O Presente
O Garoto do Peru 4
– Isso é besteira — disse o Garoto do Peru enquanto Raphie fazia um a pausa para tom ar fôlego. Raphie não disse nada. Decidiu esperar até que algo m ais construtivo saísse da boca do Garoto do Peru.
— Grande besteira — disse ele outra vez.
— Bem , agora chega — disse Raphie, levantando-se da m esa e pegando sua caneca, o copo de isopor e as em balagens dos chocolates que com era enquanto contava sua história. — Vou deixá-lo em paz, esperando por sua m ãe.
— Não, espere! — disse o Garoto do Peru.
Raphie continuou a andar em direção à porta.
— Você não pode term inar a história dessa m aneira — disse ele, incrédulo. — Não pode m e deixar nesse suspense.
— Ah, bem . Isso é o que você m erece por ser tão ingrato — disse Raphie, dando de om bros. — E por quebrar j anelas com peru congelado.
Ele saiu da sala de interrogatório.
Jessica estava na pequena cozinha da delegacia, tom ando outra xícara de café. Seus olhos estavam verm elhos e as olheiras escuras estavam m ais pronunciadas.
— Fazendo outra pausa para o café? — ele fingiu não notar a aparência da colega.
— Você está lá dentro há décadas. — Ela soprou o café e tom ou um gole, sem tirar a caneca da frente dos lábios enquanto falava, com os olhos fixos no quadro de avisos diante dela.
— Seu rosto está m elhor?
Ela assentiu com um m ovim ento curto, o m ais próxim o que j á chegara de com entar a respeito dos cortes e arranhões que lhe m arcavam a face. E m udou o assunto.
— Até onde conseguiu contar?
— Até a prim eira duplicação de Lou Suffern.
— O que ele disse?
— Creio que ele usou a palavra “besteira”, que logo foi seguida por “grande besteira”.
Jessica abriu um sorriso discreto, soprando seu café e tom ando m ais um gole.
— Você chegou m ais longe do que eu im aginava. Deveria m ostrar a ele as gravações daquela noite.
— Já tem os gravações em vídeo do pub onde ele estava? — perguntou Raphie, apertando o botão da chaleira elétrica outra vez. — Quem é que estava trabalhando lá no dia de Natal? O Papai Noel?
— Não, ainda não sabem os. Mas a gravação da videoconferência m ostra um cara exatam ente igual a Lou Suffern saindo da sala. Parece que algum as pessoas na Patterson Em preendim entos não sabem que podem tirar um dia de folga. — Ela revirou os olhos. — É Natal. Francam ente!
— Poderia ser aquele tal de Gabe na gravação da videoconferência. Eles são parecidos.
— Poderia ser.
— Por falar nisso, onde ele está? Esse cara deveria ter chegado aqui há um a hora.
Jessica deu de om bros.
— Bem , é m elhor ele aparecer por aqui logo e trazer a carteira de habilitação com o eu m andei — disse Raphie, irritado. — Se não fizer isso, eu vou...
— Você vai fazer o quê?
— Eu m esm o vou buscá-lo.
Ela afastou lentam ente a caneca dos lábios e seus olhos intensos e m isteriosos fitaram os de Raphie.
— Buscá-lo para que, Raphie?
Raphie a ignorou e serviu-se de m ais um a xícara de café, acrescentando dois tabletes de açúcar. Jessica, percebendo seu hum or, não protestou. Ele encheu um copo de isopor com água e voltou a andar pelo corredor.
— Aonde você está indo? — perguntou ela enquanto Raphie se afastava.
— Vou term inar de contar a história pro garoto — resm ungou ele.