O Presente
Véspera de Natal
Grafton Street, o calçadão m ovim entado na cidade de Dublin, estava cheio de pessoas fazendo com pras antes que as loj as fechassem para o feriado. Mãos lutavam para agarrar os obj etos que sobravam nas prateleiras, e as noções sobre lim ites de gastos eram sum ariam ente desconsideradas; decisões im pulsivas eram tom adas de acordo com a disponibilidade e o tem po, e não necessariam ente de acordo com quem receberia o presente. Os pacotes vinham em prim eiro lugar; as pessoas, depois.
Sem se preocupar em acom panhar o passo das pessoas desorientadas à sua volta, Lou e Ruth andavam lentam ente e de m ãos dadas pelas ruas de Dublin, perm itindo que os outros passassem correndo e esbarrando neles. Lou tinha todo o tem po do m undo. Ruth ficou surpresa quando ele ligou pedindo para encontrá-la, depois de ter dito um áspero “não” no início da m anhã. Ela, com o de costum e, não fez perguntas. Recebeu o convite com um a alegria silenciosa e com um a grande desconfiança, recusando-se a falar sobre m udanças. Lou Suffern ainda tinha m uito a provar para ela.
Cam inharam pela Henry Street, que estava cheia de quiosques e bancas de cam elôs tentando se livrar dos últim os itens de seus estoques: brinquedos e papel de em brulho, sobras de fitas e enfeites para árvores de Natal, carros de controle rem oto, tudo exposto para as últim as horas das com pras loucas de fim de ano. Na sem pre m ovim entada Moore Street, j unto com os quiosques tradicionais, as vitrines incluíam um a bela m istura étnica de loj as asiáticas e africanas. Lou com prou couve-de-bruxelas de vendedores de língua afiada que falavam sem parar — um palavrório que, por si só, era fonte de entretenim ento para qualquer um . Lou e Ruth tinham participado de um a m issa natalina no final da m anhã e alm oçado no Westin Hotel, em College Green, o prédio histórico do século dezenove. Antigam ente era um banco, m as fora transform ado num hotel de cinco estrelas. Com eram no Salão do Banco, onde Pud passou o tem po inteiro com a cabeça erguida, observando, adm irado, o teto entalhado a m ão, e os quatro candelabros que brilhavam com oito m il cristais egípcios, gritando sem parar, apenas para ouvir o eco da sua própria voz contra a cobertura alta.
Lou Suffern via o m undo de um a m aneira diferente naquele dia. Em vez de observá-lo do alto do décim o oitavo andar, por trás de vidros coloridos e reforçados, sentado num a enorm e cadeira forrada de couro, ele decidiu se m esclar às pessoas. Gabe tinha razão sobre o rato; tinha razão sobre o fato de que Cliff poderia lhe ensinar algum a coisa — na verdade, aquilo acontecera seis m eses antes, assim que o m ouse de plástico o atingiu no rosto, fazendo com que os m edos de Lou e sua consciência aflorassem , depois de passarem m uito tem po enterrados. Na verdade, quando pensava no assunto, concluía que Gabe tinha razão em relação a várias coisas. A voz dele o irritava tanto porque falava o que ele não queria ouvir. Devia m uito a Gabe. A noite se aproxim ava e as crianças tinham que voltar para casa antes que o Papai Noel com eçasse a entregar os presentes; então, Lou se despediu de Ruth e dos filhos com um beij o, acom panhou-os até o carro que ela dirigia e voltou ao escritório. Ainda tinha um a coisa a fazer.
No saguão do prédio, Lou viu as portas do elevador se abrirem e, quando estava prestes a entrar, o Sr. Patterson saiu.
— Lou — disse ele, surpreso. — Não acredito que você veio trabalhar hoj e. Você realm ente é ótim o. — Ele olhou para a caixa que Lou trazia nas m ãos.
— Oh, não, não vim trabalhar. Não em pleno feriado — Lou sorriu, tentando dem onstrar confiança e tentando, tam bém , estabelecer as regras para o seu novo cargo. — Só tenho que, bem ... — Ele não queria deixar Gabe em m aus lençóis ao revelar seu paradeiro. — Só m e esqueci de pegar algo no escritório.
— Ótim o, ótim o. Bem , Lou. — O Sr. Patterson esfregou os olhos, cansado. — Receio que tenho que lhe dizer um a coisa. Fiquei pensando se realm ente deveria fazer isso ou não, m as acho que é m elhor que eu faça. Tam bém não vim até aqui esta noite para trabalhar — adm itiu ele. — Alfred m e telefonou. Disse que era urgente. Depois do que aconteceu com Cliff, estam os todos pisando em ovos, eu receio. Assim , procurei vir o m ais rápido que pude.
— Sou todo ouvidos — disse Lou, com o pânico crescendo dentro de si. As portas do elevador se fecharam outra vez. A rota de fuga desaparecera.
— Ele queria trocar algum as palavras sobre... bem , sobre você.
— Sim — disse Lou, com calm a.
— Ele m e trouxe isto. — O Sr. Patterson colocou a m ão no bolso e pegou o pote de com prim idos que Gabe dera a Lou. Havia apenas um com prim ido ali dentro. Alfred, aquele rato, obviam ente correu para dentro da caçam ba de lixo para coletar as evidências necessárias para destruí-lo.
Lou olhou para o pote, chocado, e tentou decidir se deveria negar aquilo ou não. O suor se form ou entre o lábio e o nariz enquanto tentava form ular um a história. Pertenciam ao seu pai. Não. À sua m ãe. Por causa da cirurgia no quadril. Não. Sentia dores nas costas. Percebeu que o Sr. Patterson estava falando, então decidiu prestar atenção.
— Ele disse algum a coisa sobre encontrar isso aqui debaixo de um a caçam ba. Não sei ao certo. — O Sr. Patterson franziu a testa. — Mas ele disse que sabia que pertencia a você... — Ele observou Lou outra vez, buscando por um a confirm ação.
O coração de Lou batia forte em seus ouvidos.
— Sei que você e Alfred são am igos — disse o Sr. Patterson, um pouco confuso, com o rosto exibindo seus 65 anos. — Mas a preocupação que ele tem em relação a você não m e parece boa. Tive a im pressão de que ele estava querendo utilizar isto aqui para colocá-lo num a situação ruim , Lou.
— Bem ... — Lou engoliu em seco, olhando para o pote m arrom . — Isso não é... bem ... esses com prim idos não são... — ele gaguej ava enquanto tentava form ular um a frase.
— Não gosto de m e introm eter na vida privada das pessoas, Lou. O que m eus colegas de trabalho fazem quando não estão trabalhando é problem a deles, desde que não afete a em presa. Assim , não m e agradou o fato de receber isto aqui das m ãos de Alfred — disse ele, sério. Quando Lou não respondeu e continuou a suar profusam ente, o Sr. Patterson acrescentou. — Mas, talvez... isso era o que você queria que ele fizesse? — perguntou ele, tentando encontrar um sentido em tudo aquilo.
— O quê? — Lou enxugou o suor da testa. — Por que eu iria querer que Alfred lhe desse isso?
O Sr. Patterson olhou para ele, com os lábios trem endo levem ente.
— Não sei, Lou. Você é um hom em inteligente.
— O quê? — respondeu Lou, totalm ente confuso. — Não estou entendendo.
— Corrij a-m e se eu estiver errado, m as eu presum i — os lábios trêm ulos lentam ente se abriram num sorriso — que você, deliberadam ente, tentou enganar Alfred com esses com prim idos; que, de algum a form a, fez com que ele acreditasse que são m ais do que realm ente são. Estou certo?
Lou ficou de queixo caído e olhou para o seu chefe, surpreso.
— Eu sabia. — O Sr. Patterson deu um a risada, balançando a cabeça. — Você é bom . Mas não é tão bom quanto pensa. Eu percebi pelas m arcas azuis — explicou ele.
— Com o assim ? Quais m arcas azuis?
— Você não conseguiu raspar todo o sím bolo do com prim ido — explicou ele, abrindo o pote e segurando-o com um a m ão para esvaziá-lo sobre a outra palm a. — Está vendo a m arca azul? E, se olhar bem de perto, vai ver os restos do “D” que estava estam pado. Eu j á deveria saber. Acredite, conheço m eus rapazes.
Lou engoliu em seco.
— Esse era o único com um a m arca azul? — Preguiçoso com o era, Alfred não fora capaz de enfiar a m ão na lixeira para salvar a própria pele. Teve que raspar a inicial decalcada num sim ples com prim ido para dor de cabeça.
— Não, havia dois com prim idos. Am bos com as m arcas azuis. Tom ei um deles, espero que não se im porte. Encontrado num a caçam ba de lixo ou não, m inha cabeça estava doendo tanto que eu tive de tom á-lo. Esta m aldita época de Natal é o bastante para levar qualquer um para o túm ulo.
— O senhor tom ou um ? — Lou perguntou surpreso.
— Eu o devolverei — disse ele, com um gesto de indiferença. — Você pode com prá-los em qualquer farm ácia. Até m esm o em bancas de j ornal. Não precisa de receita m édica.
— O que aconteceu quando o senhor o tom ou?
— Bem , o com prim ido acabou com a m inha dor de cabeça, não foi? — ele franziu a testa. — Mesm o assim , para ser sincero, se eu não chegar em casa nas próxim as horas, vou ganhar outra dor de cabeça, tenho certeza. — Ele olhou para o relógio.
Lou estava estupefato, em silêncio.
— De qualquer m aneira, eu só queria lhe dizer que não gostei do que Alfred tentou fazer, e que não acho que você sej a um ... bem , sej a lá o que for que Alfred tentou fazer com que eu acreditasse. Não há lugar na em presa para pessoas com o ele. Tive que dem iti-lo. É véspera de Natal, m eu Deus... e este trabalho nos transform a em m onstros às vezes — disse ele, cansado, parecendo ter bem m ais que seus 65 anos.
Lou estava em silêncio, sua m ente gritando perguntas. Havia duas opções: ou Alfred as havia trocado, ou Lou tam bém tom ara com prim idos para dor de cabeça nas duas ocasiões em que se duplicou. Lou tirou o lenço do bolso, abriu-o e exam inou o com prim ido que restava. Seu coração congelou. A leve inicial do com prim ido para dor de cabeça podia ser vista. Por que ele não percebeu aquilo antes?
— Ah, estou vendo que você tem m ais um — riu o Sr. Patterson. — Apanhado em flagrante, Lou. Bem , aqui está, pode ficar com o últim o. Junte-o à sua coleção. — Ele entregou o pote a Lou.
Lou olhou para ele e abriu e fechou a boca com o se fosse um peixe de aquário, sem conseguir dizer um a palavra, enquanto recebia o com prim ido do Sr. Patterson.
— É m elhor eu ir agora — disse o Sr. Patterson, afastando-se lentam ente. — Tenho um kit de trens e trilhos em m iniatura para m ontar e pilhas para colocar no corpo da Pequena-Qualquer-Coisa, que só falará bobagens, e com certeza serei forçado a escutar o que ela diz durante a sem ana inteira. Tenha um bom Natal, Lou. — Ele estendeu a m ão.
Lou engoliu em seco, com a m ente ainda no m eio de um turbilhão por causa dos com prim idos para dor de cabeça. Seria alérgico a eles? O fato de se desdobrar em dois seria algum tipo de efeito colateral? Seria tudo um sonho? Não. Tudo aquilo acontecera, sua fam ília testem unhou sua presença em am bas as ocasiões. Assim , se não foram os com prim idos, então...
— Lou — disse o Sr. Patterson, com a m ão ainda estendida.
— Adeus — disse Lou, distraído, e, em seguida, lim pou a garganta. — Digo, feliz Natal. — Ele cum prim entou o chefe e se despediu.
Assim que o Sr. Patterson se virou para ir em bora, Lou correu para a escada de incêndio e disparou pelas escadas até chegar ao subsolo. Estava m ais frio do que de costum e, e a luz no final do corredor finalm ente fora consertada. Não piscava m ais com o as luzes estroboscópicas típicas das danceterias da década de 1980. O som de m úsicas natalinas vazava por baixo da porta, “Driving Hom e for Christm as”, interpretada por Chris Rea, ecoando pelo corredor longo, frio e estéril.
Lou não bateu antes de entrar. Em purrou a porta com os pés, ainda trazendo a caixa nas m ãos. O quarto estava bem m ais vazio do que antes. Gabe estava no segundo corredor, enrolando em seu saco de dorm ir e no cobertor.
— Oi, Lou — disse ele, sem se virar.
— Quem é você? — perguntou Lou, com a voz trêm ula enquanto colocava a caixa num a prateleira.
Gabe se ergueu e saiu do corredor.
— Certo — disse ele, olhando Lou para cim a e para baixo. — Essa é um a form a interessante de iniciar um a conversa. — Seus olhos apontaram para a caixa na prateleira e ele sorriu. — Um presente para m im ? — disse ele, com a voz tranquila. — Não precisava ter se incom odado. — Ele avançou um passo para recebê-lo e Lou recuou um passo, enquanto o observava, com m edo.
— Hum m m — disse Gabe, franzindo a testa ao perceber aquilo, e depois se virou para a caixa em brulhada para presente na estante. — Posso abri-la agora?
Lou não respondeu. O suor brilhava em seu rosto e seus olhos se m oviam abruptam ente para seguir cada m ovim ento de Gabe.
Sem se precipitar, Gabe abriu o presente perfeitam ente em brulhado. Com eçando pelas pontas, rem oveu lentam ente a fita adesiva, tom ando cuidado para não rasgar o papel.
— Adoro dar presentes para as pessoas — explicou ele, ainda m antendo o m esm o tom de voz tranquilo. — Mas não é sem pre que as pessoas dão presentes para m im . Mas você é diferente, Lou. Eu sem pre soube disso. — Ele sorriu. Desem brulhou a caixa e finalm ente revelou o que havia dentro, um aquecedor elétrico para o depósito onde m orava. — Bem , é m uito carinhoso da sua parte. Obrigado. Vai aquecer bastante o m eu próxim o espaço. Mas não será aqui, infelizm ente. Estou de m udança.
Lou estava com as costas contra a parede agora, tão longe de Gabe quanto podia, antes de falar com a voz vacilante.
— As pílulas que você m e deu eram com prim idos para dor de cabeça.
Gabe continuou a observar o aquecedor.
— Suspeito que o Sr. Patterson tenha lhe dito isso.
Lou ficou desconcertado. Esperava que Gabe negasse aquilo.
— Sim — respondeu ele. — Alfred as recolheu da caçam ba de lixo e as entregou a ele.
— Aquele rato — Gabe balançou a cabeça negativam ente, sorrindo. — O velho Alfred é m uito previsível. Achei que ele fosse fazer isso. Bem , podem os lhe dar pontos pela persistência, pois ele realm ente não queria que você conseguisse o em prego, não é?
Quando Lou não respondeu, Gabe continuou:
— Aposto que correr até o Sr. Patterson não lhe rendeu nenhum benefício, não é?
— O Sr. Patterson o dem itiu — disse Lou em voz baixa, ainda tentando entender a situação.
Gabe sorriu, sem parecer surpreso. Apenas satisfeito; especialm ente m uito satisfeito consigo m esm o.
— Me conte sobre os com prim idos — Lou percebeu que sua voz trem ia.
— Sim , era um pote de com prim idos para dor de cabeça que com prei num a banca de revistas. Levei um bom tem po para conseguir raspar aquelas letrinhas; você sabe que não há m uitos com prim idos sem decalques hoj e em dia.
— QUEM É VOCÊ? — Lou gritou, com a voz tom ada pelo m edo.
Gabe deu um salto, e pareceu estar um pouco incom odado.
— Está com m edo de m im agora? Por que descobriu que sua clonagem não aconteceu por causa de um punhado de com prim idos? O que está havendo com as pessoas hoj e em dia? Todos acreditam m uito rápido em todas essas novas descobertas científicas, com prim idos para isso, com prim idos para aquilo. Em agreça, recupere os cabelos, blá-blá-blá, m as quando é preciso ter um pouco de fé em algum a coisa, todo m undo fica louco — disse ele, balançando a cabeça. — Se m ilagres tivessem equações quím icas, todos acreditariam neles. É decepcionante. Eu tive que fingir que os com prim idos funcionavam , Lou, porque você não confiaria em m im de outra form a. E eu estava certo, não estava?
— O que você quer dizer com “confiar em você”? Quem diabos é você, e o que significa tudo isso?
— Bem — disse ele, olhando para Lou, entristecido. — Achei que isso j á estivesse bem claro agora.
— Claro? Pelo que m e consta, as coisas não poderiam estar m ais confusas.
— As pílulas. Eram apenas um truque com a ciência. Um truque com ciência. Consciência. — Ele sorriu.
Lou esfregou o rosto, cansado, confuso e com m edo.
— Tudo que aconteceu foi para lhe dar sua oportunidade, Lou. Todos m erecem um a oportunidade. Até m esm o você, apesar do que pensa.
— Oportunidade PARA QUÊ? — gritou ele.
As palavras que Gabe falou a seguir fizeram a espinha de Lou trem er com calafrios e lhe deram um a vontade enorm e de sair correndo para perto de sua fam ília.
— Vam os lá, Lou. Você sabe a resposta.
Aquelas eram as palavras de Ruth. Pertenciam a Ruth.
O corpo de Lou estava trem endo agora, e Gabe continuou.
— Um a oportunidade de passar algum tem po j unto da sua fam ília, para realm ente conhecê-los, antes que... bem , sim plesm ente, a oportunidade de passar algum tem po j unto deles.
— Para realm ente conhecê-los antes de quê? — perguntou Lou, sem trem er agora.
Gabe não respondeu, desviando os olhos, sabendo que falara dem ais.
— ANTES DE QUÊ? — Lou gritou outra vez, aproxim ando-se do rosto de Gabe.
Gabe ficou em silêncio, m as seus olhos de um azul cristalino fuzilaram os olhos de Lou.
— Vai acontecer algum a coisa com eles? — a voz de Lou trem ia enquanto o pânico se instalava. — Eu sabia. Tinha m edo disso. — O que vai acontecer com eles? — Lou rangeu os dentes. — Se você fez algum a coisa com eles, eu vou...
— Não aconteceu nada com a sua fam ília, Lou — respondeu Gabe.
— Não acredito em você — disse ele, em pânico, enfiando a m ão no bolso para pegar seu BlackBerry. Olhou para tela: nenhum a cham ada perdida. Digitando rapidam ente o núm ero da sua casa, ele saiu do depósito dando um últim o olhar am eaçador para Gabe e correu, correu, correu.
— Lem bre-se de apertar o cinto de segurança, Lou! — Gabe gritou, a voz retinindo nas orelhas de Lou enquanto ele corria para o estacionam ento.
Com o BlackBerry discando autom aticam ente para a sua casa e ainda cham ando, Lou saiu do estacionam ento em alta velocidade. Um a chuva forte e pesada batia contra seu para-brisa. Acionando os lim padores na velocidade m ais alta, ele guiou o Porsche para fora do estacionam ento e acelerou pelas ruas ao longo do rio, que agora estavam vazias. O aviso indicando que o cinto de segurança não estava afivelado soava cada vez m ais alto, m as ele não conseguia ouvi-lo, com todas as preocupações que dom inavam seus pensam entos. As rodas do Porsche deslizaram um pouco na pista m olhada enquanto ele corria pelas ruas secundárias da região do cais e pela estrada do litoral de Clontarf em direção a Howth. Do outro lado do m ar, as duas cham inés listradas de verm elho e branco da usina de energia se erguiam a duzentos m etros de altura, com o dois dedos erguidos. A chuva caía forte, prej udicando a visibilidade, m as ele conhecia bem aquelas ruas. Dirigira por elas durante toda a sua vida, e tudo que lhe im portava no m om ento era atravessar o pequeno pedaço de terra que o separava da sua fam ília e chegar em casa o m ais rápido possível. Eram seis e m eia da tarde, e a escuridão era total agora que o sol havia se posto. A m aioria das pessoas estava nas m issas ou nos pubs, preparando-se para colocar os presentes em baixo da árvore de Natal e deixar um copo de leite e um pedaço de bolo para o Papai Noel, e algum as cenouras para suas renas. A fam ília de Lou estava em casa, j antando — ocasião de que ele prom etera participar —, m as ninguém atendia ao telefone. Ele olhou para o seu BlackBerry para ter certeza de que o aparelho ainda estava cham ando, tirando os olhos da estrada. O carro acabou se m ovendo para a faixa que dividia a estrada. Um carro na direção oposta buzinou alto, e ele rapidam ente voltou para a sua faixa. Passou voando pelo Marine Hotel, em Sutton Cross, que estava m ovim entado com os festej os de Natal. Vendo que a estrada estava livre à sua frente, ele pisou fundo no acelerador. Passou em disparada pela igrej a de Sutton, deixou para trás a escola, que ficava no litoral, passou por bairros seguros e am istosos, onde velas queim avam tranquilam ente na frente das j anelas, árvores de Natal cintilavam e Papais Noéis estavam em poleirados nos telhados. Do outro lado da baía, as dúzias de guindastes que pontilhavam o contorno de Dublin estavam envoltas em luzes de Natal. Despediu-se da baía e entrou na estrada íngrem e que com eçou a ascender em direção à sua casa, no topo. A chuva torrencial continuava a cair, em grandes raj adas, em baçando sua visão. A condensação estava com eçando a aparecer no lado interno do para-brisa, e ele se inclinou para enxugar o vidro com a m anga do sobretudo de casim ira. Pressionou os botões no painel para conseguir lim par o vidro. O bip-bip-bip do alerta do cinto de segurança ecoava em seus ouvidos, e a condensação rapidam ente encheu o para-brisa conform e o carro esquentava. Ainda assim , ele continuava a acelerar, com o sinal de cham ada do telefone ainda tocando, seu desej o de estar com a fam ília dom inando qualquer outra em oção que devesse sentir. Levou doze m inutos para chegar até a rua da sua casa após passar por aquelas estradas vazias.
Finalm ente, seu telefone tocou, indicando que estava recebendo um a cham ada. Ele olhou para o aparelho e viu a o rosto de Ruth, sua im agem no identificador de cham adas. Feliz por ela estar segura, j á que estava ligando para ele, baixou os olhos, aliviado, e pegou o BlackBerry.
O Porsche 911 Carrera 4S tem um sistem a exclusivo de tração nas quatro rodas que se prende à estrada m elhor do que qualquer carro esportivo com tração traseira. Transfere de cinco a quarenta por cento da energia para as rodas dianteiras, dependendo de quanta resistência as rodas traseiras enfrentam . Assim , se você acelerar com m uita força na saída de um a curva para fazer com que as rodas traseiras girem em falso, a energia é transferida para a dianteira para fazer com que o carro siga na direção correta. Um a tração total, basicam ente, significa que o Carrera 4S poderia navegar por um a estrada coberta de gelo com m uito m ais controle e segurança do que a m aioria dos outros carros esportivos.
Infelizm ente, esse não era o Porsche de Lou. Havia encom endado o veículo. Chegaria em j aneiro, dali a um a sem ana.
E assim , quando Lou olhou para o seu BlackBerry, deixando-se dom inar pelo alívio e pela em oção de ver o rosto da esposa, acabou tirando os olhos da estrada e entrou num a curva em velocidade alta dem ais. Num reflexo, ele levantou o pé do acelerador, o que j ogou o peso do carro para frente e aliviou o peso sobre as rodas traseiras; em seguida, voltou a pisar no acelerador e virou o volante com força para tentar contornar a curva. A traseira do carro perdeu a tração, e ele derrapou para o outro lado da pista, que era um declive forte em direção à beira do penhasco.
Os m om entos que se seguiram foram de intenso horror e confusão. O choque entorpeceu a dor. O carro capotou um a vez, duas vezes e, depois, um a terceira. A cada vez, Lou soltava um grito porque sua cabeça, seu corpo, suas pernas e braços batiam pelo interior do carro, com o se ele fosse um a boneca j ogada dentro de um a m áquina de lavar. O airbag de em ergência o atingiu no rosto, fazendo seu nariz sangrar, nocauteando-o m om entaneam ente; os instantes seguintes foram silenciosos, m as m anchados de sangue.
Algum tem po depois, Lou abriu os olhos e tentou analisar a situação. Não conseguiu. Estava cercado pela escuridão e percebeu que não conseguia se m over. Um a substância grossa e oleosa cobria um de seus olhos, im pedindo-o de enxergar, e, com a m ão que conseguia m over, percebeu que cada parte do seu corpo estava coberta pela m esm a substância. Moveu a língua por dentro da boca, sentiu o gosto de ferrugem e percebeu que era sangue. Tentou m over suas pernas, m as não conseguiu. Tentou m over seus braços e só conseguiu erguer um deles. Ficou em silêncio enquanto tentava m anter a calm a, descobrir o que fazer. Pela prim eira vez na vida, não conseguiu form ular um único pensam ento. Quando o choque passou, e a percepção se concretizou, a dor o atingiu com toda a força. Não conseguia tirar a im agem de Ruth da m ente. Nem a de Lucy, Pud, seus pais. Não estavam tão longe dele; ali em algum ponto no alto daquela m ontanha. Quase conseguira chegar lá. Em m eio à escuridão, num carro destruído, no m eio da vegetação selvagem , em algum lugar na encosta de um a m ontanha em Howth, Lou Suffern com eçou a chorar.
Raphie e Jessica estavam fazendo a ronda habitual e trocando farpas sobre o CD de m úsica country que Raphie gostava de ouvir para atorm entar a j ovem policial, quando passaram pelo local onde o carro de Lou havia saído da estrada.
— Espere, Raphie — disse ela, interrom pendo o dueto de “Achy Breaky Heart” que Raphie fazia com Billy Ray Cy rus.
Ele cantou ainda m ais alto.
— RAPHIE! — ela gritou, socando o aparelho de som para desligar a m úsica.
Ele a observou, surpreso.
— Tudo bem , tudo bem , pode colocar o seu CD dos Freezing Monkey s ou sei lá com o se cham am .
— Raphie, pare o carro — disse Jessica, com a voz tão firm e que fez com que ele estacionasse a viatura im ediatam ente. Ela saltou do carro e correu até a cena que atraíra sua atenção, onde as árvores estavam quebradas e retorcidas. Ela sacou sua lanterna e ilum inou a encosta da m ontanha.
— Oh, m eu Deus, Raphie! Precisam os cham ar os serviços de em ergência — ela gritou para ele. — Am bulância e bom beiros!
Ele interrom peu sua breve corrida em direção a ela e voltou para a viatura, acionando o rádio.
— Vou até lá! — ela gritou, descendo im ediatam ente pela encosta íngrem e, passando por entre as árvores quebradas.
— Não, Jessica! — ela ouviu Raphie gritar em resposta, m as ela não lhe deu atenção. — Volte aqui, é perigoso dem ais!
Ela podia ouvi-lo, m as ignorou os gritos do colega e, instantes depois, só conseguia ouvir sua própria respiração, rápida e furiosa, as batidas do seu coração ecoando em seus ouvidos.
Jessica, ainda um a novata, nunca deveria ter presenciado um a cena com o aquela: um carro destroçado, virado de cabeça para baixo e irreconhecível. Mas não era novidade. Para Jessica, era algo bastante fam iliar; um a im agem que assom brava seus sonhos e praticam ente todos os m om entos em que estava acordada. Frente a frente com seu pesadelo e revivendo aquelas lem branças, a tontura tom ou conta dela e ela teve que se abaixar e colocar a cabeça entre os j oelhos. Jessica tinha segredos e um deles acabara de voltar para lhe assom brar. Rezou silenciosam ente para que não houvesse ninguém naquele carro; o carro estava estraçalhado, irreconhecível, sem placas e, na escuridão, ela não sabia dizer se o veículo era azul ou preto.
Ela se aproxim ou do carro, com a chuva fria caindo inclem ente e a encharcando. Havia lam a e ela perdeu o equilíbrio várias vezes, m as, enquanto o coração batia forte no seu peito e ela percebia que estava de volta a um a m em ória distante, revivendo-a, não sentiu a dor no tornozelo quando tropeçou e caiu de m au j eito; não sentia os arranhões dos galhos e gravetos em seu rosto, nem as pedras escondidas entre a vegetação que arranhavam suas pernas.
Jessica viu um a pessoa dentro do carro. Ou um corpo, pelo m enos. Sentiu seu coração afundar. Apontou a lanterna na direção daquele hom em . Ele estava com pletam ente ensanguentado. A porta estava esm agada e ela não conseguia abri-la; m as o vidro da j anela do lado do m otorista estava quebrado, e ela tinha acesso ao tronco e à cabeça da vítim a. Tentou m anter a calm a enquanto ilum inava o interior do carro com a lanterna.
— Tony — ela suspirou quando viu a figura. — Tony. — Lágrim as encheram os seus olhos. — Tony.
Ela estendeu as m ãos para o hom em , tocando-lhe o rosto para tentar fazer com que acordasse.
— Tony, sou eu — disse ela. — Estou aqui.
O hom em gem eu, m as seus olhos continuaram fechados.
— Vou tirar você daqui — ela sussurrou em seu ouvido, beij ando-lhe a testa. — Vou levá-lo para casa.
Os olhos dele se abriram lentam ente e ela sentiu um choque. Olhos azuis. Não eram castanhos. Tony tinha olhos castanhos.
Ele olhou para Jessica. Ela olhou para o hom em . Fora arrancada do seu pesadelo.
— Senhor — disse ela, com a voz m ais trêm ula do que gostaria. Respirou fundo e com eçou outra vez. — Senhor, consegue m e ouvir? Meu nom e é Jessica, consegue m e ouvir? O socorro está a cam inho. Vam os aj udá-lo.
Ele gem eu outra vez e fechou os olhos.
— Eles j á estão vindo — arfou Raphie lá de cim a, com eçando a descer.
— Raphie, é perigoso aqui em baixo. É escorregadio dem ais. Fique aí em cim a para que possam vê-lo.
— Alguém está vivo? — perguntou ele, ignorando o pedido e continuando a descer devagar, um pé de cada vez.
— Sim — disse ela na direção do colega. — Senhor, m e dê sua m ão.
Ela apontou a lanterna para olhar a m ão do hom em , e seu estôm ago se revirou com o que viu. Dem orou um m om ento até conseguir aj ustar sua respiração, e ela ergueu a lanterna outra vez.
— Senhor, segure na m inha m ão. Estou aqui, consegue sentir? — Ela o agarrou com força.
Ele gem eu.
— Fique com igo. Vam os tirá-lo daqui.
Ele gem eu de novo.
— O que foi? Não consigo... ah... não se preocupe, senhor, há um a am bulância a cam inho.
— Quem está aí? — cham ou Raphie. — Você o conhece?
— Não — respondeu ela, lacônica, sem querer desviar a atenção, concentrada naquele hom em , sem querer perdê-lo.
— Minha esposa — ela o ouviu sussurrar, tão baixo que aquilo poderia ser confundido com a própria respiração. Ela aproxim ou o ouvido dos lábios dele, tão perto que era capaz de sentir no lobo da sua orelha a viscosidade do sangue.
— Você tem um a esposa? — perguntou ela, gentilm ente. — Você logo a verá. Eu prom eto, você a verá. Qual é o seu nom e?
— Lou — disse ele e, em seguida, com eçou a chorar baixinho. Até m esm o aquilo precisou de um esforço tão grande que ele teve de parar.
— Por favor, aguente firm e, Lou. — Ela lutou contra as lágrim as que se form avam em seus olhos e encostou a orelha em seus lábios outra vez, ele m urm urava m ais algum as palavras.
— Um com prim ido? Lou, eu não tenho nenhum ...
Ele soltou a m ão de Jessica subitam ente e com eçou a puxar seu sobretudo, batendo no peito com um a m ão sem vida com o se aquele m ovim ento fosse o equivalente a levantar um carro. Ele grunhiu com o esforço; gem eu com a dor. Estendendo a m ão para o bolso interno do casaco, que estava encharcado de sangue, Jessica retirou o pote. Havia um único com prim ido branco dentro da em balagem .
— Essa é a sua m edicação, Lou? — perguntou ela, incerta. — Você quer que eu... ? — Ela ergueu os olhos na direção de Raphie, que estava tentando descobrir um a m aneira de descer pelo terreno acidentado. — Não sei se devo dá-la a você...
Lou segurou a m ão de Jessica e apertou-a com tanta força que ela im ediatam ente abriu o pote com a m ão trêm ula e fez com que aquele com prim ido solitário rolasse para cim a da sua palm a. Com dedos trêm ulos, ela abriu a boca de Lou, colocou o com prim ido em sua língua e fechou sua boca. Ela olhou em volta para ver se Raphie havia visto fazendo aquilo. Ele ainda estava a um a boa distância.
Quando olhou novam ente para Lou, ele a observava, com os olhos arregalados. Observava-a com um olhar tão cheio de am or, de gratidão absoluta por aquele ato sim ples, que o coração de Jessica se encheu de esperança. Em seguida, ele arfou, buscando o ar, e seu corpo estrem eceu um a últim a vez, antes que ele fechasse os olhos e deixasse o m undo para trás.