O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 12 de 29

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O Presente

O malabarista

 

Às cinco horas da tarde, no m om ento exato em que Lou deveria estar saindo do prédio para voltar para casa e, de lá, ir até a escola de Lucy assistir à peça de teatro, ele andava de um lado para outro em sua sala. Da porta até sua m esa, da m esa até a porta, e repetindo o percurso. Várias e várias vezes. A porta estava escancarada, preparada para a corrida pelo corredor até o escritório do Sr. Patterson, onde anunciaria que não poderia se encontrar com Bruce Archer para um café. Assim com o o Sr. Patterson, ele tam bém tinha com prom issos fam iliares. Lucy, sua filha, seria um a folha. Por algum a razão aquilo fazia seus j oelhos fraquej arem . A cada vez que chegava ao vão da porta ele se detinha, e, em vez de sair, dava m eia-volta e continuava a andar de um lado para outro em frente à sua m esa.

Alison o observava com curiosidade, levantando os olhos do docum ento que digitava cada vez que ele chegava à porta. Finalm ente, o som de suas unhas postiças contra as teclas parou.

— Lou, posso fazer algo por você?

Ele olhou para ela com o se percebesse pela prim eira vez que estava num escritório e que Alison estava ali o tem po inteiro. Ele se endireitou, arrum ou a gravata e lim pou a garganta.

— Ah... não, obrigado, Alison — disse ele, num tom m ais form al do que desej ava. Queria m uito convencê-la de que não estava louco, m as com portava-se com o um hom em bêbado tentando dizer que estava sóbrio.

Lou com eçou a andar em direção à sua m esa outra vez, m as interrom peu o passo e enfiou a cabeça pelo vão da porta.

— Aliás, Alison... essa reunião para o café...

— Com Bruce Archer, sim .

— Será apenas café, não é?

— Foi o que o Sr. Patterson disse.

— E ele sabe que sou eu quem vai encontrá-lo?

— O Sr. Patterson?

— Não, Bruce Archer.

— O Sr. Patterson ligou para ele hoj e cedo para explicar que não poderia encontrá-lo, m as que um de seus colegas ficaria feliz em com parecer para o café.

— Certo. Quer dizer, então, que talvez ele não estej a esperando especificam ente por m im .

— Quer que eu ligue para confirm ar isso?

— Ah... não. Ou m elhor, quero sim . — Ele pensou naquilo enquanto a m ão de Alison pairava sobre o fone. — Não — disse ele e depois voltou à sua sala. Alguns segundos depois, ele enfiou a cabeça pelo vão da porta outra vez. — Sim . Confirm e. — E, rapidam ente, entrou outra vez.

Enquanto andava de um lado para outro, ele ouviu a voz de Alison entoar alegrem ente:

— Oi, Gabe.

Lou ficou paralisado, e, por razões que não conseguia com preender, percebeu que estava correndo até a porta, onde ficou com as costas contra a parede para ouvir o diálogo entre eles.

— Oi, Alison.

— Você está m uito elegante hoj e.

— Obrigado. O Sr. Patterson pediu que eu fizesse algum as coisas para ele, então achei que seria um a boa ideia estar um pouco m ais apresentável.

Lou espiou pela fresta entre as dobradiças da porta e viu Gabe, com um novo corte de cabelo, penteado cuidadosam ente, com o o seu. Um terno escuro, sim ilar a um que Lou tinha, estava pendurado sobre seu om bro e coberto por um plástico.

— Com prou esse terno novo para trabalhar aqui? — perguntou Alison.

— Ah, isto aqui? Não, eu j á o tinha. Nunca se sabe quando se pode precisar de um terno — disse ele, resposta que Lou considerou m uito estranha. — Bom , vim trazer isso para você. Acho que são plantas de arquitetura. Im agino que Lou queira vê-las.

— Onde você as conseguiu?

— Estavam com o arquiteto.

— Mas ele estava trabalhando em casa hoj e — disse Alison, olhando o conteúdo do envelope de papel pardo, confusa.

— Sim . Fui buscá-las na casa dele.

— Mas Lou acabou de pedi-las ao Sr. Patterson. Há cinco m inutos. Com o você conseguiu buscá-las tão rápido?

— Ah, não sei. Eu apenas... você sabe. — Lou viu Gabe dando de om bros.

— Não, não sei — riu Alison. — Mas gostaria de saber. Continue trabalhando assim e eu não ficarei surpresa se o Sr. Patterson lhe der o em prego de Lou.

Eles riram , e Lou ferveu de raiva. Faria de tudo para transform ar a vida de Alison num inferno depois dessa conversa.

— Lou está em sua sala agora?

— Está. Por quê?

— Ele vai se encontrar com Bruce Archer hoj e?

— Sim . Pelo m enos, eu acho que sim . Por quê?

— Ah, por nada. Só curiosidade. Alfred está livre hoj e à noite?

— Engraçado, Lou m e perguntou a m esm a coisa hoj e cedo. Sim , Alfred está livre, eu verifiquei com sua secretária, Louise. Acho que você ia gostar dela — Alison riu, insinuando um flerte.

— Deixe eu ver se entendi direito. Lou sabe que Alfred está disponível para se encontrar com Bruce, caso decida não ir ao encontro.

— Sim , eu j á disse isso a ele. Por quê? O que está havendo? — Ela baixou a voz. — O que vai acontecer de tão im portante hoj e à noite? Lou está agindo de um j eito m uito estranho por causa disso.

— É m esm o? Hum m m m .

Aquilo foi a gota d’água. Lou não aguentava m ais. Fechou a porta de sua sala, assustando Gabe e Alison. Sentou-se à sua m esa e pegou o telefone.

— Sim ? — respondeu Alison.

— Coloque-m e em contato com Harry, da sala de correspondência. Depois, ligue para Ronan Pearson e verifique se foi ele quem entregou pessoalm ente as plantas a Gabe. Faça isso sem que Gabe perceba.

— Sim , é claro. Um m om ento, por favor — disse ela, profissionalm ente, em sua m elhor voz de telefonista.

O telefone tocou e Lou aj ustou sua gravata outra vez, lim pou a garganta e girou em sua enorm e cadeira, ficando de frente para a j anela. O dia estava frio, m as não a ponto de ficar desconfortável; nenhum a brisa no ar enquanto as pessoas corriam de um a loj a para outra, cultuando a nova religião desta época do ano, seus braços carregados com sacolas em m eio às cores que brilhavam nos inúm eros letreiros de neon.

— Alô — disse Harry ao telefone, com a voz m al-hum orada.

— Harry, aqui é Lou.

— O quê? — Harry perguntou em voz alta, com os sons de m áquinas e vozes por trás dele, e Lou teve que falar m ais alto. Olhou para trás para ter certeza de que não havia ninguém por perto antes de falar.

— Harry, aqui quem fala é Lou.

— Lou? Que Lou?

— Suffern.

— Oh, Lou, olá. O que posso fazer por você? Sua correspondência foi parar no décim o segundo de novo?

— Não, não, eu a recebi, obrigado.

— Ótim o. Esse cara novo que você m andou para m im é um gênio, não é?

— É m esm o?

— Gabe? Sem dúvida. Todos estão m e ligando para elogiá-lo. Parece que ele caiu do céu. Vou lhe dizer um a coisa, com toda a sinceridade: ele não poderia ter vindo em m elhor hora. Estávam os com dificuldades, você sabe. Em todos os m eus anos neste cargo, essa época de Natal é a m ais m ovim entada. Parece que tudo está acontecendo cada vez m ais rápido. Bem , deve ser isso, porque eu não estou trabalhando m ais devagar, eu garanto. Você escolheu um cara m uito bom , Lou. Fico lhe devendo essa. Com o posso aj udá-lo hoj e?

— Bem , em relação a Gabe — disse ele devagar, sentindo o coração acelerado dentro do peito. — Você sabe que ele assum iu outras responsabilidades aqui na em presa? Outras tarefas além do que tem que fazer no departam ento de correspondência.

— Sim , estou sabendo. Ele estava bem anim ado hoj e de m anhã. Com prou até um terno novo durante o horário de folga. Não sei onde ele encontrou tem po para fazer com pras. Algum as pessoas aqui não conseguem nem acender um cigarro durante o intervalo. Esse rapaz é rápido. Eu diria até m esm o que não vai dem orar m uito até que ele saia daqui e estej a aí em cim a com você. O Sr. Patterson parece ter sim patizado com Gabe. Estou feliz por ele, é um bom rapaz.

— Sim ... bem , de qualquer m aneira, só liguei para saber. Não quero que essas outras tarefas dele entrem em conflito com a sua program ação. — Lou tentou m ais um a vez. — Você não iria querer que ele se distraísse, se estiver com a cabeça nas outras coisas que está fazendo aqui em cim a. Sabe do que eu estou falando? As coisas estão bem m ovim entadas por aqui e é fácil se confundir.

— Obrigado pelo aviso, Lou, m as o que Gabe faz depois da um a hora da tarde fica totalm ente a critério dele. Para ser honesto com você, estou feliz por ele ter encontrado outras funções. Ele term ina o trabalho tão rápido que eu tenho dificuldade em m antê-lo ocupado até o prim eiro intervalo.

— Certo. Bem , se acontecer qualquer coisa estranha, sim plesm ente faça o que você tiver que fazer, Harry. Não quero que se sinta obrigado a m antê-lo no em prego por m inha causa. Entendeu?

— Eu sei disso, Lou. Sei sim . Ele é um bom rapaz. Não há nada com que se preocupar.

— Certo. Obrigado. Cuide-se, Harry.

O telefone ficou m udo. Lou suspirou e girou bem devagar a cadeira para recolocar o fone no gancho. Quando se virou, ficou cara a cara com Gabe, que estava atrás dele, observando-o atentam ente.

Lou deu um salto, largando o fone e gritando.

— Jesus Cristo! — ele levou a m ão ao peito, seu coração batia com força.

— Não. Apenas eu — disse Gabe, com os olhos azuis queim ando os olhos de Lou.

— Já ouviu falar em bater na porta antes de entrar? Onde está Alison? — Lou se inclinou de lado para observar a m esa dela, e viu que estava vazia. — Há quanto tem po você está aqui?

— Há tem po suficiente. — A voz de Gabe era suave, e foi isso o que m ais irritou Lou. — Está tentando m e causar problem as, Lou?

— O quê? — O coração de Lou batia descontroladam ente. Não havia se recuperado da surpresa e estava abalado pela ausência de Alison e a proxim idade de Gabe. A sim ples presença daquele hom em o desconcertava.

— Não — disse ele, engolindo em seco, e detestou a si m esm o por aquela fraqueza súbita. — Apenas liguei para Harry para saber se ele estava satisfeito com o seu trabalho. Só isso. — Ele sabia que estava falando com o um garoto que tentava se defender.

— E está?

— Pelo que m e disse, está sim . Mas você precisa entender que eu tenho responsabilidade pela sua indicação. Afinal, fui eu quem o encontrou

— Você m e encontrou — Gabe sorriu e disse as palavras com o se nunca as tivesse ouvido ou pronunciado antes.

— O que há de tão engraçado nisso?

— Nada — Gabe m anteve o sorriso e com eçou a observar o escritório de Lou, com as m ãos nos bolsos e com o m esm o olhar paternalista que não indicava nem invej a nem adm iração.

— São cinco horas, vinte e dois m inutos e trinta e um segundos da tarde de hoj e — disse Gabe, sem sequer olhar para o seu relógio. — Trinta e quatro, trinta e cinco, trinta e seis... — Ele se virou e sorriu para Lou. — Você sabe do que eu estou falando.

— E daí? — Lou vestiu o paletó e tentou olhar discretam ente o relógio para ter certeza. Eram exatam ente cinco e vinte e dois.

— Você tem que ir em bora agora, não é?

— O que você acha que eu estou fazendo?

Gabe se aproxim ou da m esa de reunião, pegou três frutas da vasilha — duas laranj as e um a m açã — e inspecionou-as cuidadosam ente, um a por um a.

— Decisões, decisões — disse ele. E ficou segurando as três frutas.

— Está com fom e? — perguntou Lou, agitado.

— Não — Gabe riu outra vez. — Você sabe fazer m alabarism o?

A m esm a sensação voltou a afligir o coração de Lou, e ele se lem brou exatam ente do que não gostava em Gabe. Eram perguntas com o essa, afirm ações e com entários que pareciam perfurar Lou nos lugares m ais íntim os.

— É m elhor você atender — disse Gabe.

— Atender o quê?

Antes que Gabe pudesse responder, o telefone tocou e, em bora preferisse que Alison filtrasse suas cham adas, ele correu para pegar o aparelho.

Era Ruth.

— Oi, querida. — Lou fez um gesto para que Gabe o deixasse a sós, m as Gabe com eçou a fazer m alabarism os com as frutas em resposta. Lou lhe deu as costas e, em seguida, sentindo-se desconfortável com Gabe ali, virou-se para m anter os olhos nele. Baixou a voz.

— Lou, não faça isso com igo — disse Ruth. — Lucy vai ficar com o coração partido.

— Não vou conseguir chegar para assistir à peça de teatro, e é isso. E Lucy nem vai perceber m inha ausência, pois o teatro vai estar escuro. Você pode dizer a ela que eu estava lá. O restante da noite vai correr com o o planej ado. O Sr. Patterson m e pediu para encontrar um de nossos clientes. É um grande negócio, e isso pode m e aj udar a ficar com o cargo de Cliff.

— Eu sei, eu sei. E, se for prom ovido, você acabará se afastando ainda m ais de nós.

— Não, não, isso não vai acontecer. Eu realm ente tenho que m e esforçar durante os próxim os m eses para provar o m eu valor.

— Para quem você está tentando provar o seu valor? Laurence j á conhece a sua capacidade, você está na em presa há cinco anos. Mas eu não quero falar disso agora. Você vai estar no teatro ou não?

— No teatro? — Lou m ordeu o lábio e olhou para o relógio. — Não. Não conseguirei chegar lá a tem po.

Gabe deixou cair a m açã, que rolou pelo carpete em direção à m esa de Lou, e continuou a fazer m alabarism os com as laranj as. Lou sentiu um a satisfação quase infantil ao perceber que Gabe deixara a fruta cair.

— Vai estar em casa para o j antar, então? Com seus pais, Alexandra e Quentin? Sua m ãe estava falando com igo ao telefone agora, dizendo o quanto está ansiosa por esse j antar. Você sabe, j á faz um m ês desde que você ligou dizendo que iria visitá-los.

— Não faz um m ês que eu os vi pela últim a vez! Vi m eu pai há... — Ele ficou em silêncio enquanto calculava o tem po. — Bem , talvez j á faça quase um m ês. — Um m ês? O tem po voava.

Para Lou, visitar seus pais era um a tarefa ingrata, com o arrum ar a cam a. Depois de passar algum tem po sem fazer isso, a im agem dos cobertores desarrum ados ficaria em sua cabeça até que ele finalm ente resolvesse arrum á-la. Ele sentiria um a satisfação instantânea pelo fato de ter com pletado a tarefa, e, quando pensava que tudo estava concluído e deixado para trás, ele acordava e sabia que tinha de fazer tudo de novo. Pensar em seu pai reclam ando que não o via há m uito tem po fazia com que Lou quisesse sair correndo. Era a m esm a sentença lam uriosa que o deixava louco. Em bora o fizesse se sentir culpado, na realidade, fazia com que ele quisesse ficar longe deles por m ais tem po para evitar ouvir aquelas palavras. Precisava estar com o hum or certo para ouvi-las, afastar as em oções da sua cabeça para não retrucar com indelicadeza ou tagarelar sobre quantas horas trabalhava todos os dias e os contratos que negociava, apenas para calar a boca do pai. E, certam ente, não estava com o hum or certo naquela tarde. Talvez, se chegasse em casa depois que todos j á tivessem tom ado algum as doses de bebida, seria m ais fácil lidar com aquilo.

— Talvez eu não consiga com parecer ao j antar, m as chegarei na hora da sobrem esa. Dou m inha palavra.

Gabe deixou um a laranj a cair e Lou quis socar o teto, tam anha a satisfação que sentia. Em vez disso, ele franziu os lábios e continuou a sequência de j ustificativas para tudo, recusando-se a pedir desculpas por algo que estava totalm ente fora do seu controle. Lou finalm ente desligou o telefone e cruzou os braços em frente ao peito.

— O que é tão engraçado? — perguntou Gabe, j ogando a laranj a que restava para cim a e pegando-a com a m ão direita, enquanto a esquerda estava enfiada no bolso.

— Você não é um m alabarista m uito bom , não é? — disse ele, com um sorriso torto.

— Touché — sorriu Gabe. — Você é bem observador. Eu realm ente não tenho m uito talento com m alabares. Mas não seria m alabarism o se eu tivesse decidido, antes de com eçar, deixar aquelas duas caírem e ficar com esta na m inha m ão, né?

Lou franziu a testa com aquela resposta estranha, m as ocupou-se vestindo seu sobretudo e preparando-se para ir em bora.

— Não, Gabe. Com certeza não é m alabarism o se você decidir... — Ele se calou abruptam ente, percebendo o que estava dizendo e ouvindo a voz de Ruth em sua cabeça. Virou o rosto rapidam ente, m as Gabe havia desaparecido e a laranj a estava à sua frente, sobre a m esa.

— Alison — Lou m archou para fora do escritório com a laranj a na m ão. — Por acaso Gabe passou por aqui há um m om ento?

Alison ergueu um dedo, sinalizando que ele esperasse enquanto fazia anotações num bloco e escutava a voz do outro lado do telefone.

— Alison! — ele a interrom peu outra vez e ela com eçou a sentir ondas de pânico, escrevendo m ais rápido, acenando afirm ativam ente com a cabeça, bem rápido, e ergueu a m ão inteira dessa vez.

— Alison! — esbravej ou ele, colocando a m ão sobre o telefone para encerrar a cham ada. — Não tenho o dia inteiro.

Ela o olhou com a boca aberta, segurando o fone de um j eito frouxo.

— Eu não acredito que você...

— Sim , sim , eu desliguei, e você terá que viver com isso. Gabe passou por aqui? — perguntou ele. Sua voz estava apressada, correndo, saltando de um lado para outro para acom panhar o ritm o do seu coração.

— Bem ... — ela pensou por um tem po. — Ele veio até a m inha m esa há cerca de vinte m inutos e...

— Sim , sim , eu sei disso. Ele estava na m inha sala há um segundo e, de repente, desapareceu. Sim plesm ente sum iu. Ele passou por aqui?

— Bem , provavelm ente passou, m as...

— Você o viu?

— Não, eu estava ao telefone e...

— Meu Deus! — ele socou a m esa com o punho que j á estava dolorido. — Ah, que m erda. — E segurou o braço com a outra m ão.

— O que aconteceu, Lou? Acalm e-se. — Alison se levantou e estendeu a m ão na direção dele.

Lou se esquivou.

— Ah, por falar nisso... — Ele baixou o tom de voz e se aproxim ou outra vez. — Por acaso algum a das m inhas cartas j á veio com um nom e diferente?

— Com o assim ? — ela franziu a testa.

— Você sabe. — Ele olhou para a direita e para a esquerda, e m al m oveu os lábios enquanto falava. — Aloy sius — sussurrou em seguida.

— Aloy sius? — ela disse em voz alta.

Ele olhou para cim a, irritado.

— Fale baixo — m urm urou ele.

— Não — ela baixou a voz. — Nunca vi o nom e Aloy sius em nenhum a correspondência.

Com o se houvesse um pequeno intervalo de tem po até que sua voz saísse da boca e chegasse aos ouvidos, ela sorriu e depois fez um a careta, e com eçou a rir.

— Por que diabos alguém cham ado Aloy... — Ao perceber o olhar de Lou, suas palavras desapareceram e seu sorriso se desfez. — Oh. Oh, m eu Deus. É... — A voz de Alison subiu um a oitava inteira. — Um nom e lindo.

Lou cam inhou por cim a da passarela Seán O’Casey, recém -construída, que ligava os cais norte e sul, recentem ente reform ados: o cais North Wall ao cais Sir John Rogerson. Cem m etros à frente da ponte, estava o seu destino: The Ferry m an, o único pub autêntico que restara naquela área do cais. Não era um lugar para se tom ar cappuccinos e com er sanduíches em pão ciabatta, e, exatam ente por isso, a clientela era específica. O pub tinha tam bém um punhado de pessoas que precisavam de um a pausa em suas com pras de Natal e agora envolviam copos com bebidas quentes com dedos arroxeados pelo frio. Além desses clientes, o lugar tinha um bom núm ero de trabalhadores, j ovens e velhos, relaxando após cum prir o expediente. Havia paletós sobre as banquetas e canecas e copos sobre as m esas. Mal passava das seis da tarde e as pessoas j á escapavam do distrito com ercial e entravam no refúgio m ais próxim o para prestar hom enagens no altar das cervej as e dos barris de chope.

Bruce Archer era um a dessas pessoas. Estava em poleirado no bar com um a Guinness na m ão, gargalhando estrondosam ente de algum a coisa que alguém ao seu lado dissera. Outra pessoa de terno. E, m ais à frente, outra. Om breiras ao lado de om breiras. Ternos risca de giz e m eias de lã. Mais sapatos brilhantes e m aletas contendo planilhas, gráficos num éricos em form a de pizza e previsões para o m ercado futuro. Ninguém ali estava bebendo café. Ele j á deveria saber. Não im aginava aquilo, m as, ao perceber que todos estavam rindo e dando tapinhas am istosos nas costas uns dos outros, não ficou nem um pouco surpreso. Já sabia exatam ente o que esperar.

Bruce se virou e o viu.

— Lou! — gritou ele, a voz ecoando pelo bar com o forte sotaque de Boston fez com que várias cabeças se virassem , não na direção de Bruce, m as no rum o do hom em charm oso e m uito elegante para quem ele estava gritando. — Lou Suffern! Que bom vê-lo! — Ele se levantou da banqueta, foi na direção de Lou com a m ão estendida. Em seguida, agarrando a m ão de Lou com firm eza, ele a agitou com força para cim a e para baixo enquanto lhe dava tapinhas entusiasm ados nas costas. — Venha, quero apresentá-lo aos rapazes. Rapazes, este é Lou, Lou Suffern, que trabalha na Patterson Em preendim entos. Trabalham os j untos no proj eto do prédio em Manhattan de que eu estava falando, e tivem os um a experiência m uito louca certa noite. Espere até contarm os o que aconteceu, vocês não vão acreditar! Lou, este é Derek, que... — Assim , Lou ficou perdido num m ar de apresentações, esquecendo-se de cada nom e instantes após ouvi-lo e afastando da sua m ente as im agens da esposa e da filha a cada aperto de m ão. A m ão podia apertar a sua com m uita força, estar úm ida, ser flácida ou agitar seu om bro para cim a e para baixo. Tentou esquecer que havia dispensado sua fam ília para estar ali. Tentou esquecer quando os hom ens zom baram dele por pedir café e, em vez disso, o encheram de cervej a e ignoraram sua tentativa de ir em bora depois de tom ar a prim eira caneca. E tam bém depois de tom ar a segunda. E a terceira. Cansado das discussões a cada vez que um a nova rodada de cervej a chegava, ele deixou que m udassem sua bebida para um Jack Daniel’s, e, quando seu celular tocava, ele tam bém deixou que as vaias dignas de um grupo de adolescentes o convencessem a não atender. E, então, depois de tudo isso, não precisaram convencê-lo de m ais nada. Ele ficaria ali por um bom tem po, com o telefone em m odo silencioso e vibrando a cada dez m inutos com as ligações de Ruth. Sabia que Ruth com preenderia; se não com preendesse, ela não seria um a pessoa m uito razoável.

Um a garota atraiu seus olhos do outro lado do bar; havia m ais um copo de uísque com Coca-Cola no balcão. Toda a sensatez e razão saíram pela porta j unto com os fum antes. Fazia frio lá fora, m etade pensando em cham ar um táxi, a outra m etade olhando ao redor e procurando alguém para levar para casa e am ar. Foi então que, com o frio intenso e a frustração, a sensatez discutiu com a razão e as duas trocaram socos fora do bar, enquanto Lou virava as costas e cuidava sozinho da sua am bição.