O Presente
O telefonema para despertar
Lou acordou na m anhã seguinte sentindo-se com o se um pica-pau estivesse em poleirado em sua cabeça, m artelando com força e com grande insistência no topo do seu crânio. A dor se irradiou para o lobo frontal, passando pelas duas têm poras e chegando à base da cabeça. Lá fora, um a buzina tocou, algo ridículo àquela hora da m anhã, e um m otor estava ligado. Ele fechou os olhos outra vez e tentou desaparecer no universo do sono, m as as responsabilidades, o pica-pau e algo que parecia ser a porta da frente batendo não o deixavam desfrutar do refúgio seguro que encontrava seus sonhos m ais doces.
Sua boca estava tão seca que ele se apanhou pressionando as gengivas e m ovendo a língua lá dentro desesperadam ente para conseguir um a quantidade m ínim a de um idade, algo que lhe daria o alívio de não ter de se esforçar para vom itar. A saliva surgiu, e ele percebeu que estava naquele lugar horrível — entre a cam a e o vaso sanitário —, a sua tem peratura corporal subia, sua m ente estava desorientada e a um idade chegava à sua boca em golfadas. Ele chutou as cobertas, correu para o banheiro e caiu de j oelhos, vom itando aj oelhado aos pés da privada. Foi som ente quando não lhe restava nenhum a energia, ou quando não lhe sobrava m ais nada dentro do estôm ago, por assim dizer, que ele se sentou sobre os azulej os aquecidos, física e m entalm ente exausto, e percebeu que o sol brilhava no céu. Diferente da escuridão habitual do horário em que se levantava naquela época do ano, o céu estava tingido de um azul vívido. E foi então que o pânico tom ou conta de Lou, algo m uito pior do que a disparada entre a cam a e o banheiro há poucos m inutos, m uito parecido, talvez, com o pânico de um a criança ao perceber que chegará atrasada à escola.
Lou se levantou com dificuldade e voltou ao quarto, com o desej o de agarrar o despertador e estrangular as nove horas que brilhavam com força no m ostrador. Todos dorm iram além da hora. Deixaram passar a ligação do serviço de despertador. Mas não... Não era esse realm ente o caso, porque Ruth não estava na cam a, e foi som ente naquele m om ento que ele percebeu o cheiro de fritura subindo pelas escadas, quase com o se dançasse um cancan zom beteiro debaixo do seu nariz. Ouviu o tilintar de xícaras e pires. O balbuciar de um bebê. Sons típicos da m anhã. Sons longos e preguiçosos que ele não deveria estar ouvindo. Deveria ouvir os sons baixos da corrente elétrica que passava pelo aparelho de fax e pela m áquina de xerox, o ruído do elevador subindo e descendo em seu poço, que soltava um ruído agudo ocasionalm ente, com o se estivesse avisando que as pessoas dentro do elevador j á estavam cozidas. Deveria ouvir as unhas postiças de Alison no teclado. Deveria ouvir o rangido da roda do carrinho de correspondência de Gabe cam inhando pelo corredor...
Gabe.
Ele vestiu um roupão e desceu correndo as escadas, quase tropeçando nos sapatos e na m aleta que estavam no prim eiro degrau. Chegou esbaforido à cozinha. Lá estavam eles, os três suspeitos habituais: Ruth, sua m ãe e seu pai. Felizm ente, Gabe não estava por perto. Restos de ovo estavam presos à barba grisalha que cobria o queixo do seu pai, sua m ãe estava lendo o j ornal, e tanto ela quanto Ruth ainda vestiam suas cam isolas. Pud era o único que em itia algum som , cantarolava e balbuciava — as sobrancelhas subindo e descendo com tanta expressividade que até parecia que suas frases tinham algum significado. Lou observou a cena, m as na verdade não conseguiu assim ilar um único pixel dela.
— Que diabos aconteceu, Ruth? — disse ele em voz alta, fazendo com que todos os olhos se erguessem e se voltassem em sua direção.
— O que foi? — Ela o olhou com os olhos arregalados.
— São nove da m anhã. Nove horas da porra da m anhã.
— Pare com isso, Aloy sius — disse seu pai, irritado. Sua m ãe o olhou, escandalizada.
— Por que diabos você não m e acordou? — Ele se aproxim ou de Ruth.
— Lou, por que você está falando assim ? — Ruth franziu a testa, e depois se virou para dar atenção ao filho. — Vam os lá, Pud, m ais algum as colheradas, querido.
—Você está tentando fazer com que eu sej a despedido, não é? Por que diabos você não m e acordou?
— Bem , eu ia acordá-lo, m as Gabe disse que eu não deveria. Disse que seria bom deixar que você descansasse até as dez horas, que um repouso lhe faria bem , e eu concordei — disse ela, sem se exaltar, não se deixando afetar na presença dos pais de Lou.
— Gabe? — ele a encarou com o se fosse a coisa m ais ridícula do planeta. — GABE? — estava gritando agora.
— Lou — disse a m ãe, assustada. — Não se atreva a gritar assim .
— Gabe, o cara que entrega as cartas? O desgraçado que ENTREGA AS CARTAS? — ele ignorou sua m ãe. — Você deu ouvidos a ele? Gabe é um retardado!
— Lou! — repetiu sua m ãe. — Fred, faça algum a coisa. — Ela cutucou o m arido.
— Bem , aquele retardado — disse Ruth, esforçando-se para perm anecer calm a — trouxe você para casa ontem à noite, em vez de deixar que você se m atasse enquanto dirigia bêbado.
Com o se acabasse de recordar que Gabe o trouxera para casa, Lou saiu correndo e foi até a frente da casa. Deu a volta ao redor do carro, m achucando os pés na trilha de cascalhos, estava tão preocupado com o veículo que m al sentia as pedras pontiagudas perfurando sua pele. Exam inou o Porsche cuidadosam ente, deslizando os dedos pela superfície, para ter certeza de que não havia nenhum arranhão ou am assado. Percebendo que não havia nada de errado, ele se acalm ou um pouco, m as ainda não conseguia entender por que Ruth considerava a opinião de Gabe tão im portante. O que estava acontecendo no m undo? Era com o se todos estivessem com endo na m ão de Gabe.
Ele voltou para dentro de casa e seus pais o olharam de tal m aneira que, dessa vez, Lou não conseguiu pensar em nada para lhes dizer. Lou se esquivou deles e retornou à cozinha, onde Ruth ainda estava sentada à m esa, alim entando Pud.
— Ruthy... — Ele lim pou a garganta e tentou se desculpar, um a das j ustificativas típicas no estilo Lou, o tipo de pedido de desculpas que nunca envolvia a palavra “desculpe”. — O problem a é que Gabe está tentando roubar m eu em prego, entende? Você não percebeu isso, eu sei, m as é o que ele está fazendo. Então, quando ele saiu, belo e garboso, para ir ao trabalho esta m anhã...
— Ele saiu há cinco m inutos — Ruth o interrom peu, sem se virar, sem olhá-lo nos olhos. — Ficou num dos quartos de hóspedes porque eu não sabia se ele tinha um lugar onde dorm ir. Ele acordou e preparou o café para todos nós, e depois eu cham ei um táxi para que ele pudesse ir trabalhar. Ele saiu há cinco m inutos, e, portanto, tam bém está atrasado para o trabalho. Você pode pegar suas acusações e ir atrás dele; pode agir com o o valentão da escola quando encontrá-lo.
— Ruthy, eu...
— Você está certo, Lou, e eu estou errada. Você deixou claro, pelo com portam ento que exibiu agora há pouco, que está no controle da situação e que não está nem um pouco estressado — disse ela, irônica. — Eu agi com o um a idiota, pensando que você precisava de m ais um a hora de sono. — Ruth ergueu o bebê da cadeira e beij ou-o no rosto m anchado pela com ida. — Agora, Pud, vam os dar um banho em você — disse ela, sorrindo.
Pud bateu palm as e se derreteu com o geleia sob os beij os com sabor de fram boesa da sua m ãe. Ruth andou na direção de Lou com Pud em seus braços, e, por um m om ento, Lou se tranquilizou ao olhar para o filho, que exibia um sorriso tão grande que poderia ilum inar o m undo inteiro, m esm o que o sol perdesse seu brilho. Ele se preparou para receber Pud em seus braços, m as isso não ocorreu. Ruth passou por ele sem qualquer palavra, apertando Pud com força contra seu corpo enquanto ele ria todo anim ado, com o se os beij os que ela lhe dava fossem as coisas m ais engraçadas de toda sua curta vida. Lou sentiu a rej eição. Por cerca de cinco segundos. E, então, percebeu que eram cinco segundos do tem po que ele precisava para chegar ao trabalho. E com eçou a correr.
Em tem po recorde, e graças ao fato de o sargento O’Reilly não estar por perto quando Lou pisou no acelerador com força e disparou a cam inho do trabalho, ele chegou ao escritório às dez e quinze da m anhã. Ainda tinha alguns m inutos antes que a reunião term inasse, e, assim , cuspindo na m ão e alisando o cabelo, que não fora lavado, e deslizando a m ão pelo rosto, que não fora barbeado, ele afastou os efeitos da tontura que sua ressaca lhe trazia, respirou fundo e entrou na sala de reuniões da diretoria.
Houve um m urm úrio geral quando ele entrou. Não porque sua aparência estivesse tão ruim , m as por não estar perfeita. Ele sem pre estava perfeito. Sentou-se em frente a Alfred, que piscou com um a m istura de espanto e de êxtase absoluto ao perceber o aparente desarranj o em que seu am igo se encontrava.
— Me desculpem pelo atraso — Lou se dirigiu às doze pessoas de m aneira calm a, em bora não estivesse nem um pouco calm o. — Passei a noite em claro por causa de um a dor de barriga, m as j á estou bem , eu acho.
Os rostos assentiram , com preendendo a situação.
— Bruce Archer disse que teve a m esm a dor de barriga — disse Alfred, com um sorriso torto, e piscou para o Sr. Patterson.
O sangue de Lou com eçou a ferver. Achava que a qualquer m inuto um ruído sibilante sairia pelo seu nariz, um pouco antes de ele explodir. Passou a reunião inteira em silêncio, lutando contra refluxos e náuseas, enquanto a veia em sua testa pulsava com toda a força.
— E assim , rapazes, a noite de hoj e é m uito im portante. — O Sr. Patterson olhou para Lou, e Lou voltou a se concentrar na conversa.
— Sim , eu tenho um a videoconferência com Arthur Ly nch — disse Lou. — Será às sete e m eia, e tenho certeza de que tudo correrá sem qualquer problem a. Já elaborei um a quantidade enorm e de respostas para as perguntas dele, as quais repassam os durante a sem ana. Não creio que sej a preciso revisá-las outra vez...
— Espere, espere. — O Sr. Patterson ergueu um dedo para interrom pê-lo, e foi som ente naquele m om ento que Lou percebeu que no rosto de Alfred se abria um enorm e sorriso.
Lou olhou fixam ente para Alfred para atrair sua atenção, esperando perceber algum indício, algum a dica sobre o que estava acontecendo, m as Alfred o evitou.
— Não, Lou. Você e Alfred terão um j antar com Thom as Crooke e seu sócio. Essa é a reunião que passam os o ano inteiro tentando conseguir — o Sr. Patterson riu, sem graça.
Desastre, desastre, desastre. Tudo estava desm oronando. Lou folheou sua agenda, esfregando os dedos trêm ulos pelos cabelos, enxugando as gotas de suor da testa. Ele deslizou o dedo pelo cronogram a recém -im presso, os olhos cansados tinham dificuldade para entrar em foco, o indicador úm ido borrava as palavras enquanto avançava pela página. Lá estava: a videoconferência com Arthur Ly nch. Nenhum a m enção a um j antar de negócios. Nenhum a m aldita m enção a nenhum m aldito j antar de negócios.
— Sr. Patterson, eu estou ciente da reunião com Thom as Crooke, que j á era bastante aguardada — Lou lim pou a garganta e olhou para Alfred, confuso. — Mas ninguém confirm ou nenhum j antar com igo, e eu disse a Alfred na sem ana passada que teria um a reunião com Arthur Ly nch às sete e m eia de hoj e — repetiu ele, enfatizando as palavras. — Alfred? Você sabia de algum a coisa sobre esse j antar de negócios?
— Bem , eu sabia sim , Lou — disse Alfred num tom zom beteiro. — É claro que sabia. Reorganizei toda a m inha agenda assim que eles confirm aram . É a nossa grande chance de fechar os contratos para as obras em Manhattan. Estam os falando sobre isso há m eses.
Os outros, que estavam sentados ao redor da m esa, se m overam desconfortavelm ente em suas cadeiras. Lou tinha certeza de que alguns estavam se divertindo bastante com a situação, docum entando cada suspiro, olhar e palavra para relatá-los aos outros assim que saíssem da sala de reuniões.
— Todos podem voltar ao trabalho — disse o Sr. Patterson, preocupado. — Precisam os lidar com essa situação com certa urgência, eu receio.
A sala se esvaziou e restaram à m esa apenas Lou, Alfred e o Sr. Patterson. Lou percebeu instantaneam ente, pela postura de Alfred e pelo olhar em seu rosto, pelos dedos grossos e curtos unidos sob o seu queixo com o se estivesse rezando, que Alfred conquistara um a posição elevada naquele m om ento. Alfred estava agindo da sua m aneira favorita, na posição em que m ais gostava de estar para atacar.
— Alfred, há quanto tem po você sabe a respeito desse j antar? E por que não m e contou? — Lou partiu para a ofensiva im ediatam ente.
— Eu lhe disse, Lou — Alfred se dirigiu a ele com o se Lou fosse um im becil, incapaz de com preender.
Lou, suado por causa da barba por fazer, via a tranquilidade de Alfred e sabia que não sairia daquela situação com facilidade. Ele tirou os dedos trêm ulos do cronogram a e j untou as m ãos.
— Isso é um desastre, um desastre com pleto! — o Sr. Patterson esfregava o queixo insistentem ente com as m ãos. — Preciso que vocês dois estej am naquele j antar, m as não podem os perder essa videoconferência com Arthur. O j antar não pode ser adiado. Dem oram os m uito para conseguir agendá-lo. O que m e diz da conferência com Arthur?
Lou engoliu em seco.
— Vou ver se consigo dar um j eito.
— Se não for possível, não há nada que possam os fazer, a não ser deixar que Alfred inicie a reunião. Lou, assim que você term inar a videoconferência, vá se j untar a Alfred o m ais rápido possível.
— Lou tem um a negociação bastante séria para discutir. Terá sorte se conseguir chegar para a sobrem esa. Eu posso cuidar da reunião com Thom as Crooke, Laurence. — Alfred falava pelo canto da boca com o m esm o sorriso torto, o que fazia Lou querer pegar a j arra de água que estava sobre a m esa e atirá-la com força na cabeça do colega. — Posso resolver tudo sozinho.
— Sim , bem ... vam os esperar que Lou negocie rápido e que tenha sucesso. Do contrário, esse dia inteiro terá sido um a perda de tem po. — Esbravej ou o Sr. Patterson, pegando seus papéis e se levantando. A reunião estava encerrada.
Lou sentia que estava no m eio de um pesadelo; tudo estava desm oronando, e o seu trabalho estava sendo sabotado.
— Bem , foi um a reunião decepcionante. Achei que ele ia dizer quem assum irá a em presa quando se aposentar — disse Alfred, com um ar preguiçoso. — Nenhum a palavra sobre o assunto, acredita nisso? Acho m esm o que ele deveria nos dizer, m as eu estou na em presa há m ais tem po do que você. Portanto...
— Alfred? — Lou o observava fixam ente, em basbacado.
— O que foi? — Alfred pegou um a em balagem de chicletes do bolso e j ogou um na boca. Ofereceu outro a Lou, que recusou com um m ovim ento violento de cabeça.
— Eu m e sinto com o se estivesse num a espécie de lim bo aqui. Que diabos está acontecendo?
— Você está de ressaca. É isso que está acontecendo. Você está m ais parecido com o m endigo do que o próprio m endigo — riu Alfred. — E você deveria aceitar um destes — disse Alfred, oferecendo os chicletes outra vez. — Seu hálito está cheirando a vôm ito.
Lou rej eitou o chiclete m ais um a vez.
— Por que você não m e falou sobre o j antar, Alfred? — perguntou, enraivecido.
— Eu lhe disse — insistiu Alfred, levando m ais chicletes à boca. — Eu definitivam ente lhe disse. Ou disse a Alison. Disse a Alison, m esm o? Talvez eu tenha dito à outra, aquela com os peitos bem grandes. Você sabe, aquela que você andou com endo por um tem po.
Lou saiu da sala de reuniões pisando forte e foi direto à m esa de Alison, onde j ogou os papéis com os detalhes do j antar daquela noite sobre o seu teclado, interrom pendo o bater das unhas postiças contra as teclas.
Ela estreitou os olhos e leu o cronogram a.
— O que é isso?
— Um j antar que acontecerá hoj e à noite. Um j antar m uito im portante. Às oito da noite. E eu tenho de estar lá. — Lou andou de um lado para outro enquanto Alison lia o docum ento.
— Mas você não pode, tem a videoconferência.
— Eu sei, Alison — vociferou Lou. — Mas preciso estar nesse j antar. — Disse, batendo a ponta do dedo na página. — Faça com que isso aconteça. — Ele correu para sua sala e bateu a porta. Ficou paralisado antes de chegar à m esa. Sua correspondência estava lá.
Ele recuou e abriu a porta do escritório outra vez.
Alison, que olhou na direção da porta rapidam ente ao ouvi-la se abrir, desligou o telefone e o olhou nos olhos.
— Sim ? — disse ela, ansiosa.
— As cartas.
— Sim ?
— Desde quando elas estão aqui?
— Foi a prim eira coisa que chegou pela m anhã. Gabe as trouxe no m esm o horário de sem pre.
— Não pode ser — obj etou Lou. — Você o viu?
— Sim — disse ela, com um a expressão de preocupação no rosto. — Ele m e trouxe um café, tam bém . Pouco antes das nove, eu acho.
— É im possível. Ele estava na m inha casa — disse Lou, m ais para si m esm o do que para ela.
— Ah, Lou... só um a coisa antes de você ir. Seria um m om ento ruim para com eçarm os a discutir os detalhes da festa do seu pai?
Ela m al conseguiu term inar a frase antes que ele voltasse à sua sala e batesse a porta.
Há vários tipos de alertas para despertar. Para Lou Suffern, o alarm e para despertar era um a tarefa que o seu am ado BlackBerry desem penhava todos os dias. Às seis horas de todas as m anhãs, quando estivesse na cam a, sonhando e dorm indo, pensando em ontem e planej ando o am anhã, seu BlackBerry tocaria, obedientem ente e em alto e bom som , um toque propositadam ente desagradável aos ouvidos. Erguia-se da m esinha de cabeceira e o atingia diretam ente no inconsciente, tirando-o do sono e arrastando-o para o m undo das pessoas acordadas. Quando isso acontecia, Lou acordava; olhos fechados e depois abertos. Corpo na cam a, depois fora dela; nu, depois vestido. Para Lou, acordar era isso. O período de transição entre o sono e o trabalho.
Para outras pessoas, os alarm es para despertar funcionam de m aneiras diferentes. Para Alison, foi o susto com a possibilidade de estar grávida que a forçou a fazer algum as escolhas; para o Sr. Patterson, foi o nascim ento do seu prim eiro filho, que fez com que ele passasse a enxergar o m undo de m aneira diferente, o que passou a afetar cada um a de suas decisões. Para Alfred, foi quando ele tinha 12 anos de idade; seu pai perdeu os vários m ilhões que com punham a fortuna da fam ília, e Alfred frequentou a escola estadual por um ano; em bora tivessem recuperado a fortuna antes que alguém im portante soubesse das dificuldades por que passavam , a experiência m udou para sem pre a m aneira com o ele percebia a vida e as pessoas. Para Ruth, o alarm e para despertar ocorreu quando, durante as férias de verão, ela encontrou o m arido em sua cam a com a babá polonesa de 26 anos. Para a pequena Lucy, aos 5 anos de idade, foi quando olhou para a plateia do teatro da escola e viu a poltrona vazia ao lado da sua m ãe. Há vários tipos de alertas para despertar, m as som ente um é im portante.
Naquele dia, Lou estava recebendo um tipo m uito diferente de alarm e para despertar. Lou Suffern, com o você pode ver, não sabia que um a pessoa poderia ser acordada se seus olhos j á estivessem abertos. Não percebia que um a pessoa poderia ser acordada quando j á estava fora da cam a, vestida com um terno elegante, fechando negócios e supervisionando reuniões. Não percebia que um a pessoa poderia ser acordada quando considerava estar calm a, bem com posta e com edida, capaz de lidar com a vida e com tudo que ela pudesse apresentar. As sirenes de alarm e estavam tocando cada vez m ais alto em seus ouvidos, e ninguém além do seu inconsciente conseguia ouvi-las. Ele estava tentando ignorá-las, tentando apertar o botão de “soneca” para que pudesse se entregar ao estilo de vida no qual se sentia bem , m as que não estava funcionando. Não sabia que era im possível dizer à vida quando ele estaria pronto para aprender, e a vida estava lhe dizendo que estava preparada para ensinar. Ele não sabia que não era o caso de apertar alguns botões e, repentinam ente, saber de tudo; não sabia que os botões a serem apertados estavam nele m esm o.
Lou Suffern achava que sabia tudo.
Mas estava apenas com eçando a arranhar a superfície.