O Presente
Um esbarrão na noite
Às sete horas daquela noite, quando os colegas de trabalho de Lou j á tinham sido cuspidos para fora da em presa e absorvidos pela onda natalina que se espalhava pelas ruas, Lou Suffern continuava sentado atrás da sua m esa, sentindo-se m enos com o o executivo sagaz e m ais com o Aloy sius, o aluno obrigado a ficar na escola depois do horário de saída, a im agem contra a qual ele lutara durante tantos anos para deixar para trás. Aloy sius olhava para as pastas que estavam sobre a m esa à sua frente com o m esm o ânim o que teria ao encarar um prato de legum es. Aquelas pastas pareciam ter dom ínio sobre a sua liberdade.
Ao descobrir que não haveria qualquer possibilidade de que Lou cancelasse ou reagendasse a videoconferência, Alfred, que parecia genuinam ente decepcionado, fez sua m elhor cara de cachorro sem dono e passou a agir de m odo a lim itar os danos que seriam causados, evitando qualquer insinuação de ter se envolvido naquela m aracutaia, e com eçou a se concentrar na m elhor m aneira de abordar a negociação. Convincente, com o sem pre, Alfred fez com que Lou fosse incapaz de se lem brar do m om ento em que com eçara a se indispor com ele, e fez tam bém com que Lou perguntasse a si m esm o por que responsabilizara Alfred por toda aquela situação. Alfred causava esse efeito nas pessoas repetidam ente, m ovendo-se com o um bum erangue que fora arrastado pela lam a, m as que ainda assim conseguia encontrar o cam inho para voltar ao m esm o par de m ãos que o lançara.
Fora do prédio, a noite estava negra e fria. Os carros enfileirados nas ruas enchiam cada ponte e ancoradouro conform e as pessoas voltavam para casa, em contagem regressiva para a chegada do Natal. Harry tinha razão; tudo estava acontecendo rápido dem ais, e os dias que antecediam a data pareciam ter m ais im portância do que o feriado em si. A cabeça de Lou, agora, latej ava m ais do que durante a m anhã, e seu olho esquerdo pulsava enquanto a enxaqueca piorava. Mal conseguia pensar, nem form ar um a sentença coerente. Assim , vestiu o sobretudo de casim ira, em brulhou-se em seu cachecol e deixou o escritório para ir à loj a de conveniência ou à farm ácia m ais próxim a com prar com prim idos para dor de cabeça. Sabia que estava de ressaca, m as tam bém tinha certeza de que estava ficando doente. Nos últim os dias, tinha se sentido m uito estranho, com o se não fosse ele m esm o: desorganizado, inseguro, características que, sem dúvida, eram devidas à doença.
Os corredores da em presa estavam escuros; as luzes apagadas em todas as salas, com exceção de algum as lâm padas de em ergência deixadas acesas para que os seguranças pudessem fazer a ronda. Ele apertou o botão do elevador e esperou pelo ruído dos cabos que ergueriam a m áquina pelo fosso. Tudo estava silencioso. Pressionou o botão novam ente e olhou para as luzes que indicavam os andares. A luz do térreo estava acesa, m as não houve nenhum m ovim ento. Ele apertou o botão outra vez. Nada aconteceu. Apertou-o m ais algum as vezes até que não pôde m ais conter a raiva e com eçou a socar o painel. Enguiçado. Mais essa. Afastou-se do elevador em busca da escada de incêndio; a cabeça latej ando. A trinta m inutos do início da videoconferência, tinha o tem po exato para descer os treze andares e subir correndo com os com prim idos. Fora do corredor principal, passou por portas que nunca percebera antes e se viu em corredores estreitos, onde os carpetes felpudos tinham desaparecido. As grossas portas de nogueira e os painéis de m adeira que forravam as paredes do seu andar foram substituídos por tinta branca e placas de com pensado, e as salas tinham proporções m uito m enores. Em vez da bela coleção de arte que ele observava a cada dia nos corredores da sua em presa, os corredores deste lugar estavam apinhados com fotocopiadoras e aparelhos de fax.
Fazendo um a curva e entrando em outro corredor, ele parou e riu sozinho. Os segredos da velocidade de Gabe foram revelados. À sua frente, havia um elevador de serviço, e tudo fez sentido. As portas estavam escancaradas, um a luz esbranquiçada vinda de um a lâm pada fluorescente ilum inava o pequeno cubículo cinzento. Ele entrou no elevador e a luz fez seus olhos doerem . Antes que pudesse estender os dedos para tocar os botões do painel, as portas se fecharam e o elevador desceu rapidam ente. A velocidade era duas vezes m aior do que a dos elevadores convencionais, e, m ais um a vez, Lou ficou satisfeito ao descobrir com o Gabe conseguia ir de um lugar a outro de m aneira tão rápida.
Enquanto o elevador continuava a descer, ele pressionou o botão do térreo, m as o m ostrador não se ilum inou. Ele apertou m ais algum as vezes e, com um a preocupação que crescia a cada instante, observou a luz do painel passar de um andar a outro. Doze, onze, dez... A velocidade estava aum entando. Nove, oito, sete... não havia qualquer sinal de que iria frear. O elevador balançava na sua descida vertiginosa; com o m edo e a ansiedade crescendo, Lou com eçou a apertar todos os botões, inclusive o de em ergência, m as nada funcionava. O elevador continuou a cair pelo fosso, seguindo seu próprio curso.
Perto de chegar ao térreo, Lou se afastou rapidam ente das portas e se agachou, encolhendo-se no canto do elevador. Enfiou a cabeça entre as pernas, cruzou os dedos e preparou-se para o im pacto.
Segundos depois, o elevador freou e parou abruptam ente. Dentro do fosso, a caixa de m etal balançou na ponta dos cabos e guinchou com a parada repentina. Quando Lou abriu os olhos, fechados com força, viu que estava no subsolo. Com o se o elevador tivesse funcionado norm alm ente durante todo aquele tem po, as portas se abriram com um “plim ”, que soou bastante alegre. Lou estrem eceu; aquele lugar não tinha nada a ver com o com itê de boas-vindas que o recebia cada vez que ele descia no décim o quarto andar. O subsolo era escuro e frio, e o chão de concreto estava bastante em poeirado. Sem querer sair do elevador naquele pavim ento, ele apertou o botão do térreo outra vez para voltar rapidam ente às superfícies de m árm ore e aos carpetes, aos tons suaves de caram elo e crom o, porém , m ais um a vez, o botão não se ilum inou, o elevador não respondeu ao seu com ando e as portas perm aneceram abertas. Ele não teve escolha a não ser sair dali e tentar encontrar a escada de incêndio para que pudesse subir até o térreo. Assim que saiu do elevador e colocou os dois pés no piso de concreto do subsolo, as portas se fecharam e o elevador subiu.
A ilum inação do subsolo era fraca. No fim do corredor, um a lâm pada fluorescente acendia e apagava. Aquilo não era bom para a sua dor de cabeça e fez com que Lou perdesse o equilíbrio algum as vezes. Havia um ruído alto de m áquinas funcionando ao redor. O forro do teto não fora instalado, e todos os sistem as elétricos e a fiação estavam expostos. O piso era duro e frio por baixo dos seus sapatos de couro, e as partículas de pó se erguiam e cobriam os bicos engraxados. Andando pelo corredor estreito, procurando pela saída de em ergência, Lou ouviu m úsica saindo por baixo de um a porta, no fim de um corredor que continuava num a curva para a direita. “Driving Hom e for Christm as”, de Chris Rea. No fim do corredor, do lado oposto, ele viu a placa verde ilum inada, acim a de um a porta de m etal, com o desenho de um hom em correndo. Olhou para a saída, depois virou o rosto na direção da sala no fundo do corredor, por onde a m úsica e a luz vazavam por baixo da porta. Olhou para o seu relógio. Ainda tinha tem po de correr até a farm ácia e — se os elevadores funcionassem com o deveriam — voltar ao seu escritório a tem po de cuidar da videoconferência. A curiosidade o venceu; ele cam inhou até o fim do corredor e tam borilou os nós dos dedos contra a porta. A m úsica estava tão alta que ele m al podia ouvir o som da sua m ão batendo na porta. Então, lentam ente, ele abriu a porta e enfiou a cabeça pelo vão.
A visão roubou as palavras da sua boca e saiu correndo com elas debaixo do braço, gargalhando.
Atrás da porta havia um pequeno depósito, as paredes apinhadas de estantes de m etal que iam do chão ao teto, abarrotadas com todo tipo de obj eto, de lâm padas a rolos de papel higiênico. Havia dois corredores, e os dois não tinham m ais do que um m etro de com prim ento. Foi o segundo que atraiu a atenção de Lou. Por entre as prateleiras, a ilum inação vinha do nível do chão. Aproxim ando-se do corredor, ele viu um saco de dorm ir fam iliar estendido ao lado da parede. Sobre o saco de dorm ir estava Gabe, lendo um livro, tão entretido que não ergueu os olhos quando Lou se aproxim ou. Nas prateleiras inferiores, havia um a fileira de velas acesas, com o as velas perfum adas dos banheiros dos escritórios, e um pequeno abaj ur sem a cúpula em itia um a ilum inação alaranj ada no canto da sala. Gabe estava enrolado no m esm o cobertor suj o que usava quando ficava sentado na calçada. Sobre um a prateleira, repousava um a chaleira e um a em balagem plástica com um sanduíche pela m etade. Seu novo terno estava pendurado, ainda coberto pela capa de plástico, nunca usado. A im agem do terno im aculado pendurado na estante de m etal de um pequeno depósito fez com que Lou se lem brasse do aparelho de chá de sua avó, algo precioso, guardado para um a ocasião que nunca surgiu ou surgiu e nunca chegou a ser reconhecida.
Gabe ergueu os olhos e o livro saiu voando de suas m ãos, e por pouco não se chocou com um a vela, enquanto ele se erguia, sentando-se ereto e alerta.
— Lou — disse ele, assustado.
— Gabe — disse Lou, e não sentiu a satisfação que im aginou que sentiria. A visão que se abria à sua frente era triste. Não era de se adm irar que aquele hom em era o prim eiro a chegar no escritório todas as m anhãs e o últim o a sair. Aquele pequeno depósito apinhado de prateleiras cheias de obj etos aleatórios tinha se tornado o lar de Gabe.
— Por que com prou o terno? — perguntou Lou, olhando diretam ente para ele. Não com binava com o lugar em poeirado. Todo o resto era velho e usado, deixado para trás e esquecido. Ainda assim , pendurado num cabide de m adeira, havia um terno lim po e caro. Sim plesm ente não se encaixava naquele lugar.
— Ah, nunca se sabe quando precisarem os de um bom terno — respondeu Gabe, observando Lou com atenção. — Você vai contar a alguém ? — perguntou ele, em bora não parecesse estar preocupado, apenas curioso.
Lou observou Gabe e sentiu pena.
— Harry sabe que você está aqui?
Gabe balançou a cabeça negativam ente.
Lou pensou naquilo.
— Não direi um a palavra a respeito.
— Obrigado.
— Você passou a sem ana inteira aqui?
Gabe assentiu.
— Faz frio aqui.
— Sim . O aquecim ento central é desligado depois que todos vão em bora.
— Posso lhe trazer alguns cobertores... Um aquecedor elétrico ou algum a outra coisa, se você quiser — disse Lou, sentindo-se tolo assim que pronunciou aquelas palavras.
— Sim , obrigado, seria ótim o. Sente-se — disse Gabe, apontando para um caixote que estava na prateleira inferior. — Por favor.
Lou arregaçou as m angas quando estendeu as m ãos para pegar o caixote, sem querer que a poeira e a suj eira estragassem seu terno, e sentou-se lentam ente.
— Quer um café? É preto. Estavam tendo problem as com a m áquina e não puderam fazer um latte.
— Não, obrigado. Saí som ente para buscar alguns com prim idos para dor de cabeça — respondeu Lou, sem perceber a piada enquanto olhava à sua volta, distraído. — Queria agradecê-lo por m e levar para casa ontem .
— Não há de quê.
— Você cuidou bem do Porsche — disse Lou, estudando-o. — Já dirigiu um antes?
— Claro que sim . Tenho um estacionado no m eu quintal — disse Gabe, revirando os olhos.
— Ah, sim , desculpe... com o você sabia onde eu m orava?
— Eu adivinhei — disse Gabe, ironicam ente, enquanto se servia de um a xícara de café. Quando Lou o encarou, ele acrescentou: — Sua casa era a única naquela rua que tinha um portão de m au gosto. Portões de m uito m au gosto. Com um pássaro no topo. Um pássaro? — ele olhou para Lou com o se a sim ples ideia de um pássaro de m etal deixasse um cheiro ruim na sala, o que poderia m uito bem acontecer se as velas perfum adas não estivessem ali.
— É um a águia — disse Lou, na defensiva. — Sabe, ontem à noite, eu... — Lou com eçou a se desculpar ou, pelo m enos, a tentar explicar seu com portam ento na noite anterior. Depois, voltou a pensar no assunto e não sentiu vontade de se explicar a ninguém , especialm ente a Gabe, que estava dorm indo no chão de um depósito no subsolo e ainda tinha a audácia de se achar m elhor do que ele. — Por que você disse a Ruth para m e deixar dorm ir até as dez horas?
Gabe fixou seus olhos azuis nele. Em bora Lou tivesse um salário anual de seis dígitos e um a m ansão de vários m ilhões de euros num a das áreas m ais elegantes de Dublin, e tudo o que Gabe tinha estivesse ali naquela sala, ele novam ente se sentiu inferior. Com o se estivesse sendo j ulgado.
— Achei que você precisava descansar — respondeu Gabe.
— Quem é você para decidir isso?
Gabe apenas sorriu.
— O que é tão engraçado?
— Você não gosta de m im , não é, Lou?
Bem , aquilo foi direto. Direto ao ponto, sem rodeios, e Lou gostava disso.
— Eu não diria que não gosto de você.
— Você está preocupado com a m inha presença neste prédio — prosseguiu Gabe.
— Preocupado? Não. Você pode dorm ir onde quiser. Isso não m e incom oda.
— Não é isso o que eu quero dizer. Eu o am eaço, Lou?
Lou j ogou a cabeça para trás e riu. Foi exagerado e ele sabia disso, m as não se im portava. Causou o efeito desej ado. Encheu a sala e ecoou pela pequena cela de concreto com o teto aberto e a fiação exposta; sua presença soou m aior do que o espaço de Gabe.
— Intim idado por você? Bem , vej am os... — Ele ergueu as m ãos para indicar a sala onde Gabe estava m orando. — Será que preciso dizer m ais algum a coisa? — disse ele, pom posam ente.
— Ah, j á entendi — disse Gabe com um sorriso am plo, com o se acabasse de adivinhar a solução de um enigm a. — Eu tenho m enos coisas. Esqueci o quanto isso significa para você — disse ele com um a risada suave, e estalou os dedos, fazendo com que Lou se sentisse estúpido.
— Coisas não são im portantes para m im — Lou tentou se defender, sem m uita convicção. — Estou envolvido com vários proj etos de caridade. Eu dou coisas a outras pessoas o tem po todo.
— É verdade — Gabe assentiu, solenem ente. — Até m esm o a sua palavra.
— Do que você está falando?
— Você não honra a sua palavra. — Ele se ergueu rapidam ente e pegou um a caixa de sapatos que estava na segunda prateleira, revirando o seu conteúdo. — Sua cabeça ainda está doendo?
Lou assentiu e esfregou os olhos, cansado.
— Fique com isso — Gabe parou de revirar a caixa e pegou um pequeno pote de com prim idos. — Você sem pre quer saber com o eu vou de um lugar a outro, não é? Tom e um destes — disse ele, j ogando a em balagem para Lou.
Lou estudou o pote. Não havia nenhum rótulo.
— O que é isso?
— É um tipo de m ágica — riu Gabe. — Se tom ar um deles, tudo ficará claro.
— Não uso drogas. — Lou devolveu o pote, colocando-o aos pés do saco de dorm ir.
— Não são drogas. — Gabe revirou os olhos.
— Então, o que são?
— Não sou farm acêutico. Sim plesm ente fique com os com prim idos. Só sei que funcionam .
— Não, obrigado. — Lou se levantou e preparou-se para ir em bora.
— Isso o aj udaria bastante. Você sabe que seria bom ter aj uda, Lou.
— Quem disse que eu preciso de aj uda? — Lou se virou. — Sabe de um a coisa, Gabe? Você perguntou se eu não gosto de você. Isso não é verdade. Eu não m e im porto com a sua presença. Sou um hom em ocupado, não m e sinto incom odado quando você está por perto, m as isso... é isso de que não gosto em você, frases paternalistas com o essa. Estou bem , m uito obrigado. Minha vida é ótim a. Só estou com dor de cabeça, e é só isso. Entendeu?
Gabe fez que sim com a cabeça, e Lou se virou em direção à porta.
Gabe com eçou a falar outra vez.
— Pessoas com o você são...
— São o quê, Gabe? — Lou se virou, irritado, a voz m ais alterada a cada frase. — Pessoas com o eu são o quê? Esforçadas? Gostam de sustentar suas fam ílias? Não passam o dia inteiro sentados na calçada esperando por esm olas? Pessoas com o eu aj udam pessoas com o você, fazem de tudo para lhes dar um em prego e fazer com que a sua vida m elhore...
Se Lou tivesse esperado até que Gabe term inasse a frase, perceberia que Gabe não estava insinuando nada desse tipo. Gabe estava se referindo a pessoas com petitivas. Pessoas am biciosas, que estão sem pre pensando no prêm io em vez de sim plesm ente realizar as tarefas que estão ao alcance de suas m ãos. Pessoas que querem ser as m elhores pelos m otivos errados, e que fazem praticam ente qualquer coisa para alcançar seus obj etivos. Ser o m elhor é a m esm a coisa que estar na m édia, o que, por sua vez, é o m esm o que ser o pior. Tudo era um estado de espírito. O im portante era saber com o um a pessoa se sentia nesse estado e por que estava nesse estado.
Gabe queria explicar a Lou que pessoas com o ele vivem olhando por cim a dos próprios om bros, sem pre atentas ao que as pessoas à sua volta estão fazendo, com parando-se aos outros, procurando conquistar coisas m elhores, sem pre querendo ser m elhores que os outros. E o m otivo de Gabe falar a Lou Suffern sobre pessoas com o Lou Suffern era avisá-lo de que quem vive olhando por cim a dos próprios om bros acaba tropeçando no que está à frente.
Os cam inhos ficam m uito m ais claros quando as pessoas param de dar atenção ao que os outros estão fazendo e concentram -se em si m esm as. Lou não pode se dar ao luxo de ficar tropeçando nas coisas neste m om ento da história. Se for assim , o final certam ente será arruinado, e ainda precisam os chegar lá. Sim , Lou tinha m uito a fazer.
Mas Lou não ficou ali para ouvir. Saiu daquela m istura de depósito-quarto balançando a cabeça e sem acreditar na petulância de Gabe enquanto voltava pelo corredor com as luzes fluorescentes que acendiam e apagavam . Conseguiu encontrar a escada de incêndio e subiu correndo até o térreo.
Assim que abriu a porta, tudo se tornou im ediatam ente bege e quente, e Lou estava de volta à sua zona de conforto. O guarda da equipe de segurança o encarou quando Lou surgiu pela porta de em ergência e franziu a testa.
— Tem algo errado com os elevadores — disse Lou a ele, sem tem po para ir a um a farm ácia e voltar a tem po para a videoconferência. Teria que voltar ao seu escritório exatam ente do j eito que estava, com a m esm a aparência, sentindo-se daquele j eito, com a cabeça quente e confusa, e com as palavras ridículas de Gabe ainda ecoando em seus ouvidos.
— É a prim eira vez que ouço alguém dizer isso. — O segurança foi até onde Lou estava. Estendeu a m ão e pressionou o botão do elevador, que se ilum inou im ediatam ente, e as portas se abriram .
Ele olhou para Lou com um a expressão estranha no rosto.
— Oh. Esqueça o que eu disse, então. Obrigado. — Lou entrou outra vez no elevador e subiu até o décim o quarto andar. Apoiou a cabeça contra o espelho, fechou os olhos e sonhou que estava em casa, na cam a, com Ruth aconchegada ao seu lado, com um braço e um a perna ao redor dele com o sem pre fazia, ou costum ava fazer, quando dorm ia.
Quando o elevador fez o “plim ” característico, indicando que estava no décim o quarto andar, Lou abriu os olhos e saltou com um grito, aterrorizado.
Gabe estava bem à sua frente no corredor, com as feições solenes e o nariz quase tocando as portas quando elas se abriram . Ele agitou a em balagem de com prim idos na frente do rosto de Lou.
— PUTA QUE PARIU! GABE!
— Você esqueceu isso.
— Não esqueci.
— É o que vai fazer a sua dor de cabeça passar.
Lou arrancou o pote de com prim idos da m ão de Gabe e o enfiou com força no bolso da calça.
— Divirta-se — sorriu Gabe, satisfeito.
— Eu j á lhe disse que não uso drogas. — Lou m anteve a voz baixa, em bora soubesse que não havia m ais ninguém no andar.
— E eu lhe disse que isso não é droga. Pense nesses com prim idos com o um rem édio hom eopático.
— Um rem édio para quê, exatam ente?
— Para os seus problem as, que j á são m uitos. Acredito que j á os enum erei para você.
— E quem enum erou m eus problem as foi um a pessoa que dorm e em um m aldito depósito no subsolo — resm ungou Lou. — Por que não tom a um com prim ido e vai dar um j eito na sua vida? Ou sej a lá o que o deixou nessa situação? Sabe, Gabe, estou cansado de ouvir você m e j ulgando, especialm ente porque eu estou por cim a e você está por baixo.
A expressão de Gabe em relação àquela frase foi de curiosidade, e fez com que Lou se sentisse culpado.
— Me desculpe — suspirou ele.
Gabe sim plesm ente aquiesceu.
Lou exam inou os com prim idos, sentindo a cabeça latej ar, m ais pesada agora.
— Por que eu deveria confiar em você?
— Considere isso um presente. — Gabe repetiu as palavras que Lou lhe dissera há alguns dias.
O presente de Gabe e as palavras repetidas causaram arrepios em Lou Suffern.