O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 5 de 29

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O Presente

O começo da história

O observador de sapatos

 

Lou Suffern sem pre tinha de estar em dois lugares ao m esm o tem po. Quando dorm ia, sonhava. Entre os sonhos, analisava os eventos de cada dia enquanto planej ava o dia seguinte, de m odo que, quando o despertador tocava às seis horas da m anhã, todos os dias, ele ainda se sentia cansado. Enquanto tom ava banho, ensaiava apresentações e, ocasionalm ente, com um a m ão do lado de fora da cortina do chuveiro, respondia a alguns e-m ails em seu BlackBerry. Lia o j ornal enquanto tom ava o café da m anhã, e, quando sua filha de 5 anos lhe contava histórias m alucas, o que ele ouvia eram as notícias da m anhã. Quando seu filho de treze m eses dem onstrava novas habilidades, o rosto de Lou m ostrava interesse, m as internam ente tentava entender os m otivos pelos quais sentia exatam ente o contrário. Ao se despedir de sua esposa com um beij o, estava pensando em outra m ulher.

Cada m ovim ento, com prom isso ou pensam ento, de qualquer tipo, era entrem eado por outro. Dirigir para o trabalho tam bém era um a teleconferência pelo viva-voz. Cafés da m anhã se transform avam em alm oços; alm oços, em drinques antes do j antar; j antares, em drinques após o j antar; e os drinques após o j antar... bem , isso dependia de sorte. Nas m elhores noites, qualquer casa, apartam ento, quarto de hotel ou escritório servia para desfrutar da com panhia de outra m ulher; é claro que ele convenceria a todos que não com partilhassem de sua felicidade — especialm ente sua esposa — de que estava em outro lugar. Para os outros, ele estava preso num a reunião ou num aeroporto, cuidando de alguns docum entos im portantes ou preso no trânsito enlouquecedor da época de Natal. Em dois lugares ao m esm o tem po, quase num passe de m ágica.

As tarefas se sobrepunham . Ele estava sem pre em m ovim ento, sem pre tinha de estar em algum lugar, sem pre desej ava estar em outro lugar ou quem sabe, graças a um a intervenção divina, em dois lugares ao m esm o tem po. Gastava o m ínim o de tem po possível com cada pessoa que encontrava e se despedia certo de que tinha sido o bastante. Não perm itia que as coisas se arrastassem ; era preciso, sem pre pontual. Nos negócios, cum pria os prazos de m aneira im placável, m as, na vida pessoal, era um relógio de bolso quebrado. Lutava para atingir a perfeição no trabalho e tinha um a energia inesgotável na busca pelo sucesso. Entretanto, a ansiedade para com pletar sua lista cada vez m aior de desej os e a am bição de atingir o topo faziam -no passar por cim a das pessoas m ais im portantes da sua vida. Não havia espaço em sua agenda para aqueles que, em alguns m om entos do dia, poderiam lhe dar m ais satisfação do que qualquer novo negócio seria capaz.

Em um a m anhã particularm ente fria de terça-feira na região portuária de Dublin, que não parava de crescer, os sapatos pretos de Lou, im pecavelm ente engraxados, andavam resolutos, observados por um hom em . O hom em olhava para aqueles sapatos naquela m anhã, com o fizera no dia anterior e com o, im aginava, faria no dia seguinte. Nenhum pé era m elhor que o outro, am bos tinham o m esm o talento. Cada passo cobria a m esm a distância, num a com binação precisa entre os dedos e o calcanhar — os calcanhares atacavam o chão prim eiro, e depois os dedos faziam sua parte; os passos se flexionando no tornozelo. Perfeitos e ritm ados. Não faziam o barulho pesado, que chegava a trem er o chão, dos passos das pessoas que corriam de um lado para outro sob o ar da m anhã, as cabeças ainda em seus travesseiros, enquanto seus corpos cam inhavam por ali. Não, os sapatos de Lou tam borilavam tão im pertinentes quanto gotas de chuva no teto de um conservatório; a barra das calças se agitando levem ente com o um a bandeira ao sabor da brisa no décim o oitavo buraco de um cam po de golfe.

O observador im aginava que os blocos de concreto da calçada pudessem se ilum inar cada vez que os sapatos pisavam neles, e que o dono dos sapatos pudesse executar um núm ero de sapateado ao som de um a canção que falasse sobre com o o dia estava alegre e agradável. Para o observador, o dia certam ente seria m uito alegre e agradável.

Geralm ente, os brilhantes sapatos pretos, acom panhados por ternos im pecáveis, tam bém pretos, flutuavam elegantem ente diante do observador e atravessavam as portas giratórias, passando pelo pórtico de m árm ore do m oderno prédio de vidro, prontos para serem esprem idos no elevador e lançados aos céus de Dublin. Mas, naquela m anhã, os sapatos pararam bem diante do observador e se viraram fazendo um ruído seco sobre o concreto frio. O observador não teve escolha a não ser tirar os olhos dos sapatos e erguer o rosto.

— Aqui está — disse Lou, entregando-lhe um copo de café. — Espero que não se im porte: é um am ericano; eles estavam com problem as na m áquina e não puderam fazer um latte com o eu pedi.

— Devolva-o, então — disse o observador, erguendo o nariz diante do copo de café fum egante que lhe era oferecido.

O com entário foi recebido com um silêncio estupefato.

— Estou brincando — disse rapidam ente, com um sorriso, ao ver a reação atordoada de Lou, tem endo que o seu benfeitor não gostasse da piada e desistisse do gesto. Estendeu a m ão na direção do copo, pegando-o com os dedos entorpecidos.

— Por acaso eu pareço ser alguém que gosta de leite vaporizado? — ele sorriu, antes que sua expressão se transform asse num a dem onstração de puro êxtase. — Hum m m m m .

Ele pressionou o nariz contra a borda do copo para sentir o arom a dos grãos de café. Fechou os olhos e inspirou, sem querer que o sentido da visão interferisse naquele cheiro divino. O copo de papelão estava tão quente, ou suas m ãos tão frias, que ele as sentiu queim ando; ondas de calor e arrepios percorriam todo o seu corpo. Não tinha noção do quanto o dia estava frio até sentir aquele calor.

— Muito obrigado, m esm o.

— Sem problem as. Ouvi no rádio que hoj e vai ser o dia m ais frio do ano. — Os sapatos brilhantes batiam contra o concreto da calçada e as suas luvas de couro se esfregavam um a na outra com o prova do que ele dizia.

— Bem , eu acredito neles. Está frio o bastante para congelar o m eu saco. Mas não se preocupe, isso aqui vai aj udar. — Ele soprou levem ente a bebida, preparando-se para tom ar o prim eiro gole.

— Não tem açúcar.

— Ah, não! — O observador revirou os olhos e afastou o copo dos lábios com o se o líquido ali dentro tivesse o vírus de um a doença contagiosa. — Eu posso relevar o problem a com o leite, m as esquecer o açúcar é im perdoável. — Ele estendeu o copo de volta para Lou.

Entendendo a m ensagem e a piada dessa vez, Lou riu.

— Certo, certo. Já entendi.

— Mendigos não podem escolher. Não é isso o que dizem por aí? Será que isso significa que quem faz caridade pode escolher o m endigo? — O observador ergueu um a sobrancelha, sorriu e finalm ente tom ou seu prim eiro gole. Estava tão absorto na sensação do calor e da cafeína percorrendo seu corpo frio que não percebeu que, subitam ente, o observador se tornara o observado.

— Ah! Eu sou Gabe — disse, estendendo a m ão. — Gabriel, m as todos que m e conhecem m e cham am de Gabe.

Lou estendeu a m ão e o cum prim entou. Couro quente contra pele fria.

— Eu sou Lou, m as todos que m e conhecem m e cham am de canalha.

Gabe riu.

— Bem , pelo m enos você é honesto. Que tal eu cham ar você de Lou até conhecê-lo m elhor?

Os dois trocaram um sorriso e ficaram desconfortáveis em m eio ao silêncio súbito. Dois garotinhos tentando fazer am izade no pátio da escola. Os sapatos brilhantes com eçaram a se m over discretam ente, inquietos, tip-tap, tap-tip, os passos de Lou, de um lado para outro, tentando se m anter aquecido e tentando decidir se deveria ir em bora ou ficar. Os sapatos giraram lentam ente na direção do prédio vizinho. Ele logo seguiria na direção dos seus pés.

— A m anhã está m ovim entada, não é? — disse Gabe tranquilam ente, fazendo com que os sapatos voltassem a ficar de frente para ele.

— Falta pouco tem po para o Natal. Esta época é sem pre m ovim entada — concordou Lou.

— Quanto m ais pessoas passarem por aqui, m elhor será para m im — disse Gabe quando um a m oeda de vinte centavos caiu dentro da sua caneca. — Obrigado — ele disse à senhora que não parou para largar a m oeda. Analisando a linguagem corporal da m ulher, seria possível até m esm o pensar que a m oeda havia caído por um buraco em seu bolso em vez de ser dada com o um presente. Ele olhou para Lou com olhos enorm es e um sorriso ainda m aior. — Viu? Am anhã o café é por m inha conta — riu.

Lou tentou se inclinar o m ais discretam ente possível para dar um a olhada no conteúdo da caneca. A m oeda de vinte centavos estava no fundo, sozinha.

— Oh, não se preocupe. Eu a esvazio de vez em quando. Não quero que as pessoas percebam a fortuna que estou ganhando — riu novam ente. — Você sabe com o é.

Lou concordou, em bora, na verdade, não soubesse.

— Não posso deixar que as pessoas saibam que sou o dono daquela cobertura do outro lado do rio — acrescentou Gabe, indicando o prédio com um m ovim ento de cabeça.

Lou virou-se e olhou para o m ais novo arranha-céu da região das docas de Dublin, o lugar a que Gabe se referia. Com vidros m etalizados, era quase com o se o prédio fosse o espelho do centro da cidade. Lá estavam o barco viking restaurado, ancorado no cais; os vários guindastes; os novos edifícios em presariais que cercavam o rio Liffey ; e até o céu cheio de nuvens cinzentas nos andares superiores. O prédio capturava a paisagem e a refletia de volta para a cidade com o um a enorm e TV de plasm a. Construído em form ato de vela de navio, à noite o prédio se ilum inava de azul e era o principal assunto das conversas. Ou, pelo m enos, fora o principal assunto nos m eses seguintes à sua inauguração. A popularidade dos lançam entos nunca dura m uito tem po.

— Eu estava brincando sobre ser o dono da cobertura — disse Gabe, parecendo estar um pouco preocupado com a possibilidade de ter com prom etido seus possíveis rendim entos.

— Você gosta daquele prédio? — perguntou Lou, ainda olhando para ele, em transe.

— É o m eu favorito, especialm ente à noite. É um a das principais razões para eu m e sentar aqui. O prédio e o fato de que m uitas pessoas andam por aqui, é claro. A vista do prédio, por si só, não pagaria o m eu j antar.

— Fom os nós que o construím os — disse Lou, finalm ente virando-se para olhar Gabe outra vez.

— É m esm o? — Gabe analisou Lou m ais detalhadam ente. Entre 35 e 40 anos; terno elegante; o rosto cuidadosam ente barbeado, liso com o o bum bum de um bebê; o cabelo bem penteado, com toques de grisalho espalhados de m aneira uniform e, com o se alguém o houvesse salpicado com um saleiro; e além do grisalho, o saleiro tam bém tinha espalhado charm e sobre aquele hom em que lem brava um astro do cinem a dos velhos tem pos. Suavidade e sofisticação, tudo em brulhado num sobretudo preto de casim ira.

— Aposto que esse trabalho pagou o seu j antar — disse Gabe, sentindo um a certa invej a. Estava incom odado agora; percebeu subitam ente que o que era antes cortesia e cam aradagem tinha se transform ado em desconfiança e invej a. Pressentiu que, apesar de gostar de viver sozinho, assim que se despedisse do hom em à sua frente sentiria um a im ensa solidão, que nunca o incom odara antes, e seria tom ado pelos ingredientes perfeitos para um a bela torta caseira de am argura: invej a, frio e solidão.

O prédio deu m ais a Lou do que apenas o seu j antar. Rendeu alguns prêm ios para a em presa e para ele, pessoalm ente, um a casa na região de Howth e a troca do Porsche por outro m ais m oderno — m as ele só pegaria o carro novo depois do Natal. Lou sabia que não deveria dizer nada disso ao hom em que estava sentado naquela calçada gelada, enrolado num cobertor infestado de pulgas. Ele sorriu educadam ente e exibiu seus dentes perfeitam ente restaurados por um a cam ada de porcelana. Estava, com o de costum e, fazendo duas coisas ao m esm o tem po. Pensando num a coisa e fazendo outra. Mas Gabe com preendeu perfeitam ente as entrelinhas e isso aum entou o desconforto, com o qual nenhum deles queria lidar.

— Bem , preciso ir trabalhar. Eu trabalho...

— ... no prédio ao lado. Eu sei. Reconheço os seus sapatos. São os sapatos que passam à altura dos m eus olhos — Gabe sorriu. — Mas você não estava usando esse par ontem . Acho que eram de couro m arrom , se eu estiver certo.

As sobrancelhas bem cuidadas de Lou se ergueram um pouco. Com o se um a pedra tivesse sido j ogada num lago, um a série de ondulações se form ou naquela testa que ainda não havia recebido sua prim eira aplicação de botox.

— Não se preocupe, não sou um desses caras que ficam perseguindo os outros. — Gabe afastou um a m ão do copo quente e a ergueu para se defender. — É que j á faz algum tem po que estou aqui. Na verdade, são as pessoas que insistem em passar bem à m inha frente.

Lou riu e, um pouco constrangido, olhou para seus sapatos, que eram o assunto da conversa.

— Incrível. Eu nunca vi esse hom em aqui antes. — Lou pensou em voz alta e, ao m esm o tem po em que falava, revivia m entalm ente cada m anhã que viera ao trabalho por aquele cam inho.

— O dia todo, todos os dias — disse Gabe, com um falso toque de hum or na voz.

— Desculpe, nunca percebi você por aqui... — Lou balançou a cabeça negativam ente. — Estou sem pre correndo, falando ao telefone ou atrasado para um a reunião. Sem pre tentando estar em dois lugares ao m esm o tem po, com o m inha esposa diz. Às vezes tenho vontade de ser clonado, para dar conta de tudo que tenho de fazer — riu Lou.

Gabe abriu um sorriso curioso ao ouvir aquilo.

— Por falar em correr, esta é a prim eira vez que não vej o esses garotos passarem correndo por aqui — Gabe indicou os pés de Lou com a cabeça. — Quase não os reconheço quando estão parados. Não há nenhum incêndio para apagar hoj e?

Lou riu.

— Sem pre há incêndios para apagar ali dentro, acredite. — Ele fez um m ovim ento rápido com o braço e, com o se um tecido fino fosse tirado de cim a de um a obra de arte, a m anga do seu sobretudo deslizou o bastante para exibir o Rolex de ouro. — Sem pre sou o prim eiro a chegar no escritório, então não há m otivo para m e apressar. — Ele observou o horário com bastante atenção. Em sua cabeça, j á estava conduzindo um a reunião no período da tarde.

— Esta m anhã você não será o prim eiro.

— O quê? — a reunião de Lou foi interrom pida e ele estava de volta à rua fria, do lado de fora do seu escritório, com o vento do Atlântico castigando seu rosto e a m ultidão encapotada m archando em direção ao trabalho.

Gabe fechou os olhos, apertando-os.

— Mocassins m arrons. Já os vi chegarem algum as vezes. Eles j á entraram .

— Mocassins m arrons? — Lou riu, confuso no início, depois im pressionado e curioso, tentando identificar quem tinha chegado ao escritório antes dele.

— Você o conhece, anda de um j eito pretensioso. As franj as de cam urça no sapato se agitam com cada passo, um cancan em m iniatura. Com o se ele as levantasse de propósito. Eles têm solas m acias, m as batem no chão com força. Pés pequenos e largos, e ele anda pressionando a parte externa dos pés. As solas sem pre ficam gastas do lado de fora.

Lou franziu as sobrancelhas, concentrando-se.

— Aos sábados, ele usa sapatos com o se tivesse acabado de descer de um iate.

— Alfred! — Lou riu, reconhecendo a descrição. — Provavelm ente isso acontece porque ele realm ente acabou de descer do seu... — Deteve-se. — Ele j á entrou?

— Há m ais ou m enos m eia hora. Entrou e estava m eio apressado, pelo que pude perceber, acom panhado por um par preto sem cordões.

— Par preto sem cordões?

— Sapatos pretos. Masculinos. Bem engraxados, m as sem um design especial. Sim ples e diretos, servindo apenas à função para a qual foram criados. Não dá para dizer m uito m ais além do fato de que andam m ais devagar do que os outros sapatos.

— Você é bastante observador. — Lou o exam inou, im aginando quem teria sido esse hom em antes de se sentar no chão frio ao lado de um a porta; ao m esm o tem po, sua m ente trabalhava em alta velocidade, tentando descobrir quem era essa outra pessoa. O fato de Alfred ter chegado cedo ao escritório o deixou intrigado. Um dos colegas — Cliff — havia sofrido um colapso nervoso e isso deixara todos em polgados — sim , em polgados — com a possibilidade de um a nova vaga. Se a saúde de Cliff não m elhorasse, o que Lou desej ava em segredo, grandes m udanças ocorreriam na em presa, e qualquer com portam ento estranho de Alfred era questionável. Na verdade, qualquer com portam ento de Alfred, em qualquer circunstância, era questionável.

Gabe piscou um dos olhos.

— Você não tem nenhum em prego disponível para um a pessoa observadora, não é?

Lou afastou as m ãos enluvadas.

— Não tenho, desculpe.

— Sem problem as. Você sabe onde m e encontrar se precisar de m im . Sou o cara que usa os Doc Martens. — Ele riu, erguendo os cobertores para m ostrar as botas de cano alto que estava calçando.

— Gostaria de saber por que eles chegaram tão cedo. — Lou olhou para Gabe com o se ele tivesse poderes especiais.

— Receio que não possa aj udá-lo com isso, m as eles alm oçaram j untos sem ana passada. Ou, pelo m enos, saíram do prédio na hora em que a m aioria das pessoas alm oça e voltaram j untos quando o resto das pessoas volta ao trabalho. Basta j untar dois m ais dois para descobrir o que eles fizeram nesse m eio-tem po — disse ele, com um a risada. — Não há m oscas à m inha volta. Não hoj e, pelo m enos — acrescentou ele. — Está frio dem ais para as m oscas.

— Em que dia foi esse alm oço?

Gabe fechou os olhos outra vez.

— Sexta-feira, eu acho. O cara dos m ocassins m arrons é seu rival?

— Não, ele é m eu am igo. Mais ou m enos. Na verdade, diria que é um conhecido. — Ao ouvir aquilo, Lou, pela prim eira vez, deu sinais de que estava abalado. — Nós trabalham os j untos, m as, com o Cliff teve um colapso, essa é um a ótim a oportunidade para que um de nós... bem , você sabe...

— Roube o em prego do am igo que está doente — Gabe term inou a frase para ele, com um sorriso. — Lindo. O cara dos sapatos que andam devagar? O dos sapatos pretos? — Gabe prosseguiu. — Eles saíram do escritório um a noite dessas acom panhados por um par de Louboutins.

— Lou... Loub... o que é isso?

— Sapatos identificáveis pela sola verm elha laqueada. Em particular, esses tinham saltos de 120 m ilím etros.

— Milím etros? — perguntou Lou. E disse em seguida: — Solas verm elhas. Certo — ele assentiu, absorvendo as inform ações.

— Você podia perguntar ao seu am igo-barra-conhecido-barra-colega-de-trabalho quem era a pessoa com quem ele estava — sugeriu Gabe, com um brilho nos olhos.

Lou não respondeu diretam ente.

— Certo. Bem , é m elhor eu correr. Muitas coisas para ver, pessoas para fazer, e tudo acontecendo ao m esm o tem po, acredita? — ele piscou de volta. — Obrigado pela aj uda, Gabe. — Ele colocou um a nota de dez euros na caneca de Gabe.

— Obrigado, cara — disse Gabe, com os olhos arregalados e im ediatam ente pegou a nota da caneca e enfiou-a no bolso. — Não posso deixar que saibam , lem bra?

— Tem razão — concordou Lou.

Mas tam bém discordou.