O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 26 de 29

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O Presente

Tudo começou com um rato

 

Na segunda-feira após o fim de sem ana em que passou velej ando e patinando, Lou Suffern percebeu que flutuava pelo corredor em direção ao escritório com a m esa m aior e a ilum inação m elhor. Era véspera de Natal e o prédio estava quase vazio, m as as poucas alm as que peram bulavam pelos corredores — vestidas de m aneira bastante casual — ofereciam -lhe tapinhas am istosos nas costas e apertos firm es de m ão a fim de parabenizá-lo. Ele havia conseguido. Atrás dele, Gabe o aj udava a carregar um a caixa com seus arquivos. Sendo véspera de Natal, era o últim o dia em que teria a oportunidade de se preparar antes do recesso de fim de ano. Ruth queria que ele a acom panhasse, e as crianças, ao centro da cidade para passearem pelas ruas e absorverem a atm osfera da festa, m as Lou sabia que a m elhor coisa a fazer era com eçar a se acostum ar com o novo cargo, de m odo que pudesse voltar à em presa no ano novo sem precisar desperdiçar tem po com a aclim atação. Véspera de Natal ou não, ele pretendia se fam iliarizar com o novo cargo agora.

Lou e Gabe seguiram rum o ao escritório m aior com m elhor ilum inação. Quando abriram a porta e entraram , era quase com o se um coro de anj os cantasse, enquanto o sol da m anhã ilum inava um a trilha que ia da porta até a m esa, brilhando diretam ente sobre a sua nova poltrona de couro enorm e, com o se ela fosse um a aparição. Ele havia conseguido. E, em bora pudesse respirar aliviado, estava prestes a respirar fundo para ter fôlego e encarar a nova tarefa à sua frente. Não im porta o que alcançasse, a sensação de que teria de conquistar ainda m ais era infinita. Para ele, a vida parecia ser um a escada infinita, que desaparecia no m eio das nuvens, inclinando-se de um lado para outro, am eaçando desabar e levá-lo para o chão. Não podia olhar para baixo agora ou ficaria paralisado pelo m edo. Tinha que m anter os olhos apontados para cim a. Para o alto e avante.

Gabe colocou as caixas onde Lou o instruiu e assobiou quando olhou ao seu redor.

— Belo escritório, Lou.

— É sim — Lou sorriu e olhou ao redor.

— É aconchegante — acrescentou Gabe, com as m ãos enfiadas nos bolsos, andando pela sala.

Lou franziu a testa.

— Aconchegante é... um a palavra que eu não usaria para descrever este — disse ele, estendendo as m ãos naquele vasto espaço — m aldito escritório enorm e.

Ele com eçou a rir, sentindo-se com o se estivesse delirando. Cansado e em ocionado, orgulhoso e um pouco receoso, tentou observar todo o escritório de um a vez só.

— Então, o que exatam ente você vai fazer agora? — perguntou Gabe.

— Sou o diretor de em preendim entos e negócios, o que significa que, agora, tenho a autoridade para dizer a uns m erdinhas exatam ente o que devem fazer.

— Uns m erdinhas com o você?

Lou virou o rosto rapidam ente para encarar Gabe, com o um radar que encontrou um sinal.

— Digo... há alguns dias, você seria um desses m erdinhas que recebem ordens de cim a... deixe para lá. — Gabe decidiu m udar de assunto. — E então, com o foi que Cliff reagiu?

— Reagiu a quê?

— Ao saber que você ficou com o em prego dele.

— Oh — Lou ergueu os olhos. Deu de om bros. — Não sei. Não contei a ele.

Gabe ficou em silêncio.

— Não creio que ele estej a em condições de falar com alguém — em endou Lou, sentindo a necessidade de se explicar.

— Ele está recebendo visitas agora — disse-lhe Gabe.

— Com o você sabe?

— Eu sei. Você deveria ir vê-lo. Talvez ele possa lhe dar algum conselho. Você pode aprender com ele.

Lou riu daquele com entário.

Gabe não titubeou e continuou observando-o em silêncio.

Lou pigarreou um pouco, constrangido.

— É véspera de Natal, Lou. O que você está fazendo? — a voz de Gabe era gentil.

— O que você quer dizer com isso? — Lou ergueu as m ãos, inquisitivo. — O que você acha que eu estou fazendo? Estou trabalhando.

— Com exceção dos seguranças, você é a única pessoa no prédio. Não percebeu? Todo m undo está lá fora — Gabe apontou para a cidade, m ovim entada.

— Bem , ninguém que está lá fora é tão ocupado quanto eu — disse Lou, num tom quase infantil. — Além disso, você tam bém está aqui, não é?

— Eu não conto.

— Bem , essa é um a ótim a resposta. Se for assim , eu tam bém não conto.

— Continue agindo assim e você realm ente não contará m ais. Sabe, um dos m aiores em presários de todos os tem pos, um certo Walt Disney... tenho certeza de que j á ouviu falar nele, tem um a em presa ou duas aqui e ali — Gabe sorriu. — Ele disse: “Um hom em nunca deve colocar seu trabalho à frente da fam ília”.

Houve um silêncio longo e desconfortável no qual Lou tensionou e relaxou a m usculatura do queixo, tentando decidir se pediria a Gabe para ir em bora ou se o j ogaria para fora do escritório com as próprias m ãos.

— Mas, ainda assim — Gabe riu — ele tam bém disse: “Tudo isso com eçou com um rato”. — E sorriu.

— Certo. Bem , é m elhor eu com eçar a trabalhar agora, Gabe. Espero que tenha um feliz Natal. — Lou tentou controlar o tom de voz para que, em bora não soasse exatam ente feliz, não desse a im pressão de que queria estrangular Gabe.

— Obrigado, Lou. Desej o um Natal m uito feliz para você tam bém . E parabéns pelo seu m aldito escritório enorm e e aconchegante.

Lou não conseguiu evitar um a risada ao ouvir aquilo e, quando a porta se fechou, estava sozinho pela prim eira vez em seu novo escritório. Foi até a m esa, deslizou o dedo ao longo da borda de nogueira até a superfície coberta por couro. Sobre a m esa, havia apenas um grande m onitor branco, um teclado e um m ouse.

Sentou-se na poltrona de couro e girou-a para ficar de frente para a j anela, observando a cidade, que se preparava para as celebrações. Um a parte dele sentia-se atraída para fora; m as sentia-se preso atrás da j anela que lhe m ostrava o m undo, m as não o deixava tocá-lo. Frequentem ente, sentia-se com o se estivesse preso em um enorm e globo de neve, com responsabilidades e fracassos flutuando à sua volta. Perm aneceu sentado naquela cadeira por m ais de um a hora, apenas pensando. Pensando em Cliff, pensando nos eventos da sem ana que passara e no seu m elhor dia. Pensando em tudo. Até que um leve pânico com eçou a se agitar dentro dele, ele girou a cadeira e observou o escritório, encarando tudo que estava ali.

Ele olhou para o teclado fixam ente. Em seguida, seguiu com o olhar o fino cabo branco que conectava o m ouse a ele. Pensou em Cliff, na ocasião em que o encontrou debaixo dessa m esm a m esa, segurando aquele m esm o teclado contra o peito, brandindo aquele m esm o m ouse em sua direção com os olhos arregalados e aterrorizados.

Em hom enagem a Cliff — algo que Lou percebeu que não conseguiu fazer durante todo o tem po em que o colega estivera afastado do trabalho —, ele tirou os sapatos, desconectou o teclado do m onitor do com putador e em purrou a poltrona de couro para trás. Abaixou-se e engatinhou para baixo da m esa, segurando o teclado contra o peito. Olhou para as j anelas que iam do piso ao teto e observou a cidade agitada à sua volta. Ficou sentado ali por m ais de um a hora, apenas refletindo.

O ruído do relógio da parede, enquanto m arcava os segundos, soava alto no silêncio da sala. Não havia nenhum a m ovim entação e as vozes tinham sum ido. Nenhum telefone tocava, nenhum a copiadora funcionava, nenhum zum bido dos com putadores, nenhum a voz, nenhum barulho de passos por perto. Antes de olhar para o relógio, ele não chegara realm ente a ouvir os segundos, m as agora, depois que ele tom ou noção da sua existência, o tique-taque parecia ficar cada vez m ais alto. Lou olhou para o teclado e, depois, olhou para o m ouse. Sentiu um a descarga de eletricidade percorrer seu corpo, sentiu que aquilo o atingia na cabeça pela segunda vez no ano, m as, pela prim eira vez, a m ensagem de Cliff finalm ente o alcançou. Independente da natureza daquilo que Cliff tanto tem ia, Lou certam ente não queria que a m esm a coisa o perseguisse.

Ele saiu de baixo da m esa, enfiou os pés nos sapatos engraxados de couro preto e foi em bora.