Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas

Manuel Luiz Freire · Capítulo 1 de 46

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Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas

Parodia ao Primeiro Canto dos Lusiadas de Camões por Quatro Estudantes de Evora em 1589.

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PARODIA AO PRIMEIRO

 

CANTO DOS LUSIADAS DE

 

CAMÕES POR QUATRO

 

ESTUDANTES DE EVORA EM

 

1589.

 

LISBOA.

NA TYPOGRAPHIA DE G. M. MARTINS.

Rua do Ferregial de Baixo, 22.

1880.

As honras da parodia só ás obras do genio costumam conceder-

se. A divina Iliada foi parodiada em um poema heroi-comico tão antigo, que geralmente se attribue ao proprio Homero; ainda que

Suidas lhe dá por auctor a Pigres, irmão da Rainha Artemisa. N'esse poema, intitulado a Batrachomyomachia, a terrivel lucta dos Gregos

e Troianos é reproduzida no maravilhoso combate dos ratos e das rãs. Esta corôa burlesca ainda faltava ao rival de Homero, quando o

poeta Scarron primeiro marido da famigerada Marqueza de Maintenon, se lembrou de cantar:

 

…… cet homme pieux,

Qui vint chargé de tous se Dieux

Et de Monsieur son père Anchise,

Beau vieillard à la barbe grise, etc.

 

A grande obra do unico homem de genio que talvez tenha produzido a nossa terra, não podia isentar-se d'este fado inherente

ás grandes celebridades. Eram apenas passados dezoito annos depois da publicação dos Lusiadas—ainda a reputação de Camões

não estava consagrada pelos seculos, quando alguns homens engenhosos comprehenderam que aquella obra immortal era uma

d'aquellas a que a parodia era devida. O resultado de seus trabalhos não é de certo para comparar com nenhuma das

espirituosas producções que ficam mencionadas; mas ainda assim não é esta inteiramente destituida de merecimento. Francisco

Soares Toscano, bem conhecido dos litteratos pelo seu Parallelo de Principes, escreveu uma interessante noticia sobre esta obra, em

que nos conta o curioso modo por que ella foi composta. Quatro estudantes da Universidade d'Evora costumavam sair a passear, ás

tardes, aos arrabaldes da cidade, levando comsígo os Lusiadas. Chegados a um verde ferrageal, sentavam-se a uma fresca sombra, e se abria a sessão parodiadora. Assim como a engelhada e

disforme mascara de uma velha megéra cobre o rosto radiante de formosura de uma elegante Coquette, para mais fazer realçar seus

encantos, quando deixe cair aquelle hediondo disfarce; assim o immortal poema devia ser desfigurado por aquelles travessos

estudantes. Os Gamas, Castros e Albuquerques tinham de ceder seu logar aos Catigelas, Lunas e Barbanças, barões sem duvida tão

assignalados nos combates de Baccho como ess'outros nos de Marte.

 

Dois mezes durava aquella sessão extraordinaria; e já tão

continuados passeios davam que fallar aos estudantes e tambem dariam que entender á Santa Inquisição d'Evora, se aquella

sociedade secreta não fosse composta, como de facto o era, de quatro theologos, e tão orthodoxos, que um d'elles veio a ser

Inquisidor Geral. Mas por fim appareceu a mysteriosa obra dos quatro patuscos, como hoje lhe chamaria um academico, e não sei

se já então lhe chamavam. A este modo de composição de sociedade e ás muitas emendas que depois soffreu dos curiosos,

como adverte Toscano, se deve talvez a confusão do enredo d'este poema. Parece que seus collaboradores tinham principalmente em

vista inverter ao de-vinho cada verso que entrava em discussão, sem attender á coherencia do todo. É provavel que se propozessem

a celebrar os mais famosos bebedores Evorenses, aos quaes alludissem, e talvez nomeassem por seus proprios nomes ou

apellidos. Toscano, que os devia conhecer, assim o indica quando diz que tinha feito varias cotas a esta parodia para melhor se

entender. Com effeito na est. XXX se faz menção de um Pero Vaz, que provavelmente é o mesmo christão-novo, bebado perdido,

auctor do epigramma latino de que falla a noticia. Infelizmente para a historia da Borracheologia Lusitana, cotas e epigramma tudo se

perdeu.

 

Os collaboradores d'esta innocente profanação litteraria não são inteiramente desconhecidos. Manoel do Valle de Moura, natural de

Arrayolos no Alemtejo, doutorou-se em Theologia na Universidade d'Evora, e chegou a ser Arcebispo d'esta diocese e Inquisidor geral.

Contava vinte e cinco annos quando concorria para esta composição, e chegou a uma avançada idade. Além da obra De

Encantationibus et Ensalmis, de que falla Toscano, e outras de não menor utilidade, Barboza o faz auctor de uma Illustração á primeira

Ode de Camões. De certo não fez pouco Sua Rev.^{ma} se conseguiu lançar alguma luz sobre aquelle confuso ou estropeado

poema. Nem Bartholomeu Varella, nem o Licenciado Manoel Luiz, tiveram a honra de encher as columnas da Bibliotheca Lusitana;

mas João Baptista de Castro de ambos faz menção no seu Mappa de Portugal. Não é comtudo a Varella, como elle pensa, que cabem

os louvores que lhe dá por esta composição burlesca. Manoel Luiz Freire—que assim lhe chama um Padre Francisco da Cruz, citado

por Castro,—se deve ter como o principal e mais chistoso collaborador desta obra. As unicas noticias biographicas que d'elle

sabemos, são as apontadas por Toscano em sua noticia. O quarto dos theologos, e ao que parece o mais theologo de todos, foi o

pobre Luiz Mendes de Vasconcellos, cujo ronceiro estro só lhe pôde inspirar um unico verso. Não se confunda este obscuro individuo

com o auctor do Sitio de Lisboa e da Arte militar, supposto fossem contemporaneos. Um dedicou-se á Egreja, o outro ás armas.

 

Esta parodia chegou a alcançar certa celebridade, ainda que até

agora nunca fosse impressa. Eis-aqui o que d'ella diz Faria e Souza, fallando de outra de um soneto de Garcilasso, attribuida a Camões: «Lo que mi poeta hizo conquel soneto de Garcilasso, pasándose de

tanta gravedad a tanta picardia, hizo otro ingenio Portuguez con el canto 1.^o de su Lusiada, intitulándole Borrachera; porque celebra

en él á algunos aficionados del vino; y las mas de las otavas son bueltas á este proposito con gran felicidad.» E depois de dar como

amostra os quatros primeiros versos da 1.^a oitava, prosegue: «El canto 2.^o continuó (y no con menos felicidad) Antonio de

Magallanes y Menezes, señor de la Ponte da Barca, que este ano de 1645, aqui en Madrid, me referió algunas estancias. Yo, quando

en mi mocedad atendia á esto, bolvi tambien algunas, de que se me acuerdan los primeros quatro versos de la 90 del canto 5.^o, que

son:

 

Da boca de facundo capitão, &c.

 

y mi rebuelta dice deste modo:

 

Da boca do fecundo borrachão

Pendendo estavam todos bem bebidos,

Quando deu fim a grande inundação

Dos altos copos grandes e subidos!»

 

(Comment. ás Rim. Tom. 1.^o pag. 354).