O Presente

Cecelia Ahern · Capítulo 2 de 29

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O Presente

Dedicatória

Um exército de segredos

 

Se você cam inhasse pelas calçadas de um condom ínio suburbano no início da m anhã de Natal, não conseguiria deixar de observar as fachadas decoradas com enfeites brilhantes e coloridos, iguais às caixas dos presentes que estão em baixo da árvore de Natal em todas as casas. Cada casa guarda seus segredos. A vontade é de bisbilhotar: sacudir um pacote ou espiar por um a fresta entre as cortinas e vislum brar um a fam ília na m anhã de Natal. Capturar o m om ento m antido a distância de todos os olhares curiosos. Lá fora, num silêncio inquietante, que existe som ente nessa m anhã, ano após ano, as casas se postam lado a lado com o soldadinhos de chum bo pintados: peitos estufados, barrigas encolhidas, orgulhosam ente protegendo tudo e todos que estão em seu interior.

As casas, na m anhã de Natal, são arcas de tesouro repletas de verdades ocultas. Um a guirlanda na porta é com o um dedo sobre o lábio; persianas são pálpebras fechadas. Então, em algum m om ento, um brilho m orno surge; é o indício sutil de que algo está acontecendo ali dentro. Com o as estrelas no céu noturno, que aparecem um a a um a, e com o pequenas pepitas de ouro reveladas enquanto a areia é peneirada num riacho, as luzes se acendem por trás das persianas e das cortinas, na m eia-luz do am anhecer. Assim com o o céu se enche de estrelas e as fortunas se fazem , quarto após quarto, casa após casa, a rua com eça a despertar.

Na m anhã de Natal, um ar de tranquilidade reina fora das casas. As ruas vazias não provocam m edo; na verdade, são o retrato da segurança, e, apesar do inverno, há certo calor. Por diversas razões, todos acham m elhor com em orar esse dia, todos os anos, sim plesm ente ficando em casa. Enquanto o lado de fora é som brio, o interior das casas é um m undo de cores fortes e alegres, e todos com partilham a histeria de rasgar papéis de presente; fitas coloridas voam por todos os lados. Músicas natalinas, o cheiro festivo de canela e de várias outras coisas boas enchem o ar. Gritos de alegria, abraços e agradecim entos explodem com o serpentinas. O Natal é um a festa celebrada a portas fechadas; não há nenhum pecador confesso fora de casa, e até m esm o eles têm um teto sobre suas cabeças.

Som ente as pessoas que vão de um a casa a outra pontilham as ruas. Carros estacionam e presentes são descarregados. Sons de saudações ecoam pelo ar frio através das portas abertas; m ostra-se um pouco do que está acontecendo do lado de dentro. Se nesse m om ento você estiver por ali, absorvendo o am biente e partilhando o convite — pronto para atravessar a soleira da porta com o um estranho que se sente um convidado bem -vindo —, a porta da frente se fechará e esconderá de você o resto do dia, com o um a advertência de que aquele m om ento não lhe pertence.

Exatam ente nesse bairro, feito de casas que parecem de brinquedo, um a alm a peram bula pelas ruas. Essa alm a não consegue ver a beleza no m undo secreto das casas. Essa alm a está concentrada num obj etivo: quer puxar o laço e rasgar o papel para revelar o que há por trás da porta de núm ero vinte e quatro.

Não é im portante saberm os o que os habitantes da casa estão fazendo, m as, se você está curioso, um bebê de dez m eses, confuso pela presença do enorm e obj eto cheio de pontas espetadas e luzes brilhantes no canto da sala, está estendendo a m ão em direção à bola verm elha e brilhante que reflete de m aneira côm ica sua m ão, fam iliar e rechonchuda, e sua boca sem dentes. Ao m esm o tem po, um a m enina de 2 anos rola sobre papéis de presente, cobrindo-se de purpurina com o se fosse um hipopótam o na lam a. Ao seu lado, Ele fecha um novo colar de diam antes ao redor do pescoço Dela, que suspira, surpresa, levando a m ão ao peito e balançando a cabeça sem acreditar, com o viu fazerem as atrizes nos film es em preto e branco.

Nada disso é im portante para a nossa história, em bora signifique m uito para a pessoa que está em pé no j ardim da casa vinte e quatro, olhando para as cortinas fechadas da sala de estar. Com 14 anos e um a im ensa m ágoa no coração, ele não consegue ver o que está acontecendo, m as sua im aginação foi alim entada pelo choro da m ãe durante a noite. E ele é capaz de adivinhar.

O garoto ergue os braços acim a da cabeça, tom a im pulso e, com toda a força, arrem essa o em brulho que tem nas m ãos. Ele recua para observar, sentindo um m isto de alegria e am argura, quando um peru congelado de quase sete quilos arrebenta o vidro da j anela da sala de estar da casa 24. As cortinas fechadas refreiam um pouco a traj etória da ave pelo ar. Mas, sem ninguém para alterar seu destino, ela — e suas vísceras — cai sobre o piso de m adeira da sala, desliza, gira ao redor de si m esm a e finalm ente para debaixo da árvore de Natal. O presente do garoto para eles.

As pessoas, com o as casas, guardam seus segredos. Às vezes, os segredos as habitam ; outras vezes, são elas que habitam seus segredos. Elas os envolvem fortem ente com os braços para protegê-los, prendem a verdade na língua. Mas, após algum tem po, a verdade prevalece e se ergue acim a de tudo. Ela se torce e se retorce dentro das pessoas, cresce até que a língua, inchada, não sej a m ais capaz de segurá-la; então, chega o m om ento em que a pessoa precisa cuspir as palavras, arrem essar a verdade com força pelos ares e deixá-la se espatifar no m undo. A verdade e o tem po sem pre trabalham j untos.

Esta história é sobre pessoas, segredos e tem po. Sobre pessoas que, assim com o os em brulhos, guardam segredos, escondem -se sob várias cam adas, até encontrarem as pessoas que poderão desem brulhá-las e ver o que há dentro. Às vezes é preciso se entregar a alguém para perceber quem você realm ente é. Às vezes é preciso rem exer as coisas para chegar ao âm ago.

Esta é um a história sobre um a pessoa que descobre quem é. Sobre um a pessoa que é desem brulhada, e cuj o interior é revelado a todos que a estim am . E todos são revelados a ela. No m om ento certo.