O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 6 de 29

Páginas do PDF

O Presente

O décimo terceiro andar

 

– Sobe?

Houve um resm ungo universal e m ovim entos de cabeça dentro do elevador abarrotado quando o hom em que fez a pergunta, no segundo andar, olhou esperançoso para os rostos sonolentos. Todos, com exceção de Lou, responderam . Lou estava ocupado dem ais observando os sapatos que cruzavam com um passo o estreito vão, que levava ao poço frio e escuro até fundo do prédio, e entravam no espaço confinado. Sapatos m arrons de bico redondo giraram cento e oitenta graus, para ficar de frente para a saída. Lou procurava por solas verm elhas e sapatos pretos. Alfred chegou cedo e tinha alm oçado com os sapatos pretos. Sapatos pretos tinham saído do escritório j unto com solas verm elhas. Se conseguisse descobrir quem era a dona das solas verm elhas, saberia com quem ela trabalhava e poderia saber com quem Alfred estivera se encontrando em segredo. Isso fazia m ais sentido para Lou do que perguntar sobre o ocorrido a Alfred, o que indicava m uito sobre a honestidade do colega. Pensou nisso no exato m om ento em que com partilhava o silêncio constrangedor que só é possível encontrar num elevador cheio de estranhos.

— Para qual andar? — perguntou um a voz abafada do canto, onde um hom em estava bem escondido, possivelm ente esm agado contra a parede, e, por ser a única pessoa com acesso aos botões, foi forçado a se responsabilizar pelo com ando das paradas do elevador.

— Treze, por favor — disse o recém -chegado.

Houve alguns suspiros e um a pessoa resm ungou em desaprovação.

— Este prédio não tem o décim o terceiro andar — respondeu o hom em escondido.

As portas do elevador se fecharam e ele subiu rapidam ente.

— É m elhor decidir logo — alertou o hom em escondido.

— Bem ... — O hom em m exeu em sua m aleta, procurando pela agenda.

— Você quer ir ou ao décim o segundo ou ao décim o quarto? — disse a voz abafada. — O décim o terceiro andar não existe.

— Com certeza ele vai querer descer no décim o quarto — disse outra pessoa. — Tecnicam ente, o décim o quarto é o décim o terceiro.

— Quer que eu aperte o botão do décim o quarto? — perguntou a voz, um pouco m ais irritada.

— Bem ... — O hom em continuou a rem exer seus papéis.

Lou não conseguia se concentrar com aquela conversa no elevador, que geralm ente era silencioso. Estudava os sapatos à sua volta. Muitos sapatos pretos. Alguns com detalhes, alguns arranhados, alguns engraxados, alguns sem cadarços, outros com os cadarços desam arrados. Nenhum a sola verm elha à vista. Ele percebeu os pés à sua volta com eçarem a se inquietar; as pessoas apoiavam o peso do corpo sobre um pé, depois sobre o outro. Um par se afastou dele discretam ente. Seu rosto se ergueu im ediatam ente quando ouviu o sinal sonoro do elevador.

— Sobe? — perguntou a j ovem m ulher.

Houve um coro m ais anim ado de vozes m asculinas dessa vez. Ela se colocou à frente de Lou e ele observou seus pés enquanto os hom ens à sua volta exam inavam outras áreas do seu corpo em m eio ao silêncio pesado que som ente as m ulheres sentem quando estão num elevador cheio de hom ens. O elevador voltou a se m over. Seis... sete... oito...

Finalm ente, o hom em com os sapatos m arrons de bico redondo fechou sua m aleta com as m ãos vazias e, com um ar de derrota, anunciou:

— Patterson Em preendim entos.

Lou se irritou. Fora ele que dera a sugestão de que não houvesse o núm ero treze no painel do elevador, m as é claro que havia um décim o terceiro andar. Não havia um espaço vazio antes de se chegar ao décim o quarto; o décim o quarto não flutuava sobre tij olos invisíveis; o décim o quarto era o décim o terceiro, e o escritório em que trabalhava ficava no décim o terceiro. Mas o andar era conhecido com o o décim o quarto. Ele não fazia a m enor ideia do m otivo pelo qual aquilo confundia tanta gente; era claro com o o dia. Saiu do elevador no décim o quarto andar e seus pés afundaram no carpete felpudo e m acio.

— Bom dia, Sr. Suffern. — Sua secretária o cum prim entou sem tirar os olhos dos papéis.

Ele parou em frente à m esa dela e a observou com um a expressão confusa.

— Alison, m e cham e de Lou, com o você sem pre o fez, por favor.

— É claro, Sr. Suffern — disse ela, atrevidam ente, recusando-se a olhá-lo nos olhos e levantando-se.

Enquanto Alison andava de um lado para outro, Lou tentou observar as solas dos seus sapatos. Ele ainda estava em pé ao lado da m esa dela quando Alison retornou e, m ais um a vez, recusou-se a olhá-lo nos olhos, se sentou e com eçou a digitar. De m aneira tão discreta quanto possível, ele se curvou para am arrar seus cadarços e espiou por um a fresta na m esa dela.

Ela franziu a testa e cruzou as pernas longas.

— Está tudo bem , Sr. Suffern?

— Me cham e de Lou — repetiu ele, ainda confuso.

— Não — ela disse, um pouco irritada, e virou o rosto. Pegou a agenda que estava sobre a m esa. — Quer ver quais são os com prom issos de hoj e? — Ela se levantou e se pôs ao lado dele.

Blusa de seda j usta, saia j usta, os olhos de Lou a exam inaram antes de chegar aos sapatos.

— Qual é a altura deles?

— Por quê?

— Têm 120 m ilím etros?

— Não faço ideia. Quem é que m ede saltos em m ilím etros?

— Não sei. Algum as pessoas. Gabe — ele sorriu, seguindo-a enquanto entravam em seu escritório, tentando enxergar as solas.

— Quem diabos é Gabe? — resm ungou ela.

— Gabe é um m endigo — ele riu.

Quando se virou, ela o apanhou com a cabeça inclinada, estudando-a.

— Você está olhando para m im do m esm o j eito que observa as obras de arte nessas paredes — disse ela, com esperteza.

Im pressionism o m oderno. Ele nunca foi fã do estilo. Frequentem ente, parava para observar as m anchas sem sentido que cobriam as paredes dos corredores dos escritórios. Respingos e linhas em telas que alguém considerava arte, e que poderiam facilm ente ser colocados de cabeça para baixo sem que ninguém percebesse. Ele tam bém pensava no dinheiro gasto naqueles quadros e depois os com parava aos desenhos que cobriam a porta da geladeira da sua casa. Arte produzida por sua filha, Lucy. E, enquanto inclinava a cabeça de um lado para outro, com o estava fazendo com Alison agora, Lou sabia que havia um a professora de j ardim da infância em algum lugar com os bolsos cheios de m ilhões de euros, enquanto crianças de 4 anos com tinta nas m ãos, línguas de fora e ar de concentração recebiam balas de gom a em vez de um a porcentagem dos lucros.

— Suas solas são verm elhas? — ele perguntou a Alison, enquanto se dirigia à enorm e cadeira de couro, onde um a fam ília de quatro pessoas poderia m orar confortavelm ente.

— Por quê? Pisei em algum a coisa? — Ela se equilibrou num pé e saltitou levem ente em volta, tentando m anter o equilíbrio enquanto verificava suas solas, dando a Lou a im pressão de um cachorro perseguindo o próprio rabo.

— Não tem im portância. — Ele se sentou, cansado.

Ela o observou, desconfiada, antes de voltar a se concentrar na agenda.

— Às oito e m eia você terá um a reunião por telefone com Aonghus O’Sullibháin para aprender a falar irlandês fluentem ente e com prar aquele terreno em Connem ara. Mesm o assim , para você não ficar em desvantagem , fiz

os preparativos para que a conversa sej a [1] as Béarla... — Ela abriu um sorriso torto e j ogou os cabelos que lhe cobriam o rosto para trás, com o um cavalo faria. — Às oito e quarenta e cinco você tem um a reunião com Barry Brennan sobre as lesm as que eles encontraram no canteiro de Cork.

— Cruze os dedos e reze para que não sej am raras — gem eu Lou.

— Bom , nunca se sabe. Podem ser parentes suas. O senhor tem fam ília em Cork, não é? — Ela ainda não o olhara nos olhos. — Às nove e m eia...

— Espere um pouco. — Apesar de saber que estava a sós com Alison na sala, Lou olhava ao redor com o se esperasse pela chegada de reforços. — Por que você está m e cham ando de senhor? O que m ordeu você hoj e?

Ela desviou o olhar, balbuciando algum a coisa que para Lou soou com o “não foi você, com certeza”.

— O que foi que disse? — Mas não esperou que ela respondesse. — Tenho um dia longo pela frente e podia passar sem o sarcasm o, obrigado. E desde quando a agenda do dia se tornou um anúncio oficial?

— Pensei que se você ouvisse em voz alta o quanto o seu dia está ocupado, talvez decidisse m e dar perm issão para m arcar m enos com prom issos no futuro.

— Você quer m enos trabalho, Alison? É isso que você está querendo m e dizer?

— Não — ela enrubesceu. — Não é isso. Só pensei que você poderia m udar um pouco a sua rotina de trabalho. Em vez desses dias loucos, correndo de um lado para o outro, você poderia passar m ais tem po com m enos clientes. Assim , teria clientes m ais felizes.

— Sim , sim . E então eu e Jerry Maguire viveríam os felizes para sem pre. Alison, você é nova na em presa, então vou relevar; m as é assim que eu gosto de cuidar dos m eus negócios, entendeu? Gosto de estar ocupado. Não preciso de duas horas de folga para alm oçar ou fazer lição de casa com as crianças na m esa da cozinha. — Ele estreitou os olhos. — Você disse “clientes m ais felizes”. Alguém fez algum a reclam ação?

— Sua m ãe. Sua esposa — ela disse, por entre os dentes. — Seu irm ão. Sua irm ã. Sua filha.

— Minha filha tem 5 anos.

— Bem , ela telefonou quando você se esqueceu de ir buscá-la na aula de dança irlandesa na quinta-feira passada.

— Isso não conta — disse ele, revirando os olhos — porque a m inha filha de 5 anos não vai custar m ilhões de euros à em presa, não é? — Mais um a vez não esperou que ela respondesse. — Você recebeu algum a reclam ação de pessoas que não tenham o m esm o sobrenom e que o m eu?

Alison pensou antes de responder.

— Sua irm ã voltou a usar o nom e de solteira depois que se divorciou?

Ele a encarou, irritado.

— Bem , então não, senhor.

— Por que você está m e cham ando de “senhor”?

— Eu pensei — disse ela, com o rosto corado — que, se você vai m e tratar com o um a estranha, então é isso o que eu farei tam bém .

— Com o é que estou lhe tratando?

Ela desviou o olhar.

Ele baixou a voz.

— Alison, estam os no escritório. O que você quer que eu faça? Que eu lhe diga o quanto gostei de transar com você enquanto discutíam os os com prom issos?

— Nós não transam os. Apenas nos beij am os.

— É tudo a m esm a coisa — disse ele, com um gesto de indiferença. — Por que está fazendo isso?

Ela não respondeu, m as seu rosto estava ardendo.

— Talvez Alfred tenha m e dito algum a coisa.

Algum a coisa estranha aconteceu no coração de Lou. Algo que ele nunca sentira antes. Um tipo de palpitação.

— O que foi que ele disse?

Ela desviou o olhar e com eçou a dedilhar o canto da página.

— Bem , ele m encionou algum a coisa sobre você ter perdido aquela reunião na sem ana passada...

— Algum a coisa o quê? Quero inform ações específicas aqui, por favor.

Ela bufou.

— Tudo bem . Depois da reunião na sem ana passada com o Sr. O’Sullivan, Alfred — ela engoliu em seco — sugeriu que eu tentasse acom panhar você m ais de perto. Ele sabia que eu era nova no em prego e m e aconselhou a não deixar que você perdesse um a reunião im portante outra vez.

O sangue de Lou fervia e sua m ente funcionava em alta velocidade. Nunca tinha se sentido tão confuso. Lou passara a vida inteira correndo de um a coisa para outra, perdendo m etade da prim eira para conseguir chegar antes do fim da segunda. Fazia isso o dia inteiro, todos os dias, sem pre sentindo com o se estivesse correndo atrás das coisas, sem nunca alcançá-las. Era um trabalho longo, difícil e exaustivo. Fez enorm es sacrifícios para chegar aonde estava. Am ava seu trabalho, era totalm ente profissional, dedicado a cada um a de suas dem andas. Ser repreendido por perder um a reunião que não estava agendada quando ele tirou um a m anhã de folga o deixou irritado. O que tam bém o irritava era o fato de aquilo ter sido culpa de sua fam ília. Se houvesse sacrificado aquela reunião para estar em outra, talvez pudesse sentir-se m elhor, m as tinha sido por causa da m ãe. Na m anhã daquela reunião, teve de ir buscá-la no hospital depois da cirurgia no quadril a que ela tinha se subm etido. Ficou irritado com a esposa, que tinha tido um ataque de fúria diante de sua sugestão de contratar um m otorista e o convencera a buscar a m ãe pessoalm ente. Ficou irritado com sua irm ã, Marcia, e com seu irm ão m ais velho, Quentin, por não assum irem aquela tarefa. Lou era um hom em ocupado e, na única vez em que decidira colocar a fam ília antes do trabalho, teve de pagar o preço. Ele se levantou e andou de um lado para outro em frente à j anela, m ordendo o lábio com força e sentindo tanta raiva que queria pegar o telefone e ligar para toda a sua fam ília e lhe dizer: “Estão vendo? É por isso que eu não posso estar com vocês o tem po inteiro. Estão vendo? Percebem o que fizeram com igo?”.

— Você disse a ele que eu tive de ir buscar m inha m ãe no hospital? — ele perguntou em voz baixa, porque detestava ter de dizer aquilo. Detestava ouvir palavras com o as proferidas pelos colegas. Detestava as j ustificativas, o fato de deixarem a vida pessoal interferir no trabalho. Para ele, aquilo dem onstrava falta de profissionalism o. Ou você fazia o seu trabalho ou não fazia.

— Bem , não, porque era a m inha prim eira sem ana no trabalho, o Sr. Patterson estava ao lado dele e eu não sabia o que você ia querer que eu dissesse.

— O Sr. Patterson estava com ele? — perguntou Lou, com os olhos quase saltando das órbitas.

Ela confirm ou com m ovim entos de cabeça rápidos, os olhos esbugalhados com o um daqueles brinquedos de pescoço flexível.

— Certo. — O coração de Lou com eçou a dim inuir o ritm o, agora ele sabia o que estava acontecendo. Seu velho am igo, Alfred, estava aprontando algum de seus truques. Truques dos quais Lou presum ira até agora estar livre. Alfred não conseguia passar um único dia agindo com honestidade. Ele observava as coisas de ângulos estranhos e entrava nas conversas com um a perspectiva inusitada, sem pre tentando com preender com o poderia tirar o m elhor proveito da situação.

Lou observou sua m esa.

— Onde está a m inha correspondência?

— Está no décim o segundo andar. O estagiário ficou confuso por não existir um décim o terceiro andar.

— O décim o terceiro andar existe! Nós estam os nele! O que há com todo m undo hoj e?

— Estam os no décim o quarto. Não incluir o décim o terceiro andar foi um a falha terrível de proj eto.

— Não é um a falha de proj eto — disse ele, defensivam ente. — Alguns dos m aiores prédios do m undo não têm o décim o terceiro andar.

— Ou telhados.

— O quê?

— O Coliseu não tem telhado.

— O quê? — ele esbravej ou novam ente, confuso. — Diga ao estagiário para usar som ente as escadas de agora em diante, e para contar os andares. Assim , ele não vai se confundir com os núm eros. Aliás, por que deixaram um estagiário cuidar da correspondência?

— Harry disse que está com poucos funcionários.

— Poucos funcionários? Basta um a pessoa tom ar o elevador para trazer a m inha m aldita correspondência. Com o podem estar sem funcionários? — Sua voz estava alterada. — Até m esm o um m acaco pode fazer esse trabalho. Há pessoas m orando nas ruas que fariam qualquer coisa para trabalhar num lugar com o...

— Em um lugar com o o quê? — Alison perguntou para a nuca de Lou. Ele tinha se virado e olhava pela vidraça, que ia do chão até o teto, para a calçada lá em baixo; seu rosto tinha um a expressão estranha, que ela via refletida no vidro.

Ela com eçou a se afastar lentam ente, sentindo, pela prim eira vez nas últim as sem anas, um alívio pelo fato de a relação entre os dois, em bora não tivesse sido m ais do que alguns am assos no escuro, não ter avançado. Talvez ela tivesse se enganado; talvez houvesse algo realm ente errado com ele. Ela era nova na em presa e ainda não o tinha entendido bem . Tudo o que sabia sobre Lou era que ele a fazia se lem brar do Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas, sem pre m uito, m uito, m uito atrasado para um com prom isso m uito im portante, e que ele conseguia chegar a cada um deles no m om ento certo. Era um hom em gentil com todos e m uito bem -sucedido no trabalho. Além disso, era bonito, charm oso e dirigia um Porsche, e essas eram as coisas que ela valorizava acim a de tudo. Claro, ela sentiu um pouco de culpa sobre o que acontecera na sem ana anterior, quando conversou com a esposa dele ao telefone, m as aquilo não tinha nenhum a im portância, na opinião de Alison, pela absoluta ingenuidade daquela esposa em relação às infidelidades do m arido. Além disso, todo m undo tinha um ponto fraco, e qualquer hom em poderia ser perdoado se o seu calcanhar de Aquiles fosse um a m ulher com o Alison.

— Que tipo de sapatos Alfred usa? — perguntou Lou, logo antes de Alison fechar a porta.

Ela voltou a entrar.

— Alfred? Que Alfred?

— Berkeley.

— Não sei. — O rosto dela enrubesceu. — Por que você quer saber?

— Para com prar um presente de Natal.

— Sapatos? Você quer com prar um par de sapatos para Alfred? Mas eu j á encom endei as cestas da Brown Thom as para todos, com o você pediu.

— Apenas descubra isso para m im . Mas não faça com que fique óbvio. Pergunte de um j eito casual. Quero surpreendê-lo.

Ela estreitou os olhos, desconfiada.

— É claro.

— Ah, e aquela nova garota no departam ento de contabilidade. Qual é o nom e dela... Sandra, Sarah?

— Deirdre.

— Dê um a olhada nos sapatos dela tam bém . Vej a se eles têm solas verm elhas.

— Não têm . São da Top Shop. Ankle boots pretas, de cam urça, com m arcas d’água. Com prei um par no ano passado. Quando estavam na m oda.

Ao dizer isso, ela saiu.

Lou suspirou; desabou em sua enorm e cadeira e levou os dedos ao topo do nariz na esperança de estancar a crise de enxaqueca que estava à espreita. Talvez estivesse ficando doente. Tinha desperdiçado quinze m inutos da m anhã conversando com um m endigo, algo totalm ente estranho para ele, m as lem brou que se sentira com pelido a parar. Algum a coisa naquele rapaz exigiu que ele parasse e lhe oferecesse o café.

Incapaz de se concentrar na agenda, Lou se virou novam ente para olhar a cidade. Decorações gigantes de Natal enfeitavam o cais e as pontes; enfeites gigantes em form a de ram os de visco, e sinos que balançavam de um lado para o outro graças à m ágica festiva do neon. O nível do rio Liffey estava alto e passava em frente à sua j anela, indo em direção à baía de Dublin. As calçadas estavam abarrotadas de pessoas que iam para o trabalho, acom panhando a correnteza, seguindo a m aré. Pisoteavam o concreto, cam inhando com pressa entre as estátuas de cobre vestidas com farrapos e erguidas em hom enagem aos que durante a época da escassez de alim entos passaram por aqueles m esm os ancoradouros para fugir dali. Em vez de pequenas trouxas, os irlandeses levavam , agora, copos de café do Starbucks num a das m ãos e m aletas na outra. As m ulheres cam inhavam para seus escritórios usando saias e tênis; o sapato de salto guardado na bolsa. Um destino inteiram ente diferente daquele que os antepassados enfrentaram e oportunidades infinitas aguardavam as pessoas que Lou via cam inhando lá em baixo.

A única coisa que continuava estática era Gabe, encolhido num pórtico, enrolado em seu cobertor e observando os sapatos que m archavam à sua frente; as oportunidades para ele não eram igualitárias com o eram para aqueles que passavam por ali. Em bora pouco m aior do que um ponto na calçada, treze andares abaixo, Lou podia ver o braço de Gabe se levantar e abaixar enquanto tom ava seu café, fazendo com que cada gole durasse m uito tem po, m esm o se o líquido j á estivesse frio. Gabe o intrigava. Não apenas pelo talento para se lem brar de cada par de sapatos que entrava no prédio, com o se eles fossem um a tabela de horários, m as, m uito m ais incrível do que isso, porque a pessoa por trás daqueles olhos de um azul cristalino lhe era incrivelm ente fam iliar. Na verdade, Gabe fazia com que Lou se lem brasse de si m esm o. Eles tinham idades próxim as, e com um bom banho, o penteado e as roupas certas, Gabe poderia ser facilm ente confundido com Lou. Parecia ser um hom em afável, am istoso e capaz. Poderia facilm ente ser Lou sentado naquela calçada, observando o m undo passar à sua frente. Mesm o assim , suas vidas eram incrivelm ente diferentes.

Naquele exato instante, com o se sentisse os olhos de Lou, Gabe olhou para cim a. No décim o quarto andar, Lou sentiu com o se Gabe estivesse olhando diretam ente para a sua alm a, a intensidade daqueles olhos o queim ava.

Isso deixou Lou confuso. Sabia perfeitam ente que o lado de fora do vidro era reflexivo. Tinha participado do proj eto e da execução do prédio. Gabe não tinha nenhum a possibilidade de enxergá-lo; o queixo no ar, m ão sobre a testa para bloquear a luz, quase com o se fizesse um a saudação. Só podia estar olhando para algum reflexo, pensou Lou. Talvez um pássaro tivesse atraído seu olhar. Isso m esm o, um reflexo; só podia ser isso. Mas o olhar de Gabe era tão intenso que se elevava pelos treze andares até a sala de Lou, até os olhos de Lou. Então, ele deixou de lado suas certezas e ergueu a m ão, sorriu e fez um a pequena saudação. Antes que pudesse esperar pela reação de Gabe, Lou em purrou a cadeira em que estava sentado para longe da j anela e girou-a, com a pulsação acelerada, com o se tivesse sido apanhado fazendo algo que não deveria.

O telefone tocou. Era Alison, e ela não parecia estar feliz.

— Antes que eu lhe diga o que estou prestes a dizer, quero apenas inform á-lo

[2]

de que sou qualificada pela UCD com um diplom a em adm inistração de

em presas.

— Parabéns — disse Lou.

Ela lim pou a garganta.

— Bem , lá vai. Alfred calça m ocassins m arrons de bico redondo, tam anho quarenta. Aparentem ente, ele tem dez pares dos m esm os sapatos e os usa todos os dias, então eu não acho que a ideia de lhe dar m ais um par com o presente de Natal sej a boa. Não sei qual é o fabricante, m as posso descobrir se você quiser. — Ela respirou fundo. — Em relação aos sapatos com solas verm elhas, Louise com prou um novo par e o usou na sem ana passada, m as eles estavam m achucando seus calcanhares, então ela quis devolvê-los. A loj a não aceitou, porque ficou óbvio que ela tinha usado os sapatos, j á que a sola verm elha apresentava sinais de desgaste.

— Quem é Louise?

— A secretária do Sr. Patterson.

— Preciso que você descubra com quem ela saiu do trabalho sem ana passada, todos os dias.

— De j eito nenhum . Isso não está nas atribuições do m eu cargo.

— Você pode sair m ais cedo se descobrir isso para m im .

— Então, tudo bem .

— Obrigado por ceder sob tanta pressão.

— Não tem problem a. Posso aproveitar para com eçar a fazer m inhas com pras de Natal.

— Não se esqueça da m inha lista.

Assim , apesar de descobrir m uito pouco, a m esm a sensação estranha tom ou conta do coração de Lou, algo que poderia ser identificado com o pânico. Mas Gabe tinha razão em relação aos sapatos e, portanto, não era um lunático, com o Lou secretam ente suspeitara. Gabe perguntara se ele precisava de um olho observador no prédio e, pegando o telefone, Lou repensou a resposta que tinha dado a ele.

— Ligue para o Harry, da sala de correspondência. Depois, pegue um a cam isa, um a calça e um a gravata das que deixo guardadas aqui no arm ário e leve-as até a calçada para o cara que está sentado ao lado da porta. Leve-o para o banheiro m asculino, certifique-se de que ficou bem arrum ado e, depois, leve-o para a sala de correspondência. O nom e dele é Gabe; Harry estará esperando por ele. Vou resolver o problem a da falta de funcionários.

— O quê?

— Gabe. É o apelido de Gabriel. Mas cham e-o de Gabe.

— Não, eu quis dizer...

— Faça o que eu disse. Ah, e tem outra coisa.

— O quê?

— Eu gostei m uito do nosso beij o. Estou ansioso para transar com você.

Ele ouviu o leve riso que Alison deixou escapar antes que ela desligasse o telefone.

Ele conseguira de novo. Em m eio ao processo de contar a verdade, ele tinha a qualidade quase adm irável de contar um a m entira quase inacreditável. Ao aj udar um a pessoa — Gabe —, Lou estava tam bém aj udando a si m esm o; um a boa ação era um triunfo para a alm a. Mas, de algum a m aneira, Lou sabia que além daquilo que estava tram ando, e da provável salvação da sua alm a, havia outro m otivo, que era o com eço de um a salvação bem diferente: a salvação da sua própria pele. E m ais profundam ente, com o cam adas de um a cebola, ele sabia que seu ato de caridade era estim ulado pelo m edo. Não apenas m edo de, se toda razão e sorte falhassem , estar no lugar de Gabe naquele exato m om ento, m as tam bém , num a cam ada ainda m ais profunda, m edo de suas falhas serem expostas, de um a rachadura se abrir no proj eto de carreira que tinha traçado para si m esm o. Talvez nem ele m esm o conseguisse sentir, m as o m edo estava ali, estava ali o tem po inteiro disfarçado de outra coisa, escondido dos olhares de todo m undo.

Exatam ente com o o décim o terceiro andar.