O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 3 de 29

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O Presente

Uma manhã de meios sorrisos

 

O sargento Raphael O’Reilly andava de m aneira lenta e m etódica pela cozinha da delegacia de polícia de Howth, a m ente revirando os acontecim entos da m anhã. O’Reilly, cham ado pelos colegas de Reifí, tinha 59 anos e ia se aposentar no ano seguinte. Nunca pensou que ansiaria pelo dia da aposentadoria até que os eventos daquela m anhã o agarraram pelos om bros e o viraram de cabeça para baixo, com o são virados os globos de neve que enfeitam algum as casas. Ele foi forçado a ver todas as suas antigas ideias se espalharem pelo chão. A cada passo que dava, ele ouvia suas crenças, outrora sólidas, sendo esm agadas sob suas botas. A m anhã daquele dia fora um dos m om entos m ais im pressionantes dos seus quarenta anos de carreira.

Ele colocou duas colheres de café instantâneo em sua caneca, que tinha o form ato de um a viatura do departam ento de polícia de Nova York — um presente de Natal dado por um dos rapazes da delegacia. Fingia sentir-se ofendido por aquela caneca, m as secretam ente a achava reconfortante. Segurando a caneca entre as m ãos, quando a ganhou de presente na festa de Am igo Secreto da delegacia, ele viaj ou no tem po, cinquenta anos atrás, quando, no Natal, ganhara um carro de polícia de brinquedo de seus pais. Era um brinquedo de que gostava m uito, m as um dia esqueceu a viatura no quintal e a ferrugem causada pela chuva obrigou seus hom ens a se aposentarem precocem ente. Naquela m anhã, bem longe do m enino que brincava com o carro de polícia de brinquedo, ele teve vontade de fazer a caneca correr por cim a do balcão e, im itando o barulho da sirene com a boca, fazê-la chocar-se contra o saco de açúcar, que, se não houvesse ninguém por perto para ver, tom baria e derram aria seu conteúdo sobre a viatura.

Em vez de fazer isso, ele deu um a olhada em volta, para ter certeza de que estava sozinho, e acrescentou m eia colher de açúcar à caneca. Sentindo-se um pouco m ais confiante, tossiu para disfarçar o barulho que o saco de açúcar fazia enquanto ele m ergulhava novam ente a colher no pó branco e rapidam ente enfiou m ais um a colherada cheia na caneca. Percebendo que saíra ileso após afanar duas colheradas de açúcar, sentiu-se atrevido o bastante para tentar m ais um a vez.

— Largue a arm a, senhor — disse um a voz fem inina carregada com o tom da autoridade.

Assustado por aquela presença súbita, Raphie reagiu com um sobressalto, e o açúcar na colher caiu em cim a do balcão. Era um típico engavetam ento caneca-em -saco-de-açúcar. Hora de cham ar reforços.

— Você foi pego em flagrante, Raphie — disse Jessica, aproxim ando-se e arrancando-lhe a colher da m ão.

Ela pegou um a caneca do arm ário da cozinha — um a caneca com o form ato de Jessica Rabbit, com os cum prim entos do am igo secreto — e deslizou-a sobre o balcão na direção de Raphie. Os voluptuosos seios de porcelana da personagem roçaram contra a sua viatura, e o garoto que havia em Raphie pensou no quanto os hom ens que estavam no veículo tinham ficado felizes.

— Vou tom ar café tam bém . — Ela invadiu os pensam entos de Raphie: seus hom ens faziam um a revista com pleta em Jessica Rabbit, apalpando-a por com pleto.

— Peça “por favor”. — Raphie a corrigiu.

— Por favor — ela o im itou, revirando os olhos.

Jessica era novata. Chegara à delegacia há seis m eses, e Raphie j á gostava bastante dela. Tinha um afeto especial pela loira atlética de um m etro e sessenta e cinco de altura e 26 anos, que parecia estar sem pre disposta e anim ada, não im portava qual fosse a tarefa a desem penhar. Raphie sentia que ela trazia um a energia fem inina necessária à sua equipe, com posta apenas por hom ens. Muitos concordavam , m as não exatam ente pelas m esm as razões de Raphie. Para ele, Jessica era com o a filha que nunca tivera. Ou com o a filha que tivera, m as perdera. Afastou aquele pensam ento e observou Jessica lim pando o açúcar derram ado no balcão.

Apesar daquela energia, seus olhos am endoados, e de um castanho tão escuro que pareciam quase negros, escondiam algo. Com o se algum a coisa tivesse sido enterrada há pouco tem po e em breve ervas daninhas, ou o que estivesse em decom posição ali em baixo, com eçariam a aparecer. Naqueles olhos havia um m istério que ele não tinha vontade de desvendar, m as sabia que, o que quer que fosse, era dali que Jessica extraía forças para agir nos m om entos tensos, nos quais a m aioria das pessoas sensatas bateria em retirada.

— Meia colher a m ais não vai m e m atar — disse ele, contrariado, depois de provar seu café, sabendo que a bebida ficaria perfeita se pudesse acrescentar m ais um a colherada.

— Se o fato de ter abordado aquele Porsche na sem ana passada quase o m atou, então m eia colher de açúcar certam ente vai acabar com você. Você está tentando ter outro ataque cardíaco?

Raphie enrubesceu.

— Foi um m urm úrio cardíaco, Jessica. Nada além disso. E fale baixo — pediu ele.

— Você devia estar em repouso — ela disse em tom m ais baixo.

— O m édico disse que eu estou perfeitam ente norm al.

— Então, a sanidade desse m édico precisa ser avaliada. Você nunca foi perfeitam ente norm al.

— Você só m e conhece há seis m eses — resm ungou ele, entregando-lhe a caneca.

— Os seis m eses m ais longos da m inha vida — ela retrucou. — Tudo bem , pode usar o m ascavo — disse ela, sentindo-se culpada, enfiando a colher no saco de açúcar m ascavo e esvaziando-a na caneca dele.

— Açúcar m ascavo m arrom , pão integral m arrom , arroz integral m arrom , tudo m arrom . Eu m e lem bro de um a época em que a m inha vida era m ais colorida.

— Aposto que tam bém se lem bra de um a época em que conseguia ver seus pés quando olhava para baixo — em endou ela, sem pensar duas vezes.

Esforçando-se para dissolver com pletam ente o açúcar na caneca dele, ela agitou a colher com tanta força que um portal líquido em form a de redem oinho apareceu no centro. Raphie o observou e perguntou a si m esm o: “Se m ergulhasse naquele redem oinho, para onde ele m e levaria?”.

— Se você m orrer por tom ar isso, não venha m e culpar — disse ela, entregando a caneca.

— Se eu m orrer, vou voltar para assom brá-la até o dia em que você bater as botas.

Ela sorriu, m as o sorriso não chegou aos seus olhos. Apagou-se em algum lugar entre os lábios e o ponto onde o nariz se une à testa.

Ele observou o portal em form a de redem oinho na sua caneca com eçar a se desfazer, sua chance de saltar para outro m undo desaparecia rapidam ente j unto com o vapor que escapava do líquido. Sim , a m anhã estava sendo terrível. Não era um a m anhã para sorrisos. Ou talvez fosse. Um a m anhã propícia para m eios sorrisos, talvez. Ele não conseguia decidir.

Raphie entregou a caneca de café fum egante para Jessica — forte e sem açúcar, com o ela gostava — e os dois se apoiaram no balcão, entreolhando-se, com os lábios soprando o café, os pés no chão e a cabeça nas nuvens.

Ele estudou Jessica; as m ãos envolvendo a caneca e o olhar fixo no café, com o se olhasse para um a bola de cristal. Desej ava m uito que fosse; desej ava m uito que tivesse o dom da prem onição para im pedir m uitas das coisas que testem unhavam . As faces de Jessica eram pálidas; o círculo levem ente averm elhado ao redor dos olhos era o único indício da m anhã m ovim entada pela qual tinham passado.

— A m anhã de hoj e foi terrível, hein, garota?

Os olhos am endoados brilharam , m as ela se conteve e endureceu a postura. Concordou com um aceno de cabeça e engoliu o café em resposta. Pela careta que tentou esconder, Raphie percebeu que ela havia se queim ado, m as tom ou outro gole, com o se quisesse m ostrar que estava à altura do desafio. Enfrentava até m esm o o café.

— Na prim eira vez que passei o dia de Natal de plantão, passei o dia inteiro j ogando xadrez com o sargento.

Ela finalm ente falou:

— Sorte sua.

— Pois é — ele assentiu, lem brando-se da ocasião. — Mas, naquela época, eu não pensava assim . Estava esperando m uita ação.

Quarenta anos depois, ele conseguira aquilo pelo que tinha esperado, e agora queria contribuir. Retribuir o presente. Queria seu tem po de volta.

— Você ganhou?

Ele acordou do transe em que estava.

— Ganhei o quê?

— O j ogo de xadrez.

— Não — disse ele, com um a risada. — Deixei o sargento ganhar.

Ela torceu o nariz.

— Eu nunca deixaria você ganhar.

— Não duvido disso nem por um segundo.

Im aginando que o café quente havia chegado à tem peratura certa, Raphie finalm ente tom ou um gole e pôs a m ão sobre a garganta, tossindo e cuspindo, fingindo que estava m orrendo. Soube im ediatam ente que, apesar do esforço que estava fazendo para m elhorar o astral, aquilo tinha sido um a brincadeira de m au gosto.

Jessica ergueu um a sobrancelha e continuou a beber.

Ele riu, e o silêncio continuou.

— Você vai ficar bem — Raphie lhe assegurou.

Ela assentiu outra vez e respondeu de m aneira lacônica, com o se j á soubesse.

— Sim . Já ligou para Mary ?

Ele confirm ou com um aceno de cabeça.

— Na m esm a hora. Ela está com a irm ã. — Um a m entirinha branca, inocente, para um a época de festas natalinas. — Você ligou para alguém ?

Ela fez que sim com a cabeça, m as desviou o olhar sem dizer m ais nada. — Você... você contou a ela?

— Não. Não.

— Vai contar?

Ele olhou para algum ponto indefinido outra vez.

— Não sei. Você vai contar a alguém ?

Ela deu de om bros, com a expressão indecifrável com o sem pre. Indicou o corredor onde ficavam as celas.

— O Garoto do Peru ainda está esperando lá dentro.

Raphie suspirou.

— Que desperdício — disse sem deixar claro se o desperdício a que se referia era o de um a vida ou do seu próprio tem po. — Esse aí até que poderia se beneficiar se soubesse.

Jessica se deteve antes de tom ar m ais um gole e fixou nele aqueles olhos am endoados e quase negros por cim a da borda da caneca. Sua voz era tão sólida quanto a fé presente num convento, tão firm e e desprovida de dúvidas que ele nem precisou questionar a certeza que ela tinha.

— Conte a ele — disse ela, firm em ente. — Se nunca falarm os sobre o que aconteceu com ninguém , pelo m enos terem os contado a ele.