O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 23 de 29

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O Presente

Surpresa!

 

Quando Lou chegou à festa do seu pai — atrasado —, estava suando profusam ente, com o se estivesse com um a febre alta, apesar do frio de dezem bro que tinha o poder de congelar até os ossos de um a pessoa, em brenhando-se por entre as articulações e assobiando ao redor do corpo. Estava sem fôlego e enj oado ao m esm o tem po. Aliviado e exultante. Estava exausto. Tudo ao m esm o tem po.

Decidira prom over a festa do seu pai no fam oso prédio que Gabe adm irara no prim eiro dia em que conversaram . Com o form ato de um a vela náutica, estava ilum inado em azul — o m esm o prédio que conquistou vários prêm ios arquitetônicos e que certam ente iria im pressionar seus pais e os parentes que vinham do restante do país. Bem em frente ao prédio, o m astro do navio viking estava decorado com luzes de Natal.

Quando chegou, Marcia estava fora do prédio, discutindo com um enorm e porteiro vestido de preto. Encapotados em seus casacos, chapéus e cachecóis, um grupo de pouco m ais de vinte pessoas estava ao redor, agitando os pés sobre a calçada para se aquecerem .

— Oi, Marcia — disse Lou alegre, tentando dar um fim àquela discussão. Estava louco para lhe contar sobre a prom oção, m as precisou m order a língua; tinha que encontrar Ruth e contar a ela prim eiro.

Marcia se virou para encará-lo, com os olhos verm elhos e inchados, e o delineador borrado.

— Lou — ela disse, seca. A irritação não desapareceu, intensificou-se e estava totalm ente direcionada a ele.

O estôm ago de Lou se revirou, o que era raro. Não costum ava se im portar com o que sua irm ã pensava, m as, naquela noite, estava se im portando m ais do que habitualm ente.

— O que houve?

Ela deixou o grupo de pessoas para trás e partiu para o ataque.

— Estou tentando falar com você há um a hora.

— Eu lhe disse que estava na festa da m inha em presa. O que há de errado?

— Você é o que há de errado — disse ela, trêm ula, com a voz em algum lugar entre a raiva e a tristeza profunda. Inspirou o ar profundam ente e depois exalou. — Hoj e é o aniversário do nosso pai, e, por consideração a ele, não vou estragar ainda m ais a data provocando um a discussão. Tudo o que eu tenho a lhe dizer é o seguinte: você poderia, por favor, dizer a esse brutam ontes para deixar que nossa fam ília entre no prédio? A nossa fam ília! — ela ergueu a voz até o ponto de estar quase gritando. — A fam ília que veio de todos os cantos do país para com partilhar este m om ento. — Sua voz ficou chorosa outra vez. — O dia especial para o nosso pai. Mas, em vez de estar com a sua fam ília, ele está lá em cim a em um salão praticam ente vazio, enquanto todos aqui estão sendo barrados. Cinco pessoas j á foram para casa.

— O quê? O quê? — O coração de Lou saltava até a sua garganta. Ele correu até os porteiros. — Oi, rapazes, m eu nom e é Lou Suffern. — Ele estendeu a m ão e os porteiros o cum prim entaram com o ânim o de um peixe m orto. — Sou eu quem está organizando a festa hoj e. — Atrás dele, Marcia bufava e resm ungava. — Qual é o problem a aqui? — Ele olhou para as pessoas que estavam ao redor, e reconheceu todos os rostos. Todos eram am igos próxim os da fam ília, cuj os lares ele visitou enquanto crescia. Todos tinham m ais de 60 anos; alguns tinham a idade do seu pai, alguns eram m ais velhos. Estavam na calçada gelada em dezem bro, casais idosos, m aridos e esposas se agarravam um ao outro, alguns apoiados em m uletas, um hom em num a cadeira de rodas. Em suas m ãos, havia pacotes reluzentes e cartões, garrafas de vinho e cham panhe, presentes que foram em brulhados com cuidado e m uito carinho para a grande noite. E agora estavam todos ali, na calçada, tendo a entrada barrada para a festa do am igo que conheciam há tanto tem po.

— Sem convites, sem entrada — explicou um porteiro.

Um dos casais fez sinal para um táxi e andou devagar até o lugar onde o veículo estacionou. Marcia saiu correndo atrás deles, tentando convencê-los a ficar. Lou riu, irritado.

— Cavalheiros, vocês acham que essas pessoas aqui são penetras na festa do m eu pai? — Ele baixou a voz. — Vam os lá, olhem para eles. Meu pai está celebrando 70 anos, e estes aqui são os am igos dele. Obviam ente, houve algum erro com os convites. Eu disse à m inha secretária Alison para elaborar um a lista de convidados.

— Essas pessoas não estão na lista. Este prédio tem regras m uito claras sobre quem entra e quem ...

— Pro inferno com as regras! — disse ele, furioso, por entre os dentes, para que as pessoas que estavam atrás dele não ouvissem . — É o aniversário do m eu pai e esses são seus convidados — prosseguiu ele, firm e, e m ais enraivecido agora. — E, com o sou eu quem está pagando as despesas da festa, estou dizendo a vocês para deixarem essa gente entrar.

Mom entos depois, o grupo todo estava esperando no enorm e saguão pelos elevadores que os levariam ao últim o andar, enquanto tentavam aquecer seus corpos envelhecidos.

— Pode relaxar agora, Marcia, está tudo resolvido. — Lou tentou am enizar a situação com sua irm ã enquanto estavam sozinhos no elevador. Marcia se recusou a lhe dirigir a palavra ou m esm o a olhar para ele nos últim os dez m inutos, enquanto colocavam todos os convidados no elevador rum o à cobertura.

— Deixe disso, Marcia — ele riu, discretam ente. — Não precisa agir assim .

— Lou. — O olhar no rosto da irm ã foi o suficiente para quebrar o sorriso de Lou e fazer com que ele engolisse em seco. — Eu sei que você acha que sou dram ática, controladora e irritante, e que você pensa m uitas outras coisas a m eu respeito, coisas que eu tenho certeza de que não quero saber. Mas não estou sendo dram ática agora. Estou m agoada. Não por m im , m as por nossos pais.

Os olhos de Marcia se encheram de lágrim as, e sua voz, que era sem pre tão gentil e com preensiva, m udou de tom .

— De todas as coisas egoístas que você fez, esta foi, definitivam ente, a pior. Fiquei calada enquanto você ignorava nossos pais ou fazia com que esperassem que você aparecesse, enquanto você traía sua esposa, enquanto ridicularizava e zom bava do seu irm ão, flertava com a esposa dele, ignorava os seus próprios filhos e enquanto m e provocava em todas as ocasiões possíveis. Eu fui, todos nós fom os, extrem am ente tolerantes com você, Lou, m as agora acabou. Você não m erece a fam ília que tem . Esta noite, você passou dos lim ites. Você m agoou nossa m ãe, nosso pai, e você não é m ais m eu irm ão.

— Ei, ei, ei, espere um pouco, Marcia! — Lou sentia-se com o se tivesse sido atropelado. Nunca ninguém falara com ele daquela m aneira, e aquilo o atingiu com força, m agoando-o profundam ente. Ele engoliu em seco. — Eu sei que todas aquelas pessoas não deveriam ter sido barradas, m as resolvi o problem a. De onde vem todo esse rancor?

Marcia riu am argam ente.

— O que você viu lá fora não é nem a m etade do desastre — disse ela, respirando fundo. — Surpresa! — em endou ela, sem qualquer em oção na voz, quando as portas do elevador se abriram e a visão do salão encheu os olhos de Lou.

Olhando ao redor, o coração de Lou afundou im ediatam ente, com o se estivesse caindo em seu estôm ago, onde o ácido gástrico com eçou a corroê-lo. Por todo o salão havia m esas para j ogos de cassino e garçonetes usavam traj es curtos e desfilavam por entre as pessoas com bandej as de coquetéis. Era um a festa im pressionante, exatam ente com o a que Lou se lem brava de ter com parecido quando o prédio foi inaugurado, m as percebia agora que aquilo não era adequado para o aniversário de 70 anos do seu pai. Não era para o seu pai, que detestava celebrações em sua hom enagem , que detestava forçar am igos e parentes a se reunirem apenas por sua causa, cuj a ideia de um dia tranquilo era sair para pescar sozinho. Sendo um hom em m odesto, a própria ideia de oferecer um a festa o constrangia, m as a fam ília o convencera a celebrar seu aniversário pela prim eira vez, um a ocasião grandiosa na qual fam ília e am igos espalhados por todo o país se reuniriam para com em orar com ele. Não queria aquilo, m as, após algum tem po, acabou aceitando a ideia e ali estava ele, com seu m elhor terno, no m eio de um cassino, onde as funcionárias usavam m inissaias e gravatas-borboleta verm elhas, onde o DJ tocava m úsica eletrônica e onde as pessoas precisavam desem bolsar um m ínim o de 25 euros para j ogar num a das m esas. No centro de outra m esa, um hom em sem inu estava com o corpo coberto por bolos e frutas.

Num dos lados da sala, reunidos num grupo deslocado, estava a fam ília de Lou. Sua m ãe, com os cabelos arm ados num penteado elegante, vestia um terninho lilás novo com um a echarpe ao redor do pescoço, a alça da bolsa por cim a do om bro, agarrada firm e com as duas m ãos, enquanto ela observava o que acontecia ao redor, sem saber com o agir. Seu pai estava ao lado dos irm ãos que lhe restavam — um a freira e um padre —, parecendo m ais deslocado do que Lou j am ais o vira. Cada m em bro da fam ília olhou para ele e desviou os olhos logo em seguida, ignorando-o propositadam ente. A única pessoa que abriu um leve sorriso foi seu pai, que o cum prim entou com um m ovim ento de cabeça e um aceno.

Lou olhou ao redor, procurando por Ruth. Ela estava no lado m ais distante do salão, conversando educadam ente com o restante dos convidados, que se sentiam desconfortáveis naquele lugar. Seus olhares se cruzaram e a expressão no rosto dela era fria. Havia um a tensão constrangedora no ar, e a culpa era toda de Lou. Sentia-se constrangido. Queria resolver a situação; queria fazer com que todos se sentissem m elhor.

— Com licença. — Lou abordou o hom em de terno que estava ao seu lado, observando a m ovim entação das pessoas. — Você é o encarregado da festa?

— Sim , Jacob Morrison, o gerente. — Ele estendeu a m ão. — Você é Lou Suffern, e nós conversam os na noite da inauguração há alguns m eses. Lem bro-m e de que a festa foi até bem tarde — disse ele, piscando o olho.

— Sim , eu m e lem bro — respondeu Lou, em bora não se lem brasse do hom em . — Estava im aginando se você poderia m e aj udar a fazer algum as m udanças aqui.

— Ah! — Jacob pareceu surpreso. — Tenho certeza de que tentarem os resolver quaisquer problem as. O que tem em m ente?

— Cadeiras. — Lou tentou não soar ríspido. — Este é o aniversário de 70 anos do m eu pai. Poderia trazer algum as cadeiras para ele e para os outros convidados?

— Ah! — Jacob fez um a careta. — Receio que este sej a um evento sem cadeiras. Não havia m enção a cadeiras no orçam ento...

— Pagarei por quaisquer despesas extras, é claro. — Lou exibiu seus dentes brancos. — Desde que sej a possível assentar os traseiros que j á não estej am em cadeiras de rodas.

— Sim , é claro. — Jacob se virou para sair quando Lou voltou a cham á-lo.

— E a m úsica — disse Lou. — Seria possível tocar algo m ais tradicional do que isso?

— Tradicional? — Jacob abriu um sorriso questionador.

— Sim , m úsica irlandesa tradicional. Para o m eu pai, que tem 70 anos — disse Lou, por entre os dentes. — Em vez dessa m úsica eletrônica, acid j azz, funk, house, ou sej a lá com o a cham am . Não é exatam ente o estilo de que m eu pai m ais gosta.

— Verei o que posso fazer.

A atm osfera entre os dois estava ficando m ais pesada.

— E a com ida? Foi Alison quem escolheu a com ida? Além do hom em sem inu coberto de crem e, ao lado de onde a m inha m ãe está neste m om ento.

— Sim , é claro. Tem os tortas de carneiro, lasanha, esse tipo de coisa.

Lou com em orou em silêncio.

— Você sabe, nós discutim os todos os possíveis problem as com Alison antecipadam ente — explicou Jacob.

— Discutiram ?

— Sim , senhor. Não costum am os receber festas de aniversário de 70 anos. — Ele sorriu, m as a expressão rapidam ente se desfez. — A questão é que tem os um a arrum ação e decoração próprias aqui, especialm ente para o período do Natal, e a casa é assim — disse ele, gesticulando em direção à sala, orgulhoso. — O tem a do cassino faz bastante sucesso para eventos corporativos e sim ilares — explicou ele.

— Com preendo. Bem , seria m elhor saber disso com antecedência — respondeu Lou educadam ente.

— Mas o contrato tem a sua assinatura — garantiu Jacob. — Tem os todos os docum entos explicando os detalhes da noite. Procuram os nos certificar com Alison de que a sua assinatura estaria nos form ulários, senhor.

— Ah, sim ! — Lou engoliu em seco e olhou ao redor do salão. A culpa era sua. É claro. — É claro. Obviam ente, isso passou despercebido. Obrigado.

Quando Lou se aproxim ou da fam ília, eles se afastaram e se separaram dele com o se estivesse cheirando m al. Seu pai, é claro, não acom panhou os outros e recebeu seu filho do m eio com um sorriso.

— Feliz aniversário, pai — disse Lou discretam ente, estendendo a m ão para o seu pai.

— Obrigado — sorriu o hom em , apertando a m ão do filho. Apesar de tudo isso, apesar do que Lou fizera, seu pai ainda sorria.

— Perm ita que eu lhe traga um a Guinness — disse Lou, virando-se na direção do bar.

— Oh, eles não servem Guinness aqui.

— O quê?

— Som ente cervej a escura, cham panhe e um coquetel verde esquisito — disse seu pai, bebendo do copo que tinha na m ão. — Estou tom ando água. Sua m ãe está m ais feliz. Ela gosta de cham panhe, em bora não estej a m uito em polgada — ele riu, tentando apaziguar a situação.

Quando ouviu o m arido m encioná-la na conversa, a m ãe de Lou se virou e olhou para o filho com um olhar que o fez m urchar.

— Bem , bem — disse seu pai, suavem ente. — De qualquer m odo, não posso beber esta noite. Vou sair para velej ar com Quentin am anhã, em Howth — disse ele, orgulhoso. — Ele está participando da regata Brass Monkey s e está com um hom em a m enos. Adivinhe quem vai entrar na equipe para substituí-lo — disse ele, apontando para o próprio peito com o polegar.

— Você não vai subir naquele barco para participar da regata, Fred. — A m ãe de Lou revirou os olhos. — Você m al consegue ficar em pé num dia de vento forte. Im agine se estiver num barco? Estam os em dezem bro, aquelas águas ficam bastante agitadas.

— Tenho 70 anos, posso fazer o que eu quiser.

— Você tem 70 anos e precisa parar de fazer o que quer ou não chegará aos 71 — esbravej ou ela, e todos riram , incluindo Lou.

— Você terá que encontrar outra pessoa, querido — disse ela, olhando para Quentin, que estava cabisbaixo.

— Eu posso fazer isso — disse Alexandra ao m arido, colocando os braços ao redor dele, e Lou teve que desviar o olhar, sentindo a invej a dar sinais de vida dentro dele.

— Você nunca com petiu num a regata antes — disse Quentin, sorrindo. — De j eito nenhum .

— A que horas será a regata? — perguntou Lou.

Ninguém respondeu.

— É claro que posso — Alexandra sorriu. — Não vai ser com o sem pre fizem os? Vou levar m eu biquíni e deixar que o restante da tripulação leve os m orangos e o cham panhe.

A fam ília riu outra vez.

— A que horas será a regata? — Lou perguntou novam ente.

— Bem , se ela com petir usando um biquíni, então eu definitivam ente vou querer que ela estej a na equipe — alfinetou Quentin.

Todos riram de novo.

Com o se repentinam ente ouvisse a pergunta de Lou, em bora não o olhasse nos olhos, Quentin respondeu.

— A regata com eça às onze horas. Talvez eu ligue para Stephen. — Quentin tirou o celular do bolso.

— Eu entro na sua equipe — disse Lou, e todos olharam para ele, chocados. — Eu entro na sua equipe — ele repetiu com um sorriso.

— Talvez você devesse ligar para Stephen antes, am or — disse Alexandra, gentilm ente.

— Sim — respondeu Quentin, voltando a se ocupar com o telefone. — Boa ideia. Vou procurar um lugar m ais calm o. — Ele passou por Lou e deixou o salão.

Lou sentiu a agressividade no ar. A fam ília lhe dava as costas e falava sobre lugares onde ele nunca estivera, sobre pessoas com quem ele nunca conversara. Ficou ali, sentindo-se deslocado, enquanto os outros riam de piadas que ele não entendia, piadas internas que traziam lem branças a todos, m enos a ele. Era com o se estivessem falando um a linguagem secreta, um idiom a que Lou era totalm ente incapaz de com preender. Após algum tem po, ele parou de fazer perguntas que nunca eram respondidas e parou tam bém de escutar, e percebeu que ninguém se im portava com isso tam bém . Estava distante dem ais da fam ília para tentar entrar, num a única noite, num lugar onde não havia nenhum a vaga disponível.