualquer pessoa que estivesse presente na reunião, ele tentou relaxar em sua cadeira e esforçou-se para não dorm ir. Às sete e quarenta, a secretária do Sr. Ly nch o inform ou que ele dem oraria m ais alguns m inutos.
Enquanto esperava, cada vez m ais sonolento, Lou im aginou Alfred no restaurante, no m áxim o da sua arrogância, virando o centro das atenções, falando alto e fazendo o seu m elhor para entreter os presentes; roubando a glória, fechando ou recusando um a negociação com a qual Lou não estaria associado, a m enos que Alfred fracassasse. Deixando passar essa oportunidade — a reunião m ais im portante do ano —, Lou estava perdendo a m aior chance de provar seu potencial ao Sr. Patterson. O cargo de Cliff e a grande sala vazia que viria com ele eram constantem ente expostos a Lou, dia após dia. O antigo escritório de Cliff ficava m ais adiante no corredor, ao lado da sala do Sr. Patterson, com as persianas abertas e totalm ente vazio. Um a sala m aior, com um a ilum inação m elhor. Aquilo o atraía. Já fazia seis m eses desde que Cliff tivera o colapso, e por um longo período ele apresentou com portam entos estranhos. Lou encontrou Cliff agachado atrás de sua m esa, com o corpo trem endo, segurando o teclado do com putador contra o peito. Ocasionalm ente, seus dedos digitavam algum a espécie de código Morse, m ovidos pelo pânico. Eles estavam chegando para buscá-lo, repetia ele com os olhos arregalados e com pletam ente aterrorizado.
Quem eram eles, Lou não conseguiu descobrir. Tentou gentilm ente fazer com que Cliff saísse de baixo da m esa e calçasse suas m eias e sapatos, m as Cliff partiu para o ataque quando Lou se aproxim ou, acertando-o no rosto com o m ouse, segurando o aparelho pelo fio com o se fosse o laço de um caubói. O im pacto do m ouse de plástico não doeu tanto quanto a im agem do j ovem em presário de sucesso caindo aos pedaços. O escritório perm aneceu vazio durante todos aqueles m eses, e, conform e os rum ores sobre a saúde de Cliff se espalhavam pela em presa, a sim patia por ele dim inuiu e a com petição pelo seu cargo aum entou. Lou soubera recentem ente que Cliff voltara a conversar e que tinha a intenção de receber visitas. Ele sabia que deveria visitá-lo, e o faria em algum m om ento, m as sim plesm ente não conseguia encontrar tem po...
A frustração de Lou cresceu enquanto ele olhava para a tela preta de plasm a desativada. Sua cabeça latej ava, e ele m al conseguia pensar porque a enxaqueca avançava da base da cabeça até os olhos. Sentindo o desespero, ele pegou os com prim idos no bolso e olhou fixam ente para eles.
Pensou em Gabe, ele sabia sobre a reunião entre o Sr. Patterson e Alfred; ele j ulgara corretam ente a situação com os sapatos; ele lhe trouxera o café na m anhã anterior e o tinha levado para casa; de algum a form a, conquistara a confiança de Ruth. Convencendo a si m esm o de que, em todas aquelas ocasiões, Gabe nunca o prej udicara, Lou agitou o pote aberto e um a pequena pílula branca e reluzente rolou sobre a palm a de sua m ão suada. Ele brincou com o com prim ido por algum tem po, rolando-o entre seus dedos, e o lam beu; e quando nada de m ais drástico aconteceu, enfiou-o na boca e o engoliu rapidam ente com um pouco de água.
Lou se agarrou à m esa da sala de reuniões com am bas as m ãos, segurando-se com tanta força que as m anchas de suor ficaram visíveis na superfície de vidro que fora colocada para proteger o tam po de nogueira sólida. Esperou. Nada aconteceu. Ergueu as m ãos da m esa e as estudou, com o se os efeitos pudessem ser vistos em suas palm as suadas. Mas nada fora do com um aconteceu, nenhum a experiência psicodélica, nada que am eaçasse a sua vida além da forte dor na cabeça, que continuava a latej ar.
Às sete e quarenta e cinco, ainda não havia qualquer sinal de Arthur Ly nch na tela de plasm a. Lou tam borilou sua caneta contra o vidro im pacientem ente, sem se im portar com a im pressão que poderia causar às pessoas do outro lado da câm era. Tom ado pela paranoia, não há outra explicação razoável, Lou com eçou a se convencer de que não haveria nenhum a reunião e que Alfred, de algum m odo, arm ou aquela videoconferência de araque para que ele pudesse ir sozinho ao j antar e fechar o negócio. Mas Lou não perm itiria m ais que Alfred sabotasse todo o trabalho duro que vinha desenvolvendo. Levantou-se rapidam ente, agarrou seu sobretudo e correu para a porta. Abriu-a e estava com um pé sobre a soleira quando ouviu um a voz que vinha do m onitor de plasm a atrás dele.
— Lam ento m uito por fazê-lo esperar, Sr. Suffern.
A voz refreou a m archa de Lou. Ele fechou os olhos e suspirou, despedindo-se do seu sonho de ter um escritório com um a vista de trezentos e sessenta graus de Dublin. Pensou rapidam ente no que deveria fazer: correr e chegar a tem po para o j antar ou dar m eia-volta e encarar o cliente. Antes que tivesse tem po de tom ar a decisão, o som de outra voz no seu escritório quase fez seu coração parar.
— Sem problem as, Sr. Ly nch. Por favor, m e cham e de Lou. Com preendo que algum as coisas acabam se atrasando, então não é necessário se desculpar. Vam os cuidar dos negócios? Tem os m uito a discutir.
— Com certeza, Lou. E m e cham e de Arthur, por favor. Tem os m uitas coisas para repassar, m as antes que eu o apresente a estes dois cavalheiros, você gostaria de term inar o que está fazendo por aí? Im agino que estej a acom panhado.
— Não, Arthur, estou sozinho aqui no escritório — Lou ouviu sua própria voz dizer. — Todos os outros j á foram em bora.
— E aquele hom em ao lado da porta? Consigo vê-lo aqui na m inha tela.
Apanhado, Lou lentam ente se virou e ficou cara a cara consigo m esm o. Ainda estava sentado na m esa da sala de reuniões, no m esm o lugar em que estivera antes de planej ar sua escapada, pegar seu casaco e ir em direção à porta. O rosto que o encarou tam bém estava tom ado pelo choque. O chão girou sob os pés de Lou, e ele se segurou com firm eza ao batente da porta para não cair.
— Lou? Você está aí? — perguntou Arthur, e as duas cabeças no escritório se viraram para encarar o m onitor de plasm a.
— Ah, sim , estou aqui — gaguej ou Lou na m esa de reuniões. — Desculpe, Arthur. Este cavalheiro é... um colega de trabalho. Ele j á está de saída, tem um j antar im portante para com parecer. — Lou se virou e deu um olhar de aviso para o Lou que estava em frente à porta. — Não é?
Lou sim plesm ente confirm ou com a cabeça e saiu da sala, os j oelhos e as pernas trem endo a cada passo. Perto dos elevadores, ele se apoiou na parede enquanto tentava recuperar o fôlego e esperava a tontura passar. As portas do elevador se abriram , e ele desabou para dentro, socando o botão do andar térreo e encolhendo-se no canto, afastando-se cada vez m ais do outro que ficara no décim o quarto andar.
Às oito horas da noite, enquanto Lou estava na sala de reuniões da Patterson Em preendim entos negociando com Arthur Ly nch, e Alfred e o grupo de em presários estavam sendo conduzidos à m esa, Lou entrou no restaurante. Entregou seu sobretudo de casim ira à recepcionista, com um a m ão no bolso e a outra pendendo ao lado do corpo. Seu corpo estava flexível outra vez; nada estava rígido ou contido. Para funcionar direito, ele precisava sentir o balanço do corpo, o m ovim ento casual de um hom em que, pessoalm ente, não se im porta com qualquer decisão, m as que fará o que puder para convencê-lo do contrário, porque sua única preocupação é o cliente.
— Com licença, cavalheiros. Me desculpem por estar um pouco atrasado — disse ele, elegantem ente, aos hom ens cuj os narizes estavam enterrados nos cardápios.
Todos ergueram os olhos e Lou ficou m uito feliz ao notar a expressão no rosto de Alfred; um a expressão que se parecia com um a ola nas arquibancadas de um estádio de futebol, que dem onstrava várias em oções em sequência: surpresa, decepção, ressentim ento e raiva. Cada expressão indicava a Lou que toda aquela barafunda fora deliberadam ente causada por Alfred. Lou deu a volta ao redor da m esa cum prim entando os convidados, e, quando chegou aonde Alfred estava, o rosto presunçoso deste j á havia afastado com pletam ente a expressão de espanto.
— Patterson vai m atar você — declarou ele, falando pelo canto da boca. — Mas pelo m enos um a negociação será concluída esta noite. Sej a bem -vindo, m eu am igo. — Ele cum prim entou Lou com um aperto de m ão, e o delírio de perceber que Lou seria dem itido no dia seguinte ilum inou seu rosto.
— Já cuidei de tudo — respondeu Lou tranquilam ente, virando-se para tom ar seu lugar, algum as cadeiras m ais à frente.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Alfred com um tom de voz que m ostrava que se esquecera do lugar onde estava. Lou sentiu a m ão de Alfred apertar seu braço com força, im pedindo-o de se afastar.
Lou olhou ao redor da m esa e sorriu; em seguida, virou-se outra vez. Rem oveu discretam ente cada um dos dedos de Alfred do seu braço.
— Eu disse que j á cuidei de tudo — repetiu Lou.
— Você cancelou a videoconferência? Não estou entendendo — Alfred sorriu, nervoso. — Me diga o que está acontecendo.
— Não, não foi cancelada. Não se preocupe, Alfred. Que tal darm os atenção aos nossos convidados? — Lou sorriu m ostrando seus belos dentes e, finalm ente, conseguiu se desvencilhar de Alfred e tom ar seu assento. — Bem , cavalheiros, o que há de bom nesse cardápio? Posso recom endar o foie gras. Já pedi esse prato aqui, é um a delícia. — Ele sorriu para a equipe de executivos e deixou-se im ergir no prazer da negociação.
Às nove horas e vinte m inutos da noite, após a videoconferência com Arthur Ly nch, Lou, exausto, m as ao m esm o tem po exultante e triunfante, estava em pé em frente à j anela do restaurante The Saddle Room . Estava envolto em seu sobretudo enquanto o vento de dezem bro soprava com força, o cachecol apertado ao redor do pescoço. Mesm o assim , não sentia frio enquanto observava a si m esm o, suave e sofisticado, prendendo a atenção de todos enquanto contava um a história. Todos os rostos dem onstravam interesse — todos exceto Alfred — e, após cinco m inutos de gestos e expressões faciais anim adas, todos com eçaram a rir. Lou conseguiu perceber, pelos seus m ovim entos e sua linguagem corporal, que estava contando a história de com o ele e seus colegas de trabalho entraram num bar gay em Londres em vez da boate de striptease pela qual procuravam . Observando a si m esm o contando aquela história, decidiu que nunca m ais a contaria para ninguém . Parecia um idiota.
Lou sentiu um a presença ao seu lado e não precisou olhar para saber quem era.
— Está m e seguindo? — perguntou ele, ainda olhando pela j anela do restaurante.
— Não. Apenas im aginei que você viria até aqui — respondeu Gabe, trem endo e enfiando as m ãos com força nos bolsos da calça. — Com o está indo ali dentro? Pelo que vej o, está entretendo a turm a toda, com o de costum e.
— O que está acontecendo, Gabe?
— Um hom em ocupado com o você? Lou, você conseguiu o que queria. Agora você pode fazer tudo o que quiser. Mas é bom saber que o efeito term ina quando a m anhã chega. Portanto, é m elhor prestar atenção no que faz.
— Qual de nós é o verdadeiro eu?
— Nenhum dos dois, se quiser a m inha opinião.
Lou olhou para Gabe e franziu a testa.
— Chega desses m om entos de sabedoria. Não funcionam com igo.
Gabe suspirou.
— Vocês dois são reais. Vocês dois agem com o sem pre agiram . Voltarão a ser um só e tudo ficará certo.
— E quem é você?
Gabe revirou os olhos.
— Você está assistindo a film es dem ais. Eu sou Gabe. O m esm o cara que você tirou da rua.
— O que há nesses com prim idos? — Lou tirou a em balagem do bolso. — São perigosos?
— Um pouco de sabedoria. E isso nunca m atou ninguém .
— Mas, essas coisas... você poderia ganhar um bom dinheiro com isso. Quem m ais sabe a respeito?
— As pessoas certas; as pessoas que inventaram essas pílulas. E não tente ganhar dinheiro com isso ou terá que responder pelos seus atos.
Lou recuou por um m om ento.
— Gabe, você não pode sim plesm ente m e duplicar e esperar que eu aceite tudo isso sem questionar. Isso pode ter consequências graves para a m inha saúde, sem falar nas reações psicológicas que podem alterar toda a m inha vida. E o resto do m undo precisa m uito saber disso... É um a loucura! Nós precisam os nos sentar para conversar.
— É claro que precisam os. — Gabe o observava. — E então, quando contar ao m undo inteiro, você será trancado num hospício ou vai se transform ar na estrela de um show de aberrações. E vai poder ler a respeito de si m esm o todos os dias, em artigos do m esm o tam anho que aqueles que foram escritos sobre a ovelha Dolly. Se eu fosse você, ficaria de boca fechada e tentaria extrair o m elhor dessa situação bastante conveniente. Você está m uito pálido. Está tudo bem com você?
Lou riu de um j eito histérico.
— Não! Não estou nada bem . Isso não é norm al. Por que você está agindo com o se tudo isso fosse norm al?
Gabe deu de om bros.
— Já estou acostum ado, eu acho.
— Acostum ado? — Lou apertou os dentes. — Bem , para onde eu devo ir agora?
— Bem , você cuidou dos assuntos no seu escritório, e parece que sua outra m etade está cuidando dos assuntos aqui — sorriu Gabe. — Sobrou apenas um lugar especial para onde você pode ir.
Lou pensou naquilo por um m om ento e, lentam ente, um sorriso ilum inou seu rosto, e a luz entrou em seus olhos; conseguiu, pela prim eira vez naquela noite, com preender Gabe.
— Tudo bem , vam os lá.
— O quê? — Gabe estava em basbacado. — Vam os aonde?
— Para o pub. A prim eira rodada é por m inha conta. Meu Deus, você devia ver a sua cara. Para onde você acha que eu iria?
— Para a sua casa, Lou.
— Minha casa? — Lou fez um a careta. — Por que eu faria isso? — Ele se virou para observar a si m esm o na m esa de j antar, com eçando a contar outra história. — Ah, essa é sobre aquela vez em que fiquei preso no aeroporto de Boston. Havia um a m ulher no m esm o voo que eu... — ele sorriu, virando-se na direção de Gabe para lhe contar a história, m as Gabe desaparecera.
— Com o quiser — resm ungou Lou. Observou a si m esm o por m ais algum tem po, chocado, sem entender o que estava acontecendo naquela noite. Definitivam ente, m erecia um a caneca de cervej a, e, se sua outra m etade fosse para casa depois do j antar, isso significava que ele poderia passar a noite inteira fora e ninguém perceberia. Ninguém além da pessoa com quem ele estivesse. A noite não poderia ser m elhor.