O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 15 de 29

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O Presente

Lar, doce lar

 

– Olá, sargento — disse Gabe, com os olhos azuis grandes e honestos. Surpreso pelo fato de o hom em saber sua patente, Raphie m udou de atitude e suavizou o tom de voz.

— Você cruzou o sinal verm elho ali atrás, com o deve saber.

— Eu sei, sargento. Peço m il desculpas. Foi totalm ente acidental, posso lhe garantir. O sinal estava am arelo e eu achei que conseguiria passar por ele.

— Você avançou o sinal m uito depois de ele ter ficado am arelo.

— Bem ... — Gabe olhou para Lou, que estava à sua esquerda e fingia dorm ir, roncando em alto e bom som e rindo por entre os roncos. Em sua m ão, havia um guarda-chuva grande.

Raphie exam inou o guarda-chuva na m ão de Lou e depois seguiu o olhar de Gabe até o acelerador.

— Jesus! — sussurrou ele, em voz baixa.

— Não, m eu nom e é Gabe — respondeu Gabe. — Sou colega do Sr. Suffern. Estava tentando levá-lo para casa em segurança. Ele exagerou um pouco na bebida.

Ao ouvir a deixa, Lou roncou alto e fez um ruído parecido com um assobio. Em seguida, riu.

— Não diga.

— Estou m e sentindo um pai de plantão esta noite — disse Gabe. — Me certificando de que m eu filho estej a em segurança. Isso é im portante, não é?

— O que você quer dizer com isso? — Raphie estreitou os olhos.

— Ah, eu acho que o senhor sabe o que eu quero dizer — Gabe sorriu, inocente.

Raphie fixou o olhar em Gabe e endureceu a voz, sem saber ao certo se estava lidando com um piadista.

— Mostre-m e a sua carteira de habilitação, por favor. — Ele estendeu a m ão.

— Oh. Ela não está com igo.

— Você tem um a carteira de habilitação?

— Não está com igo.

— Foi o que você disse. — Raphie pegou um bloco de notas e um a caneta. — Qual é o seu nom e, então?

— Meu nom e é Gabe, senhor.

— Gabe de quê? — Raphie se endireitou um pouco.

— O senhor está bem ? — perguntou Gabe.

— Por que a pergunta?

— Parece que está um pouco desconfortável. Há algum a coisa errada?

— Estou bem . — Raphie com eçou a se afastar do carro.

— Seria m elhor fazer alguns exam es — disse Gabe, a voz carregada pela preocupação.

— Cuide da sua vida! — esbravej ou Raphie, olhando ao redor para ter certeza de que ninguém o ouvira.

Gabe olhou para a viatura da polícia pelo espelho retrovisor. Não havia ninguém nele. Nenhum parceiro ou reforço. Nenhum a testem unha.

— Apareça esta sem ana na delegacia de polícia de Howth, Gabe. Traga sua carteira de habilitação e peça para falar com igo. Aí verem os o que vam os fazer com você. Agora, leve esse hom em para casa em segurança — disse ele, indicando Lou com um m eneio de cabeça e voltando à viatura em seguida.

— Ele bebeu de novo? — perguntou Lou, abrindo seus olhos em baçados e virando-se para acom panhar Raphie com os olhos enquanto ele voltava para a viatura.

— Não, ele não está bêbado — disse Gabe, observando Raphie voltar a passos lentos para o carro de polícia.

— Então, o que há com ele? — rosnou Lou.

— Outra coisa.

— Não, você é que é outra coisa. Me leve para casa. — Ele estalou os dedos e riu. — Ou m elhor, deixe que eu dirij a — disse ele, m al-hum orado, e com eçou a se retorcer em seu assento para sair do carro. — Não quero que as pessoas pensem que este carro é seu.

— É perigoso beber e dirigir, Lou. Você pode acabar batendo o carro.

— E daí? — bufou ele, com o se fosse um a criança. — O problem a é m eu, não é?

— Um am igo m eu m orreu há pouco tem po — disse Gabe, com os olhos ainda na viatura de polícia, que lentam ente se afastava pela estrada. — E pode acreditar no que eu digo: quando você m orre, o problem a é de todo m undo, m enos seu. Ele deixou um a suj eira enorm e para trás. Eu apertaria o cinto, se fosse você, Lou.

— Quem foi que m orreu? — Lou fechou os olhos, ignorando o conselho, e apoiou sua cabeça no encosto, desistindo da ideia de dirigir.

— Duvido que você o conheça — disse Gabe, ligando a seta do carro assim que a viatura sum iu do seu cam po visual e voltando à estrada.

— Com o ele m orreu?

— Acidente de carro — disse Gabe, pisando com força no acelerador. O carro deu um solavanco forte para a frente, com o som do m otor rasgando a noite tranquila.

Os olhos de Lou se abriram , e ele olhou para Gabe, preocupado.

— É m esm o?

— Sim . Muito triste, na verdade. Ainda era novo. Com um a fam ília j ovem . Um a esposa linda. Bem -sucedido. — Gabe pisou no acelerador com m ais força.

Os olhos de Lou estavam arregalados agora.

— Mas isso não é o m ais triste. O pior foi saber que ele não conseguiu registrar seu testam ento a tem po. Não que ele tenha culpa por isso. Era j ovem e não tinha planos de m orrer, m as isso m ostra que nunca se sabe o que pode acontecer.

O velocím etro se aproxim ava da m arca dos cem quilôm etros por hora naquela área onde a velocidade m áxim a perm itida era cinquenta. Lou agarrou a alavanca da porta e segurou-a com força. Endireitou-se no banco, pressionando as nádegas contra o assento. Estava sentado e com as costas eretas, observando o velocím etro e as luzes borradas da cidade por cim a da baía, que passavam rapidam ente por seus olhos.

Ele pensou em apertar o cinto de segurança, m as, tão rápido quanto tinha acelerado, Gabe tirou o pé do acelerador, verificou o retrovisor lateral, ligou a seta e virou o volante para a esquerda, com firm eza. Olhou para o rosto de Lou, que estava ficando esverdeado, e sorriu.

— Lar, doce lar, Lou.

Foi som ente dias depois, quando a névoa da ressaca com eçou a se dissipar, que Lou percebeu que não se lem brava de ter indicado o cam inho da sua casa a Gabe um a única vez naquela noite.

— Mãe, pai, Marcia, Quentin, Alexandra! — bradou Lou, assim que a porta foi aberta por sua m ãe, que tinha um a expressão assustada no rosto. — Estou em caaasa! — cantarolou ele, abraçando sua m ãe e dando-lhe um beij o no rosto. — Me desculpem por ter perdido o j antar, tive m uito trabalho no escritório esta noite. Trabalho, trabalho e m ais trabalho.

Lou não conseguiu m anter a com postura enquanto se j ustificava e ficou agitando os om bros para cim a e para baixo, o peito chiando em um riso quase silencioso, observado por rostos assustados e por outros que o observavam sem se im pressionar. Ruth ficou paralisada, olhando para seu m arido com um a m istura de sentim entos que incluía raiva, m ágoa e vergonha. Passou o dia inteiro lidando com a em polgação incontrolável de Lucy, que foi canalizada de todas as m aneiras, positivas e negativas, com que um a criança poderia se com portar; m ais tarde, teve de lidar com a irritação e as lágrim as de Lucy, que se recusava a entrar no palco antes que o pai chegasse. Depois de retornar da apresentação na escola, ela colocou as crianças na cam a e com eçou a correr pela casa para preparar o j antar e os quartos para os convidados. Seu rosto estava verm elho por passar a noite na cozinha quente e seus dedos estavam queim ados após carregar pratos e panelas quentes. Estava cansada física e m entalm ente; exausta por cuidar dos filhos das m aneiras concebíveis para um a m ãe — desde ficar de j oelhos no chão com Pud até consolar Lucy e enxugar suas lágrim as de decepção por não encontrar o pai na plateia, apesar das tentativas que Ruth fizera para convencê-la do contrário.

Ruth olhou para Lou, cam baleando sob o vão da porta, os olhos verm elhos, abandonando toda a cautela e agindo com o um idiota na frente dos convidados. Ele nunca suportaria algo assim — e ela nunca faria algo assim —, e essa era a diferença que havia entre eles. Mas ali estava ele, cam baleando e feliz, e ali estava ela, estática e profundam ente insatisfeita, im aginando por que escolhera ser a cola que unia todos aqueles pedaços.

— Pai! — anunciou Lou. — Faz décadas que não o vej o! Faz m uito tem po, não é? — ele sorriu, andando em direção ao pai com a m ão estendida. Sentou-se ao lado dele, arranhando o piso enquanto arrastava a cadeira até seus cotovelos estarem quase se tocando. — Me conte o que andou fazendo esse tem po todo. Oh, e eu aceito um pouco desse vinho tinto, obrigado. É o m eu favorito, querida. Você escolheu bem . — Ele piscou para Ruth e, em seguida, derrubou quase todo o conteúdo da garrafa na toalha branca enquanto tentava despej á-lo num a taça com o braço trêm ulo.

— Firm e aí, filho — disse seu pai em voz baixa, estendendo a m ão para aj udá-lo a firm ar o braço.

— Estou bem , pai — Lou se desvencilhou do pai, derrubando vinho sobre as m angas da cam isa dele.

— Ah, Aloy sius — disse sua m ãe, e Lou revirou os olhos.

— Está tudo bem , am or, estou bem — disse seu pai, tentando suavizar a situação.

— Mas essa é a sua m elhor cam isa! — continuou ela, pegando seu guardanapo, m ergulhando-o em seu copo de água e pressionando-o contra as m angas da cam isa branca do m arido.

— Mãe! — Lou olhou ao redor da m esa, rindo. — Eu não o m atei. Só derrubei um pouco de vinho.

Sua m ãe o olhou com um a expressão de desprezo e desviou os olhos, continuando a aj udar seu m arido.

— Talvez isso aj ude — Lou pegou o saleiro e com eçou a agitá-lo sobre os braços do seu pai.

— Lou! — Quentin ergueu a voz. — Pare com isso!

Lou parou e olhou para Alexandra com um sorriso m aroto, quase infantil.

— Ah, Quentin... — Lou acenou com a cabeça para seu irm ão. — Não percebi que você estava aí. Com o está o barco? Com prou velas novas? Algum equipam ento novo? Venceu algum a com petição ultim am ente?

Quentin lim pou a garganta e tentou se acalm ar.

— Bem , estam os nas duas últim as sem anas...

— Alexandra! — explodiu Lou no m eio da frase de Quentin. — Com o eu pude deixar de beij ar a bela Alexandra? — ele se levantou e, esbarrando contra os espaldares de todas as cadeiras, aproxim ou-se dela. — Com o está a bela Alexandra esta noite? Estonteante, com o sem pre. — Ele estendeu os braços e a abraçou com força, beij ando-lhe no pescoço.

— Oi, Lou — ela sorriu. — Teve um a boa noite?

— Ah, você sabe, trabalho, trabalho, m uita papelada para organizar. — Ele j ogou a cabeça para trás e riu outra vez, tão alto quanto um a m etralhadora. — Ah, querida. Oh, qual é o problem a aqui? Pelas caras de vocês, parece até que alguém m orreu. Quem sabe ficariam m ais felizes se enfiassem foguetes no próprio rabo. Vam os lá! — Lou gritava com certa agressividade e batia palm as em frente aos rostos deles. — Seus chatos!

Ele se virou para olhar a irm ã, Marcia.

— Marcia — disse ele, com um suspiro. — Marcia — repetiu. — Oi — disse apenas isso antes de voltar à sua cadeira com um sorriso infantil no rosto.

Gabe, desaj eitado, estava sob o batente da porta da sala de j antar no longo silêncio que veio a seguir.

— Quem você trouxe para cá, Lou? — seu irm ão Quentin quebrou o silêncio, estendendo a m ão e levantando-se para ir até onde Gabe estava. — Me desculpe, não fom os apresentados. Sou Quentin, o irm ão dele, e esta é m inha esposa, Alexandra.

Lou assobiou de m aneira indecorosa e depois riu.

— Olá, eu sou Gabe — disse, apertando a m ão de Quentin e entrando na sala de j antar. Deu a volta na m esa, cum prim entando todos os m em bros da fam ília.

— Lou — disse Ruth, em voz baixa. — Talvez fosse m elhor você tom ar um pouco de água ou café. Vou preparar um bule de café.

Lou soltou um longo suspiro.

— Você está com vergonha de m im , Ruth? — atacou ele. — Você m e disse para vir para casa. Estou em casa!

O silêncio tom ou conta de todos; tentavam evitar os olhares uns dos outros, constrangidos. O pai de Lou olhava para ele, enraivecido, com o rosto verm elho, os lábios trem endo ligeiram ente, com o se as palavras transbordassem pela sua boca, em bora não houvesse qualquer som .

Gabe continuou a andar ao redor da m esa.

— Olá, Ruth. É um prazer conhecê-la, finalm ente.

Ela m al o olhou nos olhos enquanto o cum prim entava, sem qualquer ânim o.

— Oi — disse ela, com a voz baixa. — Com licença, preciso levar essas coisas para a cozinha. — Ela se levantou e com eçou a levar os pratos com as sobras de queij o e as xícaras de café para a cozinha.

— Deixe eu aj udar. — Ofereceu Gabe.

— Não, não, por favor, sente-se. — Ela correu para a cozinha com os braços cheios.

Gabe desobedeceu e a seguiu assim m esm o. Ela estava apoiada no balcão onde deixara as louças, de costas para ele. Estava com a cabeça baixa e os om bros contraídos, sem qualquer indício de que houvesse vida ou alm a dentro dela naquele m om ento. Gabe fez um ruído quando deixou os pratos ao lado da pia para que ela soubesse que ele estava ali.

Ela se ergueu com um salto, alerta à presença dele. Recom pôs-se, recuperando a alm a e a vida para dentro de si após aquela pausa, e virou-se de frente para ele.

— Gabe... — Ela forçou um sorriso. — Eu disse que não precisava se incom odar.

— Eu queria aj udar — disse ele, tranquilam ente. — Lam ento pelo que aconteceu com Lou. Eu não estava com ele esta noite.

— Não? — ela cruzou os braços e pareceu constrangida por não saber.

— Não. Eu trabalho com ele no escritório. Fiquei até m ais tarde e o encontrei quando ele voltou do... bem , da reunião em que iria tom ar um café.

— Quando ele voltou ao escritório? Mas por que ele... — Ela o observou, confusa, e, em seguida, lentam ente, um a som bra cobriu seu rosto à m edida que encaixava as peças do quebra-cabeça. — Ah, entendi. Ele estava tentando voltar para casa dirigindo.

Não era um a pergunta; Ruth estava pensando em voz alta. Assim , Gabe não respondeu, m as ela suavizou sua expressão.

— Certo. Bem , obrigada por trazê-lo para casa em segurança, Gabe. Me desculpe se fui rude com você, m as eu estou apenas... você sabe. — A em oção tom ou conta da sua voz e ela parou de conversar; com eçou a lim par os restos de com ida dos pratos.

— Eu sei. Não precisa explicar.

Eles ouviram Lou soltar um “Uau!” na sala de j antar, e, logo depois, o barulho de um copo se quebrando, j unto com outra gargalhada.

Ela parou de lavar os pratos e fechou os olhos, suspirando.

— Lou é um bom hom em , você sabe — disse Gabe, suavem ente.

— Obrigada, Gabe. Acredite ou não, é exatam ente isso o que eu preciso ouvir agora, m as eu esperava que essas palavras não viessem de um dos colegas de trabalho de Lou. Gostaria que a m ãe dele fosse capaz de dizer isso — Ruth ergueu os olhos m arej ados. — Ou o pai dele. Seria bom , tam bém , ouvir a filha dele dizer isso. Mas, não. Só no trabalho Lou é o ídolo de todos. — Ela esfregava os pratos com raiva.

— Não sou um colega de trabalho de Lou, pode acreditar. Lou não suporta a m inha presença.

Ela o observou, curiosa.

— Ele conseguiu um em prego para m im ontem . Eu costum ava m e sentar do lado de fora do prédio da em presa dele e, ontem , de um a m aneira totalm ente inesperada, ele parou à m inha frente, m e deu um café e m e ofereceu um em prego.

— Ele m encionou algum a coisa a respeito de ontem à noite. — Ruth revirou sua m em ória. — Lou fez isso de verdade?

— Você parece surpresa.

— Não, não estou. Bem , na verdade, estou. Quero dizer... que em prego ele conseguiu para você?

— Um em prego no setor de correspondência.

— E que benefícios isso traz a ele? — perguntou ela, com a expressão séria.

Gabe riu.

— Você acha que ele fez isso com segundas intenções?

— Ah, é horrível eu dizer isso — disse ela, m ordendo o lábio para esconder o sorriso. — Não foi o que eu quis dizer. Eu sei que Lou é um bom hom em , m as ultim am ente ele tem estado m uito... ocupado. Ou m ais distraído; não há nada de errado em estar ocupado, desde que você não estej a distraído. — Ela fez um gesto que dem onstrava indiferença. — Mas ele não está realm ente aqui. É com o se estivesse em dois lugares ao m esm o tem po. Seu corpo está conosco, sua m ente está sem pre em outro lugar. As decisões que ele tom a ultim am ente sem pre têm a ver com o trabalho, com o otim izar seu trabalho, com o conseguir ir de um a reunião a outra no m enor tem po possível, blá-blá-blá... Assim , ao lhe oferecer um em prego, eu achei que... Meu Deus, escute só o que estou dizendo. — Ela se recom pôs. — Você obviam ente encontrou o lado bom de Lou, Gabe.

— Ele é um bom hom em — repetiu Gabe.

Ruth não respondeu, m as foi quase com o se Gabe lesse sua m ente quando disse:

— Mas você quer que ele sej a ainda m elhor, não é?

Ela o olhou, surpresa.

— Não se preocupe. Ele será.

Ruth falou com sua irm ã no dia seguinte e contou sobre a conversa que tivera com Gabe; a irm ã torceu o nariz, achando tudo aquilo m uito esquisito e suspeito, m as isso era o que ela pensava em relação à m aioria das coisas em sua vida. Foi som ente naquele m om ento que Ruth perguntou a si m esm a por que diabos não questionara Gabe, por que não achara tudo m uito estranho. Mas eram os m om entos que contavam , estar presente no m om ento e, naquele m om ento, ela não se sentiu com pelida a perguntar. Acreditava nele ou, pelo m enos, queria acreditar. Um hom em gentil lhe dissera que seu m arido seria um hom em ainda m elhor. Pensam entos com o aquele poderiam lhe fazer m al?