O Presente
A manhã seguinte
Às cinco horas e cinquenta e nove, Lou acordou. A noite anterior tinha sido exatam ente com o ele previra; quando foi para a cam a, Ruth tinha virado as costas para ele e se enrolara com o lençol, o que a deixava tão acessível quanto o recheio de um a panqueca. A m ensagem era clara e explícita.
Lou não conseguiu encontrar forças para consolá-la, para atravessar a linha que os separava na cam a e na vida. Nem m esm o quando eram estudantes sem dinheiro e m oravam nos piores quartos que ela j á tinha visto na vida, com aquecim ento inconstante e banheiro com partilhado com dezenas de outras pessoas, as coisas eram assim . Já tinham dorm ido num a cam a de solteiro num quarto m inúsculo, um lugar tão pequeno em que m al podiam respirar, m as não se im portavam . Na verdade, adoravam estar perto um do outro. Agora, tinham um a cam a king size, tão grande que, m esm o deitados lado a lado, seus dedos m al se tocavam quando se espreguiçavam . Um espaço grande e cheio de partes frias inalcançáveis, im possíveis de ser aquecidas.
Lou lem brou-se do início, quando ele e Ruth se conheceram — dois j ovens de 19 anos, bêbados e im prudentes, celebrando o final dos exam es do prim eiro ano da faculdade na época do Natal. Com algum as sem anas de férias que teriam pela frente e sem qualquer preocupação im ediata com as notas, eles se conheceram na noite do show de com édia do International Bar, na rua Wicklow. Depois daquela noite, Lou pensou nela todos os dias, enquanto passava as férias na casa de seus pais. A cada fatia de peru assado, a cada em balagem de doce que abria, a cada briga de fam ília durante as partidas de Banco Im obiliário, ela ocupava seus pensam entos. Por causa dela, chegou até m esm o a perder a aposta de “contar o recheio” que fazia com os irm ãos Marcia e Quentin. Lou olhava para o teto e sorria, lem brando-se de com o, a cada ano, ele e seus irm ãos — com chapéus de papel e línguas penduradas para fora — contavam cada m igalha de recheio que sobrava em seus pratos, um bom tem po depois de seus pais deixarem a m esa. Todos os anos, Marcia e Quentin se uniam para derrotá-lo, m as não conseguiam , e sua dedicação — que, de acordo com alguns, seria quase um a obsessão — não podia ser igualada. Mas ele foi alcançado e ultrapassado naquele ano por Quentin; o telefone tocou e era Ruth, o que selou a derrota de Lou. Brincadeiras do tem po de criança foram deixadas para trás. Ou, pelo m enos em teoria, era isso que deveria acontecer quando ele se tornasse um hom em . Talvez ainda não tivesse se tornado um .
O rapaz de 19 anos daquele Natal invej aria o m om ento presente de Lou. Teria agarrado com as duas m ãos a oportunidade de ter Ruth ao seu lado num a bela cam a, num a bela casa, com dois filhos lindos dorm indo bem ao lado. Voltou a olhar para Ruth na cam a. Ela estava deitada de costas, com a boca levem ente entreaberta, os cabelos com o um fardo de feno sobre o travesseiro. Lou sorriu.
Ela se saíra m elhor do que ele nos exam es finais daquele ano, o que não era m uito difícil, m as repetiu os resultados nos três anos seguintes. Ela tinha um talento natural para os estudos; ele, por outro lado, precisava passar várias noites em claro para conseguir as notas m ínim as exigidas pelos professores. Não sabia com o ela conseguia encontrar tem po para pensar ou m esm o para estudar, pois sem pre estava m uito ocupada, decidindo quais seriam as próxim as aventuras dos dois pela cidade. Toda sem ana, os dois entravam em festas para as quais não tinham sido convidados, eram expulsos delas, dorm iam em escadas de incêndio; m esm o assim , Ruth conseguia chegar na faculdade antes do início da prim eira aula com todos os trabalhos prontos. Conseguia fazer tudo de um a vez. Ela sem pre tom ava a dianteira, ficava entediada quando não tinha nada para fazer. Precisava de aventuras, precisava de situações inusitadas e de qualquer coisa fora do norm al. Lou era o corpo e Ruth era a alm a de todas as festas e de todos os dias.
Sem pre que era reprovado num a m atéria e forçado a cursá-la novam ente, ela estava a seu lado, escrevendo textos para que ele pudesse aprender. Ela passava as férias de verão transform ando o conteúdo das aulas em j ogos de perguntas e respostas, com o os da televisão, com prêm ios e cam painhas, com perguntas que exigiam respostas rápidas e previam castigos. Vestia-se com elegância, assum indo o papel de apresentadora do gam e-show, assistente e m odelo, exibindo todos os prêm ios que Lou poderia receber se respondesse às perguntas corretam ente. Preparava cartões de respostas, escrevia as perguntas, incluía m úsicas cafonas e aplausos gravados em todas as ocasiões. Sair para com prar com ida era um j ogo, no qual ela controlava a lista de guloseim as com o se fosse a apresentadora do program a. Para ganhar um pacote de pipoca, responda a esta pergunta.
— Passo — dizia ele, tentando pegar o pacote assim m esm o.
— Nada de passar a pergunta, Lou. Você sabe a resposta — dizia ela, com firm eza, postando-se diante das prateleiras.
Ele nem sem pre sabia a resposta, m as ela fazia com que ele soubesse. De algum m odo, ela o pressionava até que alcançasse um a parte do seu cérebro, cuj a existência ignorava, e encontrasse a resposta que nem sabia que sabia. Pouco antes de fazerem am or, ela se afastava dele.
— Responda a esta agora.
Apesar dos protestos e de se engalfinhar com ela para conseguir o que queria, ela resistia.
— Vam os lá, Lou. Você sabe a resposta.
Se não soubesse, acabava descobrindo.
Eles planej avam ir à Austrália depois de concluírem a universidade. Um ano de aventuras longe da Irlanda antes que a vida com eçasse. Determ inados a fazer sucesso e seguir alguns am igos que j á haviam partido para lá, os dois passaram o ano inteiro econom izando para a viagem ; Lou trabalhava atrás de um balcão de bar na região de Tem ple Bar e Ruth servia as m esas. Econom izaram j untos para o sonho, m as Lou foi reprovado nas provas finais. Lou teria desistido de tudo e feito as m alas naquele m om ento, m as ela o fez m udar de ideia e o convenceu de que ele seria aprovado. Assim , enquanto ele voltou a estudar nos prim eiros m eses daquele ano, Ruth celebrou sua graduação, recebendo seu diplom a com m éritos num a cerim ônia de form atura à qual Lou não teve coragem de com parecer. Ele apareceu som ente na festa, bebeu dem ais e estragou a noite de Ruth. Era o m ínim o que poderia fazer por ela.
No ano seguinte, enquanto esperava que Lou se form asse, Ruth concluiu um a pós-graduação em adm inistração de em presas. Apenas para poder se ocupar. Nunca esfregou a pós na cara dele, nunca fez com que ele se sentisse um fracassado, nunca celebrou qualquer de suas conquistas para que ele não se sentisse dim inuído. Ela era sem pre a am iga, a nam orada, a alm a de todas as festas, a aluna nota dez, aquela que conseguia realizar tudo a que se propunha.
Quando foi que ele com eçou a se ressentir? Já naquele tem po? Ele não sabia se acontecera porque ele nunca se sentira bom o suficiente, se era um a form a de puni-la ou se não tinha um m otivo, e era sim plesm ente fraco e egoísta dem ais para dizer “não” quando um a m ulher atraente olhasse em sua direção — ou m esm o quando tocavam em seu bolso, seu casaco e, em seguida, em sua m ão. Porque, quando isso acontecia, ele perdia qualquer noção a respeito de si m esm o. Sabia diferenciar o certo do errado, é claro, m as, nessas ocasiões, não chegava realm ente a se im portar. Ele era invencível e não haveria consequências ou repercussões.
Ruth o tinha flagrado com a babá havia seis m eses. Foram apenas alguns encontros com ela, m as Lou sabia que, se houvesse diferentes graus de seriedade em ter casos extraconj ugais, fazer sexo com a babá estava entre os piores. Lou não se envolvera com m ais ninguém desde então, apenas os beij os em Alison, m as isso tinha sido um erro. Se houvesse diferentes graus de j ustificativas aceitáveis por ter casos extraconj ugais, e com certeza esses graus existiam para Lou, então a que ele usou estaria entre as m elhores. Ele estava bêbado, ela era atraente, e o beij o realm ente aconteceu, m as ele se arrependeu profundam ente. Não contava.
— Lou — esbravej ou Ruth, invadindo seus pensam entos e assustando-o.
Ele olhou para ela.
— Bom dia — disse, com um sorriso. — Você nunca vai adivinhar no que eu estava pensan...
— Não está ouvindo o relógio? — ela o interrom peu. — Você está acordado, olhando para o teto.
— O quê? — Ele virou para a esquerda e percebeu que o relógio m arcava seis horas. — Oh, desculpe. — Ele se inclinou na direção do despertador e o desligou.
Estava claro que Lou fizera algo errado, porque o rosto de Ruth assum iu um a forte coloração verm elha e ela saltou da cam a com o se houvesse sido lançada por um a catapulta; depois, correu para fora do quarto, com o cabelo desgrenhado apontando para todos os lados com o se ela tivesse enfiado os dedos num a tom ada. Foi som ente naquele m om ento que ele ouviu o choro de Pud.
— Merda — disse ele, esfregando os olhos, cansado.
— Você disse um a palavra feia — disse um a voz de criança parada na porta.
— Bom dia, Lucy — ele sorriu.
A figura de Lucy apareceu, um a garotinha de 5 anos vestindo um pij am a cor-de-rosa, de franj a e com os cabelos cor de chocolate em baraçados após a noite de sono. Seus enorm es olhos castanhos eram o retrato da preocupação. Ela ficou ao lado da cam a, e Lou esperou até ela dizer algum a coisa.
— Você vai lá hoj e à noite, não vai, papai?
— O que vai acontecer hoj e à noite?
— A peça de teatro da m inha escola.
— Ah, sim , querida. Você não quer que eu vá ver a sua peça, não é?
Ela fez que sim com a cabeça.
— Mas por quê? — disse ele, esfregando os olhos e sentindo-se cansado. — Você sabe que o papai é m uito ocupado. É m uito difícil conseguir ir até lá.
— Mas eu ensaiei bastante.
— Por que não m e m ostra agora, então? Assim não precisarei ir vê-la esta noite.
— Mas não estou vestindo a m inha fantasia agora.
— Não tem problem a. Eu usarei a m inha im aginação. A m am ãe sem pre diz que é bom fazer isso, não é? — Ele observava a porta discretam ente para ter certeza de que Ruth não os estava ouvindo. — E você pode fazer isso para m im enquanto eu m e visto. Que tal?
Ele se livrou das cobertas e, enquanto Lucy com eçava a saltitar de um lado para o outro, Lou correu pelo quarto, vestindo seus shorts e um a cam iseta para ir se exercitar.
— Papai, você não está olhando!
— Estou sim , querida. Desça com igo até a sala de exercícios. Tem os vários espelhos lá para que você possa ensaiar. Vai ser divertido, não é?
Ao subir na esteira elétrica, Lou ligou o televisor de plasm a e com eçou a assistir ao Sky News.
— Papai, você não está olhando!
— Estou sim , querida — disse ele, olhando rapidam ente na direção de Lucy. — Qual é o seu personagem ?
— Um a folha. Um vento sopra durante o dia e eu caio da árvore, e tenho que fazer assim . — Ela rodopiou pela sala de exercícios outra vez, e Lou olhou novam ente para a TV.
— O que um a folha tem a ver com Jesus?
— O cantor? — ela parou de girar e se apoiou contra a bancada dos pesos, um pouco tonta.
Lou franziu a testa.
— Não, não é o cantor. Sobre o que é a apresentação?
Ela respirou fundo e falou com o se tivesse m em orizado toda a história.
— Os três reis m agos têm de encontrar um a estrela.
— Eles têm de seguir um a estrela — corrigiu Lou.
— Não, eles encontram um a estrela. São os j uízes no program a Encontre um a Estrela. Pôncio Pilatos canta e todos vaiam . Depois, Judas canta e todos vaiam . Até que Jesus canta e ganha o concurso porque ele tem o X-factor.
— Jesus Cristo — disse Lou, revirando os olhos.
— Sim , a peça se cham a Jesus Cristo Superstar — disse ela, dançando novam ente.
— E por que você vai fazer o papel de folha?
Ela deu de om bros e Lou não conseguiu conter o riso.
— Você vai à escola para m e ver? Por favooooor?
— Sim — disse ele, enxugando o rosto com um a toalha.
— Prom ete?
— Claro — disse ele, com um tom indiferente. — Certo, vá com a sua m ãe agora. Preciso tom ar um banho.
Vinte m inutos m ais tarde, com a m ente j á no ritm o do trabalho, Lou foi até a cozinha para se despedir rapidam ente. Pud estava em sua cadeira, esfregando um pouco de papa de banana nos cabelos; Lucy estava sugando um a colher e assistindo a um desenho anim ado, com a televisão no volum e m áxim o; e Ruth estava de cam isola preparando a lancheira de Lucy. Parecia exausta.
— Tchau — disse ele, dando um beij o na cabeça da filha. Ela não se m oveu; estava entretida dem ais com o desenho anim ado. Aproxim ou-se de Pud, tentando encontrar um lugar em seu rosto que não estivesse todo lam buzado. — Ah... tchau — disse ele, acariciando-o levem ente no alto da cabeça. Deu a volta ao redor dele para ir até Ruth.
— Quer m e encontrar lá às seis horas ou prefere vir para casa para irm os j untos?
— Para onde?
— À escola.
— Ah. Por falar nisso... — Ele baixou a voz.
— Você tem que ir. Você prom eteu — disse ela, parando de passar m anteiga no pão para olhá-lo com um a expressão de raiva instantânea.
— Lucy m e m ostrou sua dança na sala de ginástica e nós conversam os; ela não se im porta que eu não vá vê-la. — Ele pegou um a fatia de presunto. — Você sabe por que diabos ela será um a folha na peça de Natal?
Ruth riu.
— Lou, eu sei que você está brincando com igo. Eu disse para você m arcar a data de hoj e em sua agenda no m ês passado. Tam bém falei sobre a peça na sem ana passada, e liguei para aquela m ulher do seu escritório, Tracey...
— Ah, então eu j á sei o que aconteceu — disse ele, estalando os dedos com um olhar irritado. — Foi um m al-entendido. Tracey não trabalha m ais lá. Alison a substituiu. Deve ter havido algum conflito de inform ação durante a m udança. — Lou tentou dizer aquilo sem dem onstrar preocupação, m as a expressão feliz de Ruth estava lentam ente se dissolvendo em m eio à decepção, ao ódio e ao desprezo que sentia, todos direcionados a ele.
— Eu lhe falei a respeito duas vezes na sem ana passada. Mencionei outra vez ontem de m anhã, com o se eu fosse um m aldito papagaio, e m esm o assim você não se lem bra. A peça de teatro na escola e depois o j antar com sua m ãe, seu pai, Alexandra e Quentin. E talvez Marcia venha tam bém , se conseguir reagendar e sessão de terapia.
— Não, ela não deveria perder um a de suas sessões — disse Lou, revirando os olhos. — Ruth, por favor. Eu prefiro enfiar agulhas nos olhos a j antar com eles.
— Eles são a sua fam ília, Lou.
— Quentin só sabe falar sobre barcos. Barcos, barcos e m alditos barcos. É im possível para ele pensar em qualquer conversa que não envolva as palavras “m astro” e “am arras”.
— Você adorava velej ar com Quentin.
— Eu adorava velej ar. Não necessariam ente com Quentin, e isso foi há m uitos anos. Eu nem sei m ais diferenciar um m astro de um a am arra hoj e em dia — disse ele, suspirando. — Marcia... não é de terapia que ela precisa e sim de um bom chute no traseiro. Não há nada de errado com Alexandra... — Ele deixou a frase m orrer no ar, perdido em pensam entos.
— O barco ou a esposa de seu irm ão? — perguntou Ruth, ironicam ente, observando-o com atenção.
Lou não a ouviu ou sim plesm ente ignorou a pergunta.
— Não sei o que ela vê em Quentin. Nunca consegui descobrir. Ela m erecia algo m elhor.
— Merecia você, por acaso? — atacou Ruth.
— Ela é um a m odelo, Ruth.
— E daí?
— A única coisa que Quentin tem em com um com um a m odelo é o fato de colecionar m odelos de barcos em m iniatura — riu, e depois prosseguiu, deixando a irritação tom ar conta de si. — Meus pais virão j antar tam bém ? — perguntou. — Não pode ser.
— Assim fica difícil — disse ela, continuando a preparar o lanche. — Lucy espera que você vá ao teatro, seus pais estão em polgados e eu preciso de você aqui. Não posso cuidar do j antar e ser a anfitriã sozinha.
— Minha m ãe irá aj udá-la.
— Sua m ãe acabou de passar por um a cirurgia no quadril. — Ruth se esforçou para não gritar.
— E você acha que eu não sei? Eu fui buscá-la no hospital e acabei tendo problem as por causa disso, com o eu disse que aconteceria — resm ungou ele. — Enquanto Quentin estava passeando em seu barco.
— Ele estava com petindo, Lou! — ela deixou a faca cair e virou-se em sua direção, suavizando o tom de voz. — Por favor. — Ela o beij ou com carinho nos lábios e Lou fechou os olhos, entregando-se àquele m om ento raro.
— Mas eu tenho m uitas coisas a fazer no trabalho — ele falou em m eio ao beij o. — É im portante para m im .
Ruth se afastou.
— Bem , fico feliz em saber que há coisas que são im portantes para você, Lou, porque, por um m om ento, quase cheguei a pensar que você não era hum ano. — Ela ficou em silêncio enquanto espalhava a m anteiga pressionando a faca com tanta força contra o pão escuro que chegou a fazer buracos nele. Jogou duas fatias de presunto com força, cobriu-as com um a fatia de queij o e am assou o sanduíche contra o balcão, cortando-o diagonalm ente com um a faca afiada. Ela andou pela cozinha batendo as tam pas das panelas com força e arrancando o papel-alum ínio das em balagens de com ida.
— Ei, o que está acontecendo?
— O que está acontecendo? Não estam os nesta vida som ente para trabalhar. Estam os nela para viver. Tem os que com eçar a fazer coisas j untos, e isso significa que você tem de fazer algum as coisas por m im m esm o quando não quer e vice-versa. Se não for assim , qual o sentido?
— O que você quer dizer com “vice-versa”? Quando foi que eu a obriguei a fazer algum a coisa que você não quisesse?
— Lou — ela disse entre os dentes. — Essas pessoas são a sua m aldita fam ília, não a m inha.
— Então cancele tudo! Eu não m e im porto.
— Você tem responsabilidades para com a sua fam ília.
— Mas tenho m ais responsabilidades para com o m eu trabalho. A fam ília não pode m e dem itir se eu não com parecer a um j antar, não é?
— Eles podem fazer isso sim , Lou — disse ela, baixando o tom . — Eles só não cham am o ato de “dem itir”.
— Isso é um a am eaça? — perguntou ele, baixando a voz para um tom m ais irritadiço. — Você não pode fazer esse tipo de com entário com igo, Ruth. Não é j usto.
Ela abriu um a lancheira da Barbie, bateu-a com força contra o balcão, enfiou o sanduíche e um as rodelas de abacaxi em potes de plástico, pôs tudo dentro da lancheira, com um guardanapo da Barbie por cim a, e fechou a tam pa com força. Apesar de estar sendo j ogada de um lado para outro, Barbie nem pestanej ou.
Ruth olhou para ele sem dizer nada, deixando que o olhar falasse em seu lugar.
— Tudo bem , tudo bem , farei tudo que puder para estar aqui — disse Lou sem a m enor sinceridade, querendo ao m esm o tem po deixá-la feliz e sair de casa. Quando ela o encarou outra vez, ele m odificou a frase para deixá-la m ais clara. — Estarei aqui.
Lou chegou ao escritório às oito horas da m anhã. Um a hora antes que os outros com eçassem a chegar, pois era im portante para ele ser o prim eiro. Fazia com que se sentisse eficiente, à frente dos outros. Andando de um lado para outro dentro do espaço vazio e confinado do elevador e desej ando que as coisas fossem assim todos os dias, ele com em orava por não ter que parar em nenhum outro andar antes de chegar ao décim o quarto. Saiu do elevador no corredor vazio. Sentia o cheiro dos produtos usados pela equipe de lim peza na noite anterior. O arom a do xam pu para carpetes, do lustra-m óveis e dos perfum adores de am biente ainda pairava no ar; ainda não fora contam inado pelo cheiro do café e dos odores corporais. Do lado de fora das j anelas resplandecentes, o céu ainda estava negro no início daquela m anhã de inverno e as vidraças pareciam duras e frias. O vento soprava em raj adas fortes e Lou estava ansioso para sair daqueles corredores vazios e m isteriosos, chegar logo à sua sala e iniciar a rotina da m anhã.
De repente, ele interrom peu o passo. Percebeu que, com o de costum e, naquele horário, a m esa de Alison estava vazia, m as a porta de sua sala estava entreaberta e as luzes estavam acesas. Cam inhou rapidam ente em direção à porta e seu coração disparou com raiva quando, por entre a porta aberta, viu Gabe andando pela sala. Ele gritou e em purrou a porta com um soco, observando-a abrir violentam ente. Abriu a boca para gritar outra vez, m as, antes que pudesse dizer qualquer palavra, ouviu um a voz vindo de trás da porta.
— Meu Deus, o que foi isso? — disse a voz assustada de seu chefe.
— Oh, Sr. Patterson. Me desculpe — disse Lou, sem fôlego, im pedindo que a porta batesse contra o seu rosto. — Não percebi que o senhor estava aqui. — Ele esfregou a m ão, o punho ainda ardendo e com eçando a latej ar após socar a porta.
— Lou — disse o hom em , recuperando o fôlego depois de se afastar da porta com um salto. — Me cham e de Laurence, pelo am or de Deus, eu vivo lhe dizendo isso. Você está cheio de... energia hoj e, não é? — ele tentava se reorientar após o choque.
— Bom dia, senhor — Lou olhava para o Sr. Patterson e, depois, para Gabe, incerto. — Me desculpe por assustá-lo. Pensei apenas que poderia haver alguém aqui que não deveria estar aqui — disse ele com os olhos pousados em Gabe.
— Bom dia, Lou — disse Gabe educadam ente.
— Gabe — Lou o cum prim entou com um m eneio de cabeça, reconhecendo a sua presença e desej ando, naquele m om ento exato, um a explicação para o fato de Gabe e seu chefe estarem na sua sala às oito horas da m anhã.
Ele olhou para o carrinho de correspondência de Gabe, que estava vazio, e depois para as pastas desconhecidas que estavam sobre sua m esa. Tentou recordar a noite anterior, repassar os m om entos em que term inara de preencher e arquivar a sua papelada, com o sem pre, incapaz de sair de sua m esa sem que todo o trabalho estivesse concluído. Sabendo que nem ele nem Alison, que term inou o expediente às quatro horas, tinham deixado as pastas ali, Lou estreitou os olhos na direção de Gabe, desconfiado.
Gabe o encarou de volta sem pestanej ar.
— Eu estava conversando com esse rapaz, Gabe — explicou o Sr. Patterson. — Ele m e disse que com eçou a trabalhar aqui ontem . Não é ótim o ver que ele é o prim eiro a chegar à em presa? Isso m ostra o quanto ele se dedica ao trabalho.
— O prim eiro a chegar? É m esm o? — disse Lou, forçando um sorriso. — Uau. Parece que você ganhou de m im hoj e, porque geralm ente eu sou o prim eiro a chegar. — Lou se virou para o Sr. Patterson e abriu o seu enorm e sorriso de porcelana. — Mas você j á sabia disso, não é, Gabe?
Gabe retribuiu o sorriso com a m esm a sinceridade.
— Você sabe o que dizem por aí. Deus aj uda quem cedo m adruga.
— Sim , é verdade. Aj uda m uito. — Lou o encarou com um sorriso, m ostrando os dentes. Um olhar feroz e um sorriso. Os dois ao m esm o tem po.
O Sr. Patterson observou a troca de olhares com um a apreensão crescente.
— Bem , j á passa das oito. É m elhor eu ir.
— Já passa das oito, você diz. É engraçado — Lou se em pertigou. — A correspondência ainda nem chegou. O que é que... o que exatam ente você estava fazendo na m inha sala, Gabe? — a voz de Lou tinha um a agressividade facilm ente reconhecível, o Sr. Patterson tinha um a expressão de desconforto no rosto e Gabe abria um sorriso peculiar.
— Bem , eu vim até aqui para m e fam iliarizar com o prédio. Há m uitos andares que eu preciso percorrer num espaço curto de tem po. Assim , eu queria saber quais eram as pessoas que ficavam em cada lugar.
— Não é m aravilhoso? — disse o Sr. Patterson, quebrando o silêncio.
— Sim , m as você j á sabia onde fica m inha sala — disse Lou, com a voz estrangulada pela raiva. — Você se fam iliarizou com este lugar ontem ... por isso, posso perguntar por que você estava aqui?
— Ora, ora, Lou, receio que eu deva intervir — disse o Sr. Patterson, constrangido. — Encontrei Gabe no corredor e nós com eçam os a conversar. Pedi que ele m e fizesse o favor de trazer algum as pastas para o seu escritório. Ele as estava colocando na sua m esa quando eu percebi que havia deixado um a dentro da m inha m aleta. Mas ele se m ove m uito rapidam ente. Assim que m e virei, ele j á havia desaparecido. Puff! Exatam ente assim ! — riu o Sr. Patterson.
— Puff! — Gabe sorriu para Lou. — É exatam ente assim que eu sou.
— Devo dizer que gosto de gente que trabalha rápido, m as o m elhor é que sej am eficientes. E, com certeza, você tem as duas qualidades.
Lou quase disse “obrigado”, m as Gabe se adiantou.
— Obrigado, Sr. Patterson, e, se houver qualquer outra coisa que o senhor queira que eu faça, é só dizer. Term ino m eu expediente na hora do alm oço e ficaria m uito feliz em aj udar com outras coisas pelo resto da tarde. Tenho m uita vontade de trabalhar.
Lou sentiu um nó no estôm ago.
— Isso é ótim o, Gabe, obrigado. Vou m e lem brar disso. Certo, Lou?
O Sr. Patterson se virou para encará-lo e Lou esperava que, com o não fazia m ais parte da conversa, Gabe se retirasse. Mas ele não saiu.
— Gostaria de saber se você poderia se encontrar com Bruce Archer hoj e à noite. Creio que se lem bra dele.
Lou confirm ou com um aceno de cabeça, sentindo o coração afundar no peito.
— Eu ia m e encontrar com ele, m as esta m anhã m e lem braram de que tenho outro com prom isso.
— Hoj e à noite? — perguntou Lou, com a m ente funcionando em alta velocidade.
Enquanto pensava na oferta, ele visualizava Lucy rodopiando pela sala de exercícios em seu pij am a; depois, viu o rosto de Ruth quando ele abriu os olhos durante o beij o, tão bonita e serena quanto nos bons tem pos.
Lou percebeu que os dois hom ens o observavam . Em particular, os olhos de Gabe pareciam queim á-lo.
— Sim , esta noite. Apenas se você estiver livre. Posso pedir que Alfred vá encontrá-lo; portanto, não se preocupe — disse o Sr. Patterson, com um gesto de indiferença.
— Não, não — Lou reagiu rapidam ente. — Não há problem as. Posso encontrá-lo hoj e.
Em sua im aginação, Lucy caiu no chão, tonta de tanto girar, e Ruth abriu os olhos e se afastou daquele beij o, que selara a prom essa que ele fizera há m enos de um a hora.
— Ótim o, ótim o. Bem , Melissa pode lhe dar os detalhes, o horário, o local etc. Tenho um a bela noite pela frente — disse ele, piscando para Gabe. — Hoj e à noite o m eu netinho vai se apresentar na peça de teatro da sua escola para com em orar o Natal. Eu havia m e esquecido, m as hoj e ele veio correndo até os m eus braços, vestido com a fantasia de um a estrela. Consegue acreditar nisso? Eu não perderia esse evento por nada no m undo — disse o Sr. Patterson, sorrindo.
— Sim , claro — Lou sentiu um aperto na garganta. — Com certeza, é m uito im portante.
— Certo. Bem , divirta-se hoj e à noite, e parabéns por ter encontrado este rapaz — disse o Sr. Patterson, dando tapinhas am istosos nas costas de Gabe.
Enquanto Lou se virava para encarar Gabe com um olhar feroz, ouviu um a voz alegre atrás dele.
— Bom dia, Laurence.
— Ah, Alfred — disse o Sr. Patterson.
Alfred era um hom em alto, m ais de um m etro e oitenta de altura. Tinha cabelos louros bem claros, com o se fosse um enorm e garoto-propaganda dos chocolates Milky Bar, derretido e rem odelado pelas m ãos de um a criança. Sem pre falava com um sorriso torto no rosto e com o sotaque típico das pessoas educadas em escolas particulares da Inglaterra, apesar de passar as férias na Irlanda, sua terra natal. Seu nariz fora quebrado algum as vezes na época em que j ogava rúgbi, e ele andava pelo escritório arrastando os pés, com o Gabe observara no dia anterior, agitando as franj as dos seus m ocassins no ar, a m ão enfiada no bolso com o ar de alguém — um estudante indisciplinado — que estava aprontando algum a traquinagem .
Os olhos de Alfred pousaram em Gabe e, depois, o m ediram de cim a a baixo em silêncio, esperando ser apresentado. Gabe o im itou, confiante, exam inando Alfred da m esm a form a.
— Belos sapatos — disse Gabe, e Lou olhou para os m ocassins m arrons que Gabe descrevera no dia anterior.
— Obrigado — Alfred ficou um pouco desconcertado.
— Tam bém gostei dos seus sapatos, Sr. Patterson — com entou Gabe, olhando para ele.
Num m om ento quase constrangedor, todos os olhares se voltaram para os pés dos hom ens que estavam presentes. Algo inusitado para a m aioria deles, exceto para Lou, cuj o coração estava batendo rápido ao ver os sapatos pretos sem cordões e os m ocassins m arrons. Exatam ente os sapatos que Gabe descrevera a Lou na m anhã anterior. Quer dizer, então, que Alfred estava se encontrando com o Sr. Patterson. O olhar de Lou estava em Alfred e m oveu-se para o Sr. Patterson, sentindo um a pontada de traição. O cargo de Cliff não estava oficialm ente em disputa, m as, se estivesse, Lou estava decidido a ser a pessoa que o ocuparia.
O Sr. Patterson se despediu e saiu pelo corredor, balançando sua m aleta enquanto cam inhava.
— Quem é você? — perguntou Alfred a Gabe, trazendo Lou de volta à sala.
— Sou Gabriel — disse ele, estendendo a m ão. — Meus am igos m e cham am de Gabe, m as você pode m e cham ar de Gabriel — com pletou ele, sorrindo.
— Encantador. Alfred. — Alfred estendeu a m ão para cum prim entá-lo.
O aperto de m ão foi frio e frouxo, e as m ãos de am bos rapidam ente se afastaram . Alfred chegou a esfregá-la nas calças, um gesto que poderia ter sido inconsciente ou não.
— Eu o conheço? — Alfred estreitou os olhos.
— Não. Nunca chegam os a nos conhecer, m as talvez você m e reconheça.
— Por que diz isso? Participou de algum reality show ou coisa do tipo? — Alfred o estudou outra vez, com um sorriso torto, m as com m enos confiança dessa vez.
— Você passava por m im todos os dias, na frente deste prédio.
Alfred estreitou ainda m ais os olhos, observando Gabe, e olhou para Lou com um sorriso nervoso.
— Me aj ude a responder essa, cara.
— Eu costum ava ficar sentado sob a m arquise do prédio ao lado. Lou m e contratou.
O rosto de Alfred se abriu num sorriso, o alívio era óbvio em seu rosto arrogante. Sua atitude se transform ou, e ele se tornou o fanfarrão do colégio outra vez, sabendo que seu cargo não seria am eaçado por um m endigo.
Ele riu quando olhou para Lou, fazendo um a careta e falando com um tom de voz debochado, que não tentou disfarçar na presença de Gabe.
— Você o contratou, Lou? — disse ele, dando as costas para Gabe. — Bem , realm ente, esta é um a época do ano em que a alegria está no ar. Que diabos houve com você?
— Alfred, pare com isso — respondeu Lou, um pouco constrangido.
— Tudo bem — disse Alfred, erguendo as m ãos de m aneira defensiva enquanto ria consigo m esm o. — O estresse nos afeta de m aneiras diferentes, eu im agino. Ei, posso usar o seu banheiro?
— O quê? Não, não aqui, Alfred. Use o banheiro do corredor.
— Ah, pare com isso, não sej a bobo. — Sua língua parecia grande dem ais para caber na boca enquanto falava. — Só vai levar um segundo. Até m ais, Gabe. Vou tentar m irar m inhas m oedas para acertar no seu carrinho quando você passar por m im — disse Alfred, em tom de piada, olhando Gabe dos pés à cabeça outra vez. Ele abriu um sorriso torto e piscou para Lou antes de entrar no banheiro.
Da sala, Lou e Gabe conseguiram ouvir o barulho alto de um nariz sendo assoado.
— Parece que há um a epidem ia de resfriado nesta área — sorriu Gabe.
Lou revirou os olhos.
— Olhe, m e desculpe, Gabe. Ele... bem , você sabe. Não o leve a sério.
— Ah, não se deve levar ninguém a sério. Não se pode controlar nada além do que está dentro deste círculo. — Os braços de Gabe fizeram um m ovim ento ao redor do seu corpo. — Até conseguirm os isso, ninguém pode ser levado a sério. Ei, tenho um a coisa para você. — Ele se inclinou até a caixa inferior do carrinho e retirou um copo de isopor cheio de café. — Eu devo a você por ontem . É um latte, a m áquina voltou a funcionar.
— Ah, obrigado. — Lou se sentia pior agora, totalm ente confuso em relação aos seus sentim entos por aquele hom em .
— Bem , quer dizer que você vai j antar hoj e? — Gabe destravou o freio do carrinho e com eçou a em purrá-lo, um a das rodas rangendo enquanto ele o m ovia.
— Não, apenas um café. Não será um j antar. — Lou não sabia se Gabe queria ser convidado. — Não será nada de especial. Duvido que leve m ais de um a hora.
— Ah, vam os lá, Lou — sorriu Gabe, com ar m isterioso igual ao de Ruth. “Ah, vam os lá, Lou. Você sabe a resposta.” Mas não term inou a frase do m esm o j eito. — Você sabe que essas coisas sem pre se transform am num j antar — prosseguiu Gabe. — Depois algum as bebidas e, depois, outras coisas — ele piscou. — Você vai ficar encrencado em casa, não é, Aloy sius? — disse ele, cantarolando, com um a voz que arrepiou Lou até os ossos.
Gabe saiu do escritório e foi em direção ao elevador, a roda do carrinho rangendo alto pelo corredor vazio.
— Ei! — Lou o cham ou, m as Gabe não se virou. — Ei! — repetiu ele. — Com o você sabe disso? Ninguém m ais sabe!
Em bora estivesse sozinho no escritório, Lou olhou ao redor para se certificar que ninguém ouvira.
— Relaxe! Não vou contar a ninguém — respondeu Gabe, com um a voz que não serviu nem um pouco para deixar Lou m ais à vontade. Lou observou quando Gabe pressionou o botão para cham ar o elevador e colocou-se em frente à porta, enquanto o elevador com eçava sua ascensão desde o térreo.
A porta do banheiro se abriu e Alfred saiu coçando o nariz e fungando.
— Que gritaria é essa? Ei, onde você conseguiu esse café?
— Gabe — respondeu Lou, distraído.
— Quem ? Ah, o sem -teto — disse Alfred, sem qualquer interesse. — Francam ente, Lou. O que você tinha na cabeça? Ele pode acabar com você.
— Com o assim ? Acabar com igo?
— Sério, você nasceu ontem ? Você pega um hom em que não tem nada e o coloca em um lugar onde há tudo. Já ouviu falar de algo cham ado tentação? Ah, esqueça o que eu perguntei. É com você que eu estou falando — disse ele, piscando o olho. — Você cede à tentação o tem po inteiro. Talvez você e o m endigo não sej am tão diferentes — acrescentou ele. — Vocês até se parecem fisicam ente. Talvez possa cantar a m úsica “Feed the Birds” ou algo parecido, e nós verem os — riu, com um chiado no peito, resultado do hábito de fum ar quarenta cigarros por dia.
— Bem , isso realm ente dem onstra a m aneira com que você foi criado, Alfred. Sua única referência de um a pessoa sem -teto é um a canção de Mary Poppins — retrucou Lou.
O chiado no peito de Alfred se transform ou em um a tosse.
— Me desculpe, am igão. Ofendi você?
— Não som os parecidos em nada — disse de m aneira áspera Lou, voltando a olhar na direção dos elevadores onde Gabe estava.
Mas Gabe desaparecera. O elevador em itiu um sinal sonoro, as portas se abriram e revelaram que não havia ninguém lá dentro, e não havia ninguém para entrar. No reflexo do espelho que cobria o fundo do elevador, Lou percebeu a confusão estam pada em seu rosto.