O Presente
Para lembrar os velhos tempos
Exatam ente ao m esm o tem po em que Lou Suffern deixou um m undo, entrou em outro; ele estava no j ardim em frente à sua casa em Howth, encharcado até os ossos. Trem ia pelo que acabara de viver. Não teria m uito tem po, m as não havia nenhum outro lugar no m undo onde quisesse estar naquele exato m om ento.
Entrou pela porta da frente, com os sapatos guinchando contra os azulej os do piso. A lareira na sala de estar estava crepitando, havia vários presentes no chão, sob a árvore de Natal, todos em brulhados com belos laços. Lucy e Pud, até o m om ento, eram as únicas crianças na fam ília, e por isso a tradição fam iliar ditava que os pais de Lou, Quentin e Alexandra, e Marcia, que se divorciara naquele ano, passassem a noite de Natal com eles. A alegria que sentiriam ao ver a reação de Lucy na m anhã de Natal seria grande dem ais para lhes ser negada. Naquela noite, ele não conseguia se im aginar longe deles; não conseguia pensar em nada que preencheria o seu coração com a m esm a alegria. Lou entrou na sala de j antar, esperando que eles o vissem , esperando que o últim o presente m ilagroso de Gabe não falhasse agora.
— Lou — Ruth tirou os olhos da m esa de j antar e o viu prim eiro. Ela se levantou da cadeira com um salto e correu até onde ele estava. — Lou, querido, você está bem ? Aconteceu algum a coisa?
Sua m ãe saiu correndo para buscar um a toalha.
— Estou bem — disse ele, tocando-lhe o rosto com as m ãos em concha, sem desviar o olhar dela. — Estou bem agora. Eu estava tentando ligar para cá — sussurrou ele. — Você não atendeu.
— Pud escondeu o telefone de novo — disse ela, observando-o com um pouco de preocupação. — Você está bêbado? — perguntou ela, sussurrando.
— Não — ele riu. — Estou apaixonado — sussurrou ele em resposta e depois ergueu a voz para que toda a sala pudesse ouvir. — Estou apaixonado pela m inha bela esposa — repetiu ele. Beij ou-a intensam ente nos lábios e inspirou o perfum e em seus cabelos, beij ou-lhe o pescoço e todos os lugares do seu rosto, sem se im portar se havia outras pessoas olhando.
— Me desculpe — ele sussurrou no ouvido de Ruth. Mal conseguia falar. As lágrim as eram fortes dem ais.
— Desculpá-lo por quê? O que aconteceu?
— Pelas coisas que fiz a você. Por ser com o eu era. Am o você. Nunca tive a intenção de m achucá-la ou m agoá-la.
Os olhos de Ruth se encheram de lágrim as.
— Oh, eu sei disso, querido. Você j á m e disse, eu sei.
— Eu percebi que, quando não estou ao seu lado, sou um canalha — ele sorriu para ela, e a sua m ãe, que tam bém chorava e acabara de retornar com um a toalha, riu e bateu palm as, antes de segurar na m ão do m arido que estava sentado à m esa.
— Para todos vocês — disse ele, afastando-se de Ruth, m as sem soltar sua m ão. — Eu peço desculpas a todos vocês.
— Sabem os disso, Lou — Quentin sorriu, com a em oção forte em sua voz. — São águas passadas, certo? Pare de se preocupar e sente-se conosco para o j antar. Está tudo bem .
Lou olhou para os seus pais, que sorriam e acenavam afirm ativam ente com a cabeça. Seu pai tinha lágrim as nos olhos e, silenciosam ente, confirm ava que tudo estava bem . Sua irm ã, Marcia, estava piscando furiosam ente para conter as lágrim as, m exendo os talheres sobre a m esa.
Eles o secaram , eles o am aram , eles o beij aram e o alim entaram , em bora ele não tivesse fom e. Lou lhes disse que os am ava, várias e várias vezes, até que todos com eçaram a rir, dizendo-lhe para parar. Subiu ao andar de cim a para trocar de roupa antes que, de acordo com sua m ãe, pegasse um a pneum onia. Enquanto se trocava, ouviu Pud chorando e im ediatam ente deixou o seu quarto para ir ver o filho.
O quarto estava escuro, ilum inado apenas por um a lum inária noturna de baixa potência. Lou percebeu que Pud estava acordado e em pé sobre o colchão, segurando a grade do berço, com o um prisioneiro desperto vigiado pelo exército do sono. Lou acendeu a luz e entrou. Pud o encarou irritado, no início.
— Olá, hom enzinho — disse Lou, gentilm ente. — O que está fazendo acordado?
Pud soltou um gem ido.
— Oh, venha cá! — Lou se inclinou por cim a da grade do berço e o ergueu, segurando-o carinhosam ente em seus braços para acalm á-lo. Pela prim eira vez na vida, Pud não gritou a plenos pulm ões quando seu pai se aproxim ou. Em vez disso, ele sorriu e pressionou o dedo contra o olho, o nariz e a boca de Lou, e tentou agarrar os dentes do pai. Lou com eçou a rir.
— Ei, você não pode pegá-los. Em breve você terá os seus. — Ele beij ou Pud no rosto. — Quando você crescer, vai passar por todo tipo de experiência. — Ele olhou para o filho, sentindo-se triste porque não veria nada daquilo. — Cuide da m am ãe para m im , está bem ? — ele sussurrou com a voz trêm ula.
Pud riu, subitam ente agitado, e soprou, vibrando os lábios e fazendo um ruído alegre.
As lágrim as de Lou rapidam ente desapareceram ao ouvir o riso de Pud. Ele o ergueu, apoiou a barriga do m enino sobre a cabeça e com eçou a balançá-lo suavem ente, de um lado para outro. Pud ria tanto que Lou não conseguia gargalhar j unto com o garoto.
Pelo canto dos olhos, Lou viu que Lucy estava na porta, observando os dois.
— Agora, Pud — ele disse, em voz alta —, que tal irm os até o quarto de Lucy e pularm os na cam a dela para acordá-la? O que você acha?
— Não, papai! — riu Lucy, entrando no quarto. — Estou acordada!
— Oh, você está acordada tam bém ? Vocês dois são os duendes que aj udam o Papai Noel?
— Não — Lucy riu, e Pud riu tam bém .
— Bem , então é m elhor voltarem para suas cam as, caso contrário o Papai Noel não virá deixar presentes se perceber que vocês estão acordados.
Lucy torceu o nariz.
— Pud está cheirando a cocô. Vou cham ar a m am ãe.
— Não, deixe isso com igo. — Ele olhou para Pud, que retribuiu o seu olhar e sorriu.
Lucy olhou para ele com o se ele fosse louco.
— Não m e olhe assim — disse ele, rindo. — Não pode ser tão difícil. Bem , vam os lá, am igão, m e aj ude aqui. — Lou olhou para Pud, nervoso. A palm a de Pud bateu contra o rosto do pai, em tom de brincadeira. Lucy rugia de tanto rir.
Lou colocou Pud no chão, de m odo que não rolasse para fora do colchonete que havia sobre o trocador que Ruth usava.
— A m am ãe o coloca ali em cim a.
— Bem , o papai faz diferente — disse Lou, enquanto tentava descobrir com o abrir o m acacão do filho.
— Os botões ficam em baixo — disse Lucy, sentando-se ao seu lado.
— Ah, sim . Obrigado. — Ele abriu os botões e tirou o m acacão de Pud, afastando todas as roupas dos arredores. Tirou a nova fralda da em balagem e abriu-a. Girou-a de um lado para outro em suas m ãos, tentando descobrir qual era a posição correta.
— Ah, não! — Lucy se afastou, apertando o nariz com os dedos. — O desenho do Leitão fica na frente e o ursinho Pooh fica atrás — disse ela, com a voz anasalada.
Lou se m oveu rapidam ente para controlar a situação, enquanto Lucy rolava pelo chão, abanando o ar em frente ao nariz com um a dose de dram a. Im paciente com o progresso de seu pai, Pud com eçou a espernear, forçando Lou a se afastar dele. Pud saiu engatinhando, com o traseiro virado na direção do rosto do pai, Lou se arrastou por trás do garoto, aproxim ando-se dele com um lenço um edecido, com o se o estivesse atacando com um espanador de pó. As esfregadas suaves não aj udavam a m elhorar a situação. Precisava colocar a m ão na m assa. Prendendo a respiração, ele avançou. Com Pud m om entaneam ente sob controle e brincando com um a bola que lhe prendeu a atenção, Lucy entregava os inúm eros aparatos a Lou.
— Você precisa colocar esse crem e depois.
— Obrigado. Você sem pre vai cuidar de Pud, não é, Lucy ?
Ela assentiu, solenem ente.
— E você vai cuidar da m am ãe tam bém ?
— Sim — ela disse, dando um soco no ar.
— E Pud e a m am ãe vão cuidar de você — disse ele, agarrando as pernas gorduchas de Pud, puxando-o de onde tentava se esconder, debaixo do berço, e arrastando-o pelo carpete, enquanto o garoto gritava.
— E todos nós vam os cuidar do papai — gritou ela, dançando ao redor dos dois.
— Não se preocupe com o papai — disse ele em voz baixa, tentando descobrir qual era o lado certo para colocar a fralda em Pud. Quando pegou o j eito, fechou rapidam ente os botões do m acacão do filho. — Hoj e, vam os deixá-lo dorm ir sem pij am a — disse ele, tentando parecer seguro de si.
— A m am ãe apaga as luzes para que ele fique com sono — sussurrou Lucy.
— Ah, sim . Vam os fazer isso — sussurrou Lou, desligando as lâm padas até que os desenhos form ados pela luz fraca da lum inária noturna do Ursinho Pooh circulassem no teto.
Pud em itiu alguns ruídos e resm ungos em m eio à saliva enquanto observava as luzes.
Lou recuou no escuro, puxando Lucy para perto de si, e sentou-se no carpete, abraçando sua garotinha e observando o ursinho com um cérebro m uito pequeno perseguindo um pote de m el no teto. Chegou o m om ento de contar a ela.
— Você sabe que, não im porta onde o papai estej a, não im porta o que estiver acontecendo na sua vida, não im porta se você se sentir triste, feliz, sozinha ou perdida... lem bre-se de que eu sem pre estarei ao seu lado. Mesm o se você não conseguir m e ver, saiba que eu estarei aqui... — Ele tocou a cabeça da filha — ... e aqui — disse Lou, tocando-a sobre o coração. — E eu sem pre estarei olhando para você. Sem pre terei orgulho de você e de tudo que fizer. E se às vezes você tiver dúvidas sobre o que eu sentia por você, lem bre-se deste m om ento. Lem bre-se do que vou dizer agora: am o você, m inha querida. O papai am a você.
— Sim , papai — disse ela, entristecida. — E se eu m e com portar m al? Você vai m e am ar se eu m e com portar m al?
— Quando você se com portar m al — ele pensou naquele caso —, lem bre-se de que o papai sem pre estará em algum lugar esperando que você consiga ser a m elhor pessoa que puder.
— Mas onde você vai estar?
— Se eu não estiver aqui, estarei em algum outro lugar.
— E onde é isso?
— É segredo — sussurrou ele, tentando conter as lágrim as.
— Um lugar secreto — ela sussurrou em resposta, com o seu hálito quente e doce tocando-lhe o rosto.
— Sim . — Ele a abraçou com força, tentando não deixar nenhum som escapar de seus lábios enquanto as lágrim as rolavam , quentes e grossas.
No andar de baixo, na sala de j antar, não havia um único olho seco na casa enquanto eles ouviam a conversa no quarto de Pud pelo intercom unicador da babá eletrônica. Para os Sufferns, aquelas eram lágrim as de alegria, porque um filho, um irm ão e um m arido tinha finalm ente voltado para eles.
Naquela noite, Lou Suffern fez am or com sua esposa e abraçou-a contra si, deslizando as m ãos por aqueles cabelos sedosos até cair no sono. E, ainda assim , as pontas dos seus dedos continuaram a traçar os contornos do rosto de Ruth: a curvatura suave na ponta do seu nariz, as m açãs do seu rosto, a ponta do queixo, passando pelo contorno do m axilar e indo até os cabelos, com o se fosse um hom em cego que a estivesse vendo pela prim eira vez.
— Vou am á-la para sem pre — Lou sussurrou para ela, e ela sorriu, a m eio cam inho do seu m undo dos sonhos.
O m undo dos sonhos se despedaçou no m eio da noite quando Ruth foi despertada pela cam painha do portão. Ainda sonolenta e vestindo a cam isola, ela deu as boas-vindas a Raphie e Jessica, convidando-os a entrar em sua casa. Quentin e o pai de Lou a acom panharam , com a intenção de proteger a casa contra perigos que poderiam surgir àquela hora da m adrugada. Mas não poderiam protegê-la do que estava por vir.
— Bom dia — disse Raphie, com a voz grave, quando todos se reuniram na sala de estar. — Lam ento perturbá-los a esta hora.
Ruth observou a j ovem policial que estava ao lado dele de cim a a baixo. Seus olhos castanhos pareciam estar frios e tristes. Havia gram a e lam a ressecada em suas botas, m anchando tam bém a barra da calça azul-m arinho que ela usava. E pequenos arranhões em seu rosto, e um corte, que ela tentava esconder com os cabelos.
— O que foi? — sussurrou Ruth, com a voz em bargada na garganta. — Me diga, por favor.
— Sra. Suffern, eu acho que seria m elhor se a senhora se sentasse — disse Raphie gentilm ente.
— Vá buscar Lou — sussurrou ela, olhando para Quentin. — Ele não estava na cam a quando eu acordei. Deve estar no estúdio.
— Ruth — disse a j ovem policial, com a voz tão baixa que Ruth sentiu seu coração afundar ainda m ais, e, quando seus j oelhos fraquej aram , ela deixou que Quentin estendesse as m ãos em sua direção e a puxasse para o sofá, sentando-a entre ele e o pai de Lou. Os três ficaram de m ãos dadas, apertando com tanta força que ficaram ligados com o os elos de um a corrente, e escutaram enquanto Raphie e Jessica lhes explicavam com o a sua vida tinha se transform ado para sem pre, dizendo que um filho, um irm ão e um m arido os deixara tão repentinam ente quanto havia chegado.
Enquanto o Papai Noel entregava presentes nas casas por todo o país, enquanto as luzes nas j anelas com eçavam a se apagar no m eio da noite, enquanto as guirlandas nas portas se transform avam em dedos sobre os lábios, e as cortinas se fechavam com o os olhos de um a casa sonolenta, horas antes de um peru atravessar a j anela de um a casa em outro bairro, Ruth Suffern ainda não sabia que, apesar de perder seu m arido, ela ganhara um filho.
Nas prim eiras horas da m anhã de Natal, a fam ília de Lou se deu conta do verdadeiro presente que Lou lhes dera na noite m ais m ágica do ano.