O Presente
Pudim e torta
Eram dez e m eia da noite quando a cidade cuspiu Lou para longe e o m andou até a estrada litorânea que o levaria de volta à sua casa em Howth, no condado de Dublin. De frente para o m ar, um a fileira de casas contornava o litoral com o um a m oldura ao redor de um a aquarela perfeita. Castigadas pelo vento e erodidas após longa exposição à m aresia, elas exibiam o grande espírito am ericano: típicos Papais Noéis gigantescos e renas sobre telhados ilum inados com luzes pisca-pisca. Todas as j anelas com cortinas abertas piscavam com as luzes das árvores de Natal, e Lou se lem brava de tentar contar as árvores quando era garoto, para passar o tem po enquanto viaj ava. À sua direita, conseguia enxergar Dalkey e Killiney, que ficavam do outro lado da baía. As luzes da cidade de Dublin piscavam além do escuro do m ar, com o enguias elétricas nadando na escuridão de um poço.
Howth sem pre foi o destino dos sonhos de Lou. Suas prim eiras lem branças vinham dali, a prim eira sensação de desej o, de querer fazer parte de um lugar e de finalm ente ser parte dele. O porto de pesca e iatism o na parte norte do condado era um local fam oso de Howth Head, a quinze quilôm etros da cidade de Dublin. Era um vilarej o com sua própria história; trilhas por entre os penhascos que passavam pelo vilarej o; as ruínas de um a abadia; um castelo do século XV com j ardins de azáleas e vários faróis erguidos ao longo da costa. Era um vilarej o m ovim entado e conhecido por seus pubs, hotéis e bons restaurantes especializados em frutos do m ar. Havia lugares ótim os para observar a baía de Dublin, as m ontanhas Wicklow ou o Boy ne Valley m ais além . Howth era um a ilha peninsular ligada ao resto do país apenas por um a estreita faixa de terra. Apenas um a faixa de terra conectando a vida diária de Lou com a da sua fam ília. Apenas um fragm ento, de m odo que, quando algum a tem pestade se form ava, Lou observava o Liffey furioso da j anela do seu escritório e im aginava as ondas cinzentas e ferozes quebrando sobre aquela faixa, castigando a terra com o se fossem cham as, am eaçando isolar sua fam ília do resto do país. Às vezes, naqueles devaneios, ele ficava separado da sua fam ília para sem pre; os laços eternam ente cortados. Em m om entos m elhores, estava j unto com eles, envolvendo-os com o próprio corpo para protegê-los das intem péries.
Para trás do j ardim enorm e e bem cuidado havia terras selvagens e escarpadas, cheias de trepadeiras com flores arroxeadas e cam pos cobertos de gram a e feno que cresciam até a altura da cintura, de onde se via a baía de Dublin. Do outro lado, era possível ver a ilha conhecida com o Olho da Irlanda, e nos dias m ais claros a vista era tão im pressionante que parecia um a tela esverdeada, pendurada nas nuvens, que ia até o fundo do oceano. Um pouco m ais além do porto havia um pequeno atracadouro e Lou adorava cam inhar por ali sozinho. Nem sem pre fora assim ; seu am or pelo atracadouro com eçou quando ele era criança, quando seus pais o levavam , j unto com Marcia e seu irm ão m ais velho, Quentin, todos os dom ingos, independentem ente de o tem po estar chuvoso ou ensolarado, para um a cam inhada pelo atracadouro. Havia apenas duas possibilidades: o dia teria um sol bem forte e ele ainda podia sentir o gosto do sorvete assim que colocava os pés no píer; ou seria tem pestuoso a ponto de o vento soprar com tanta força que eles tinham de se segurar uns nos outros para não serem carregados até o m ar.
Naqueles passeios em fam ília, Lou m ergulhava em seu m undo particular. Era um pirata em alto-m ar. Era um salva-vidas. Um soldado. Um a baleia. Poderia ser qualquer coisa que desej asse. Era tudo o que não era. Sem pre cam inhava de costas pelo atracadouro, olhando para o carro da fam ília no estacionam ento até que a cor verm elha do veículo não fosse m ais visível, e as pessoas que andavam por lá tivessem se transform ado em pinguins: pontos escuros com passos desaj eitados sem qualquer m ovim ento definido.
Lou ainda adorava andar pelo píer; era a sua ponte para a tranquilidade. Gostava de observar os carros e as casas em poleiradas nos penhascos desaparecerem à m edida que se afastava cada vez m ais da terra. Ficava em pé, om bro a om bro com o farol, am bos olhando para o m ar. Ali, após a longa sem ana de trabalho, ele conseguia j ogar todas as suas preocupações e problem as na água e observá-las se espatifando sobre as ondas, lentam ente desaparecendo a cam inho do fundo do m ar.
Mas na noite em que Lou dirigia de volta para casa depois de conhecer Gabe, j á estava tarde dem ais para cam inhar até o atracadouro. Tudo o que ele poderia ver seria a escuridão da baía e a luz ocasional no alto de algum farol. Apesar da hora e de a sem ana ainda estar na m etade, o vilarej o não seria um refúgio tranquilo naquele dia. A poucas sem anas do Natal, todos os restaurantes do lugar estavam cheios de gente, festas de Am igo Secreto, encontros anuais e celebrações. Todos os barcos estariam prontos para a noite e as focas teriam desaparecido do píer, as barrigas cheias com os peixes que os visitantes lhes atiravam . A estrada sinuosa que levava até o topo da colina estava escura e deserta, e, sentindo que sua casa estava próxim a e que não havia ninguém por perto, ele pisou com força no acelerador do seu Porsche 911. Abriu o vidro da j anela e sentiu o ar gelado soprando em seus cabelos e ouviu o som do m otor reverberando pelas colinas e árvores, enquanto avançava em direção ao alto de Howth. Abaixo dele, a cidade piscava com um m ilhão de luzes, espiando-o enquanto seu carro serpenteava entre as árvores que cobriam a m ontanha com o um a cobra pela gram a.
Para coroar o dia que acabara de ter, ele ouviu um a sirene e, olhando pelo retrovisor, xingou em voz alta a viatura de polícia que o perseguia, com todas as luzes ligadas. Tirou o pé do acelerador, esperando que fosse ultrapassado, m as não surtiu efeito. Ele era a causa da em ergência. Acionou a seta e parou o carro no acostam ento; sentado e com as m ãos sobre o volante, observou a figura fam iliar que saía da viatura. O hom em cam inhava lentam ente em direção ao carro de Lou, olhando em volta com o se estivesse passeando. Era com o se quisesse dar a Lou tem po suficiente para lem brar seu nom e. Lou desligou a m úsica que estava ouvindo e olhou pelo espelho para o hom em que se aproxim ava.
O hom em parou ao lado da porta de Lou e se inclinou para olhar pela j anela aberta.
— Sr. Suffern — disse ele, sem nenhum tom de sarcasm o, para o alívio de Lou.
— Sargento O’Reilly. — Lou se lem brou do nom e no m om ento exato e abriu um sorriso para ele, m ostrando tantos dentes quanto um chim panzé estressado.
— É um a situação corriqueira esta — disse o sargento O’Reilly, fazendo um a careta. — Infelizm ente para você, nós dois voltam os para casa no m esm o horário.
— Sim , é verdade, senhor. Me desculpe. A estrada estava vazia, pensei que não haveria problem a. Não há nenhum a alm a por perto.
— Apenas alguns inocentes. Esse é sem pre o problem a.
— E eu sou um deles, excelência — riu Lou, erguendo as m ãos para se defender. — É o últim o trecho de estrada antes de eu chegar em casa. Pode confiar em m im , eu só com ecei a acelerar alguns segundos antes de você m e m andar parar. Estou m orrendo de vontade de chegar em casa para ver m inha fam ília. De verdade.
— Consegui ouvir o seu m otor em Sutton Cross, bem no início da estrada.
— A noite está m uito quieta.
— E esse m otor é bem barulhento, eu sei, m as nunca se sabe, Sr. Suffern. Nunca se sabe.
— Duvido que você vá m e deixar ir em bora apenas com outra advertência — sorriu Lou, tentando enredar um pouco de sinceridade e um pedido de desculpas em seu m elhor sorriso.
— Você sabe qual é o lim ite de velocidade, eu presum o.
— Sessenta quilôm etros.
— Não cento e...
O sargento parou de falar abruptam ente e se ergueu, fazendo com que Lou ficasse frente a frente com a fivela do cinto que usava. Sem saber o que o sargento estava fazendo, ele perm aneceu sentado e olhou através da j anela para a estrada à sua frente, esperando que não estivesse prestes a ganhar m ais pontos em sua carteira de habilitação. Com o lim ite m áxim o de doze antes de ter sua habilitação cassada, ele j á estava próxim o dos oito pontos. Olhou para o sargento e viu quando ele colocou a m ão no bolso esquerdo.
— Está procurando um a caneta? — perguntou Lou, levando a m ão ao próprio bolso.
O sargento gem eu e virou de costas para Lou.
— Ei, você está bem ? — perguntou Lou, preocupado. Levou a m ão até a m açaneta da porta, m as quando prestes a acioná-la, desistiu de sair do carro.
O sargento grunhiu qualquer coisa inaudível, e seu tom de voz sugeria algum tipo de aviso. Pelo retrovisor lateral, Lou o observou cam inhar lentam ente de volta à viatura. Andava com um balançar estranho. Parecia estar arrastando a perna esquerda levem ente. Estaria bêbado? O sargento abriu a porta do carro, entrou, ligou o m otor, deu m eia-volta e desapareceu pela estrada. Lou franziu a testa. Seu dia, m esm o em suas últim as horas, ficava cada vez m ais bizarro.
Lou estacionou em frente à calçada, sentindo o m esm o tom de orgulho e satisfação que sentia todas as noites quando chegava em casa. Para a m aioria das pessoas, tam anho não era docum ento, m as Lou não se sentia igual à m aioria e via as coisas que possuía com o um reflexo do hom em que ele era. Queria o m elhor sem pre, e para ele tam anho e quantidade eram um a form a de m edir seu sucesso. Apesar de m orar num a rua particular com apenas algum as outras casas no alto de Howth, ele fez com que os m uros fossem levantados e que portões eletrônicos enorm es, com câm eras, fossem instalados na entrada.
As luzes estavam apagadas nos quartos das crianças, na parte da frente da casa, e Lou sentiu um alívio inexplicável.
— Cheguei — disse ele para o silêncio que tom ava conta da casa.
Vindo da sala de televisão, no final do corredor, o som abafado da voz de um a m ulher, sem fôlego e um pouco histérica, indicava contagens e m ovim entos. Era o DVD de exercícios de Ruth.
Ele afrouxou a gravata, abriu o botão da gola da cam isa, tirou os sapatos, sentiu o calor do isolam ento sob o piso de m árm ore aquecer seus pés e com eçou a exam inar as cartas que estavam sobre a m esa do hall. Sua m ente com eçou a se desanuviar devagar, as conversas que tivera nas várias reuniões e nos incontáveis telefonem as com eçaram a silenciar. Em bora ainda estivessem ali, estavam um pouco m ais baixas agora. Cada vez que tirava um a peça de roupa — o sobretudo j ogado sobre o encosto da cadeira, o paletó sobre a m esa, os sapatos sobre o piso, a gravata sobre a m esa, escorregando para o chão, a m aleta aqui, as m oedas do bolso e as chaves ali — sentia os eventos do dia se desintegrarem .
— Olá — ele disse novam ente, m ais alto dessa vez, percebendo que ninguém , ou sej a, sua esposa, viera recebê-lo. Talvez estivesse ocupada contando até quatro enquanto respirava fundo, com o a m ulher histérica da televisão estava fazendo.
— Psiu! — ele ouviu, vindo do segundo andar, seguido pelo ranger das tábuas do piso enquanto a esposa se aproxim ava.
Aquilo o incom odou. Não o ranger das tábuas, pois a casa era antiga e não havia m uito a fazer em relação àquele barulho. O problem a era que alguém o m andara ficar quieto. Depois de um dia inteiro falando sem parar, usando palavras bem escolhidas do seu j argão profissional, persuadindo com diálogos inteligentes, propondo acordos, desenvolvendo propostas e fechando negócios, ninguém , em nenhum m om ento, tinha lhe dito Psiu. Essa era a linguagem dos professores e dos bibliotecários. Não de adultos dentro de suas próprias casas. Sentiu-se com o se tivesse entrado num a creche. Fazia apenas um m inuto que estava em casa e j á estava irritado. Isso vinha acontecendo com m uita frequência ultim am ente.
— Acabei de colocar Pud para dorm ir outra vez. Ele não está tendo um a noite tranquila — explicou Ruth do alto da escada, em um sussurro alto. Lou não gostou da form a com o a esposa falou, m as a entendeu. Assim com o a linguagem do Psiu, esses sussurros serviam para crianças na sala de aula ou para adolescentes tentando escapulir de casa ou voltar às escondidas. Ele não gostava de lim itações, especialm ente dentro da sua própria casa. Assim , aquilo o irritou tam bém .
O “Pud” a quem ela se referia era o filho do casal, Ross. Com pouco m ais de 1 ano de idade, ele ainda tinha o m esm o rosto de bebê, e sua pele lem brava a m assa de um croissant ou de um pudim antes de ir ao forno. Por isso o apelido de Pud, o qual, infelizm ente, parecia que ia acom panhá-lo por bastante tem po ainda.
— E qual a novidade? — m urm urou ele, referindo-se à falta de sono de Pud, enquanto procurava entre as cartas por algo que não se parecesse com um a conta. Abriu algum as e as descartou sobre a m esa. Pedaços de papel rasgado caíram no chão.
Ruth desceu as escadas vestindo um conj unto esportivo de m oletom que usava com o pij am a — ele não conseguia saber qual era a diferença entre as roupas que ela vestia ultim am ente. Seus longos cabelos castanhos em tom de chocolate estavam am arrados num rabo de cavalo, e ela se aproxim ou dele calçando um par de chinelos e arrastando os pés — o ruído castigava os ouvidos de Lou, m ais ainda do que o barulho de um aspirador de pó, que até aquele m om ento costum ava ser o som que ele m ais detestava.
— Oi — ela disse e sorriu, e o rosto cansado desapareceu. Lá estava um vislum bre, um leve lam pej o da m ulher com quem se casara. Mas sum iu tão rápido quanto apareceu, fazendo com que Lou perguntasse a si m esm o se tinha im aginado aquilo ou se aquela parte de Ruth ainda estava ali em algum lugar. O rosto da m ulher que ele via todos os dias se aproxim ou para beij á-lo nos lábios.
— Teve um bom dia?
— Movim entado.
— Mas foi bom ?
O conteúdo de um envelope em particular atraiu sua atenção. Depois de um longo m om ento ele sentiu a intensidade de um olhar.
— Hum ? — ele ergueu os olhos.
— Acabei de perguntar se você teve um bom dia.
— Sim , e eu disse: “m ovim entado”.
— Sim , e eu perguntei: “m as foi bom ”? Todos os seus dias são m ovim entados, m as nem todos os seus dias são bons. Espero que o de hoj e tenha sido bom — disse ela com a voz cansada.
— Não m e parece que você realm ente acredite que m eu dia tenha sido bom — respondeu ele com os olhos baixos, lendo a carta.
— Bem , estou tentando com eçar um a conversa. — Ela m antinha a tranquilidade na voz.
— Ruth, estou lendo m inhas cartas!
— Estou vendo — m urm urou ela, curvando-se para recolher os envelopes vazios e rasgados que estavam no chão e sobre a m esa.
— O que foi que aconteceu por aqui hoj e? — perguntou ele, abrindo outro envelope. O papel caiu lentam ente no chão.
— A loucura de sem pre. E depois eu arrum ei a casa logo antes de você chegar, pela m ilionésim a vez — disse ela, enfatizando quantas vezes, enquanto se curvava para pegar outra bola de papel am assado. — Marcia ligou algum as vezes procurando por você. Num a delas finalm ente consegui encontrar o telefone. Pud escondeu o telefone sem fio outra vez, e levei um a eternidade para encontrá-lo. De qualquer m aneira, ela precisa de aj uda para decidir qual será o local onde farão a festa de aniversário de seu pai. Ela gostaria de fazer a festa aqui m esm o, sob um toldo, e Quentin, é claro, não gostou da ideia. Quer que sej a no iate clube. Acho que o seu pai ficaria feliz com qualquer um a das opções... Não. Acho que seu pai não gostaria de nenhum a dessas opções, m as com o as coisas estão sendo feitas sem que ninguém o consulte, ele vai se contentar com qualquer coisa. Sua m ãe decidiu não opinar. O que foi que você disse a ela?
Silêncio. Ela observou pacientem ente Lou ler a últim a página da carta e esperou por um a resposta. Ele dobrou o papel e o largou sobre a m esa do hall, e estendeu a m ão para pegar outra carta.
— Querido?
— Hum ?
— Eu perguntei a você sobre Marcia — disse ela, por entre os dentes, e agachou-se novam ente para pegar os pedaços rasgados do envelope que haviam caído no chão.
— Ah, sim — disse ele, abrindo outro docum ento. — Ela som ente... hum ... — E se distraiu com conteúdo do envelope.
— Sim ? — disse ela, em voz alta.
Ele ergueu os olhos e observou-a, com o se percebesse pela prim eira vez que ela estava ali.
— Ela m e ligou para falar da festa. — Ele fez um a careta.
— Eu sei.
— Com o você sabe? — ele com eçou a ler outra vez.
— Porque ela... deixe para lá. — Com eçando outra vez. — Ela está m uito em polgada com essa festa, né? É ótim o vê-la tão interessada por algum a coisa depois de tudo o que lhe aconteceu este ano. Ela passa horas e horas falando sobre a com ida e a m úsica... — Ruth deixou a frase m orrer no ar.
Silêncio.
— Hum ?
— Marcia — disse ela cansada e esfregando os olhos. — Estam os conversando sobre Marcia, m as você está ocupado. Por isso... — ela com eçou a ir em direção à cozinha.
— Ah, sim . Estou assum indo a responsabilidade pela festa. Alison vai organizá-la.
Ruth se deteve.
— Alison?
— Sim . Minha secretária. Ela é nova. Já a conheceu?
— Ainda não. — Ela lentam ente voltou a se aproxim ar de Lou. — Querido, Marcia está m uito anim ada com a organização da festa.
— E agora é Alison quem está anim ada — sorriu ele. — Só que não. — Em seguida, ele riu.
Ela sorriu am arelo com a piada interna, sentindo vontade de estrangulá-lo por tirar a festa das m ãos de Marcia e colocá-la nas m ãos de um a m ulher que não sabia nada sobre o hom em que celebraria os setenta anos da sua vida com as pessoas que ele am ava e que o am avam .
Ela respirou fundo, relaxando os om bros enquanto expirava devagar. Com eçou outra vez.
— Seu j antar está pronto. — Foi em direção à cozinha. — Só vai levar um m inuto para esquentá-lo. E eu com prei aquela torta de m açã de que você gosta.
— Já j antei — disse ele, dobrando a carta e rasgando-a em vários pedaços. Alguns pedaços de papel caíram no chão. Talvez fosse o som do papel batendo no m árm ore ou as palavras de Lou que a fizeram interrom per o passo, m as, de qualquer m aneira, Ruth ficou paralisada.
— Deixe que eu recolho esses m alditos papéis do chão — disse ele, irritado.
Ela se virou e perguntou, em voz baixa:
— Onde você j antou?
— No Shanahans. Um filé assado na brasa. Estou estufado — disse ele, esfregando a barriga distraidam ente.
— Com quem ?
— Pessoas do trabalho.
— Quem ?
— O que é isso, a Inquisição espanhola?
— Não. Apenas um a esposa perguntando ao m arido com quem ele j antou.
— Alguns rapazes do escritório. Você não os conhece.
— Seria bom se você tivesse m e avisado.
— Não foi um evento social. Não havia nenhum a esposa por lá.
— Eu não quis dizer... eu gostaria de ter sido avisada, para que não precisasse cozinhar para você.
— Por Deus, Ruth! Me desculpe por você ter cozinhado e com prado um a m aldita torta — ele explodiu.
— Psiu! — disse ela, fechando os olhos e esperando que a voz exaltada de Lou não acordasse o bebê.
— Não! Nada de “Psiu”! — continuou ele. — Entendeu? — ele foi até a sala de estar, deixando os sapatos no m eio do corredor e seus papéis e envelopes largados sobre a m esa.
Ruth respirou fundo outra vez, deu às costas àquela bagunça e dirigiu-se para a cozinha.
Quando Lou voltou para perto da esposa, ela estava sentada à m esa com endo lasanha e salada; a torta estava ali para a sobrem esa. Ruth assistia a m ulheres usando roupas de ly cra saltando de um lado para outro na enorm e TV de plasm a, na sala anexa à cozinha am ericana.
— Achei que você tivesse j antado com as crianças — com entou ele, depois de observá-la por algum tem po.
— E j antei — disse ela, com a boca cheia.
— Então, por que está com endo outra vez? — ele olhou para o relógio. — Já são quase onze horas. Está um pouco tarde para com er, não acha?
— Você geralm ente j anta a essa hora — disse ela, com um a expressão séria.
— Sim , m as eu não reclam o por estar gordo, j anto duas vezes e, depois, com o torta de sobrem esa.
Ela engoliu o pedaço de lasanha com o se um a pedra estivesse descendo pela garganta. Ele não percebeu o que disse, não teve a intenção de m agoá-la. Nunca teve a intenção de m agoá-la; m as sim plesm ente o fazia. Após um longo silêncio, no qual Ruth deixou passar sua raiva e voltou a com er, Lou se sentou com ela à m esa da cozinha. Do outro lado da j anela, a escuridão da noite se agarrava à vidraça fria, ansiosa para entrar. Ao longe, estavam os m ilhões de luzes da cidade, com o luzes de Natal pairando em m eio ao vácuo.
— Hoj e foi um dia estranho.
— Com o assim ?
— Não sei — suspirou ele. — Só sei que foi esquisito. Eu m e sinto esquisito.
— É assim que eu m e sinto na m aior parte dos dias — sorriu Ruth.
— Acho que devo estar ficando doente. Estou m e sentindo... m eio estranho.
Ruth levou a m ão até a testa de Lou.
— Você não está com febre.
— Não? — ele olhou para ela, surpreso, e depois levou a própria m ão à testa. — Eu m e sinto um pouco quente. Por causa de um cara na em presa. — Ele balançou a cabeça negativam ente. — Muito estranho.
Ruth franziu a testa e observou Lou. Não estava acostum ada a vê-lo tão pouco à vontade.
— Tudo com eçou m uito bem — disse ele, agitando um copo com vinho de que tinha se servido. — Conheci um hom em cham ado Gabe fora do escritório. Um sem -teto. Bem , não sei se ele é um sem -teto. Ele disse que tem um lugar para m orar, m as m esm o assim estava m endigando na rua.
Naquele m om ento, o choro suave de Pud com eçou a soar na babá eletrônica. Apenas alguns gem idos tranquilos e sonolentos no início. Colocando o garfo e a faca no prato, m as ainda sem ter term inado de com er, Ruth rezou em silêncio para que ele parasse de chorar.
— De qualquer m aneira... — Lou continuou, sem nem perceber. — Eu paguei um café para ele e nós com eçam os a conversar.
— Muito gentil da sua parte — disse Ruth. Seu instinto m aterno com eçava a se im por e a única voz que ela conseguia ouvir era o do seu filho, cuj os gem idos sonolentos se transform avam num choro alto.
— Ele se parecia m uito com igo — disse Lou, confuso agora. — Era exatam ente com o eu, e tivem os um a conversa m uito esquisita sobre sapatos — disse ele, rindo enquanto se lem brava. — Ele era capaz de recordar cada par de sapatos que entrava no prédio, então eu o contratei. Bem , não fui exatam ente eu quem o contratou. Liguei para Harry e...
— Lou, querido? — ela o interrom peu. — Não está ouvindo?
Ele olhou para Ruth, sem expressão, irritado no início por ela o ter interrom pido, e, em seguida, inclinou a cabeça para escutar. Finalm ente, o som do choro penetrou seus pensam entos.
— Tudo bem , pode ir — suspirou ele, m assageando o topo do nariz. — Lem bre-se de que eu estava lhe contando com o foi o m eu dia, j á que você sem pre reclam a que eu não faço isso — resm ungou ele.
— O que você quer dizer com isso? — ela ergueu a voz. — Seu filho está chorando. Eu tenho de passar a noite inteira sentada aqui enquanto ele chora, até que você term ine de contar a história sobre um m endigo que gosta de sapatos. Ou até que você tom e a decisão de ir ver com o ele está por conta própria, que tal?
— Deixe que eu vou até lá — disse ele, irritado, m as perm aneceu im óvel em sua cadeira.
— Não, eu vou. — Ela se levantou da m esa. — Quero que você faça essas coisas sem que eu tenha de lhe dizer. Não é algo que se faça em troca de elogios, Lou. Espera-se que você queira fazer isso.
— Você tam bém não parece m uito feliz por ir cuidar dele... — resm ungou Lou, ocupando-se com os botões das m angas da sua cam isa.
Na m etade do cam inho, entre a m esa e a porta da cozinha, ela se deteve.
— Já percebeu que você nunca tirou um dia para levar Ross para passear?
— Você deve estar falando sério. Está até usando o nom e verdadeiro dele. Qual é a causa de tudo isso?
Toda a sua frustração veio à tona.
— Você nunca trocou as fraldas dele. Nunca lhe deu de com er.
— Eu j á lhe dei de com er — protestou Lou.
O choro ficou m ais alto.
— Você não esquentou um a m am adeira, não preparou um a refeição, nunca o vestiu nem brincou com ele. Você nunca passou tem po com ele a sós, sem que eu estivesse por perto para socorrê-lo a cada cinco m inutos para que você respondesse a um e-m ail ou a um telefonem a. O garoto está vivendo neste m undo há m ais de um ano, Lou. Já faz m ais de um ano.
— Espere um pouco — ele passou a m ão pelos cabelos e segurou um punhado de tufos com força, um sinal da sua irritação. — Com o foi que passam os de um a conversa sobre o m eu dia, que você sem pre quer saber, segundo a segundo, para esse ataque?
— Você estava tão ocupado falando sobre si m esm o que nem ouviu seu filho — disse ela, cansada, sabendo que essa discussão teria o m esm o resultado de todas as outras. Nenhum .
Lou olhou ao seu redor e ergueu as m ãos dram aticam ente, enfatizando a casa.
— Você acha que eu passo o dia inteiro na m inha m esa girando os polegares? Não, eu m e esforço m uito para fazer tudo ao m esm o tem po, para que você e as crianças possam ter tudo isso, para que eu tenha condições de dar com ida para Ross. Por isso, m e desculpe por não encher a boca do garoto todos os dias com papinha de banana.
— Você não faz tudo ao m esm o tem po, Lou. Você sem pre decide fazer um a coisa em detrim ento de outra. Existe um a diferença.
— Não posso estar em dois lugares ao m esm o tem po, Ruth! Se você precisa de aj uda aqui, e eu j á falei isso para você, é só m e dizer e contratam os um a babá quando você quiser.
Ele sabia que tinha entrado num a discussão ainda m aior, e, enquanto o choro de Pud soava cada vez m ais alto na babá eletrônica, ele se preparou para o contra-ataque inevitável. Para evitar que a esposa usasse o argum ento de sem pre, ele quase acrescentou: “e eu prom eto não dorm ir com a próxim a babá”.
Mas a discussão não surgiu. Em vez disso, Ruth encolheu os om bros e, num a atitude com pletam ente diferente, desistiu da briga e foi cuidar do filho.
Lou pegou o controle rem oto e o brandiu em frente à televisão com o se fosse um revólver. Ele pressionou o gatilho, enraivecido, e desligou a televisão. As m ulheres suadas vestindo roupas de ginástica foram reduzidas a um pequeno círculo de luz no centro da tela antes de desaparecerem com pletam ente.
Lou pegou o prato de torta de m açã que estava na m esa e com eçou a com ê-la lentam ente, tentava entender com o diabos tudo aquilo tinha com eçado, lem brava cada m om ento desde que passara pela porta. Enfim , tudo term inaria com o em várias outras noites: ele iria para a cam a e ela estaria dorm indo ou pelo m enos fingiria estar. Algum as horas m ais tarde, ele acordaria, faria seus exercícios, tom aria um banho e sairia para trabalhar.
Suspirou. Em seguida, ouvindo sua própria respiração, percebeu que a babá eletrônica não em itia m ais o choro de Pud, m as m esm o assim continuava ligada. Ao andar na direção do aparelho, ouviu outros ruídos que o fizeram girar o botão do volum e. Aum entando-o, sentiu um aperto no coração quando o som do choro de Ruth encheu a cozinha.