O Presente
A alma se aproxima
O pai de Lou estava ao seu lado, olhando para o salão com o um a criança perdida, sem dúvida nervoso e constrangido por todos terem ido ali por sua causa. Em segedo, esperava que algum a outra pessoa anunciasse que tam bém estava fazendo aniversário, de m odo que a atenção pudesse ser desviada dele e dividida com m ais alguém .
— Onde está Ruth? — perguntou seu pai.
— Ah... — Lou olhou ao redor pela centésim a vez, sem encontrá-la. — Acho que está conversando com os convidados.
— Ah, sim . A vista é bonita aqui de cim a. — Ele indicou a j anela com um m ovim ento de cabeça. — A cidade cresceu bastante nos últim os tem pos.
— Sim , pensei que você fosse gostar — disse Lou, feliz por ter acertado pelo m enos nisso.
— E, então, onde é seu escritório? — ele olhou por cim a do rio Liffey para os prédios com erciais que continuavam ilum inados até aquela hora.
— Aquele ali, bem em frente. — Apontou Lou. — Basta subir treze andares, no décim o quarto andar.
O pai de Lou olhou para ele, obviam ente pensando naquela característica peculiar, e, pela prim eira vez, Lou sentiu o m esm o. Agora entendia que aquilo era estranho e confuso. Ficou nervoso. Ele sem pre tinha tanta convicção do que pensava...
— É aquele onde todas as luzes estão acesas — explicou Lou, de m aneira m ais sim ples. — É a festa da em presa.
— Ah, então é ali. — Seu pai assentiu. — Onde tudo acontece.
— Sim — disse Lou, orgulhoso. — Recebi um a prom oção esta noite, pai. — Ele sorriu. — Ainda não contei a ninguém , pois hoj e a noite é sua, é claro — disse ele, recuando.
— Um a prom oção? — as sobrancelhas grossas do seu pai se ergueram .
— Sim .
— Mais trabalho?
— Um a sala m aior, ilum inação m elhor — disse ele em tom de piada. Quando seu pai não riu, Lou ficou sério. — Sim , m ais trabalho. Mais horas na em presa.
— Ah, sim . — Seu pai ficou quieto.
A raiva com eçou a ferver dentro de Lou. Não seria ruim receber os parabéns.
— Você é feliz lá? — perguntou seu pai casualm ente, ainda olhando pela j anela, a festa atrás deles visível no reflexo. — Não há razão para trabalhar tanto em algo se você não estiver feliz, porque, no fim das contas, é som ente isso que im porta, não é?
Lou ponderou aquilo, sentindo-se ao m esm o tem po decepcionado pela ausência de elogios e intrigado com o pensam ento do pai.
— Mas você sem pre m e disse para eu trabalhar duro — disse ele subitam ente, sentindo um a raiva que nunca soube que tinha dentro de si. — Você sem pre nos ensinou a não descansar sobre os louros do sucesso nem por um segundo. Essa era exatam ente a frase que você dizia, pelo que m e lem bro. — Ele abriu um sorriso, m as estava tão tenso que sentiu seu corpo enrij ecer.
— Eu não queria que vocês fossem preguiçosos, de m aneira algum a — respondeu o seu pai e virou-se para olhar Lou nos olhos. — Em qualquer aspecto da sua vida, não som ente no trabalho. Qualquer equilibrista é capaz de andar em linha reta e segurar um a bengala ao m esm o tem po. O que eles têm que praticar é se equilibrar na corda, naquela altura... — ele se lim itou a dizer.
Um a funcionária, trazendo um a cadeira, rom peu o silêncio tenso.
— Com licença — disse ela, olhando para os m em bros da fam ília. — Meu chefe disse que alguém aqui pediu um a cadeira.
— Ah, sim , fui eu — riu Lou, irritado. — Mas eu pedi cadeiras. No plural. Para todos os convidados.
— Oh, bem , não tem os tantas cadeiras à disposição — disse ela, desculpando-se. — Bem , quem vai querer esta cadeira?
— Sua m ãe — disse o pai de Lou, rapidam ente, sem querer criar confusão. — Deixe sua m ãe se sentar.
— Não, eu estou bem , Fred. — Recusou a m ãe de Lou. — Hoj e é o seu aniversário. Você fica com a cadeira.
Lou fechou os olhos e respirou fundo. Gastara doze m il euros para que sua fam ília brigasse por causa de um a cadeira.
— Além disso, o DJ disse que a única m úsica tradicional que ele trouxe é o hino nacional da Irlanda. Gostaria que ele o tocasse?
— O quê? — esbravej ou Lou.
— É o que ele toca no final da noite, m as ele não tem nenhum a outra canção irlandesa — ela explicou. — Quer que eu peça que ele o toque agora?
— Não! — vociferou Lou. — Isso é ridículo. Não, de j eito nenhum .
— Pode entregar isso a ele? — disse Marcia educadam ente, pegando um a caixa de papelão que estava debaixo da m esa. Estava quase transbordando com chapéus de festa, serpentinas e bandeirolas. Viu até um bolo de relance. Ela entregou ao garçom um a coleção de CDs com as m úsicas preferidas do seu pai. Olhou para Lou rapidam ente e disse: — Só para o caso de você estragar tudo — disse ela e depois desviou o olhar.
Foi um com entário sucinto e discreto, m as o atingiu com m ais força do que qualquer coisa que ela lhe dissera naquela noite. Lou pensava que era o filho organizado, aquele que sabia preparar e oferecer um a festa, que sabia com o cobrar todos os favores e fazer com que todos se divertissem . Mas, enquanto estava ocupado pensando em tudo aquilo, sua fam ília estava ocupada com a preparação do Plano B, antecipando o fracasso de Lou. Tudo dentro de um a caixa de papelão.
De repente, a sala irrom peu em gritos de alegria quando Quentin saiu do elevador j unto com Gabe — que Lou não sabia que tinha sido convidado —, cada um aparecendo com um a pilha de cadeiras nos braços.
— Há m ais cadeiras chegando! — anunciou Quentin para as pessoas, e, subitam ente, a atm osfera se anim ou, os rostos fam iliares que tinham envelhecido desde a infância de Lou se entreolhavam com alívio, um pouco de dor e um a alegria inocente.
— Lou! — O rosto de Gabe se ilum inou quando ele o viu. — Que bom que você veio! — Ele dispôs as cadeiras no salão para algum as pessoas que estavam por perto e se aproxim ou de Lou, com a m ão estendida, deixando-o confuso em relação a quem seria o dono da festa. Gabe se aproxim ou para falar ao ouvido de Lou. — Você se duplicou?
— O quê? Não. — Lou se desvencilhou dele, frustrado.
— Ah — disse Gabe, surpreso. — Quando eu o vi pela últim a vez, você e Alison estavam conversando na sua sala. Não percebi que você saiu da festa da em presa.
— Sim , é claro que saí. Por que você presum iu a pior das hipóteses: que eu tive de tom ar um daqueles com prim idos para aparecer na festa do m eu próprio pai? — disse ele, fingindo estar ofendido.
Gabe sim plesm ente sorriu.
— Ei, é engraçado com o a vida funciona, não é? — disse ele, cutucando Lou.
— O que você quer dizer com isso?
— Bem , pense em com o é possível você estar aqui em cim a num m inuto e, no m om ento seguinte, estar lá em baixo?
Ao sentir o olhar agressivo de Lou, Gabe continuou.
— Só quis dizer que, quando nos conhecem os na sem ana passada, eu estava lá em baixo, olhando para cim a e sonhando em estar aqui. E olhe para m im agora. É engraçado com o as reviravoltas acontecem . Estou na cobertura do prédio; o Sr. Patterson m e deu um novo em prego e...
— Ele fez o quê?
— Sim , ele m e deu um em prego — Gabe sorriu e piscou. — Um a prom oção.
Antes que Lou tivesse a oportunidade de responder, um a funcionária se aproxim ou com um a bandej a.
— Alguém aceita? — ela sorriu.
— Ah, não, obrigada. Vou esperar pela torta de carneiro. — A m ãe de Lou respondeu com um sorriso.
— Esta é a torta de carneiro. — A garçonete apontou para um a pequena m assa de batatas no fundo de um a fôrm a m inúscula de cupcake.
Houve um m om ento de silêncio e o coração de Lou quase lhe arrebentou o peito, de tão forte que batia.
— Vocês vão servir outros pratos m ais tarde? — perguntou Marcia.
— Além do bolo? Não. — Ela negou com a cabeça. — Este é o prato da noite. Aperitivos e hors d’oeuvres. — Ela sorriu novam ente, sem perceber a hostilidade que estava se espalhando.
— Oh — disse o pai de Lou, tentando dem onstrar algum a anim ação. — Você pode deixar a bandej a aqui, então.
— A bandej a inteira? — ela olhou ao redor, hesitante, e depois para trás, na direção do gerente, em busca de apoio.
— Sim , som os um a fam ília fam inta aqui — disse Fred, tirando a bandej a das m ãos da m oça e colocando-a na m esa alta, de m odo que todos tiveram que se levantar de suas cadeiras para alcançar os aperitivos.
— Ah, sem problem as. — Ela observou quando a bandej a foi colocada na m esa e com eçou a se afastar de m ãos vazias.
— Você falou sobre um bolo? — perguntou Marcia, com a voz estridente e em bargada, possuída e perturbada pela falta de controle, por tudo que estava errado.
— Sim .
— Deixe-m e vê-lo, por favor — disse ela, olhando rapidam ente para Lou com um a expressão de terror no rosto. — Qual é a cor dele? Qual o sabor? Tem passas? Meu pai odeia passas. — Todos a ouviam dizer enquanto acom panhava a garçonete até a cozinha, levando nas m ãos a caixa de papelão com os obj etos em ergenciais para salvar a festa.
— E então, quem o convidou, Gabe? — Lou sentia-se desconfortável, sem querer discutir a prom oção, receoso de que isso o faria j ogar Gabe do outro lado da sala.
— Ruth — disse Gabe, pegando um a das m inúsculas tortas de carneiro.
— Ah, ela o convidou? É m esm o? Eu acho que não — Lou riu.
— Por que você acha isso? — Gabe deu de om bros. — Ela m e convidou no dia em que eu j antei e passei a noite na sua casa.
— Por que você está falando assim ? Não fale desse j eito — Lou disse de m aneira infantil, encarando-o am eaçadoram ente. — Você não foi convidado para j antar na m inha casa. Você m e levou de volta e com eu as sobras.
Gabe olhou para Lou, curioso.
— Certo.
— Além disso, onde está Ruth? Não a vi até agora.
— Oh, nós ficam os conversando no terraço a noite inteira. Eu realm ente gosto dela — respondeu Gabe, com o crem e de batatas escorrendo pelo queixo e caindo na gravata em prestada que usava. A gravata de Lou.
Ao ouvir aquilo, o queixo de Lou se tensionou.
— Você realm ente gosta dela? Você realm ente gosta da minha esposa? Bem , isso é engraçado, Gabe, porque eu realm ente gosto da m inha esposa tam bém . Você e eu tem os m uita coisa em com um , não é? — perguntou ele, com ironia.
— Lou — Gabe sorriu, nervoso. — Talvez sej a m elhor baixar um pouco a voz.
Lou olhou em volta e sorriu com a atenção que os dois tinham atraído, colocou um braço ao redor do om bro de Gabe para m ostrar que estava tudo bem . Quando os olhares se desviaram , ele encarou Gabe e desfez o sorriso.
— Você quer a m inha vida, não é, Gabe?
Gabe pareceu ficar chocado com aquilo, m as não teve oportunidade de responder, pois as portas do elevador se abriram e entraram Alfred, Alison e um grupo de pessoas que estava na festa da em presa. Apesar do som alto das m úsicas favoritas do pai de Lou, eles conseguiram anunciar sua presença à sala em alto e bom som , vestidos com seus traj es de Papai Noel e chapéus cônicos de papelão, soprando línguas de sogra na direção de qualquer pessoa que lhes dirigisse o olhar.
Lou saiu em disparada do lugar onde sua fam ília estava reunida e subiu os degraus até o elevador, bloqueando o cam inho de Alfred.
— O que vocês estão fazendo aqui?
— Viem os para a festaaaaa, m eu am igo! — anunciou Alfred, cam baleando e soprando um a língua de sogra no rosto de Lou.
— Alfred, você não foi convidado — disse Lou, em voz alta.
— Alison m e convidou — riu Alfred. — E eu acho que você sabe, m elhor do que qualquer pessoa, o quanto é difícil recusar um convite de Alison. — Ele sorriu. — Mas eu não m e im porto de ficar com os restos que você deixa para trás — disse ele, rindo, a em briaguez afetando o seu equilíbrio. Abruptam ente, o olhar de Alfred se desviou por cim a do om bro de Lou e seu rosto m udou de expressão. — Ruth! Com o você está?
O coração de Lou quase parou quando ele se virou e viu que Ruth estava atrás dele.
— Alfred. — Ruth cruzou os braços e olhou fixam ente para o m arido.
Um silêncio tenso pairou no ar.
— Bem , isso é constrangedor — disse Alfred, hesitante. — Acho que vou aproveitar a festa. E deixarei vocês dois a sós para que possam se espancar.
Alfred desapareceu, deixando Lou sozinho com Ruth. A m ágoa no rosto da esposa era com o um punhal atravessando o coração de Lou. Se pudesse escolher, preferiria lidar com a raiva.
— Ruth — disse ele. — Passei a noite inteira procurando por você.
— Estou vendo que a pessoa responsável por planej ar a festa, Alison, veio se j untar a nós — disse ela, com a voz trêm ula enquanto tentava perm anecer forte.
Lou olhou por cim a do om bro e viu Alison, com seu vestido curto e pernas longas, dançando sensualm ente no m eio do salão com o Papai Noel.
Ruth olhou para o m arido, esperando por um a explicação.
— Não fiz isso — disse ele, sentindo o espírito de luta o abandonar, não querendo m ais ser aquele hom em . — Juro por tudo o que é m ais sagrado, não fiz. Ela tentou esta noite, e eu recusei.
Ruth soltou um riso am argo.
— Ah, aposto que ela tentou!
— Juro que não fiz nada.
— Nada? Nunca? Ela estudou o rosto de Lou intensam ente, odiando a si m esm a; estava constrangida e furiosa por ter de perguntar.
Ele engoliu em seco. Não queria perdê-la, m as não queria m entir.
— Um beij o. Um a vez, apenas isso. Nada m ais. — Ele falava m ais rápido, entrando em pânico. — Mas eu sou diferente agora, Ruth. Eu sou...
Ela não escutou o resto da frase. Virou-lhe as costas, tentando esconder o rosto e as lágrim as. Ela abriu a porta que levava ao terraço e o ar frio atingiu Lou. O terraço estava vazio. Os fum antes haviam entrado e estavam com endo todas as m initortas que podiam para aplacar a fom e.
— Ruth! — ele tentou agarrar seu braço e puxá-la de volta para dentro do salão.
— Lou, não toque em m im . Eu j uro por Deus, não estou com a m ínim a vontade de falar com você agora — disse ela, irritada.
Ele a seguiu para o terraço e eles se afastaram das j anelas para que ninguém dentro do salão pudesse vê-los. Ruth apoiou o corpo contra a m ureta e olhou para a cidade. Lou se aproxim ou por trás dela, abraçando-a firm em ente e recusando-se a soltá-la, apesar de sentir que o corpo da esposa ficou rígido assim que ele a tocou.
— Me aj ude a consertar isso — ele sussurrou, quase chorando.
Ela suspirou, m as sua raiva ainda fervilhava.
— Lou, que diabos você estava pensando? Quantas vezes nós lhe dissem os o quanto esta noite era im portante?
— Eu sei, eu sei — gaguej ou ele, pensando rápido. — Eu estava tentando provar a todos vocês que eu podia...
— Não se atreva a m entir para m im outra vez — ela o interrom peu. — Não se atreva a m entir para m im logo depois de pedir a m inha aj uda. Você não estava tentando provar nada. Estava farto dos telefonem as de Marcia, farto da insistência dela em tentar fazer a coisa certa para o seu pai, estava ocupado dem ais para...
— Por favor, não preciso ouvir isso neste m om ento — gem eu ele, com o se cada palavra lhe causasse um a nova enxaqueca.
— Isso é exatam ente o que você precisa ouvir. Você estava ocupado dem ais com o seu trabalho para se im portar com o seu pai ou com os planos de Marcia. Você m andou que um a estranha, alguém que não conhece nada sobre os setenta anos que seu pai passou neste m undo, planej asse tudo isso para você. Ela? — Ruth apontou para Alison, dentro do salão, com o corpo curvado para trás enquanto tentava passar por baixo da fonte de fondue de chocolate, revelando a lingerie de renda verm elha para todos que estivessem olhando. — Um a vagabunda que você provavelm ente estava fodendo enquanto ditava a lista de convidados — ela disse, dura.
Lou achou m elhor não dizer a Ruth que Alison era um a profissional qualificada com um diplom a em adm inistração de em presas e, se desconsiderasse a organização da festa, era um a funcionária com petente. Não seria apropriado defender a honra de Alison. Mesm o porque o com portam ento dela no escritório e na festa de seu pai não aj udavam m uito a defender sua honra.
— Isso não aconteceu, eu j uro. Eu sei que estraguei tudo. Me desculpe. — Ele j á estava bem acostum ado a dizer aquelas palavras.
— E tudo isso para quê? Para conseguir um a prom oção? Um aum ento no salário, algo de que você nem precisa? Mais horas de trabalho no dia, algo hum anam ente im possível de cum prir? Quando você vai parar? Quando será o bastante? Até onde você quer subir, Lou? Sabe de um a coisa? Na sem ana passada, você disse que som ente um a em presa é capaz de dem iti-lo, m as um a fam ília não podia fazer isso. Mas eu acho que você está percebendo que sua fam ília pode, sim , dem iti-lo.
— Ruth... — Ele fechou os olhos, pronto para se j ogar do terraço naquele exato m om ento se ela decidisse abandoná-lo. — Por favor, não m e abandone.
— Não sou eu, Lou — disse ela. — Estou falando deles.
Ele se virou e viu sua fam ília dançando, em fila, levantando as pernas e chutando o ar após alguns passos. — Vou participar da regata com Quentin am anhã. No barco. — Ele olhou para Ruth em busca de um elogio.
— Achei que Gabe fosse fazer isso — com entou Ruth, confusa. — Gabe se ofereceu para com pletar a tripulação de Quentin aqui m esm o, bem na m inha frente. Quentin disse que sim .
A raiva cresceu enquanto o sangue de Lou fervia.
— Não, eu vou fazer isso. — Iria se certificar daquilo.
— Ah, é m esm o? E isso vai ser antes ou depois de patinar no gelo com igo e com as crianças? — perguntou ela, antes de lhe dar as costas e deixá-lo sozinho no terraço.
Lou am aldiçoou a si m esm o por esquecer a prom essa que fizera a Lucy.
Quando Ruth abriu a porta que levava ao salão, a m úsica ficou m ais alta e o ar frio correu para dentro. Em seguida, a porta se fechou outra vez, m as ele sentiu um a presença às suas costas. Ela não tinha entrado. Não o tinha abandonado.
— Me desculpe por tudo o que fiz, desde sem pre. Quero consertar as coisas — disse ele, exausto. — Estou cansado. Quero consertar tudo. Quero que todos saibam que eu lam ento. Farei qualquer coisa para que eles saibam disso e acreditem em m im . Por favor, m e aj ude a consertar as coisas — repetiu ele.
Se Lou tivesse se virado, veria que sua esposa realm ente o deixara sozinho; que ela correra para um lugar tranquilo para, m ais um a vez, derram ar lágrim as de frustração pelo hom em , que, há poucas horas, em seu quarto, a convencera de que estava m udado. Não; foi Gabe quem se aproxim ou quando Ruth saiu em disparada, e foi Gabe quem ouviu as confissões de Lou no terraço.
Gabe sabia que Lou Suffern estava exausto. Lou passara tantos anos m ovendo-se tão rápido pelos m inutos, pelas horas, pelos dias, pelos m om entos da vida, que parou de percebê-la. Os olhares, gestos e em oções das outras pessoas, há m uito tem po j á não eram im portantes ou visíveis para ele. A paixão era o que o im pulsionava, a princípio; posteriorm ente, enquanto trilhava o cam inho até onde queria chegar, acabou por deixá-la para trás tam bém . Andava rápido dem ais, nunca parava para tom ar fôlego; seu ritm o era veloz, e seu coração m al era capaz de acom panhá-lo.
Quando Lou inspirou o ar frio de dezem bro e ergueu o rosto para o céu para sentir — e apreciar — as gotas geladas de chuva que caíam na sua pele, ele soube que sua alm a estava vindo buscá-lo.
Podia senti-la.