O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 4 de 29

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O Presente

O Garoto do Peru

 

Raphie entrou na sala de interrogatório com o se estivesse entrando na sala de estar de sua casa, prestes a se acom odar no sofá com os pés para cim a após um longo dia de trabalho. Não havia nada de am eaçador em seu com portam ento. Apesar de ter quase um m etro e noventa, não conseguia preencher o espaço que seu corpo ocupava. Sua cabeça ficava sem pre curvada num estado de contem plação, e as sobrancelhas, caídas, quase lhe cobriam os olhos do tam anho de ervilhas. A parte m ais alta das suas costas era levem ente curvada, com o se carregasse um a pequena concha para se proteger. Sobre a barriga havia um a concha bem m aior. Em um a das m ãos trazia um copo de isopor; na outra, a sua caneca da polícia de Nova York, cheia até a m etade.

O Garoto do Peru olhou para a caneca na m ão de Raphie.

— Legal. Só que não.

— Assim com o j ogar um peru congelado por um a j anela.

O garoto abriu um sorriso torto e com eçou a m astigar a ponta do cordão do capuz de seu casaco.

— O que o levou a fazer aquilo?

— Meu pai é um idiota.

— Eu percebi que aquilo não era um presente de Natal em hom enagem ao m elhor pai do ano. O que o fez pensar no peru?

Ele deu de om bros.

— Minha m ãe disse para eu tirá-lo do freezer — ele explicou.

— Então, com o ele saiu do freezer e foi parar no chão da casa do seu pai?

— Eu o carreguei na m aior parte do cam inho, e ele voou pelos últim os m etros. — O garoto abriu aquele sorriso torto outra vez.

— Quando vocês estavam planej ando com ê-lo?

— Às três horas.

— O tem po necessário para descongelar cada dois quilos de carne de peru é de, no m ínim o, 24 horas. O peru tinha quase sete quilos. Você deveria ter tirado o peru do freezer três dias antes, se tinha a intenção de com ê-lo hoj e.

— Se você diz, deve ser porque sabe das coisas, Ratatouille. — Ele olhou para Raphie com o se o policial fosse louco. — Se eu tam bém recheasse o peru com banana, isso aliviaria a m inha situação?

— A razão pela qual eu estou m encionando isso é que, se você o tivesse tirado do freezer quando deveria, ele não estaria duro o bastante para atravessar um a j anela. Isso pode parecer um ato prem editado para um j úri. Além disso, rechear um peru com banana não é um a receita inteligente.

— Eu não planej ei fazer isso! — ele berrou, dem onstrando a idade que tinha.

Raphie tom ou o seu café e observou o adolescente.

O garoto olhou para o copo que estava à sua frente e torceu o nariz.

— Não tom o café.

— Tudo bem . — Raphie ergueu o copo de isopor da m esa e despej ou o conteúdo em sua caneca. — Ainda está quente. Obrigado. Então, fale sobre a m anhã de hoj e. No que você estava pensando, filho?

— A m enos que você sej a o gordo desgraçado, dono da j anela pela qual eu j oguei o peru, então não sou seu filho. E o que é isso, um a sessão de terapia ou um interrogatório? Você vai m e autuar por algum a coisa ou o quê?

— Estam os esperando para saber se o seu pai vai prestar queixa.

— Não vai — disse ele, revirando os olhos. — Ele não pode fazer isso. Tenho m enos de 16 anos. Por isso, se você m e deixar ir em bora agora, não vai m ais perder seu tem po.

— Você j á m e fez perder um bom tem po hoj e.

— É Natal. Duvido que haj a m uita coisa para fazer por aqui. — Ele olhou para a barriga de Raphie. — Além de com er donuts.

— Você ficaria surpreso se soubesse.

— Então m e surpreenda.

— Um garoto idiota j ogou um peru por um a j anela na m anhã de hoj e.

Ele revirou os olhos e olhou para o relógio na parede.

— Onde estão m eus pais?

— Lim pando a gordura no chão da sala.

— Eles não são m eus pais — retrucou ele. — Pelo m enos, ela não é m inha m ãe. Se ela vier com ele para m e buscar, eu não vou sair daqui.

— Oh, eu duvido m uito que eles venham buscá-lo. — Raphie enfiou a m ão no bolso e tirou um bom bom . Ele o desem brulhou lentam ente, fazendo barulho com a em balagem em m eio ao silêncio da sala. — Já percebeu que os bom bons de m orango sem pre sobram na caixa? — Ele sorriu antes de enfiá-lo na boca.

— Aposto que não sobra nenhum na caixa quando você está por perto.

— Seu pai e a com panheira dele...

— Quero que fique registrado — o Garoto do Peru interrom peu Raphie e se inclinou para perto do gravador. — Ela é um a puta.

— Eles podem vir até aqui para prestar queixa.

— Meu pai não faria isso. — Ele engoliu em seco, os olhos inchados pela frustração.

— É exatam ente isso que ele está pensando em fazer.

— Não está, não — choram ingou o garoto. — Se estiver, é porque ela o está influenciando. Aquela vaca.

— É m ais provável que ele preste queixa porque agora a neve está caindo na sala de estar da casa dele.

— Está nevando? — Ele parecia um a criança novam ente, com os olhos arregalados e cheios de esperança.

Raphie chupou o bom bom .

— Algum as pessoas sim plesm ente m ordem os chocolates. Eu prefiro chupá-los.

— Chupe isso aqui — o Garoto do Peru agarrou a virilha.

— É m elhor dizer isso para o seu nam orado.

— Não sou gay — bufou ele. Em seguida, inclinou-se para a frente e a criança retornou. — Está nevando de verdade? Deixe eu dar um a olhada lá fora, por favor. Só vou olhar pela j anela.

Raphie engoliu o bom bom e apoiou os cotovelos sobre a m esa. Falou com firm eza.

— Um a chuva de cacos de vidro caiu sobre o bebê de dez m eses.

— E daí? — rosnou o garoto, recostando-se em sua cadeira, m as parecia estar preocupado. Com eçou a puxar um pedaço de pele que havia ao redor de um a unha.

— Ele estava ao lado da árvore de Natal, onde o peru caiu. Por sorte ele não se cortou. Estou falando do bebê, não do peru. O peru sofreu vários ferim entos. Não sabem os se ele vai sobreviver.

O garoto parecia estar aliviado e confuso ao m esm o tem po.

— Quando a m inha m ãe vai chegar para m e buscar?

— Ela está a cam inho.

— A garota com aqueles... — ele levou as m ãos em concha para diante do tórax — ... peitões disse a m esm a coisa há duas horas. O que aconteceu com a cara dela, por falar nisso? Vocês dois têm um caso? Andaram brigando?

Raphie se irritou com a m aneira com que o garoto falava sobre Jessica, m as m anteve a calm a. Não valia a pena deixar que aquela provocação o afetasse. Valeria m esm o a pena com partilhar aquela história com ele?

— Talvez a sua m ãe estej a dirigindo bem devagar. As ruas estão m uito escorregadias com todo esse gelo.

O Garoto do Peru pensou naquilo e pareceu bastante preocupado. Continuou puxando o pedaço de pele ao redor da unha.

— O peru era grande dem ais — acrescentou ele, após um a longa pausa. Ele abria e fechava os dedos da m ão sobre a m esa. — Ela com prou um peru do m esm o tam anho que costum ava com prar quando ele m orava com a gente. Pensou que ele voltaria.

— Sua m ãe pensava isso — Raphie afirm ou em vez de perguntar.

O garoto confirm ou com um aceno de cabeça.

— Quando o tirei do freezer, fiquei louco. Era grande dem ais.

Silêncio outra vez.

— Não achei que o peru fosse quebrar o vidro — disse ele, com a voz m ais baixa agora. — Quem im aginaria que um peru conseguiria quebrar um a j anela?

Ele olhou para Raphie com tam anho desespero que, apesar da seriedade da situação, Raphie teve de lutar para não sorrir com o infortúnio do garoto.

— Eu só queria dar um susto neles. Eu sabia que estariam lá dentro brincando de fam ília feliz.

— Bem , eles definitivam ente não estão felizes agora.

O garoto não disse nada, m as parecia estar m enos contente com a situação do que quando Raphie entrou na sala.

— Um peru de sete quilos parece ser grande dem ais m esm o para três pessoas.

— Sim . Bem , o m eu pai é um gordo desgraçado. O que eu posso fazer?

Raphie decidiu que estava perdendo seu tem po. Aborrecido, levantou-se para sair da sala.

— A fam ília do m eu pai costum ava vir j antar conosco todos os anos — disse o garoto num a tentativa de m antê-lo na sala. — Mas decidiram não vir este ano. Aquele peru do inferno era grande dem ais para nós dois — repetiu ele, balançando a cabeça. Deixando a irreverência de lado, m udou o tom de voz. — Quando é que a m inha m ãe vai chegar?

Raphie deu de om bros.

— Não sei. Provavelm ente quando você aprender sua lição.

— Mas hoj e é Natal.

— Um dia tão bom quanto qualquer outro para se aprender um a lição.

— Lição é coisa de criança.

Raphie sorriu ao ouvir aquilo.

— O que foi? — vociferou o garoto, defensivo.

— Eu aprendi um a hoj e.

— Ah, esqueci de dizer que lições tam bém são coisas para idiotas.

Raphie andou em direção à porta.

— Tudo bem , que lição você aprendeu? — o garoto perguntou rapidam ente, e Raphie percebeu em sua voz que ele não queria ficar sozinho.

Raphie parou e virou-se, dem onstrando a tristeza que sentia.

— Deve ter sido um a lição de m erda.

— Você vai descobrir que a m aioria das lições é assim .

O Garoto do Peru sentou-se curvado sobre a m esa, o capuz pendurado sobre os om bros, as orelhas pequenas e rosadas surgindo por baixo do cabelo ensebado, as faces cobertas por espinhas averm elhadas e olhos de um azul cristalino. Era só um a criança.

Raphie suspirou. Com certeza, seria forçado a se aposentar m ais cedo por contar aquela história. Ele puxou a cadeira e sentou-se outra vez.

— Quero que fique registrado que foi você quem pediu que eu lhe contasse esta história.