O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 8 de 29

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O Presente

Refletindo

 

Gabe e Lou deixaram o ar gelado para trás e entraram no calor do saguão do prédio. Com paredes, pisos e pilares de granito cobertos por tons de crem e, caram elo e chocolate Cadbury, Gabe estava quase lam bendo as paredes. Sabia que estava frio, m as só teve a noção exata do frio que fazia lá fora quando sentiu o calor daquele lugar. Lou sentia que todos os olhos estavam sobre ele quando conduziu o hom em de aparência m altratada pela recepção até o banheiro m asculino no térreo. Sem saber direito por quê, Lou decidiu verificar cada cubículo antes de com eçar a falar.

— Isto aqui é para você — disse Lou, entregando-lhe a pilha de roupas, que estavam levem ente úm idas agora. — Pode ficar com elas.

Ele se virou de frente para o espelho para pentear os cabelos e esfregou a neve e as gotas de chuva dos om bros, tentou voltar física e m entalm ente à norm alidade; Gabe observava um a por um a as peças que recebera. Calça Gucci de tecido cinza, cam isa branca, gravata listrada em preto e branco. Ele as dedilhava com toda a delicadeza, com o se um único toque pudesse reduzi-las a farrapos.

Enquanto Gabe se livrava do cobertor e entrava num dos cubículos para se vestir, Lou andou de um lado para o outro, em frente aos m ictórios, respondendo aos telefonem as e e-m ails. Estava tão ocupado com o seu trabalho que, quando tirou os olhos do aparelho, não reconheceu o hom em que estava à sua frente e voltou a se concentrar em seu BlackBerry. Mas, em seguida, ergueu a cabeça outra vez, percebendo, surpreso, que o hom em era Gabe.

A única coisa que indicava que aquele era o m esm o hom em que estava na rua era o par de botas Doc Martens suj as sob as calças Gucci. As roupas lhe caíram perfeitam ente; Gabe ficou de frente para o espelho, olhando-se de cim a a baixo, com o se estivesse em transe. Sem o gorro de lã que cobria a sua cabeça, se revelava um a grossa cabeleira negra, parecida com a de Lou, em bora bem m ais desgrenhada. O calor havia substituído o frio em seu corpo, seus lábios estavam intum escidos e verm elhos, e em seu rosto havia um belo tom rosado em vez da cor pálida e gelada de antes.

Lou não sabia o que dizer, m as, pressentindo que o m om ento poderia se tornar m uito m ais profundo do que gostaria, decidiu não avançar dem ais.

— Lem bra-se do que m e disse sobre os sapatos hoj e cedo?

Gabe fez que sim com a cabeça.

— Aquilo foi ótim o. Seria ótim o se você ficasse de olho em m ais coisas. Me conte de vez em quando o que você observa por aqui.

Gabe assentiu outra vez.

— Você tem um lugar para ficar?

— Sim . — Gabe voltou a olhar para o seu reflexo no espelho. Falava em voz baixa.

— Então tem um endereço para dar a Harry ? Ele é o seu chefe.

— Não será você?

— Não. — Lou tirou o BlackBerry do seu bolso e com eçou a navegar, sem procurar por nada em particular. — Não, você ficará em outro... departam ento.

— Ah, sim , é claro. — Gabe se endireitou, parecendo um pouco contrariado. — Certo. Ótim o. Muito obrigado, Lou. De verdade.

Lou aceitou o cum prim ento, um pouco constrangido.

— Aqui — ele entregou seu pente a Gabe enquanto olhava para o outro lado.

— Obrigado. — Gabe colocou o pente sob a torneira e com eçou a dar form a ao cabelo em baraçado. Lou fez com que se apressasse e o acom panhou para fora do banheiro, passando pelo saguão de m árm ore e indo até os elevadores.

Gabe estendeu o pente de volta a Lou.

Lou balançou a cabeça e fez um gesto indiferente com a m ão, olhando ao redor para ter certeza de que ninguém que esperava pelos elevadores tivesse visto o gesto.

— Pode ficar com ele. Você tem docum entos de trabalho, registro na previdência social, esse tipo de coisa? — ele perguntou.

Gabe balançou a cabeça, parecendo estar preocupado. Seus dedos deslizavam pela extensão da gravata de seda, para cim a e para baixo, com o se ela fosse um anim al de estim ação que pudesse fugir a qualquer m om ento.

— Não se preocupe, darem os um j eito nisso. — Lou com eçou a se afastar quando seu telefone tocou. — Bem , preciso correr, preciso estar em vários lugares agora.

— É claro. Obrigado outra vez. Para onde eu...?

Mas Gabe não teve tem po de concluir sua pergunta; Lou cam inhava pelo saguão com m ovim entos vacilantes enquanto falava ao telefone, num a coreografia que era m etade dança e m etade cam inhada, com o acontece com as pessoas que conversam ao celular. Sua m ão esquerda rem exia as m oedas que tinha no bolso, e a direita estava colada à orelha.

— Certo. Preciso correr, Michael. — Lou fechou o bocal do telefone e bufou quando percebeu que havia um grupo ainda m aior de pessoas esperando pelos elevadores. — Isso precisa m elhorar — disse ele em voz alta.

Gabe o observou com um olhar que Lou não conseguiu identificar.

— O que foi?

— Para onde eu devo ir? — perguntou Gabe outra vez.

— Ah, desculpe. Você precisa descer um andar. Para a sala de correspondência.

— Ah — Gabe ficou desconcertado por um m om ento, m as sua expressão agradável retornou após um m om ento. — Certo, ótim o, obrigado — ele assentiu.

— Já trabalhou num lugar assim antes? Im agino que sej am ... lugares interessantes. — Lou sabia que dar um em prego a Gabe era um grande gesto e que não havia nada de errado com o em prego que estava lhe oferecendo, m as, de algum m odo, sentia que aquilo não era o bastante, que o hom em à sua frente não só era capaz fazer m uito m ais, com o esperava m uito m ais. Não havia nenhum a explicação razoável para se sentir assim , j á que Gabe continuava tão cortês, am istoso e agradecido quanto no prim eiro m om ento em que Lou o conhecera, m as havia algum a coisa na m aneira com que ele... bem , havia algum a coisa ali.

— Quer que eu o encontre para alm oçar ou algo do tipo? — perguntou Gabe, esperançoso.

— Não vai ser possível — respondeu Lou, enquanto o telefone com eçava a tocar outra vez em seu bolso. — Tenho tantas coisas para fazer hoj e, e eu... — Ele deixou a frase m orrer no ar quando as portas do elevador se abriram e as pessoas com eçaram a entrar. Gabe se m oveu para entrar com Lou.

— Está subindo — disse Lou, discretam ente, suas palavras form ando um a barreira para im pedir que Gabe entrasse.

— Ah, tudo bem — Gabe recuou alguns passos. Antes que as portas se fechassem e algum as das últim as pessoas corressem para entrar, Gabe perguntou: — Por que você está fazendo isso por m im ?

Lou engoliu em seco e enfiou as m ãos com força nos bolsos.

— Considere um presente. — E as portas se fecharam .

Quando Lou finalm ente chegou ao décim o quarto andar, ficou m ais do que surpreso ao entrar na área onde ficava o seu escritório e ver Gabe em purrando um carrinho de correspondência sobre o piso, depositando pacotes e envelopes sobre as m esas das pessoas.

Sem conseguir pensar em algo para dizer, m as calculando o tem po que levou para chegar ao seu andar, ele olhou para Gabe, boquiaberto.

— Hum ... — Gabe olhava para a esquerda e para a direita, vacilando. — Este é o décim o terceiro andar, não é?

— É o décim o quarto — Lou respondeu, sem fôlego, dizendo as palavras por hábito, quase sem perceber o que estava falando. — É claro que você deveria estar aqui, m as é que... — Ele levou a m ão à testa, que estava quente. Esperava que seus m om entos sob a chuva sem o casaco não o tivessem deixado doente. — Você chegou aqui tão rápido que eu... ah, deixe para lá. — Ele balançou a cabeça. — Malditos elevadores — resm ungou consigo m esm o, tom ando o rum o de sua sala.

Alison saltou da sua cadeira, im pedindo-o de entrar no escritório.

— Marcia está ao telefone — anunciou ela, em alto e bom som . — Outra vez.

Gabe em purrou seu carrinho até o final do corredor acarpetado para entrar em outro escritório, e um a das rodinhas rangia com um ruído alto. Lou o observou por um m om ento, adm irado, e depois voltou a prestar atenção em Alison.

— Não tenho tem po para isso, Alison, de verdade. Preciso estar em outro lugar neste exato m om ento e tenho um a reunião antes de sair daqui. Onde estão as m inhas chaves? — ele procurou nos bolsos do sobretudo, que estava pendurado no canto da sala.

— Ela j á ligou três vezes — disse Alison, cobrindo o bocal do telefone com a m ão e segurando-o longe do corpo com o se fosse um a cobra venenosa. — Duvido que ela acredite que estou lhe passando os recados.

— Recados? — disse Lou, com um toque de provocação na voz. — Não m e lem bro de nenhum recado.

Alison gritou, em pânico, afastando ainda m ais o fone, para longe do alcance de Lou.

— Não se atreva a fazer isso com igo, não m e culpe! Já deixei três recados na sua m esa, som ente das ligações desta m anhã! E, além disso, a sua fam ília j á m e odeia.

— Eles têm m otivos para isso, não é? — Lou estava perto dela, acuando-a contra a m esa. Olhando-a de um a m aneira que fazia seu corpo trem er, ele deixou que dois de seus dedos deslizassem lentam ente pelo antebraço de Alison até chegar à sua m ão e pegou o telefone que ela segurava. Ouviu alguém tossir atrás dele e se afastou de Alison, trazendo o telefone para a orelha. Fingindo não se im portar com aquela presença, virou-se casualm ente para verificar quem os havia interrom pido.

Gabe. Com o carrinho da correspondência e a roda que rangia; estranho, m as Lou não a ouvira.

— Alô, Marcia — ele disse para a irm ã ao telefone. — Sim , é claro que eu recebi os seus dez m il recados. Alison fez a gentileza de m e passar cada um deles. — Lou abriu um sorriso m eigo para Alison, que lhe m ostrou a língua antes de levar Gabe até a sala de Lou, que se ergueu um pouco para observá-lo.

Seguindo Alison, Gabe olhou ao redor com o um a criança no zoológico. Lou percebeu quando ele observava o banheiro, as j anelas que iam do chão ao teto exibindo a cidade, a enorm e m esa de carvalho que ocupava m ais espaço do que o necessário, a área com os sofás no canto esquerdo, a m esa de reuniões com espaço para dez pessoas, a televisão de plasm a de cinquenta polegadas na parede. Era m aior do que um bom apartam ento em Dublin.

A cabeça de Gabe se m oveu pela sala, olhando para todos os cantos. Sua expressão era indecifrável. Em seguida, seus olhares se cruzaram e Gabe sorriu. Um sorriso curioso. Não era a expressão de adm iração que Lou esperava, e certam ente não era invej a. Na verdade, Gabe parecia estar se divertindo. O que quer que fosse, aquilo acabou com o orgulho e com a satisfação que estavam na fila de em oções que Lou planej ava sentir. Era um sorriso que parecia ser direcionado apenas a Lou, m as o problem a era que Lou não tinha certeza se era ele o m otivo da piada ou se a estava com partilhando com Gabe. Sentindo um a falta de autoconfiança à qual não estava acostum ado, ele acenou com a cabeça.

Enquanto isso, ao telefone, Marcia continuava com a sua tagarelice insana, e Lou sentia que sua testa ficava cada vez m ais quente.

— Lou? Lou, você está m e escutando? — perguntou Marcia com a voz suave.

— Claro, m as não posso falar agora. Tenho de estar em dois lugares diferentes e nenhum deles fica perto daqui — disse ele, e, após um a breve pausa, acrescentou um a risada para suavizar o golpe.

— Sim , eu sei que você é m uito ocupado — disse ela, e sem qualquer ironia acrescentou: — Eu não o perturbaria no seu trabalho se conseguíssem os vê-lo no dom ingo, de vez em quando.

— Ah, lá vam os nós de novo! — ele revirou os olhos e esperou pela bronca habitual.

— Não, não vou fazer cobranças. Por favor, apenas escute. Lou, eu realm ente preciso da sua aj uda. Em outras circunstâncias, não o incom odaria, m as Rick e eu estam os analisando os docum entos do divórcio e... — ela suspirou. — Bem , de qualquer form a, eu quero que tudo term ine logo e não vou conseguir fazer isso sozinha.

— Tenho certeza de que não vai conseguir. — Ele não sabia ao certo o que ela conseguiria ou não fazer, j á que não fazia ideia do que ela estava dizendo, pois estava preocupado com a paranoia cada vez m aior que sentia em relação aos m ovim entos de Gabe em sua sala.

Ele esticou o fio do telefone até o canto da sala para que pudesse pegar seu casaco. Em m eio à confusão de tentar pegar o casaco enquanto m antinha o telefone preso entre o om bro e o ouvido, ele deixou o fone cair. Vestiu o sobretudo antes de recolher o fone. Marcia ainda estava falando.

— Então, pode pelo m enos responder à m inha pergunta sobre o local?

— O local — repetiu ele. O telefone celular que estava em seu bolso tocou, e ele cobriu o bocal do telefone para que Marcia não ouvisse. O que m ais queria era poder atendê-lo.

Marcia ficou em silêncio por um m om ento.

— Sim . O local — disse ela, com a voz tão baixa agora que ele tinha de se esforçar para ouvi-la.

— Ah, sim , o local para... — Ele olhou para Alison pedindo aj uda, e ela parou subitam ente de estudar Gabe para vir correndo com um post-it am arelo fluorescente na m ão.

— A-há! — exclam ou Lou, tirando-o das m ãos de Alison e dizendo as palavras com o se as estivesse lendo: — Para a festa de aniversário do seu pai... ou sej a, do m eu pai. Você quer que eu indique um local para a festa de aniversário dele?

Lou sentiu um a presença por trás das suas costas outra vez.

— Sim — disse Marcia, aliviada. — Mas não preciso de um local. Já tem os duas opções, lem bra-se? Eu lhe falei sobre isso. Preciso apenas que você m e aj ude a escolher um a. Quentin prefere um a, e eu prefiro a outra. Mam ãe não quer interferir na escolha e...

— Ligue no m eu celular, Marcia. Eu realm ente preciso sair daqui correndo. Vou m e atrasar para um alm oço de negócios.

— Não, Lou! Apenas m e diga onde...

— Olhe, eu conheço um lugar ótim o. — Ele a interrom peu outra vez, olhando para o relógio. — Papai vai adorar e todos vão se divertir — disse ele, apressando-se para encerrar a ligação.

— Não quero ter m ais um lugar nas opções nesta altura dos preparativos. Você sabe com o papai é. Apenas um a reunião fam iliar íntim a e pequena, em algum lugar em que ele se sinta confortável.

— Íntim o e confortável. Entendi. — Lou arrancou um a caneta dos dedos de Alison e fez um a anotação sobre a festa que iria incum bi-la de com eçar a organizar. — Ótim o. Qual o dia da festa?

— No dia do aniversário dele — a voz de Marcia ficava cada vez m ais baixa a cada resposta.

— Certo, no aniversário dele. — Lou olhou para Alison com um a expressão de dúvida, e ela correu para abrir a sua agenda, folheando-a em alta velocidade. — Im aginei que seria m elhor num fim de sem ana para que todos pudessem se divertir. Você sabe, deixar o tio Leo se acabar na pista de dança — disse ele, com um sorriso torto.

— Ele acabou de ser diagnosticado com câncer de próstata.

— Não é exatam ente disso que estou falando. Bem , qual é o fim de sem ana m ais próxim o do aniversário dele? — im provisou Lou.

— O aniversário do nosso pai cai num a sexta-feira — disse ela, cansada. — Dia 21 de dezem bro, Lou. Assim com o foi no ano passado, e em todos os anos anteriores.

— Vinte e um de dezem bro. Certo. — Ele encarou Alison com um olhar irritadiço, e ela gem eu por não descobrir a inform ação antes. — É na próxim a sem ana, Marcia. Por que deixou tudo para a últim a hora?

— Eu lhe disse. Já cuidam os de tudo. Os dois locais estão preparados para fazer a festa.

Lou parou de prestar atenção na resposta dela outra vez, tirou a agenda de Alison e com eçou a folhear as páginas.

— Ah, não vai ser possível. Dá para acreditar? Essa é a data da festa de fim de ano do escritório, e eu tenho de estar aqui. Vam os receber alguns clientes im portantes. A festa do nosso pai pode ficar para o sábado. Vou ter de reagendar alguns com prom issos — disse ele, pensando em voz alta —, m as sábado vai ser m elhor.

— Ele vai fazer 70 anos. Você não pode m udar a data por causa de um a festa da sua em presa — ela disse, sem acreditar. — Além disso, a m úsica, a com ida, tudo j á foi escolhido e contratado para essa data. Só precisam os decidir qual dos dois locais...

— Bem , cancele tudo — disse Lou, dando a volta na m esa e preparando-se para desligar. — O local que eu tenho em m ente oferece serviços de restaurante e tem um pessoal especializado para cuidar da m úsica, e você não vai precisar levantar um dedo, certo? Então, está tudo decidido. Ótim o. Vou passar o telefone para Alison para que ela anote os detalhes. — Lou colocou o fone sobre a m esa e pegou sua m aleta.

Em bora sentisse a presença de Gabe atrás de si, não se virou.

— Está tudo bem , Gabe? — perguntou ele, pegando pastas e envelopes de cim a da m esa de Alison e organizando-os em sua m aleta.

— Sim , está tudo bem . Achei apenas que poderia acom panhá-lo no elevador, j á que estam os indo para o m esm o lugar.

— Oh. — Lou fechou a m aleta, virou-se e não dim inuiu o passo no traj eto até o elevador, sentindo repentinam ente o receio de que com etera um grande erro, e que agora teria que m ostrar a Gabe que suas intenções ao lhe conseguir um em prego não incluíam fazer am izade. Ele apertou o botão do elevador e, enquanto esperava que o núm ero do seu andar acendesse, ocupou-se com seu telefone.

— Então você tem um a irm ã? — perguntou Gabe, com a voz suave.

— Sim — respondeu Lou, ainda digitando sua m ensagem de texto, sentindo-se com o se estivesse de volta à escola e quisesse se livrar do nerd a quem dem onstrara um pouco de gentileza. Dessa vez, o m ais estranho foi que seu telefone decidiu não tocar.

— Isso é ótim o.

— Aham .

— O quê? — perguntou Gabe de m aneira tão lacônica que a cabeça de Lou se ergueu rapidam ente.

— Não ouvi o que você disse — com pletou Gabe, com o se fosse o professor da escola.

Em seguida, por algum a razão desconhecida, a sensação de culpa tom ou conta dele e Lou guardou o telefone no bolso.

— Desculpe, Gabe — disse ele, esfregando a testa. — O dia de hoj e está estranho. Não estou m e sentindo com o eu m esm o.

— Quem é você, então?

Lou olhou para ele, confuso, e Gabe sorriu.

— Você estava falando sobre a sua irm ã.

— Estava? Bem , ela só estava sendo a Marcia de sem pre — suspirou Lou. — Está m e deixando louco com os preparativos da festa de 70 anos do m eu pai. Infelizm ente, vai acontecer no m esm o dia da festa do escritório, o que causa alguns problem as, com o você sabe. A festa aqui é sem pre ótim a — ele olhou para Gabe e piscou. — Você vai ver. Mas estou tirando toda a organização das m ãos dela agora, para aliviar um pouco a pressão.

— Você acha que ela não está gostando de organizar a festa? — perguntou Gabe.

Lou desviou o olhar. Marcia adorava organizar a festa; passara praticam ente o ano inteiro planej ando o evento. Ao tirar a responsabilidade das m ãos da irm ã, ele, na verdade, estava deixando as coisas m ais fáceis para si m esm o. Não suportava m ais as ligações que recebia para ouvir sobre o sabor do bolo, sobre onde três das suas tias decrépitas passariam a noite — poderia ser na sua casa? — ou sobre se deveria em prestar suas conchas para o serviço de buffet servir a sopa. Desde que seu casam ento term inara, ela concentrou toda a sua energia nessa festa. Se houvesse dado ao próprio casam ento a m esm a atenção que dedicava à m aldita festa, não iria choram ingar todos os dias nos om bros das suas am igas na academ ia de ginástica, acreditava Lou. Tirar isso das m ãos de Marcia era um favor para ela e para si m esm o. Duas coisas resolvidas de um a vez só. Exatam ente com o ele gostava.

— Mas você vai à festa do seu pai, não vai? — perguntou Gabe. — Seu pai vai fazer 70 anos — ele soltou um assobio. — Não é algo que você queira perder.

A irritação e a inquietação tom aram conta de Lou. Sem saber se Gabe estava lhe dando um a bronca ou apenas tentando ser am igável, ele o encarou para tentar descobrir, m as Gabe estava apenas exam inando os envelopes em seu carrinho, decidindo para qual andar deveria se dirigir a seguir.

— Ah, é claro que eu irei — disse Lou, abrindo um sorriso falso — Vou aparecer em algum m om ento da festa e ficar um pouco. Esse sem pre foi o m eu plano. — A voz de Lou soava forçada. Por que diabos estava se j ustificando?

Gabe não respondeu, e após alguns segundos de um silêncio carregado, Lou apertou o botão do elevador repetidam ente.

— Essas coisas são lentas dem ais — ele resm ungou.

Finalm ente, as portas se abriram e o elevador abarrotado de gente revelou que só havia espaço para um a pessoa.

Gabe e Lou se entreolharam .

— Bem , um de vocês dois, entre logo! — reclam ou alguém no fundo.

— Pode ir — disse Gabe. — Tenho que levar essa coisa para baixo — disse ele indicando o carrinho. — Vou no próxim o.

— Tem certeza?

— Vocês dois, beij em -se e se despeçam — disse outro hom em , e o restante das pessoas riu.

Lou precipitou-se para dentro e não conseguiu se esquivar do olhar frio de Gabe quando as portas se fecharam e o elevador desceu lentam ente.

Depois de apenas duas paradas, eles chegaram ao térreo e, prensado contra a parede do fundo, Lou aguardou até que todos saíssem . Observou as pessoas correndo para as portas do saguão para irem alm oçar, encapotadas e prontas para enfrentar o frio.

A m ultidão se desfez e seu coração quase parou ao perceber que Gabe estava ao lado do balcão dos seguranças com o carrinho a seu lado, procurando por Lou entre as pessoas.

Lou desem barcou lentam ente e foi até onde ele estava.

— Eu m e esqueci de deixar isso na sua m esa. — Gabe lhe entregou um envelope fino. — Estava escondido em baixo da pilha de outra pessoa.

Lou pegou o envelope e nem olhou para ele antes de enfiá-lo de qualquer j eito no bolso do sobretudo.

— Algum a coisa errada? — perguntou Gabe sem qualquer tom de preocupação em sua voz.

— Não. Nada de errado. — Lou encarava Gabe. — Com o você chegou até aqui tão rápido?

— Aqui? — Gabe apontou para o piso.

— Sim , aqui — disse Lou, sarcástico. — Aqui no térreo. Você disse que ia esperar o próxim o elevador. Estava no décim o quarto andar há m enos de trinta segundos.

— Ah, é m esm o — concordou Gabe e sorriu. — Mas eu não diria que foi há trinta segundos.

— Então, foi há quanto tem po?

— E... — ele vacilou. — Acho que cheguei aqui m ais rápido do que você. — Gabe deu de om bros, destravou o freio da roda do carrinho com o pé e preparou-se para continuar a andar. Ao m esm o tem po, o telefone de Lou com eçou a tocar e seu BlackBerry anunciou a chegada de um novo e-m ail.

— É m elhor correr — disse Gabe, afastando-se. — Coisas para ver, pessoas para fazer — ele repetiu as palavras de Lou. Em seguida, exibiu um sorriso de porcelana que teve o efeito oposto à sensação afável e receptiva que Lou sentira naquela m esm a m anhã. Em vez disso, o sorriso enviou torpedos de m edo e preocupação diretam ente ao seu coração e ao seu estôm ago. Nos dois lugares. Exatam ente ao m esm o tem po.