O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 21 de 29

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O Presente

O restante da história

O homem do momento

 

– Hora de acordaaaar — um a voz que cantarolava penetrou os sonhos em briagados de Lou, onde tudo se repetia pela centésim a vez: enxugar a testa de Lucy, colocar a chupeta de Pud de volta em sua boca, segurar os cabelos de Lucy enquanto ela se debruçava sobre o vaso, abraçar sua esposa com carinho, o corpo de Ruth relaxando contra o seu, e depois voltar a dar atenção para a testa febril de Lucy, Pud cuspindo sua chupeta e o sorriso de Ruth quando ele disse que a am ava.

Ele sentiu o cheiro de café colado no seu nariz. Finalm ente, abriu os olhos e deu um salto para trás, com m edo, ao ver a im agem que o cum prim entava, batendo sua cabeça que j á latej ava contra a parede de concreto.

Lou dem orou para entender o que estava acontecendo. Às vezes, as visões que invadiam seus olhos recém -abertos eram agradáveis, outras vezes eram horríveis. Ao contrário da caneca de café que estava colocada a poucos centím etros do seu nariz, ele estava m ais acostum ado a acordar ao som de um a descarga do vaso sanitário. Geralm ente, a espera de que um a m isteriosa m ulher saísse do banheiro e m ostrasse seu rosto no quarto era longa e enervante, e, em algum as ocasiões, em bora fossem raras, Lou tom ara a iniciativa de desaparecer da cam a e do prédio onde estava — exatam ente ao m esm o tem po — antes que a m ulher m isteriosa tivesse a oportunidade de m ostrar seu rosto.

Naquela m anhã em particular, após Lou Suffern ter sido duplicado pela prim eira vez, ele enfrentava um novo cenário: um hom em com a m esm a idade dele estava à sua frente, estendendo-lhe um a caneca de café com um a expressão satisfeita no rosto. Certam ente, aquilo nunca tinha acontecido antes. Por sorte, o hom em à sua frente era Gabe, e Lou descobriu, aliviado, que os dois estavam totalm ente vestidos e que não havia nenhum a descarga envolvida. Com a cabeça latej ando e o cheiro horrível de rato m orto que tom ava conta da sua boca, com o um candidato à presidência estudando a sala do debate, ele observou o lugar onde estava.

Lou estava no chão. Percebeu isso pela proxim idade do concreto e pela distância do teto sem forro com a fiação exposta. O piso estava duro, apesar de haver um saco de dorm ir por baixo do seu corpo. Estava com torcicolo devido à posição infeliz em que sua cabeça fora acom odada contra a parede de concreto. Olhando para cim a, viu estantes de m etal que iam em direção ao teto: duras, cinzentas, frias e deprim entes, erguiam -se com o os guindastes que enfeiam a paisagem de Dublin, invasores de m etal dom inando a cidade que cresce. À esquerda, um abaj ur sem a cúpula era o culpado por em itir a im placável luz branca que não ilum inava o lugar com tanta eficiência, apontada para a cabeça de Lou com o um a pistola num a m ão firm e. Era m ais do que óbvio que Lou estava no depósito de Gabe, no subsolo. Gabe estava debruçado sobre ele, com a m ão estendida em sua direção, e nela havia um a caneca cheia de café fum egante. A visão lhe era fam iliar, um a im agem espelhada do que ocorrera um a sem ana antes, quando Lou parou na rua para oferecer um café a Gabe. A diferença era que, dessa vez, a im agem era tão distorcida e perturbadora quanto as que surgiam na casa dos espelhos de um parque de diversões, porque, quando Lou tom ou consciência da situação, era ele quem estava no chão e Gabe estava em pé à sua frente.

— Obrigado. — Ele pegou a caneca de Gabe, envolvendo a porcelana com as m ãos frias. Trem eu. — Está m uito frio aqui.

Aquelas prim eiras palavras saíram estranguladas, e, quando se ergueu para sentir o peso do m undo esm agando sua cabeça devido à segunda m anhã consecutiva de ressaca, lem brou-se de que, em bora a idade lhe trouxesse m uitos m otivos para celebrar — por exem plo, o nariz que sem pre foi grande dem ais para o seu rosto na infância chegara à proporção correta depois dos 30 anos —, a ressaca não estava entre eles.

— É verdade. Alguém prom eteu m e trazer um aquecedor elétrico, m as ainda estou esperando — disse Gabe, sorrindo. — Não se preocupe. Ouvi dizer que lábios azulados de frio estão na m oda este ano.

— Ah, desculpe. Vou m andar Alison cuidar disso — resm ungou Lou, e bebeu o café preto. Depois que conseguiu resolver o enigm a sobre onde estava e em que posição, relaxou. Mas o prim eiro gole de cafeína o alertou para outro problem a.

— Que diabos eu estou fazendo aqui? — ele se sentou com as costas eretas, m ais atento agora, e olhou para si m esm o em busca de pistas. Estava vestido com o m esm o terno de ontem , um traj e desgrenhado e am arrotado com algum as m anchas questionáveis — em bora todas fossem autoexplicativas — na sua cam isa, gravata e paletó. Na verdade, havia suj eira em todos os lugares para onde olhava. — Que cheiro horrível é esse?

— Acho que é você — sorriu Gabe. — Encontrei você nos fundos do prédio ontem à noite, vom itando num a caçam ba de lixo.

— Oh, m eu Deus... — sussurrou Lou, cobrindo o rosto com as m ãos. Em seguida, olhou para cim a, confuso. — Mas ontem à noite eu estava em casa. Ruth e Lucy estavam doentes. E, assim que elas caíram no sono, Pud acordou. — Ele esfregou o rosto, cansado. — Será que eu sonhei com tudo isso?

— Não — respondeu Gabe, tranquilam ente, despej ando água quente sobre sua xícara com café instantâneo. — Você fez isso tam bém . Estava bastante ocupado ontem à noite, não se lem bra?

Levou um m om ento até que os eventos da noite anterior surgissem na m em ória de Lou, m as um a onda de lem branças — o com prim ido, sua duplicação — invadiu sua m ente e, de súbito, m oedas com eçaram a cair por toda parte com o se um a m áquina de refrigerantes estivesse com o dispositivo de troco quebrado.

— A garota que eu conheci... — Ele interrom peu a frase, querendo ao m esm o tem po saber e não saber a resposta. Um a parte dele tinha certeza sobre sua inocência, enquanto a outra queria levá-lo para fora e surrá-lo pela possibilidade de colocar seu casam ento em risco outra vez. Seu corpo com eçou a suar frio, o que acrescentou um novo arom a ao am biente.

Gabe deixou-o pensar por algum tem po, enquanto soprava seu café e tom ava pequenos goles com o um rato m ordiscando um pedaço quente de queij o.

— Você conheceu um a garota? — perguntou ele, com os olhos arregalados e inocentes.

— Eu, ah... eu conheci um a... deixe para lá. Eu estava sozinho quando você m e encontrou na noite passada? — era a m esm a pergunta com palavras diferentes. As duas ao m esm o tem po.

— Estava sim , bastante sozinho. Em bora não estivesse solitário. Você estava fazendo com panhia para si m esm o, resm ungando algum a coisa sobre um a garota — disse Gabe, provocando-o. Parecia que você a tinha perdido e não se lem brava de onde a tinha colocado. Ela não estava no fundo da caçam ba, de qualquer m aneira, m as, se lim parm os a poça de vôm ito que você deixou ali, talvez sej a possível encontrar o papelão recortado em form a de m ulher.

— O que foi que eu falei? Aliás... não m e diga exatam ente o que eu falei, diga som ente se eu disse algum a coisa sobre... você sabe. Diabos, se eu fiz algum a coisa errada, Ruth vai m e m atar. — Os olhos de Lou se encheram de lágrim as. — Eu sou o m aior idiota do m undo — disse ele, chutando o caixote que estava aos pés do saco de dorm ir, frustrado.

O sorriso de Gabe se desfez, respeitando a raiva de Lou.

— Você não fez nada com ela.

— Com o você sabe?

— Eu sei.

Lou o observou, cauteloso, curioso, desconfiando e confiando, tudo ao m esm o tem po. Gabe parecia ser sua única referência naquele m om ento; sua figura paterna, o sequestrador a quem ele estava com eçando a se afeiçoar, a única pessoa que entendia sua situação, em bora ele o tivesse colocado naquela situação. Um a relação perigosa.

— Gabe, nó precisam os conversar sobre esses com prim idos. Não os quero m ais — disse ele, tirando-os do bolso. — Bem , a noite passada foi um a revelação, realm ente, de várias m aneiras. — Lou esfregou os olhos, cansado, lem brando-se do som da sua voz bêbada quando falava ao telefone. — O que eu quero saber é... existem dois de m im agora?

— Não, vocês voltaram a ser um só — explicou Gabe. — Quer um doce de figo?

— Mas Ruth... — Lou o ignorou. — Ela vai acordar e perceber que eu não estou em casa. Vai ficar preocupada. Eu desapareci no ar?

— Ela vai acordar e você j á terá saído para trabalhar, com o sem pre.

Ele absorveu aquela inform ação e se acalm ou um pouco.

— Mas isso não é certo, não faz sentido. Nós precisam os discutir sobre onde você conseguiu esses com prim idos.

— Você tem razão, precisam os fazer isso — disse Gabe, sério, pegando o pote das m ãos de Lou e enfiando-o no bolso. — Mas não agora. Ainda não é o m om ento.

— O que você quer dizer com isso? Por que ainda não é o m om ento? O que você está esperando?

— Estou dizendo que j á são quase oito e m eia e você tem que estar num a reunião antes que Alfred chegue e roube a sua glória.

Ao ouvir isso, Lou colocou o café sobre um a prateleira, entre um a extensão elétrica e um a pilha de ratoeiras, e se levantou num salto, esquecendo instantaneam ente as preocupações em relação àqueles com prim idos estranhos, e tam bém sem se perguntar com o Gabe sabia de sua reunião das oito e m eia.

— Você tem razão, é m elhor eu ir. Conversarem os m ais tarde.

— Você não pode entrar num a reunião desse j eito — riu Gabe, olhando para o terno de Lou, suj o e am arrotado de cim a a baixo. — E você está cheirando a vôm ito. E a urina de gato. Pode acreditar em m im , m eu nariz sabe identificar tudo isso.

— Vou ficar bem — Lou olhou para o seu relógio enquanto tirava o paletó. — Vou tom ar um banho rápido em m eu escritório e vestir o outro terno que deixo guardado para em ergências.

— Você não pode fazer isso. Quem está usando seu terno sou eu, lem bra-se?

Lou olhou para Gabe e lem brou-se de que lhe dera suas roupas de reserva no dia em que o contratou. Poderia apostar que Alison ainda não tinha colocado um a m uda nova de roupas para ele; ainda era nova dem ais no cargo para pensar nisso.

— Merda! Merda, m erda, m erda! — ele andou de um lado para outro no pequeno depósito, roendo as unhas bem cuidadas, m ordendo e cuspindo pedaços delas, m ordendo e cuspindo.

— Não se preocupe, m inha faxineira vai cuidar disso — disse Gabe com um a expressão divertida, observando os pedaços de unha roídos caírem sobre o piso de cim ento.

Lou o ignorou e continuou cam inhando um pouco m ais.

— As loj as não abrem antes das nove. Onde é que eu vou conseguir um terno?

— Não se preocupe, acho que tenho algum a coisa aqui no m eu closet — disse Gabe, desaparecendo no prim eiro corredor e surgindo com o novo terno ainda envolto em seu plástico protetor. — Com o eu disse, nunca se sabe quando se pode precisar de um terno. Inclusive, é exatam ente do seu tam anho. Quase com o se fosse feito para você — disse ele, piscando para Lou. — Que a sua dignidade exterior sej a um espelho da dignidade de sua alm a — disse Gabe, entregando-lhe o terno.

— Ah, sim , é claro. Obrigado — disse Lou, vacilante, m as rapidam ente tirou o terno das m ãos estendidas de Gabe.

No elevador de serviço vazio, Lou olhou para o seu reflexo no espelho. Estava irreconhecível se com parado ao hom em que tinha acordado no chão do subsolo m eia hora antes. O terno que Gabe lhe dera, apesar de ser de um a m arca desconhecida — algo com o qual Lou não estava acostum ado —, surpreendentem ente era o terno com o m elhor caim ento que ele j á vestira. O azul da cam isa e o da gravata contrastavam com as calças e o paletó azuis-m arinhos, os olhos de Lou estavam destacados, inocentes e dignos com o os de um querubim .

As coisas correram m uito bem para Lou Suffern naquele dia. Voltou a ser o hom em elegante e asseado, com os sapatos im pecavelm ente engraxados por Gabe e de volta à dança entre os pavim entos com os quais estava acostum ado. O balanço estava de volta ao seu cam inhar, a m ão esquerda casualm ente colocada no bolso, o braço direito balançando confortavelm ente ao lado do corpo no m esm o ritm o dos seus passos, disponível para atender ao telefone ou apertar a m ão de alguém a qualquer m om ento. Ele era o hom em do m om ento. Ao conversar ao telefone com sua esposa e com Lucy, descobriu que era o m elhor pai do m undo, de acordo com a filha, e que as chances de ser o m elhor m arido do m undo durante os próxim os anos estavam aum entando. Estava feliz, tão feliz, na verdade, que com eçou a assobiar e não parou, m esm o quando Alison lhe deu a notícia de que sua irm ã estava na linha. Ele pegou alegrem ente o telefone e encostou o traseiro sobre o tam po da m esa de Alison.

— Marcia, bom dia — disse ele, anim ado.

— Bem , você está de bom hum or hoj e. Sei que você é ocupado, Lou, então não vou roubar m uito do seu tem po. Só queria lhe dizer que recebem os os convites para o aniversário do nosso pai, e eles são... m uito bonitos... m uito sofisticados... não eram exatam ente o que eu escolheria, m as... de qualquer m aneira, algum as pessoas m e ligaram para dizer que ainda não receberam seus convites.

— Ah, devem ter se perdido no correio — disse Lou. — Vam os lhes enviar os convites outra vez.

— Mas é am anhã, Lou.

— O quê? — ele franziu a testa e apertou os olhos para se concentrar no calendário que estava na parede.

— Sim , o aniversário dele é am anhã — disse ela, parecendo estar em pânico. — Essas pessoas não vão receber os convites se você os enviar agora. Só queria ter certeza de que não haverá problem a se eles não apresentarem os convites na entrada. Afinal de contas, é apenas um a festa fam iliar.

— Não se preocupe, é só nos enviar um e-m ail com todos os nom es e terem os um a lista de convidados. Está tudo sob controle.

— Posso levar algum as coisas para...

— Está tudo sob controle — disse Lou com m ais firm eza.

Ele observou seus colegas andando pelo corredor em direção à sala de reuniões, com Alfred no fim da fila, vestindo calças sociais e um blazer com enorm es botões dourados, com o se estivesse prestes a assum ir o com ando de um transatlântico.

— O que vai acontecer na festa, Lou? — perguntou Marcia, nervosa.

— O que vai acontecer? — riu Lou. — Ah, não se preocupe, Marcia. Querem os que sej a um a surpresa para todos.

— Você sabe o que vai acontecer?

— Se eu sei o que vai acontecer? Você está preocupada com as m inhas habilidades de organização?

— Estou preocupada com a possibilidade de você estar repetindo cada um a das m inhas perguntas apenas para ganhar tem po antes de responder — disse ela, sem titubear.

— É claro que eu sei o que vai acontecer. Você acha que eu deixaria Alison cuidar de tudo sozinha? — riu ele. — Ela nem conhece o nosso pai — disse ele, repetindo a m esm a frase que alguns m em bros da fam ília tinham dito.

— Bem , é im portante que alguém da fam ília estej a envolvido, Lou. Essa Alison parece ser um a boa garota, m as ela não conhece m esm o o nosso pai, não é? Tentei ligar para ela algum as vezes para aj udar, m as ela não m e deu m uitos detalhes. Quero que o papai tenha o m elhor dia de sua vida.

— Será, Marcia, será. — Lou sentiu o estôm ago em brulhar. — Todos nós vam os nos divertir bastante, eu prom eto. Agora, você sabe que eu não chegarei tão cedo porque tenho a festa de fim de ano aqui na em presa. Terei que ficar aqui por algum tem po, m as irei logo em seguida.

— Eu sei, isso é perfeitam ente com preensível. Oh, m eu Deus, Lou, eu só quero que o nosso pai fique feliz. Ele sem pre está preocupado com o nosso bem -estar. Quero que ele finalm ente consiga relaxar e se divertir.

— Sim — Lou engoliu em seco novam ente, com o prim eiro indício de hesitação. — Eu tam bém . Bem , preciso ir, tenho um a reunião agora. Nos vem os am anhã, está bem ?

Ele devolveu o fone para Alison, e seu sorriso havia desaparecido.

— Está tudo sob controle, não está?

— O quê?

— A festa — disse ele, firm em ente. — A festa do m eu pai.

— Lou, passei a sem ana inteira tentando lhe fazer perguntas a respeito disso...

— Está tudo sob controle? Porque, se não estiver, você m e contaria, não é?

— Absolutam ente — Alison sorriu, nervosa. — O lugar que você escolheu é m uito... legal, digam os assim , e eles têm sua própria equipe de gerenciam ento de eventos. Já lhe falei sobre isso... — disse ela, rapidam ente — ... algum as vezes durante a sem ana. Tam bém deixei algum as opções de com ida e m úsica sobre a sua m esa para que você decidisse, e, com o isso não aconteceu, eu tive que decidir por conta própria...

— Certo, Alison. Aqui está um lem brete para o futuro: quando eu perguntar se tudo está sob controle, tudo o que eu quero é um “sim ” ou um “não” — disse ele de m odo firm e, m as cortês. — Não tenho tem po para perguntas e m em orandos. Só preciso saber se você pode cuidar de algum a coisa ou não. Se não puder, não há problem as; vam os resolver de outro j eito. Entendeu?

Ela assentiu rapidam ente.

— Ótim o! — ele bateu palm as e desceu de cim a da m esa de Alison. — É m elhor eu ir para essa reunião.

— Ah, sim . — Ela lhe entregou os docum entos. — E parabéns pelo sucesso com aquelas duas negociações ontem à noite. Todos estão falando a respeito.

— É m esm o?

— Sim — disse ela, com os olhos arregalados. — Algum as pessoas estão dizendo que você vai conquistar o cargo de Cliff.

Isso soou com o m úsica aos ouvidos de Lou, m as ele decidiu não dem onstrar entusiasm o.

— Bem , Alison, não vam os com em orar nada antes de term os certeza do que vai acontecer. Todos nós desej am os que Cliff se recupere rapidam ente.

— É claro que desej am os, m as... de qualquer m aneira, é o que estão dizendo por aí — disse ela, sorrindo. — Nos vem os na festa am anhã?

— É claro que sim — disse ele, retribuindo o sorriso, e foi som ente quando ele estava m archando para longe, seguindo rum o à sala de reuniões, que realm ente com preendeu o que ela quis dizer.

Quando Lou entrou na sala de reuniões, todas as doze pessoas ao redor da m esa se levantaram para aplaudi-lo, com seus enorm es sorrisos cheios de dentes brancos, abertos de um a orelha a outra, sem realm ente perceber seus olhos cansados e om bros tensos, que precisavam urgentem ente de um a m assagem . Era com isso que todas as pessoas ali tinham de lidar: horas insuficientes de sono, incapacidade de se afastar do trabalho ou de aparelhos relacionados ao trabalho com o notebooks, palm tops e telefones celulares, distrações que todos os m em bros de cada fam ília sentiam vontade de enfiar no vaso sanitário e dar a descarga logo em seguida. É claro que estavam felizes por ele, m as estavam em frangalhos, todos contam inados por energia eletrom agnética. Todos estavam se esforçando para continuar vivos, pagar o financiam ento da casa, fazer apresentações, alcançar m etas, agradar o chefe, sair cedo de casa para não ficar presos no trânsito e trabalhar até m ais tarde para evitar os congestionam entos. Todos naquela sala estavam fazendo horas extras para conseguir term inar todo o trabalho antes do Natal, e, à m edida que isso acontecia, a pilha de problem as pessoais em suas caixas de entrada crescia cada vez m ais. Lidariam com todos esses problem as durante o recesso de Natal. Finalm ente teriam tem po para as celebrações em fam ília, postergadas o ano inteiro. Era hora de se divertirem com os seus.

O aplauso foi liderado por um sorridente Sr. Patterson, e todos se ergueram para celebrar, exceto Alfred, que levou um tem pão para se levantar. Enquanto os outros estavam de pé, ele estava lentam ente em purrando sua cadeira para trás. Enquanto os outros aplaudiam , ele estava aj ustando sua gravata e abotoando seus botões dourados. Conseguiu bater palm as um a vez antes dos aplausos esm aecerem , um a única vez, que soou quase com o se fosse um balão estourando.

Lou deu a volta ao redor da m esa apertando m ãos, dando tapinhas am istosos nas costas, beij ando rostos. Quando chegou ao lugar onde Alfred estava, seu am igo j á havia se sentado, m as ofereceu a Lou sua m ão úm ida e desanim ada.

— Ah, o hom em do m om ento — disse o Sr. Patterson alegre, apertando a m ão de Lou calorosam ente e colocando a m ão esquerda sobre seu om bro. Ele deu um passo para trás e observou Lou orgulhoso, com o um avô que adm ira seu neto no dia da prim eira com unhão.

— Você e eu vam os conversar depois desta reunião — disse ele, discretam ente, enquanto os outros continuavam a conversa. — Você sabe que haverá algum as m udanças depois do Natal, isso não é segredo por aqui — disse ele solenem ente, m antendo o respeito por Cliff.

— Sim — Lou fez que sim com a cabeça, se deliciando ao ouvir aquele segredo diretam ente do dono da em presa, em bora todos j á soubessem o que estava por vir.

— Bem , conversarem os m ais tarde, certo? — disse o Sr. Patterson de m aneira decidida; as conversas paralelas com eçaram a dim inuir, ele tom ou sua cadeira e todos ficaram em silêncio.

Sentindo-se com o se estivesse flutuando, Lou se sentou e teve dificuldades de acom panhar as discussões da m anhã. Pelo canto do olho, Lou percebeu que Alfred ouvira o final do com entário do Sr. Patterson.

— Parece que está cansado, Lou. Andou celebrando ontem à noite? — perguntou um colega.

— Fiquei acordado com a m inha filha, que estava vom itando. Minha esposa estava com a m esm a coisa, então a noite foi bastante m ovim entada — ele sorriu, pensando em Lucy deitada, com a franj a grossa lhe escondendo m etade do rosto.

Alfred riu e o chiado em seu riso foi audível na sala.

— Meu filho teve o m esm o problem a na sem ana passada — disse o Sr. Patterson, ignorando a gargalhada de Alfred. — Deve ser algum vírus que está se espalhando por aí.

— Com certeza, está se espalhando por aí. — Repetiu Alfred, olhando para Lou.

A agressividade de Alfred vinha em ondas, quase com o o calor visível sobre o asfalto num a rodovia deserta. Parecia transbordar da sua alm a, distorcendo o ar ao seu redor, e Lou perguntou a si m esm o se os outros percebiam aquilo. Lou podia ver o quanto Alfred estava perdido e receoso.

— Não é apenas a m im que vocês deveriam parabenizar — anunciou Lou para a m esa. — Alfred tam bém estava na reunião com o pessoal de Nova York. E fez um belo trabalho.

— Absolutam ente. — Alfred sorriu, brincando com a gravata, o que deixou Lou nervoso. — Fico feliz que Lou tenha conseguido reunir-se conosco no final, a tem po de ver o contrato ser fechado.

Todos que estavam ao redor da m esa riram , m as aquele com entário atingiu Lou num lugar que doeu bastante. Naquele m om ento, ele era Aloy sius outra vez, com 8 anos de idade, no tim e de futebol local, tirado do cam po poucos m inutos antes do apito final porque um de seus com panheiros de tim e, tom ado pela invej a ao perceber que Lou m arcara m ais gols do que ele, deu-lhe um chute entre as pernas e o deixou de j oelhos, arfando, com o rosto verm elho, tom ado pela tontura e vom itando. Assim com o o com entário de Alfred, não foi tanto o chute na virilha que doeu, m as sim o fato de conhecer a pessoa que desferiu o golpe e a razão por trás daquilo. Ele estava deitado no cam po, as m ãos cobrindo a virilha, o rosto quente e suado, a frustração escapando por seus poros, enquanto o restante do tim e se am ontoava ao seu redor, olhando para ele e im aginando se ele estaria fingindo tudo aquilo.

— Sim , j á dem os os parabéns a Alfred — disse o Sr. Patterson, sem olhar para ele. — Mas concluir duas negociações ao m esm o tem po, Lou? Com o você conseguiu fazer isso? Todos nós sabem os que você é o tipo de pessoa que se ocupa com várias tarefas concom itantem ente, m as esse foi um uso extraordinário do gerenciam ento do tem po e, é claro, das suas habilidades de negociação.

— Sim , extraordinário — disse Alfred com um toque brincalhão na voz, m as o veneno escorria por baixo daquelas palavras. — Quase inacreditável. Talvez até m esm o sobrenatural. Com o conseguiu, Lou? Tom ou algum a coisa ilegal?

Ouviram -se alguns risos nervosos, um a tossida e, em seguida, o silêncio. O Sr. Patterson quebrou a tensão dando início à reunião, m as o dano j á fora causado. Alfred deixou algo no ar. Um a pergunta substituiu a adm iração anterior, um a sem ente foi plantada em cada m ente, e, m esm o que não fosse verdade, cada vez que Lou conseguisse algum a coisa ou que seu nom e fosse m encionado no futuro, o com entário de Alfred seria, talvez inconscientem ente, relem brado, e essa sem ente cresceria, brotaria naquele solo suj o e ergueria sua cabeça hedionda.

Depois de todo o seu trabalho duro, de deixar de ir às reuniões e com em orações em fam ília, de sair correndo de casa para chegar ao escritório, de beij os rápidos no rosto de Ruth para poder ter m ais tem po para apertar as m ãos de estranhos, ele finalm ente tivera seu m om ento de glória. Dois m inutos de apertos de m ão e aplausos. Seguidos pela sem ente da dúvida.

 

— Você parece feliz — com entou Gabe, colocando um pacote sobre um a m esa próxim a.

— Gabe, m eu am igo, estou lhe devendo um a — disse Lou, sorrindo, enquanto saía da reunião, detendo-se logo antes de abraçá-lo. Ele baixou a voz. — Será que você podia m e dar aqueles... o pote, por favor? Eu estava m uito cansado e irritado esta m anhã, e não sei o que deu em m im . É claro que eu acredito no rem édio hom eopático.

Gabe não respondeu. Continuou entregando envelopes e pacotes nas m esas que estavam à sua volta enquanto Lou olhava para ele com esperança no rosto, com o um cão que espera seus petiscos.

— Acho que vou precisar deles m uitas outras vezes — Lou piscou o olho. — Entende?

Gabe ficou confuso.

— Cliff não vai voltar — Lou m anteve a voz baixa e tentou esconder sua em polgação. — Está com pletam ente transtornado.

— Ah, o pobre hom em que surtou — disse Gabe, ainda colocando a correspondência sobre as m esas.

— Sim . Não diga a ninguém que eu lhe contei isso.

— Que Cliff não vai voltar?

— Sim , sobre isso e... você sabe — disse ele, olhando ao redor. — Outras coisas tam bém . Talvez um novo cargo, m uito provavelm ente um a prom oção. Um belo aum ento no salário — disse ele, sorrindo. — Ele vai falar com igo a respeito disso em breve. — Lou pigarreou. — Assim , sej a lá o que ele reservou para m im , vou precisar daquelas pequenas belezas hom eopáticas, porque não terei condições de sustentar o m eu fluxo de trabalho por m uito tem po sem que eu term ine divorciado ou debaixo de sete palm os de terra.

— Ah, sim , os com prim idos. Bem , você não pode usá-los.

Gabe continuou em purrando o carrinho pelo corredor. Lou o seguiu, tagarelando nos calcanhares de Gabe com o um cachorro perseguindo um carteiro.

— Ah, deixe disso. Eu pagarei o que você quiser pelo pote. Quanto você quer?

— Não quero nada.

— Certo, provavelm ente você quer guardá-los para si m esm o. Entendo. Pelo m enos, m e diga onde posso conseguir alguns.

— Você não pode com prá-los em lugar nenhum . Eu os j oguei fora. E você tinha razão sobre aqueles com prim idos, eles fazem m al. Psicologicam ente. E quem sabe quais são os efeitos colaterais? Provavelm ente acabariam apenas prej udicando as pessoas no longo prazo. Não acho que foram feitos para o uso contínuo, Lou. Talvez aquilo fosse um experim ento científico que acabou escapando de um laboratório.

— Você fez o quê com os com prim idos? — Lou entrou em pânico, ignorando o que Gabe dissera. — Onde você os j ogou fora?

— Nas caçam bas de lixo.

— Bem , vá buscá-los. Entre na caçam ba e pegue-os de volta — disse Lou, irritado. — Se você os j ogou fora hoj e cedo, eles ainda devem estar lá. Ande logo, Gabe, vá. — Lou cutucou as costas de Gabe.

— É im possível, Lou. Eu abri o pote e esvaziei tudo na lixeira. E, considerando o que você deixou dentro dela ontem à noite, eu não chegaria perto.

Lou agarrou-o pelo braço e levou-o em direção ao elevador de serviço.

— Me m ostre onde estão.

Quando saíram , Gabe indicou a caçam ba para Lou, enorm e e pintada de am arelo, im unda. Lou correu até ela. Olhando para dentro, viu o pote em cim a do lixo, tão perto que seria capaz de tocá-lo, e, ao lado, a pilha de com prim idos repousava em m eio a um a espécie de substância pegaj osa de cor m arrom esverdeada. O cheiro era horrível. Teve que apertar o nariz com a m ão e esforçar-se para não vom itar. Os com prim idos estavam encharcados por aquele líquido viscoso, e Lou sentiu seu coração afundar. Tirou seu paletó e j ogou-o para Gabe. Arregaçou as m angas da cam isa e preparou-se para enfiar as m ãos naquele líquido nauseabundo. Ele parou antes de entrar.

— Se eu não conseguir pegar esses com prim idos, onde m ais poderei consegui-los?

— Em lugar nenhum — respondeu Gabe, que estava ao lado da porta, observando-o com os braços cruzados e com a voz m arcada pelo tédio. — Eles não são m ais fabricados.

— O quê? — Lou girou sobre os calcanhares. — Quem os fez? Eu posso pagar para que façam m ais.

O pânico continuou por algum tem po, Lou interrogando Gabe sobre com o poderia obter m ais com prim idos, até perceber que a única m aneira de consegui-los seria lidar com o que estava bem à sua frente. Mais um a vez distraído de si m esm o, ele decidiu que o problem a que precisava resolver era o da caçam ba, não o da sua vida.

— Merda. Talvez eu possa lavá-los. — Ele se aproxim ou da caçam ba e se debruçou. O cheiro lhe provocou ânsias. — Que diabo é isso? — Ele sentiu a garganta fechar outra vez e teve que se afastar da caçam ba. — Porcaria! — Lou chutou a caçam ba e se arrependeu quando a dor o atingiu.

— Olhe — disse Gabe, com a voz enfastiada. — Parece que deixei um cair no chão.

— O quê? Onde? — Lou esqueceu a dor no dedão e voltou correndo para perto da caçam ba com o um a criança que corre para o últim o lugar vago na dança das cadeiras. Exam inou o chão. Entre as fendas dos paralelepípedos que calçavam o chão, ele viu algo branco que o olhava de volta. Aproxim ando-se, ele percebeu que era um com prim ido.

— Ahá! Encontrei um !

— Pois é, eu tive que j ogá-los de longe, pois o cheiro estava horrível — explicou Gabe. — Alguns acabaram caindo no chão.

— Alguns? Quantos?

Lou abaixou-se e com eçou a engatinhar, procurando m ais com prim idos.

— Lou, você realm ente deveria voltar para dentro. Você teve um ótim o dia. Por que não deixa as coisas com o estão? Por que não aprende com isso e continua a tocar sua vida?

— Eu aprendi com isso — disse ele, com o nariz perto dos paralelepípedos. — Aprendi que eu sou o herói desse lugar quando tom o essas coisas. Ahá! Achei outro. — Satisfeito depois de ter certeza de que aqueles dois com prim idos eram os únicos perdidos no chão, ele os guardou em seu lenço, enfiou o lenço no bolso, levantou-se e lim pou a poeira dos j oelhos.

— Dois com prim idos serão suficientes, por ora — disse ele, enxugando a testa com as costas da m ão. — Estou vendo m ais dois em baixo da caçam ba, m as, por enquanto, vou deixá-los ali.

Quando Lou ficou em pé, os j oelhos enegrecidos e suj os e o cabelo desgrenhado, ele descobriu que havia m ais gente por perto. Alfred estava ao lado de Gabe, com os braços cruzados e um olhar m alicioso.

— Deixou cair algum a coisa, Lou? Bem , deem um a olhada nisso. Realm ente, é o hom em do m om ento.