O Presente
O melhor dia
Às nove horas da m anhã de sábado, no dia seguinte à festa do septuagésim o aniversário de seu pai, Lou Suffern estava sentado no j ardim atrás de sua casa, erguendo o rosto e com os olhos fechados para receber o sol da m anhã. Esforçara-se para passar por cim a da cerca que separava seu j ardim particular dos oito m il m etros quadrados — onde trilhas de cascalhos e seixos rolados, canteiros e vasos gigantescos sinalizavam o cam inho por onde se devia andar — do terreno acidentado e selvagem que se estendia além da interferência hum ana. Moitas am areladas de carquej a estavam espalhadas por toda parte, com o se alguém em Dalkey tivesse disparado um a arm a de paintball em direção aos bairros m ais ao norte. A casa de Lou e Ruth ficava exatam ente no topo daquela m ontanha e o j ardim nos fundos tinha um a vista am pla para o vilarej o de Howth, para o porto, m ais abaixo, e, m ais adiante, para a ilha do Olho da Irlanda. Frequentem ente, do alto da colina, tam bém era possível ver o m onte Snowdon no Parque Nacional de Snowdonia, no país de Gales, a cento e trinta e oito quilôm etros de distância; apesar disso, neste dia de céu claro, Lou Suffern tinha olhos som ente para o futuro.
Lou estava sentado sobre um a pedra e inspirou o ar fresco. Seu nariz, entorpecido pelo frio, escorria; suas bochechas pareciam estar congeladas e suas orelhas doíam quando o vento batia contra elas. Seus dedos tinham adquirido um a coloração azul-arroxeada, com o se estivessem sendo estrangulados nas articulações. O tem po não era bom para o corpo, m as era ideal para velej ar. Diferente dos j ardins cuidadosam ente conservados que havia em sua casa e nas casas de seus vizinhos, a carquej a selvagem fora deixada livre para crescer e se espalhar com o quisesse, com o o segundo filho, criado com m ais espaço e m enos regras. Espalhara-se pela encosta e firm ara sua autoridade naquela região de colinas. O terreno era m ontanhoso e acidentado, alternando as altitudes sem qualquer aviso, sem se desculpar por nada e sem oferecer qualquer assistência aos m ontanhistas que passavam por ali. Era o aluno no fundo da sala de aula, silencioso, m as participativo, recostado em sua cadeira para observar as arm adilhas que havia preparado. Apesar dos contornos erm os das colinas e de toda a m ovim entação de um vilarej o de pescadores, a cidade em si sem pre tivera um a aura de tranquilidade. Seu espírito era paciente, com o o de um avô ou de um a avó; faróis que guiavam os habitantes das águas em segurança para a terra; penhascos que se erguiam com o um a linha im penetrável de guerreiros espartanos, ferozes contra as intem péries, com peito arfante e m úsculos desenhando o abdôm en. Havia o ancoradouro que agia com o um m ediador entre a terra e o m ar, e que, obedientem ente, levava as pessoas até onde era possível ir; a torre Martello que resistia, com o um soldado envelhecido e solitário que se recusava a deixar seu posto, m esm o depois do fim dos conflitos. Apesar das constantes raj adas de vento que atacavam a região, a cidade continuava firm e e resoluta.
Lou não estava sozinho enquanto ponderava sobre sua vida. Ele m esm o estava sentado ao seu lado. Estavam vestidos de m aneira diferente: um pronto para ir velej ar com o irm ão, e o outro, para patinar no gelo com sua fam ília. Olhavam para o m ar, am bos observando o brilho do sol no horizonte, parecido com um a gigantesca m oeda de prata que fora lançada na água para dar sorte e que, agora, cintilava sob as ondas. Estavam sentados ali há um bom tem po, sem dizer nada. Apenas sentindo-se bem na com panhia um do outro.
Lou, sobre o gram ado coberto de m usgo, olhou para Lou, sentado na pedra, e sorriu.
— Sabe o quanto eu estou feliz agora? Estou feliz vezes dois — disse ele, rindo.
O Lou sentado na pedra não sorriu.
— Quanto m ais eu m e ouço contando piadas, m ais eu percebo que não sou engraçado.
— Sim , eu tam bém tenho a m esm a im pressão. — Lou puxou um a longa folha da gram a selvagem do chão e rolou-a entre os dedos arroxeados. — Mas tam bém eu percebo que sou um cara m uito bonito.
Os dois riram .
— Você tam bém tem o hábito de não deixar as outras pessoas falarem — disse o Lou que estava sobre a pedra e lem brava-se de ter visto seu outro eu com andar discussões.
— Eu percebi. Eu realm ente deveria...
— E você tam bém não presta atenção quando as pessoas falam com você — acrescentou ele, im erso em pensam entos. — E suas histórias sem pre são longas dem ais. As pessoas não estão tão interessadas quanto você pensa — disse ele. — Você não pergunta às pessoas o que elas estão fazendo. Deveria com eçar a fazer isso.
— Fale por si m esm o — disse o Lou que estava sobre a gram a, sem se deixar abalar.
— Mas estou fazendo isso.
Continuaram sentados em silêncio, porque Lou Suffern recentem ente aprendera que m uitas coisas vinham do silêncio e da contem plação; não era preciso ir de um lado para outro o tem po inteiro. Um a gaivota se aproxim ou, dando um voo rasante, piou, olhou-os com desconfiança e voou para longe.
— Ela vai falar sobre nós para seus am igos — disse o Lou que estava na pedra.
— Não precisam os nos preocupar tanto com isso, porque elas todas parecem iguais tam bém — disse o outro Lou.
Os dois riram outra vez.
— Não acredito que estou rindo das m inhas próprias piadas — O Lou sobre a gram a esfregou os olhos. — É constrangedor.
— O que você acha que está acontecendo aqui? — perguntou Lou seriam ente, em poleirado em sua pedra.
— Se você não sabe, então eu tam bém não sei.
— Sim , m as, se eu tenho algum as teorias, você tam bém tem .
Eles se entreolharam , cada um sabendo exatam ente o que outro estava pensando.
Lou escolheu suas palavras cuidadosam ente, deixando que rolassem por sua boca antes de saírem .
— Não sou supersticioso, m as creio que seria m elhor guardarm os essas teorias para nós m esm os, não acha? As coisas são com o são. Vam os m antê-las assim .
— Não quero que ninguém saia m agoado — disse o Lou da gram a.
— Você ouviu o que eu acabei de dizer? — perguntou ele, irritado. — Eu disse para não falar sobre isso.
— Lou! — Ruth os cham ou do j ardim , e aquilo quebrou o encanto que havia entre eles.
— Estou indo! — gritou ele, erguendo a cabeça acim a da cerca. Viu Pud, que ainda ensaiava seus prim eiros passos, escapando rum o à liberdade pela porta da cozinha, correndo desaj eitado pelo gram ado com o se fosse um ovo chocado prem aturam ente, de onde apenas as pernas tinham saído. Arrastava os pés enquanto perseguia um a bola, tentando agarrá-la, m as, sem querer, chutava-a cada vez que se aproxim ava dela. Finalm ente, ele entendeu e parou de correr antes de alcançar a bola e chegou lentam ente por trás dela, com o se o brinquedo fosse sair em disparada por si só. Ergueu um pé. Com o não estava acostum ado a se equilibrar sobre um a perna só, caiu para trás sobre o traseiro gorducho sem se m achucar. Lucy correu para fora, j á com seu chapéu e o cachecol, e aj udou-o a se erguer.
— Ela é m uito parecida com Ruth. — Ele ouviu um a voz ao lado e percebeu que Lou havia se aproxim ado.
— Eu sei. Vej a a careta que ela faz. — Eles observaram Lucy enquanto ela dava um a bronca em Pud por ser descuidado. Os dois riram exatam ente no m esm o m om ento em que ela fez a careta.
Pud gritou quando Lucy tentou levá-lo pela m ão para dentro de casa. Afastou-se dela e ergueu a m ão no ar num gesto de rebeldia infantil. Em seguida, resolveu voltar sozinho para dentro.
— De quem você se lem bra ao olhar para ele? — disse Lou.
— Bem , é m elhor irm os. Você pode ir a pé até o porto, e eu levarei Ruth e as crianças para a cidade no carro. Certifique-se de que você vai estar lá no horário certo, entendeu? Eu praticam ente tive que subornar Quentin para concordar em deixar que eu o aj udasse hoj e.
— É claro que eu estarei lá. Não vá quebrar um a perna.
— Não vá se afogar.
— Vam os aproveitar o dia. — Lou estendeu a m ão e cum prim entou a si m esm o. O aperto de m ão se transform ou num abraço, e Lou estava na encosta daquela colina dando em si m esm o o abraço m ais forte e carinhoso que j á recebera em m uito tem po.
Lou chegou ao porto duas horas antes da regata. Fazia m uitos anos que não com petia; queria se acostum ar à conversa, sentir com o era estar num barco outra vez. Além disso, precisava construir um a relação com o restante da equipe: a com unicação era m uito im portante e ele não queria decepcionar ninguém . Na verdade, não queria decepcionar Quentin. Encontrou o belo Alexandra, o veleiro de quarenta pés que Quentin com prara há cinco anos, no qual gastara cada centavo de que não precisava para a sua sobrevivência e onde passava cada m om ento em que estava acordado. Já a bordo, Quentin e cinco outros tripulantes estavam agrupados, com as cabeças bem próxim as, repassando os detalhes da rota e suas táticas.
Lou fez as contas. Deveria haver apenas seis pessoas no barco. Sua presença faria com que a equipe tivesse sete m em bros.
— Oi, pessoal — disse ele, aproxim ando-se dos outros.
— Lou! — Quentin ergueu os olhos, surpreso, e Lou percebeu, naquele m om ento, por que havia seis pessoas. Quentin não acreditava que ele fosse aparecer.
— Não estou atrasado, não é? Você disse nove e m eia. — Lou tentou esconder sua decepção.
— Ah, sim , é claro. — Quentin tentou esconder sua surpresa. — Absolutam ente. Eu apenas, eu... — Ele se virou para os outros hom ens que estavam esperando e observando. — Deixe eu apresentá-lo ao resto da equipe. Am igos, este aqui é o m eu irm ão, Lou.
Um a expressão de surpresa passou de relance por alguns rostos.
— Não sabíam os que você tinha um irm ão — sorriu um deles, avançando para cum prim entar Lou. — Eu sou Geoff, sej a bem -vindo. Espero que você saiba o que está fazendo.
— Já faz algum tem po. — Lou olhou para Quentin sem m uita certeza. — Mas Quentin e eu frequentam os um bom núm ero de escolas de vela durante anos; é difícil esquecer. É com o andar de bicicleta, não é?
Eles riram e lhe deram as boas-vindas a bordo.
— E então, onde você quer que eu fique? — ele olhou para o irm ão.
— Você está m esm o a fim de fazer isso? — perguntou Quentin, discretam ente, longe dos outros.
— É claro que sim . — Lou tentou não se ofender. — Nas m esm as posições em que costum ávam os navegar?
— Você assum e o convés dianteiro?
— Sim , capitão — disse Lou, sorrindo e fazendo um a saudação.
Quentin riu e virou-se para o resto da tripulação.
— Bem , rapazes, quero ver todos trabalhando em harm onia. Lem brem -se: vam os conversar uns com os outros. Quero as inform ações fluindo no barco o tem po inteiro. Se vocês deixarem de fazer o que deveriam ter feito, gritem . Todos nós precisam os saber exatam ente o que está acontecendo. Se ganharm os a regata, eu pago a prim eira rodada no bar.
Todos vibraram de alegria.
— Bem , Lou... — Ele olhou para o irm ão e piscou. — Sei que você está querendo fazer isso há m uito tem po.
Em bora aquilo não fosse verdade, Lou não achou que seria um a boa ideia discordar.
— Você finalm ente vai ver do que Alexandra é capaz.
Lou deu um soco am istoso no braço do irm ão.
Ruth em purrou o carrinho de Pud por baixo do Arco dos Fuzileiros, e eles entraram em St. Stephen’s Green, um parque bem no centro da cidade de Dublin. Um rinque de patinação fora m ontado no gram ado, atraindo as pessoas que vinham fazer com pras e os turistas de outras cidades do país para participar daquela experiência única. Passando por baixo do lago cheio de patos e cam inhando na direção da ponte O’Connell, eles logo entraram num a terra de sonhos. Em vez dos j ardins bem cuidados de sem pre, um a feira natalina ocupava o lugar decorado, que parecia ter saído diretam ente de um film e. Quiosques que vendiam chocolate quente com m arshm allow, tortas de carne m oída e bolos de frutas estavam arm ados ao lado das trilhas, e os arom as de canela, cravo e m arzipã tom avam conta do ar. Os donos dos quiosques usavam fantasia de duende, m úsicas natalinas tocavam pelos alto-falantes, estalactites de gelo gotej avam da cobertura de cada um dos quiosques, e m áquinas sopravam flocos de neve artificial no ar.
O iglu do Papai Noel era o centro das atenções, e um a longa fila se form ava à sua porta, enquanto duendes vestidos com roupas verdes e sapatos pontudos se esforçavam para entreter as pessoas que aguardavam . Enorm es bengalas de doce listradas de verm elho e branco form avam um arco na frente da entrada do iglu, e bolhas de sabão saíam pela cham iné e flutuavam no céu. Num gram ado próxim o, um grupo de crianças — supervisionadas por um dos duendes — brincava de cabo de guerra contra um hom em gigante fantasiado. Um a árvore de Natal de sete m etros de altura fora erguida e decorada com guirlandas e bolas m etalizadas enorm es. Havia tam bém balões de água gigantes pendurados nos galhos. Sob eles, um a fila de crianças — em bora houvesse m ais pais do que crianças — j ogavam bolas cobertas de folhas de azevinho, tentando estourar os balões e libertar os prêm ios que estavam ali dentro. Um duende com o rosto averm elhado, m olhado pelos balões que estouravam , corria pelo gram ado recolhendo os presentes que estavam no chão, enquanto seu assistente enchia outros balões e passava-os a um terceiro, para que ele os pendurasse nos galhos outra vez. Não dem onstravam nenhum cansaço enquanto faziam seu trabalho.
O dedo indicador gorducho de Pud apontava para todos os lados, sem pre que algo novo atraía sua atenção. Lucy, que geralm ente conversava bastante, estava m uito quieta. Seu cabelo cor de chocolate fora cortado na altura do queixo, e a franj a pairava acim a das sobrancelhas que em olduravam os grandes olhos castanhos. Estava vestida com um casaco verm elho vivo que ia até os j oelhos, as lapelas, os enorm es botões e os colarinhos forrados com pelúcia preta, calças j ustas cor de crem e e sapatos pretos de verniz. Segurava-se no carrinho de Pud com um a m ão e praticam ente flutuava, perdendo-se em seu próprio m undo de sonhos. Vez por outra, ela via algum a coisa e olhava para Lou e Ruth com um sorriso im enso no rosto. Ninguém dizia nada. Não precisava. Eles entendiam o encanto da filha.
Após cruzarem a feira de Natal, eles chegaram ao rinque de patinação, que estava cheio de pessoas j ovens e idosas. A fila serpenteava ao lado do rinque, de m odo que aqueles que perdessem o equilíbrio e caíssem poderiam ser adm irados por espectadores que riam a cada queda engraçada.
— Por que não vão até lá assistir ao show? — disse Lou, indicando o pequeno espetáculo de m ím icos que estava sendo apresentado no coreto. Dezenas de crianças estavam sentadas em cadeiras dobráveis, encantadas pelo m undo m ágico à sua frente. — Eu guardarei o lugar na fila para nós.
Era um gesto generoso e egoísta ao m esm o tem po, pois Lou Suffern não poderia m udar tão drasticam ente da noite para o dia. Estava tentando passar o dia com a fam ília, m as seu BlackBerry j á estava ardendo em seu bolso e ele precisava de algum tem po a sós para verificá-lo antes que o aparelho explodisse.
— Certo, obrigada — disse Ruth, em purrando o carrinho de Pud para perto de Lou na fila. — Não vam os dem orar m uito.
— O que você está fazendo? — perguntou Lou, em pânico.
— Estou indo assistir ao show.
— Não vai levá-lo com você?
— Não. Ele está dorm indo. Ficará bem com você.
Ela se afastou com um a Lucy saltitante, enquanto Lou olhava para Pud sentindo um princípio de pânico e rezava para que ele não acordasse. Estava com um olho no BlackBerry, o outro em Pud, e um terceiro olho que nunca soubera que tinha num bando de adolescentes à sua frente, que, subitam ente, com eçaram a gritar e pular quando seus horm ônios com eçaram a dom iná-los. Cada berro de suas bocas e m ovim entos daquelas m ãos desaj eitadas eram um a am eaça ao seu filho, que dorm ia. Ele percebeu o volum e da m úsica “Jingle Bells” dim inuir nos alto-falantes e a m icrofonia, que soava com o um engavetam ento de cinco carros, irritar todos os ouvidos, quando um a voz anunciou o m em bro perdido de um a fam ília que aguardava na Central dos Duendes. Percebia cada som solitário, cada berro de um a criança sobre o gelo, cada grito quando os pais caíam e batiam os traseiros no chão, cada estalar de ossos. Em estado de alerta m áxim o, com o se estivesse esperando que alguém o atacasse a qualquer m om ento, o BlackBerry e sua luz verm elha piscante voltaram para o bolso. A fila avançou e ele em purrou, com cuidado, o carrinho de Pud para frente.
À sua frente, um adolescente de cabelos ensebados, que contava um a história aos seus am igos fazendo sons de fortes explosões e com m ovim entos ocasionais dignos de um ataque epilético, cham ou a atenção de Lou. O garoto, chegando ao clím ax da história, deu um salto para trás e chocou-se com o carrinho do bebê.
— Me desculpe — disse, virando-se e esfregando o braço, que havia batido. — Me desculpe, senhor. Ele está bem ?
Lou fez que sim com a cabeça. Engoliu em seco. Queria avançar sobre o garoto e estrangulá-lo, queria encontrar os pais daquele adolescente para que pudesse m andá-los ensinar ao seu filho a praticar a arte de contar histórias sem gestos exagerados e explosões regadas a cuspe. Deu um a olhada em Pud. O m onstro fora despertado. Os olhos de Pud, vidrados, sonolentos e cansados, e ainda próxim os do estado de hibernação, se abriram lentam ente. Olharam para a esquerda, olharam para a direita e ao seu redor, enquanto Lou prendia a respiração. Ele e Pud se entreolharam por alguns m om entos num silêncio tenso, até que, decidindo que não gostava da expressão de horror no rosto do pai, Pud cuspiu sua chupeta e com eçou a berrar. Berrar.
— Ah, psiu — disse Lou, desaj eitado, olhando para o seu filho.
Pud gritou ainda m ais alto, com grossas lágrim as se form ando em seus olhos cansados.
— Ah, deixe disso, Pud — Lou sorriu para ele, exibindo seu m elhor sorriso de porcelana, que geralm ente funcionava com todas as pessoas que conhecia.
Pud chorou ainda m ais alto.
Lou olhou ao seu redor, constrangido, desculpando-se com qualquer pessoa com quem seu olhar cruzasse, particularm ente o pai carrancudo que trazia um bebê num sling e duas outras crianças, segurando-as pela m ão. Ele resm ungou na direção do hom em carrancudo e virou-lhe as costas, tentando dar um fim nos gritos do filho, em purrando o carrinho para a frente e para trás, deliberadam ente batendo contra os calcanhares do adolescente ensebado que o deixara naquela situação. Tentou colocar a chupeta de volta na boca de Pud dez vezes. Tentou cobrir seus olhos com a m ão, esperando que a escuridão fizesse com que o garoto sentisse vontade de dorm ir. Não funcionou. O corpo de Pud estava se contorcendo, curvando-se para trás enquanto ele tentava se livrar das am arras com o o Incrível Hulk rasgando as próprias roupas. Ele continuou a berrar, soando com o um gato sendo dependurado pelo rabo e enfiado na água quente, seguido por um ruído estrangulado. Lou m exeu na bolsa que estava presa ao carrinho e lhe ofereceu brinquedos, que foram arrem essados violentam ente para longe do carrinho, espalhando-se pelo chão.
O Hom em de Fam ília Carrancudo, com o bebê a tiracolo no sling, curvou-se para aj udar Lou a recolher os brinquedos espalhados. Lou os pegou sem olhar nos olhos do hom em , resm ungando seus agradecim entos. Depois que a m aior parte das coisas da bolsa estavam j ogadas pelo chão, Lou decidiu libertar o m onstro. Lutou para conseguir abrir a fivela de segurança, enquanto os gritos de Pud se intensificavam e atraíam m ais olhares. Quando alguém estava prestes a ligar para o serviço social, ele finalm ente conseguiu libertar o filho. Pud não parou de chorar e continuou a gritar enquanto o catarro saía borbulhante pelo seu nariz; o rosto tão arroxeado quanto um a am eixa.
Dez m inutos apontando para árvores, cães, crianças, aviões, pássaros, árvores de Natal, presentes, duendes, coisas que se m oviam , coisas que não se m oviam , qualquer coisa que pudesse atrair seus olhos, e Pud ainda estava chorando.
Ruth chegou correndo com Lucy.
— O que houve?
— Ele acordou assim que você saiu. Não para de chorar. — Lou estava suando.
Pud olhou para Ruth e estendeu os braços para ela, quase saltando para longe das m ãos de Lou. Seus gritos cessaram instantaneam ente, ele bateu palm as, a cor do seu rosto voltou a um tom norm al e ele balbuciou algum as palavras. Olhava para a sua m ãe, brincava com o colar que ela usava e agia com o se nada tivesse acontecido. Lou teve a certeza de que, quando ninguém m ais estava olhando, Pud lhe deu um sorriso m atreiro.
Sentindo-se em seu am biente, o estôm ago de Lou estava agitado com a ansiedade enquanto observava o litoral se afastar e seguia rum o ao ponto de partida da com petição, ao norte da ilha do Olho da Irlanda. Fam iliares e am igos encapotados acenavam para os velej adores do farol na ponta do atracadouro, com binóculos nas m ãos.
Havia certa m agia no m ar. As pessoas eram atraídas por ele. Queriam viver próxim as a ele, nadar e brincar em suas águas, observá-lo. Era algo vivo, tão im previsível quanto os m elhores atores de teatro: poderia estar tranquilo e receptivo, abrindo seus braços para abraçar seu público num m om ento, m as poderia tam bém explodir com seu tem peram ento tem pestuoso, arrem essando as pessoas de um lado para outro, querendo expulsá-las para longe, atacando litorais e destruindo ilhas. Tinha seu lado m ais brincalhão tam bém , j á que gostava da atenção do público, derrubava as crianças, virava espreguiçadeiras infláveis, virava pranchas de windsurfe e ocasionalm ente aj udava algum m arinheiro; fazia tudo com um riso secreto. Para Lou, não havia nada com o a sensação do vento no cabelo, cortar a água com a chuva em seu rosto ou o sol brilhando no céu. Fazia m uito tem po desde que velej ara pela últim a vez — ele e Ruth, é claro, tinham passado vários feriados nos iates de am igos, m as fazia m uito tem po desde que Lou participara de um a equipe; isso em qualquer aspecto da sua vida. Estava ansioso pelo desafio; ansioso não som ente por estar num a com petição contra outros trinta barcos, m as tentando tam bém derrotar o m ar, o vento e todos os outros elem entos da natureza.
Na área de partida, eles foram até as proxim idades do barco de controle Free Enterprise para se identificarem . A linha de partida ficava entre um m astro verm elho e branco no barco de controle e um a boia alaranj ada cilíndrica que ficava a bom bordo. Lou assum iu sua posição na proa enquanto o barco circulava pela área, tentando chegar na posição certa para poder cruzar a linha no m om ento da largada. O vento soprava para noroeste com força quatro e a m aré estava subindo, indicando que o hum or do m ar estava piorando. Isso teria que ser observado para que o barco continuasse avançando rapidam ente pelo m ar encapelado e agitado. Com o nos velhos tem pos, Lou e Quentin tinham conversado sobre o assunto, de m odo que am bos sabiam o que era necessário. Se atravessassem a linha de partida prem aturam ente, o barco seria elim inado; era tarefa de Lou fazer a contagem regressiva, posicioná-los corretam ente e com unicar-se com o tim oneiro, que era Quentin. Quando eram adolescentes, os dois haviam refinado essa dinâm ica até tornarem -na perfeita, venceram várias regatas e eram capazes de com petir de olhos fechados, sim plesm ente sentindo a direção do vento; m as isso tinha sido há m uito tem po, e a com unicação entre eles se fragm entara de m aneira dram ática nos últim os anos.
Lou se benzeu quando o sinal de alerta surgiu às onze e vinte e cinco. Eles avançaram , tentando alcançar a posição em que seriam os prim eiros a passar pela linha de partida. Às onze e vinte e seis, a bandeira preparatória subiu. Às onze e vinte e nove, a bandeira que sinalizava um m inuto até a largada foi recolhida. Lou agitava os braços com m ovim entos largos, tentando apontar o lugar para onde Quentin deveria guiar o barco.
— Direita estibordo, direita estibordo, Quentin! — gritou ele, agitando o braço direito. — Trinta segundos!
Eles se aproxim aram perigosam ente de outro barco. Por culpa de Lou.
— Ah, esquerda bom bordo! ESQUERDA! — gritou Lou. — Vinte segundos!
Cada barco lutava para conseguir um a boa posição, m as, com trinta em barcações na corrida, apenas algum as conseguiriam passar pela linha de partida num a posição favorável, perto do barco da organização. O restante teria que se esforçar para alcançar os outros.
Às onze e m eia, o sinal de partida soou, e pelo m enos dez barcos cruzaram a linha de partida antes deles. Não foi a m elhor largada, m as Lou não deixaria que aquilo o afetasse. Estava enferruj ado, precisava recuperar a prática, m as não tinha tem po para isso. A regata era a única coisa real.
O barco deslizou sobre a água, com o Olho da Irlanda à direita, as regiões m ontanhosas à esquerda, m as não havia tem po para apreciar a paisagem . Lou não se m ovia, pensando rápido, olhando à sua volta, observando todos os barcos na corrida, o vento em seus cabelos, o sangue pulsando em suas veias, sentindo-se m ais vivo do que nunca. Gradualm ente, voltou a se lem brar de tudo, a verdadeira sensação de estar num barco. Talvez não fosse tão rápido quanto gostaria, m as não perdera seus instintos. Corriam pelo m ar, o barco batendo contra as ondas conform e avançavam em direção à escora m eteorológica, a um a m ilha de distância da linha de partida.
— Mudança de traj etória! — gritou Quentin, observando e guiando o barco enquanto todos se preparavam . Alan, responsável por recolher as velas, verificou que elas tinham sido desinfladas. Luke, do outro lado, certificou-se de que a nova vela a ser erguida contra o vento estava pronta e girou sua m anivela duas vezes. Lou não se m oveu um m ilím etro, pensando no que precisava fazer e observando os outros barcos à sua volta, para ter certeza de que nenhum deles estava perto dem ais. Sabia instintivam ente que eles estavam alterando a traj etória para bom bordo e que não poderiam cruzar com os barcos a estibordo. Suas velhas táticas de corrida encheram sua m ente e ele sentiu um a alegria tranquila em relação a com o tinha posicionado o barco exatam ente no rum o da escora m eteorológica. Podia sentir a confiança de Quentin crescendo, agora que chegavam num a posição favorável após m udarem a traj etória, rasgando a água com um cam inho tranquilo à sua frente. Lou estava se esforçando para fazer com que Quentin acreditasse nele, além de tentar conquistar a vitória na corrida.
Quentin certificou-se de que havia espaço para alterar a traj etória do barco e com eçou a fazer a curva. Geoff, que estava na cabine, foi rapidam ente até a vela traseira, e, conform e ela se inflou com o vento, ele a soltou. O barco cortou o vento, a vela principal foi m ovida para um a posição m elhor e a longarina do m astro girou. Luke a puxou rápido, e, quando não conseguiu m ais puxá-la, girou a roldana m ais duas vezes e os sons de m etal raspando contra o m etal com eçaram . Quentin firm ou o barco no novo curso.
— CONTRABALANÇAR! — gritou Lou, e todos correram para colocar as pernas por sobre a am urada do barco que se ergueu ao fim da curva.
Quentin assobiou e Lou riu contra o vento.
Depois de cruzarem a prim eira m arca e irem em direção à segunda com o vento soprando contra a lateral do barco, Lou entrou em ação para erguer a buj arrona, e, em seguida, fez um sinal para Quentin com o polegar. O resto da equipe com eçou a agir instantaneam ente, cuidando das suas próprias tarefas. Lou atrapalhou-se um pouco com o equipam ento, m as percebeu que as coisas estavam dando certo.
Vendo que a vela subia até o topo do m astro, Lou gritou alegrem ente:
— EM CIMA!
Alan puxou a corda da buj arrona enquanto Robert a prendia. Eles velej avam rapidam ente, e Lou deu um soco no ar, gritando. Atrás do tim ão, Quentin ria; a vela inflava e com o vento a seu favor, eles correram em direção à próxim a m arca. Quentin perm itiu-se um a rápida olhada para trás e a visão lhe causou certa alegria: havia cerca de 25 barcos com as buj arronas inflando, perseguindo-os. Nada m au. Ele e Lou trocaram um olhar e sorriram . Não disseram nada. Não precisava. Am bos sabiam .
Depois de passar trinta m inutos na fila do rinque de patinação, Lou e sua fam ília finalm ente chegaram ao portão de entrada.
— Bem , divirtam -se — disse Lou, batendo as m ãos um a contra a outra e pisando com força para se aquecer. — Vou até aquela cafeteria ali adiante para observar vocês.
Ruth com eçou a rir.
— Lou, eu pensei que você tivesse vindo aqui para patinar.
— Não — disse ele, torcendo o nariz. — Acabei de passar a últim a m eia hora observando hom ens m ais velhos do que eu no gelo, e eles pareciam uns idiotas. E se alguém perceber? Prefiro ficar aqui fora, obrigado. Além disso, as calças que estou usando são novas e só podem ser lavadas a seco — acrescentou.
— Certo — disse Ruth, seca. — Você não vai se im portar de tom ar conta de Pud enquanto Lucy e eu vam os patinar, então.
— Vam os lá, Lucy ! — Ele agarrou a m ão da filha no m esm o instante. — Hora de pegarm os os patins. — Ele piscou para Ruth, que ria sozinha, e foi em direção às prateleiras onde estavam os patins. Chegou ao balcão antes do Hom em de Fam ília Carrancudo, que, assim com o o Flautista de Ham elin, conduzia ainda m ais crianças agora. Rá-rá-rá. Sentiu o gosto de um a vitória silenciosa quando chegou ao balcão antes dele. A pista estava perto e a criança que havia dentro de Lou saiu para brincar.
— Qual o tam anho? — perguntou o hom em atrás da m esa, olhando para ele.
— Quarenta e dois, por favor — respondeu Lou, e olhou para Lucy, esperando que ela falasse. Os grandes olhos castanhos da m enina estavam fixos nos seus.
— Diga o tam anho do seu sapato para o hom em , querida — disse ele, sentindo o Hom em de Fam ília Carrancudo bufar atrás do seu pescoço enquanto esperava.
— Não sei, papai — ela disse, quase sussurrando.
— Bem , você tem 4 anos, não é?
— Cinco — ela franziu a testa.
— Ela tem 5 anos — disse ele ao hom em . — Portanto, um tam anho que sirva num a criança dessa idade.
— Bem , depende da criança.
Lou suspirou e sacou seu BlackBerry, recusando-se a ter de enfrentar a fila outra vez. Atrás dele, o Hom em de Fam ília Carrancudo com o bebê no sling disse, em voz alta:
— Dois pares de tam anho 34, um par 33 e um 44, por favor.
Lou revirou os olhos e im itou os m aneirism os do hom em enquanto esperava que sua ligação fosse com pletada. Lucy riu e fez a m esm a careta.
— Alô?
— Qual é o núm ero que Lucy calça?
Ruth riu.
— Vinte e quatro.
— Certo, obrigado. — Ele desligou.
Na pista, ele se segurou na lateral do rinque com cuidado. Pegou Lucy pela m ão e aj udou-a a se equilibrar. Ruth estava logo atrás da grade de proteção com Pud, que esperneava, anim ado, enquanto pulava para cim a e para baixo, apontando a esm o para qualquer coisa que lhe cham asse a atenção.
— Bem , querida. — A voz e os tornozelos de Lou vacilaram quando ele pisou no gelo. — Este lugar é m uito perigoso, entendeu? Você vai ter que tom ar m uito cuidado. Segure-se na grade, certo?
Lucy segurou-se na grade de proteção com um a m ão e lentam ente com eçou a deslizar sobre o gelo, enquanto os tornozelos de Lou equilibravam -se, recalcitrantes, sobre os patins.
Lucy com eçou a patinar m ais rápido.
— Querida — disse Lou, com a voz trêm ula enquanto olhava para baixo, encarando o gelo duro e frio, tem endo o que poderia acontecer se caísse. Não conseguia se lem brar da últim a vez em que sofrera um a queda. Provavelm ente quando era criança. A infância é o lugar ao qual pertencem as quedas.
A distância entre Lucy e Lou aum entou.
— Fique perto dela, Lou — Ruth gritou do outro lado da grade, acom panhando-o enquanto ele tentava se equilibrar. E Lou ouvia o sorriso na voz de Ruth.
— Aposto que você está adorando isso — disse ele. Mal era capaz de olhá-la nos olhos. Estava se concentrando.
— E com o!
Ele em purrou o pé esquerdo, que deslizou m ais do que desej ava, e quase caiu com as pernas abertas. Sentia-se com o Bam bi na prim eira vez em que tentou ficar em pé, girando e cam baleando, agitando os braços em m ovim entos circulares com o um a m osca presa num pote de geleia; estava perto o suficiente para que pudesse ouvir a risada fam iliar de Ruth. Mas estava fazendo progressos. Levantava os olhos ocasionalm ente para observar Lucy, que era bem visível com seu casaco verm elho fogo, j á do outro lado do rinque.
O Hom em de Fam ília Carrancudo passou voando por ele, agitando os braços com o se estivesse prestes a entrar num a corrida de trenós, e sua velocidade quase derrubou Lou. Atrás dele, os filhos do Hom em de Fam ília Carrancudo o acom panhavam de perto, de m ãos dadas e... estavam cantando? Agora, chega! Soltando-se lentam ente da grade de proteção, suas pernas vacilantes tentaram se equilibrar. Em seguida, pouco a pouco, m oveu um pé para a frente, quase caindo na direção oposta, suas costas se curvando para trás, m as conseguiu recuperar o equilíbrio.
— Oi, papai — disse Lucy, passando rapidam ente ao seu lado quando com pletava a prim eira volta no rinque.
Lou se afastou da lateral do rinque, indo para longe dos principiantes que avançavam m ilím etro a m ilím etro, determ inado a ultrapassar o Hom em de Fam ília Carrancudo, que agora corria pelo rinque com o se fosse o Papa-Léguas.
Na m etade da volta com pleta no rinque, Lou j á estava patinando por conta própria. Sentindo-se um pouco m ais confiante, com eçou a forçar os próprios lim ites, tentando m over os braços com o os outros estavam fazendo. Ganhou velocidade. Esquivando-se de crianças e pessoas m ais velhas, conseguiu deslizar rapidam ente pelo gelo, m esm o que ainda estivesse um pouco desaj eitado. Movia-se m ais com o um j ogador de hóquei do que com o um patinador artístico. Esbarrava em crianças, derrubando algum as e fazendo com que outras se desequilibrassem . Ouviu um a criança chorar. Passou entre um casal que estava de m ãos dadas. Estava tão concentrado em não cair que m al conseguia encontrar tem po para se desculpar. Passou por Lucy, m as, sem conseguir parar, teve que continuar em frente, aum entando a velocidade conform e avançava pelo gelo. As luzes que decoravam as árvores do parque se transform aram em borrões para ele. Os sons e cores dos patinadores eram um redem oinho à sua volta. Sentindo-se com o se estivesse num carrossel, ele sorriu e relaxou um pouco m ais, dando voltas e m ais voltas ao redor do rinque. Passou pelo Hom em de Fam ília Carrancudo; passou por Lucy pela terceira vez; passou por Ruth, ouvindo quando ela cham ou seu nom e e tirou um a fotografia. Não podia parar e não iria parar; não sabia com o fazer isso. Estava desfrutando da sensação do vento batendo em seu rosto, as luzes da cidade à sua volta, o frio que perm eava o ar, o céu cheio de estrelas conform e a noite com eçava a cair, ainda cedo. Sentia-se livre e vivo, m ais feliz do que há m uito tem po. E continuou a rodar e rodar pelo rinque.
Alexandra e a tripulação alteraram o curso pela terceira e últim a vez. A velocidade e coordenação de Lou estavam bem m elhores durante a últim a hora, e ele corrigiu os deslizes que com etera no início. Estavam passando por m ais um a m arca e precisavam executar m ais um a vez a m anobra em que a buj arrona era girada.
Lou se certificou de que as cordas estavam livres para correr. Geoff ergueu a vela traseira, Lou guiou-a até a ranhura adequada, e Luke a prendeu na posição correta. Robert posicionou-se para agarrar a corda ainda frouxa debaixo da vela principal, de m odo que pudesse usá-la para erguer a buj arrona. Assim que estavam nas posições, todos se prepararam para o m ovim em to orquestrado. Geoff soltou as am arras e aj udou a recolher a buj arrona. Joey desprendeu o cabo e verificou que ele corria rapidam ente para que a buj arrona pudesse se inflar com o um a bandeira ao vento do lado de fora do barco. Quando a buj arrona estava em posição, Luke aj ustou a vela traseira para a nova traj etória, Joey aj ustou a vela principal, Geoff baixou o m astro e Lou o prendeu.
Com a posição da buj arrona alterada pela últim a vez e aproxim ando-se da linha de chegada, eles entraram em contato com os árbitros pelo rádio no canal 37 e aguardaram a resposta. Não eram os prim eiros a cruzar a linha de chegada, m as todos estavam felizes. Lou olhou para Quentin enquanto o barco avançava. Não disseram nada um ao outro. Não precisava. Am bos sabiam .
Deitado com as costas contra o chão no m eio do rinque com as pessoas voando à sua volta, Lou segurava o tórax dolorido e tentava parar de rir, m as não conseguia. Fizera aquilo que sem pre tem eu durante a vida inteira e sofreu a queda m ais dram ática e côm ica do dia. Estava deitado no centro do rinque, com Lucy ao seu lado, rindo m uito, tentando erguer seu braço e puxá-lo para que ficasse em pé. Estavam de m ãos dadas, circulando lentam ente sobre o gelo, quando Lou tropeçou em seus próprios pés, ergueu-se no ar e caiu de costas. Felizm ente, nada havia se quebrado, a não ser o seu orgulho, m as, surpreendentem ente, ele não se im portava. Deixou que Lucy acreditasse que o estava aj udando a se levantar quando ela o puxou pelo braço. Olhou para Ruth e viu um flash quando ela tirou outra fotografia. Seus olhares se cruzaram , e ele sorriu.
Não disseram nada sobre os eventos do dia naquela noite. Não precisava. Am bos sabiam .
Aquele foi o m elhor dia da vida deles.